Como
derrotar a “contrarrevolução na ordem” – e ir além
Mídias
corporativas, financistas e bilionários comemoram o que seria a “maior vitória
da direita desde a redemocratização”. A frase dissimula aquilo que consideram a
maior vitória pela des-democratização do país. É a isso que chamam o fim da
“Era PT”. O fim de uma democracia restringida e sabotada, mas que abriu margens
democráticas conquistadas por décadas de mobilizações populares, greves gerais,
protestos, assembleias, plenárias e marchas.
Comemoram
a possibilidade de eliminar essas margens institucionalizadas em obrigações
constitucionais que garantem condições mínimas para a existência de sistemas
públicos de saúde, educação, de políticas ativas de geração de emprego, renda e
alimentação digna, de instrumentos redistributivos de terra urbana e rural e de
reconhecimento e proteção de biomas e povos e comunidades tradicionais. Ainda
que tais políticas tenham sido fortemente mutiladas e sucateadas, basta que
existam para gerarem indefinições sobre taxas de retorno líquidas e certas.
O
contentamento é a possibilidade imediata de poderem ultrapassar e ignorar
solenemente qualquer piso civilizatório vinculado à Constituição de 1988. No
caso do orçamento público, não basta ao rentismo um piso inamovível para baixo;
o objetivo é o deslocamento sempre para cima. Neste momento, desvinculando e
desindexando os gastos sociais.
Jogar
ao mar a seguridade social não representa apenas novas oportunidades de
negócios, com redução dos custos e privatizações setoriais. Mais que isso,
significa erguer, sobre a pilha de destroços de conquistas sociais e direitos
coletivos, a almejada “ponte para o futuro” para a atuação incondicionada dos
grandes capitais. Equacionaria-se assim, em uma só tacada, a intermitência
entre dissoluções cada vez mais vastas e integrações cada vez mais residuais. É
um caminho que se abre em meio a gritos de dor de milhões — o que se ouve com
som de fundo é uma ordem autoexplicativa: “Aqui, tudo pode”. Um presente
perfeito para Trump e para a plutocracia global que ele vocaliza.
A
questão é o que poderá impedir, a partir do dia 25 de outubro de 2026 : (i)
novos dispositivos de autorregulação financeira, trabalhista e ambiental, (ii)
o engatilhamento de novas rodadas de contrarreformas privatistas, (iii) a
retomada de agendas antiambientais e anti-indígenas, (iv) a fixação de grandes
projetos de infraestrutura que reiteram a centralidade político-decisória do
agronegócio e da mineração.
Seguimos
imersos em um largo período de refluxo das lutas sociais e de derrotas não
restringidas ao campo institucional, mas na estrutura econômico-social, com o
avanço incondicionado dos oligopólios financeiros e processos de
dessocialização correspondentes, fortemente entrelaçados a ideários
punitivistas e a messianismos da riqueza.
Enquanto
isso, Penélopes eleitorais dedicam-se a tecer o tecido institucional, ponto
após ponto. E depois de novo. Em contraponto a esse tempo de espera e de
conformidade, nos termos da disjuntiva apresentada por Daniel Bensaid1, há o
tempo de Kairós, o tempo qualitativo que requer prontidão frente ao que bate à
porta ou ao que a arromba simplesmente. Conflagrada a partir do golpe de 2016,
oficializada entre 2018 e 2022 e estancada entre 2022 e 2026, põe-se em
movimento novamente uma contrarrevolução “dentro da ordem”, uma
contrarrevolução sem revolução. O que pode ser pior que isso?
Pior
que a barbárie é o silêncio diante dela, é a negação e a edulcoração dos
cenários, é proferir crenças abstratas em fórmulas como “Estado de Direito para
sempre”. A desistência nessa situação-limiar equivale à desaparição política.
Sobra o
último recurso da arte do contratempo, aquela que faz balançar automatismos
verbais e mentais, sem medo de decifrar enigmas, sem pretensões clarividentes.
Cadê a classe trabalhadora que estava aqui? Aquele povo brasileiro, para onde
foi? O que pode ser o Estado? Como ser menos Estado, menos “sistema”, menos
elite cultural descolada e passar a dialogar e compor maiorias?
É
preciso produzir uma contra-onda socializante, que redirecione os sentimentos
de vingança dos de baixo para os de cima dos de cima. Escrachos públicos e
simultâneos para sinalizar os inimigos e vampiros de última instância. Momentos
de irmanação nos territórios e periferias sob sacrifício que neutralizem
efeitos anestésicos da teologia da prosperidade. Essa é a campanha a fazer.
