sexta-feira, 9 de outubro de 2026

ECONOMIA E MEIO AMBIENTE: Floresta no chão, dinheiro pelo ralo

Uma família pode viver a milhares de quilômetros da Amazônia e pagar parte da conta de sua destruição. Isso acontece porque o custo aparece quando a perda de floresta compromete a geração de energia, prejudica a produção agrícola e acrescenta despesas à economia. As decisões sobre o uso da terra, embora frequentemente discutidas como assuntos restritos ao campo socioambiental, também interferem diretamente nas vivências cotidianas, seja no campo ou na cidade.

Recompor a cobertura florestal da Amazônia perdida desde 1985 poderia gerar benefícios de até US$ 920 milhões por ano para os consumidores brasileiros de eletricidade. Essa estimativa, apresentada em 2026 por pesquisadores da Rede de Pesquisa em Produtividade & Sustentabilidade (Rede PP&S), considera famílias, comércio e indústria.

Ao relacionar desmatamento, chuvas, geração de energia e preços, o estudo identifica uma despesa que costuma escapar à discussão sobre o custo de vida. Isto é, parte do que se paga pela eletricidade depende das condições ambientais de territórios distantes dos centros de consumo. Nesse sentido, a conservação desses lugares tem, portanto, consequências econômicas para quem nunca visitou a Amazônia e talvez conheça pouco sobre as populações que vivem nela.

O mecanismo começa na circulação da água, aqui simplificada pelo seguinte ciclo: vegetação libera umidade para a atmosfera, transportada pelos ventos para regiões onde abastece rios, reservatórios e lavouras; nesse cenário, a perda de cobertura florestal impactaria diretamente no ciclo de chuvas, afinal, à medida que se perde vegetação, altera-se o volume de umidade, desregulando-se, assim, as chuvas e impactando todo o resto, por consequência.

Uma pesquisa publicada na Nature Communications em 2025, com dados de 29 áreas da Amazônia Legal entre 1985 e 2020, atribuiu ao desmatamento aproximadamente 74% da redução das chuvas na estação seca observada nas áreas estudadas. Para o sistema elétrico, menos água pode significar maior necessidade de recorrer a termelétricas e aumento dos custos de geração. Os efeitos econômicos são distintos; na simulação da Rede PP&S, os consumidores perdem com preços maiores, enquanto geradores térmicos podem se beneficiar do aumento de suas vendas.

Na agricultura, a relação entre abertura de terras e geração de riqueza também encontra limites na disponibilidade de chuva. Outro estudo, publicado na mesma revista em 2021, comparou cenários até 2050 e calculou que reduzir o desmatamento poderia evitar perdas agrícolas equivalentes a até US$ 1 bilhão por ano no sul da Amazônia brasileira.

A análise considerou os efeitos sobre a produtividade da soja e das pastagens, apontando que a expansão da área cultivada pode ser acompanhada pela deterioração das condições necessárias para produzir. Para o consumidor, perdas de safra e custos adicionais de produção representam uma fonte de pressão sobre os preços. Sua intensidade varia conforme o produto, o mercado e outros fatores, como câmbio, combustíveis e exportações.

Atualmente, consolidou-se que uma parcela relevante da vegetação nativa, que participa tanto da equação dos preços do consumo de energia quanto do preço de itens de alimentação, está em terras indígenas. Segundo a Coleção 10 do MapBiomas, esses territórios ocupam 13% do Brasil e concentravam, em 2024, 20% de toda a vegetação nativa do país.

Dentro de seus limites, a cobertura nativa correspondia a 99% da área. Estes números dão dimensão nacional a um trabalho realizado localmente, por meio de conhecimentos, práticas de manejo e formas de organização territorial. A contribuição de ribeirinhos, quilombolas, extrativistas e outras comunidades tradicionais ocorre em diferentes biomas e sob condições próprias. A manutenção da vegetação nesses espaços produz benefícios que alcançam outros setores e regiões, embora esse trabalho raramente seja associado, no debate cotidiano, à produção de alimentos ou ao funcionamento das hidrelétricas.

As comunidades possuem suas próprias instituições e maneiras de decidir sobre o território. Destaca-se como exemplo, entre os povos indígenas, os Instrumentos de Gestão Ambiental e Territorial de Terras Indígenas, conhecidos como IGATIs, que registram processos coletivos de identificação de necessidades e definição de prioridades para proteção, conservação e uso dos recursos.

