Juro
cumprir a Constituição que pretendo mudar?
Pode
ter sido um arroubo diante do resultado do primeiro turno e da ampliação da
bancada da extrema-direita no Congresso, mas não deixa de ser muito
interessante saber que Flávio Bolsonaro, talvez já se considerando eleito, quer
mudar a Constituição da República, sob o argumento de que o Brasil não vive uma
democracia plena.
Inicialmente
ele não deu qualquer detalhe sobre o que, exatamente, pretenderia mudar.
Depois, falou vagamente em PECs – propostas de emenda à Constituição –
vinculadas à reeleição, ao tamanho do mandato, à reforma do Judiciário, à
legislação penal – que, naturalmente, deveria ser ainda mais dura.
Que o
Brasil não vive uma democracia plena é verdade, mas não, de modo geral, pelo
que a Constituição determina, muito pelo contrário: porque tantas vezes o
direito assegurado no papel não se torna realidade. E, pensando bem, alterar o
famoso Art. 142, tantas vezes invocado como possibilidade de “intervenção
militar constitucional” durante o movimento que culminou na arruaça golpista de
8 de janeiro de 2023, seria mesmo muito salutar. Mas não é bem isso que está
nos planos do candidato.
B-01 é
o primogênito do presidente hoje preso por tentar esse golpe.
Golpes
costumam ser dados em nome da democracia, quando são o contrário disso.
Golpes
não alteram: rasgam a Constituição.
Há quem
diga que, caso eleito o filho, quem governará será o pai, anistiado ou, de
alguma forma, libertado da cadeia.
Não:
ambos serão fantoches de Trump.
Como
escrevi no mês passado, com base na análise do jornalista Bob Fernandes,
“Flávio Bolsonaro já chegaria ao poder como refém dos EUA. Basicamente porque
‘as agências de inteligência de regulação dos Estados Unidos já sabem dos
trajetos e destinos dos 12,3 milhões de dólares’ recebidos para supostamente
financiarem o tal filme [Dark Horse, sobre a trajetória de Jair Bolsonaro, que
seria utilizado como peça de campanha se o escândalo do Banco Master não
tivesse estourado]. Mas essa avenida de subserviência foi aberta bem antes, com
os pedidos de sanções contra o governo brasileiro, que não se limitam aos
tarifaços ou à Lei Magnitsky, mas permitem ação militar no caso de combate a
‘organizações terroristas’, como foram classificados o PCC e o Comando Vermelho.
Na carta enviada em 2 de junho deste ano ao secretário de Estado dos EUA, Marco
Rubio, Flávio Bolsonaro elogia a medida e lhe põe à disposição sua equipe de
transição, na hipótese de vitória.”
Ao
tomarem posse, o presidente da República e seu vice prestam o juramento de
“manter, defender e cumprir a Constituição, observar as leis, promover o bem
geral do povo brasileiro, sustentar a união, a integridade e a independência do
Brasil”.
Seria
um bom exercício de imaginação pensar em como seria se – Nossa Senhora
Aparecida nos proteja – o mentiroso contumaz envolvido no esquema das
rachadinhas, da fantástica loja de chocolates, da família que comprava imóveis
em dinheiro vivo, defensor de milicianos, irmãozão do banqueiro corrupto e hoje
aparentemente arrependido frequentador das orgias que esse banqueiro promovia,
o candidato que promete um “tesouraço” à moda Milei e tantas outras medidas
ruinosas para o comum das pessoas e para a soberania nacional, seria um bom
exercício de imaginação pensar em como seria o juramento desse candidato uma
vez vitorioso, no dia da posse.
“Prometo
manter, defender e cumprir a Constituição que pretendo alterar, porque fui
eleito pelas regras de um jogo que pretendo subverter e agora tenho maioria no
Congresso para isso, portanto, como diria papai, acabou, porra?”
Bendito
arroubo – se é que foi isso mesmo – pós-vitória parcial no primeiro turno.
Assim temos mais um elemento para demonstrar a necessidade de barrar essa
candidatura, porque a catástrofe anunciada em caso de vitória é ainda maior do
que se pensava.
Fonte:
Por Sylvia Debossan Moretzsohn, no Substack

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