Da
parte de Lula, sob incessante demonização por tudo que representa, cabe se
desprender, se distanciar do ídolo, aprender a ser mais Mujica e menos Petro,
antecipar com quem e como vai governar, sem mais acordos obscuros com
potentados do Legislativo e do Judiciário. Chegada e partida são lados da mesma
viagem, diz a canção. Momento sucessório para se dimensionar o legado de
revoltas, lutas e vidas compartilhadas que escoram garantias legais e
constitucionais ainda vigentes. Momento de novos começos e novos encontros de
povo e nação em reinvenção. Votar e seguir lutando. Rendições nunca mais.
• Para onde irão os votos de Cury, Renan e
Caiado?
Com a
definição de que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL)
disputarão o segundo turno, em 25 de outubro, a expectativa agora é saber para
onde devem ir os outros cerca de 9,3 milhões de votos conquistados pelos demais
candidatos.
No
domingo (4/10), Flávio teve 47,03% dos votos válidos, ante 45,16% da
preferência do eleitorado por Lula. Foi o resultado mais apertado em um
primeiro turno desde desde a redemocratização, em 1989.
Na
chamada "terceira via", Augusto Cury (Avante) teve 2,89% dos votos
válidos, enquanto Renan Santos (Missão) somou 2,24% e Ronaldo Caiado (PSD),
2,18%.
Além
deles, também disputaram as eleições Romeu Zema (Novo, com 0,27% dos votos),
Samara Martins (UP, com 0,10%), Hertz Dias (PSTU, com 0,04%), Clariana Barão
(DC, com 0,03%), Edmilson Costa (PCB, com 0,02%), Rui Costa Pimenta (PCB, com
0,01%) e Wilson Grassi (Democrata, com 0,01%).
Somados,
os candidatos de terceira via tiveram 7,79% dos votos válidos, o menor
percentual desde 2006.
Na
segunda-feira (5/10), Zema declarou apoio a Flávio. "Não vou me omitir nem
ficar em cima do muro nesse momento tão importante. Voto contra o PT, voto no
Flávio Bolsonaro. O Brasil não aguenta mais quatro anos de Lula", declarou
em vídeo publicado nas redes sociais.
Caiado
anunciou na terça-feira (6/10) apoio a Flávio durante um evento com a presença
do candidato do PL, em Goiânia. "Eu estou aqui para fazer o que é a
coerência da minha vida, que é poder derrotar o PT em uma eleição. Tem 40 anos
que faço isso", disse Caiado.
Clariana
Barão declarou na quarta-feira (7/10) apoio ao candidato do PL. "Me
posicionar hoje ao lado do Flávio Bolsonaro diz sobre aquilo que eu acredito
para o país", afirmou.
Já Cury
e Renan Santos não declararam apoio a nenhum dos candidatos no segundo turno.
O
candidato do Missão disse em vídeo publicado no YouTube no próprio domingo
(4/10) que não pretende orientar seus eleitores a votar em nenhum dos dois
candidatos ou anular o voto.
"Façam
o que vocês quiserem. Não vou pedir para votarem nulo nem em fulano, porque não
faz diferença. Essa eleição é do Flávio Bolsonaro", afirmou Renan.
Cury,
por sua vez, publicou um vídeo em suas redes sociais em que se referiu aos
candidatos que foram para o segundo turno — Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) —, mas não declarou apoio a algum deles.
"Torço
para aqueles que foram para o segundo turno possam ser responsáveis
fiscalmente. Possam amar o Brasil e possam aproveitar os meus projetos",
disse o escritor.
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'Migração de votos favorece a oposição'
Para
Cila Schulman, cientista política e CEO do grupo Ideia, a transferência de
votos este ano tende a favorecer Flávio.
"O
mercado de votos para o Lula é muito restrito, porque ele está sozinho no campo
da esquerda, então ele não tem como abarcar votos de um Ciro [Gomes], de uma
Simone [Tebet] ou de uma Marina [Silva] como ele teve em outras eleições",
disse Schulman, em entrevista à BBC News Brasil, dias antes do primeiro turno.
"Então,
quem aprova o governo e quem está no campo da esquerda ou quem é
antibolsonarista já não está votando nele. Onde o Lula pode crescer? Ele ainda
tem uma margem entre quem aprova o governo dele, mas não está declarando
intenção de voto nele."
Assim,
na visão de Schulman, a migração de votos entre o primeiro e segundo turno
tende a favorecer a oposição a Lula. "Esse fluxo migratório é mais
favorável à oposição, justamente porque tem muitos candidatos assim. Quem vota
no Renan, no Zema, no Caiado é quem não aprova o governo."
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O que indicavam as últimas pesquisas antes do 1º turno
As
últimas pesquisas eleitorais divulgadas antes do primeiro turno corroboram a
avaliação da cientista política do grupo Idea.
A
pesquisa Quaest divulgada no sábado (3/10), por exemplo, mostra que, no segundo
turno, Flávio receberia a maior parte das intenções de voto de Augusto Cury,
Renan Santos e Ronaldo Caiado, segundo o portal G1.
Veja os
percentuais destinados a Flávio e Lula em cada grupo:
• Eleitores de Cury: 34% escolhem Flávio e
23%, Lula;
• Eleitores de Renan: 60% escolhem Flávio
e 11%, Lula;
• Eleitores de Caiado: 43% escolhem Flávio
e 19%, Lula.
A
porcentagem de transferências para votos brancos, nulos ou até para o não
comparecimento às urnas também é expressiva: entre os eleitores de Cury, seriam
41%; entre os de Renan, 27%; e entre os de Caiado, 36%.
Os
eleitores desses três candidatos que ainda estavam indecisos no caso de um
segundo turno somavam 2%.
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O que aconteceu em 2022
Nas
eleições presidenciais de 2022, apesar de ter obtido apoios políticos
importantes e liderado uma frente ampla de partidos, Lula se beneficiou menos
do que seu então rival, Jair Bolsonaro (PL), da transferência de votos da
chamada terceira via no segundo turno das eleições.
No
primeiro turno de 2022, cerca de 10 milhões de eleitores votaram em um
candidato que não era Lula nem Bolsonaro. No segundo turno, 7 milhões foram
para Bolsonaro, e 3 milhões, para Lula.
Naquele
ano, a maior parte dos votos da terceira via foram de Simone Tebet (MDB) e Ciro
Gomes (PDT), que receberam 8,5 milhões de votos. A candidata do MDB recebeu 4,9
milhões de votos, enquanto o presidenciável do PDT recebeu 3,6 milhões.
Tebet
pulou no barco petista logo após o primeiro turno e fez campanha para Lula, de
quem posteriormente seria ministra do Planejamento. Já Ciro deixou explícita
suas reservas em relação a Lula e afirmou que apenas seguia as orientações do
seu partido, que havia fechado com o PT.
Nesse
cenário, as pesquisas de intenção de voto às vésperas do segundo turno de 2022
sugeriam que Lula seria o principal herdeiro dos votos de Tebet e Ciro.
Segundo
pesquisa Datafolha de 27 de outubro de 2022, 45% dos eleitores de Tebet diziam
que votariam em Lula, enquanto 23% declaravam que votariam em Bolsonaro. Os
percentuais relativos aos eleitores de Ciro eram 45% para Lula e 26% para
Bolsonaro.
Já
segundo a pesquisa do instituto Atlas feita em 25 de outubro, quase 70% dos
eleitores de Tebet diziam que votariam em Lula, contra apenas 18% para
Bolsonaro. O mesmo levantamento indicava que Lula receberia cerca de metade dos
votos de Ciro, enquanto Bolsonaro receberia cerca de 40%.
Nas
urnas, porém, o desempenho do petista ficou aquém das expectativas, enquanto a
migração de votos para Bolsonaro foi maior.
A
votação de Lula teve um aumento de pouco mais de 3 milhões de votos entre o
primeiro e o segundo turno, passando de 57,2 milhões para 60,3 milhões de
votos. Já Bolsonaro teve um incremento de mais de 7 milhões, passando de 51
milhões para 58,2 milhões.
Ainda
assim, mesmo desfavorecido nas transferências de voto da terceira via, Lula foi
eleito presidente, ainda que por uma margem bastante apertada, de 2,1 milhões
de votos.
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Campanha de 2º turno
A
campanha de segundo turno começou na segunda-feira (5/10) e deve se estender
até a véspera da nova votação, marcada para 25 de outubro.
A nova
fase deve ser marcada pelos primeiros debates cara a cara entre Flávio e Lula,
já que eles não compareceram a nenhum confronto antes do primeiro turno.
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Calendário previsto para os debates do segundo turno:
• 11 de outubro (21h): TV Record
• 18 de outubro (20h): Grupo Bandeirantes
(com pool de veículos incluindo as TVs Gazeta, Cultura e Jovem Pan, além do
jornal Estadão)
• 23 de outubro: Rede Globo
Na
primeira rodada da eleição, Lula teve mais tempo de televisão e rádio, porque
sua coalizão (formada por PT, PSB, PDT, PCdoB, PV, PSOL e Rede) tem maior
número de deputados federais eleitos.
Já no
segundo turno, os dois candidatos terão tempo igual para fazer campanha no
rádio e na TV.
Fonte:
Por Luís Fernando Novoa Garzón, em Outras Palavras/BBC News Brasil

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