Sua elaboração envolve escolhas sobre produção, recuperação ambiental e continuidade dos modos de vida. Essa autonomia precisa ser considerada no desenho das políticas públicas, inclusive das iniciativas de conservação. Pesquisas sobre parques nacionais brasileiros documentam situações em que medidas de proteção ambiental resultaram na retirada de comunidades de seus territórios. A experiência mostra a importância de assegurar sua participação desde a definição dos objetivos até a execução das ações.

A execução dos planos de gestão exige recursos para transporte, equipamentos, vigilância territorial e prevenção de incêndios. A continuidade desse financiamento permite sustentar um trabalho cujos benefícios alcançam uma sociedade muito mais ampla do que o conjunto de pessoas que o realiza.

O desempenho das instituições públicas também faz parte dessa conta, como se pode analisar em retrospecto ao histórico recente das políticas no campo socioambiental brasileiro. Durante o governo Jair Bolsonaro, a alta do desmatamento, que vinha de anos anteriores, se acentuou. A taxa do Prodes (Monitoramento do Desmatamento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), chegou a 13.038 km² desmatados na Amazônia Legal em 2021, 73% acima de 2018.

Em auditoria divulgada naquele ano, o Tribunal de Contas da União identificou redução da capacidade de fiscalização do Ibama, diminuição da aplicação de sanções e manifestações de autoridades do alto escalão que desqualificavam a atuação dos órgãos ambientais. Os registros ajudam a compreender as condições institucionais em que ocorreu o avanço das derrubadas. A série passou posteriormente a apresentar queda, veja-se: em 2025, durante o governo Lula, a taxa consolidada foi de 5.731 km². 

Os benefícios econômicos da floresta dependem, portanto, também da capacidade de sustentar essa redução ao longo do tempo. Boa parte do valor econômico da conservação aparece nas despesas que ela ajuda a evitar, o que torna menos visível o trabalho necessário para manter uma floresta, enquanto os custos de sua destruição se espalham pela produção, pelo abastecimento e pelo consumo. 

Financiar a gestão dos territórios, assegurar direitos às comunidades e manter instituições capazes de fiscalizar são decisões que participam da formação desses custos. A responsabilidade é compartilhada, com atribuições distintas para governos, empresas e sociedade. Para as famílias, interessa o resultado acumulado dessas escolhas, a possibilidade de produzir alimentos e energia com menor exposição à perda de chuvas e de produtividade. Uma parcela do dinheiro que o brasileiro tenta economizar no fim do mês depende, então, da continuidade de um trabalho realizado muito longe de sua casa.

•        O quinto cavaleiro do apocalipse. Por Roberto de Campos Giordano

Em uma troca de mensagens ocorrida em 05 de outubro de 2026, dentro de um grupo WhatsApp de colegas professores da UFSCar, escrevi algo que me instigou a fazer este texto, com todo senso de urgência possível. Era como: “a vitória de Flávio Bolsonaro não significa apenas a destruição de nossa carreira, da universidade, da ciência no Brasil. É muito mais que isso. Será ‘O’ tipping point (ponto de não retorno) do planeta Terra e de nossa civilização tal como a conhecemos”.

Eu mesmo não me havia dado conta até este instante da enorme importância de trazer essa questão ao centro do debate eleitoral. Mais que a ameaça de uma ditadura, de um estado teocrático monárquico. Mais que a destruição dos programas sociais, da soberania nacional, do SUS, do ensino público, mais que a entrega das terras raras, e muitos etc., temos uma sombra gigantesca nos ameaçando. Assustadora, de consequências inimagináveis. Porque Flávio Bolsonaro é o quinto cavaleiro do apocalipse: além da guerra, fome, morte e do anticristo temos agora o ecocídio.

Desculpem abandonar o rigor científico, citarei apenas alguns dados sem trazer as fontes – de resto facilmente verificáveis em qualquer programa de Inteligência artificial, que pode listar a bibliografia usada. Mas a urgência da vida real se impõe. Porque espero que esta modesta contribuição talvez chegue à coordenação da campanha e ao próprio presidente Lula.

É preciso levar ao povo a informação da tragédia planetária que nos espera caso aconteça o pior. Porque no afã de esclarecer à população dos perigos que a ameaçam, acho que talvez a questão mais importante para convencer indecisos, que se abstiveram no primeiro turno, não está recebendo a devida atenção. Precisamos divulgar nas redes e nas ruas: eleger Flávio Bolsonaro teria consequências inimagináveis e irreversíveis para toda humanidade. Alguns fatos objetivos:

(i) O desmatamento da Amazônia, segundo o PRODES/INPE, cresceu de 9.762 quilômetros quadrados em 2019 para 11.594 em 2022. No governo Lula, foi reduzido para 5.731 em 2025, com compromisso de desmatamento zero em 2030. (ii) A consolidação de modelos indica que o ponto de não retorno para a savanização da floresta está entre 20 e 25% de desmatamento. Hoje a estimativa está entre 17 e 21% já desmatados.

(iii) A estimativa mais frequente da área original da Amazônia brasileira é de 4 milhões de km2. Se for retomado um ritmo médio de desmatamento a partir de 2027 igual a 11.500 km2/ano, o limiar de não retorno (assumindo que seja 20% da área original) seria atingido em 2035. Isso sem levar em conta a sinergia com os demais efeitos da crise climática, como o agravamento dos efeitos do super El Niño, por exemplo. E é claro que esta é uma hipótese otimista, conhecendo a história daquele grupo nefasto genocida que já nos governou.

(iv) A estrutura do Ministério do Meio Ambiente e do Clima havia sido completamente desmontada; o quadro de servidores do Ibama foi aumentado, durante o governo Lula, em mais de 20% (até 2865 servidores em 2025), depois da política de terra arrasada (literalmente) do Bolsonaro pai.

(v) Não há dados consolidados de garimpos clandestinos eliminados na gestão Bolsonaro. A área média desmatada por garimpo nas terras indígenas foi de 4000 ha/ano no governo ecocida, contra 2100 ha/ano com Lula, que destruiu 948 acampamentos de garimpeiros nessas áreas. O “acaso” de não haver um número consolidado de acampamentos destruídos na gestão anterior certamente não é um acaso.

(vi) Especificamente os Yanomani, cujas imagens terríveis de fome e abandono correram o mundo durante o governo do pai da besta do apocalipse, tiveram melhoria significativa na sua situação. Queda drástica da mortalidade por desnutrição, nenhum registro de morte por malária no primeiro semestre de 2026. Os profissionais de saúde nessa reserva indígena aumentaram de 690 em 2023 para mais de 2100 hoje, com os médicos passando de 6 para 63.

Sobre o combate ao garimpo e a construção do Ministério dos Povos Indígenas após a posse de Lula, vale recomendar aqui o excelente documentário YANUNI – No coração da batalha pela Amazônia. É angustiante imaginar como os povos originários e seus aliados diretos nessa batalha estão se sentindo neste instante.

A destruição da Amazônia a está transformando de sorvedouro em fonte de carbono. Com isso, serão extintos os “rios voadores”. Esses “rios” transportam pela atmosfera a água que a presença da massa vegetal permite retirar do Oceano Atlântico, aumentando ainda a umidade nesses fluxos atmosféricos através da evapotranspiração da própria floresta. Essas correntes aéreas úmidas rebatem nos Andes e descem para o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. A consequência inevitável do desaparecimento da mata será a desertificação, a destruição do patrimônio dos próprios latifundiários (“agronegócio”, como se intitulam hoje) que financiam o cavaleiro do ecocídio.

Eleger o cavaleiro do apocalipse significa “passar novamente a boiada”. Quem sabe trazer de volta Ricardo Salles para tomar conta disso? E de quebra teremos novamente o garimpo e genocídio indígena. Porteira aberta para o Armagedom. Parafraseando Davi Kopenawa, o céu vai cair sobre nós, o “povo da mercadoria”. Porque aquela figura, desprezível sob todos aspectos, filho do genocida, não hesitará um segundo em seguir essa trilha.

A história do Brasil (e por consequência, da humanidade) se torna em uma tragédia grega, onde os próprios protagonistas constroem sua desgraça. Os especuladores farialimers se regozijam hoje, a bolsa tem alta inédita. Todos felizes, parecem bactérias devorando um substrato que se esgota, deixando a própria morte dessas criaturas como herança. E a nossa também, Cassandras clamando em vão…

Por isso me desespero. Por isso peço encarecidamente que esta mensagem chegue ao presidente Lula. Coloque o fim do mundo no centro do debate, principalmente nas redes, para chegar à juventude cujo futuro estará sendo roubado. Quero que meus netos ainda tenham um planeta habitável para viver. Eleger Flávio Bolsonaro será o fim dos tempos. Eles não podem passar.

 

Fonte: Por Marcello Amorim Vieira, em Le Monde/A Terra é Redonda

 

Nenhum comentário: