Eleições
2026, primeiros resultados: tentativa de análise em cinco teses
Não estava gritando
com você, Tish.
Eu sei.
Não chora, por favor, […] é ruim para o bebê.
Me dá um sorriso, Tish.
Assim está bem […] Me dá um beijo.
Beijei o vidro. Ele
beijou o vidro.
Ah, querida [Tish],
me tira daqui [dessa prisão]
Vou tirar. Aguenta mais um pouco. [Vou] te tirar, prometo […]
James
Baldwin, Se a Rua Beale Falasse
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As
eleições de 2026 apresentaram parcialmente seus resultados na noite do último
domingo. As duas casas legislativas, Câmara e Senado, já têm seus nomes
definidos; em alguns estados os governadores estão escolhidos, é o caso de São
Paulo, com o Rio de Janeiro tendo que adiar o resultado para um 2º Turno1; e na Presidência da
República a competição final foi adiada para o dia 25 de outubro. Qual o quadro
geral que se apresenta? Quais as nuances no interior dele? O que esperar do
Segundo Turno para a disputa presidencial, a partir dos números do Primeiro? O
que Lula, o PT, nós verdadeiramente de esquerda, podem(os) fazer no Segundo
Turno em desvantagem diante de Flávio Bolsonaro e a direita intransigente?
Proponho no que segue cinco teses de caracterização. Serão tentativas apenas,
no intuito de se aproximar de respostas a essas indagações.
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Tese um.
O
quadro geral depois de 4 de outubro configurou ao menos três situações.
1)
Alguns foram tomados de surpresa com a vitória de Flávio Bolsonaro obtendo 47%
dos votos; Lula conseguiu 45%, e na parte final de apuração das urnas. A Quaest
e seu pesquisador-sênior, o cientista político Felipe Nunes, já apontavam que
poderia ocorrer da candidatura bolsonarista superar a do petista – com o
eventual deslocamento das quatro candidaturas de direita para ela (o assim
chamado voto útil, de última hora). Com efeito, e de fato, foi uma derrota
dura para a esquerda da “ordem”. O que, por conseguinte, lança o filho mais
velho de Jair Bolsonaro com vantagem para vencer o pleito daqui a vinte dias.
Lula e os organizadores de campanha terão de conquistar a princípio ao menos 3%
dos votos; além disso, terá de no mínimo neutralizar a transferência de
eleitores de Ronaldo Caiado, Augusto Cury, Zema e Renan Santos para Flávio
Bolsonaro. E conquistar os 20 milhões, de acordo com Lula no discurso após o
fim da apuração no domingo à noite, de indecisos. O cenário é brutalmente
nefasto.
2) O
quadro geral se agrava, drástica e atrozmente, da perspectiva da esquerda, na
medida em que no principal Estado da federação, São Paulo, Fernando Haddad, foi
esmagado por Tarcísio de Freitas: aqui o escrutínio decidiu-se no 1º
Turno. Não podemos nos eximir no futuro próximo – esse é o comentário de Pedro
Alcântara, militante radical da esquerda do PT, em entrevista no Programa
Manhã Brasil/Canal Jones Manoel de 05/10/2026 – de entendermos que os
arranjos do PT “liberal” paulista que circunda em torno de Haddad fracassou,
absolutamente. E mais: ainda será necessário avaliar, orientado pela crítica
radical, quais as responsabilidades de Fernando Haddad nos insucessos de Lula e
do conjunto do PT, uma vez que ele foi o político mais importante do Terceiro
Mandado de Lula, sendo o Ministro da Fazenda e “decidindo” os
destinos materiais da nação, do povo, com uma série de medidas anticlasse
trabalhadora – exceção à medida de isenção do Imposto de Renda para quem ganha
até cinco mil reais. Bem como dele enquanto intelectual-político (verdade seja
dita, ele revolucionou a educação superior com a introdução do Enem, permitindo
com que a paisagem de classe, de raça e de gênero das universidades públicas
brasileiras mudasse radical e estruturalmente, trazendo descontentamento para setores
brancos idiotizadas do mundo campi, inclusive de esquerda, a isso Haddad
merece o total elogio, reconhecimento, e guarda seu nome na história ao menos
da educação brasileira), que perdeu uma eleição para a prefeitura de São Paulo,
para um iniciante João Doria, que circulava pela noite paulistana de camisa
social com gola estruturada, terno provavelmente Ricardo Almeida e tênis
branco sem meia, no 1º Turno em 2016, dentre outras derrotas.
3) No
Senado, a direita devastou a esquerda sob qualquer ângulo de análise, e coloca
os ministros do STF, os que são desafetos dos conservadores extremistas
(Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes à frente), em risco real. Em síntese: o
projeto da elite e da burguesia branca dominante de intensificação do regime de
acumulação de capital com vistas à recomposição da taxa de lucro (custe o que
custar), e o artigo do cineasta João Moreira Salles sobre quem se reunia em
jantares com Flávio Bolsonaro não deixa dúvidas, segue ainda vigoroso e
extensivo. Não se pode perder do horizonte que nosso capitalismo de
“cangaço”2 (Rodrigo Nunes e
Paulo Arantes) segue adequando as instituições políticas da democracia a seus
interesses a contento. E os que irão sofrer serão, principalmente, mas não só
por óbvio, os/as de pele preta, infelizmente, como sempre.
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Tese Dois
Qual
foi, ou quais foram, o erro de Lula, do PT e da esquerda da “ordem” nesta
eleição, até o momento, e que poderá se refletir no 2º Turno para a
presidência?
Dado
que outras análises de médio prazo já fizeram o diagnóstico de que no geral a
falta de medidas econômicas e sociais que impactasse não só a vida concreta dos
de baixo, mas a estrutura de sentimentos da sociedade (Raymond Williams), me
detenho aqui no registro do ad hoc, no âmbito da tática eleitoral frente a
direita intransigente.
Não
precisamos ser ingênuos; claro está que a esquerda radical tem seus erros, que
são crassos e muitos (já escrevi sobre isso em outra ocasião), além de
irresponsáveis… Contudo, e neste aspecto a dialética básica, rudimentar mesmo,
tosca até, funciona, pois a direita possuía mais de uma candidatura (de
passagem, cabe dizer, que é necessário passarmos seriamente a entender a
direita para além do bolsonarismo, que no atual momento histórico, Katechons
contrarrevolucionárias são forjadas em quantidades satisfatórias) e,
tendencialmente, convergem para um único punho-de-aço para combater os de baixo
e seus representantes. Dessa forma, teria sido mais do que recomendável que se
travasse diálogos, conversas e propostas de organização de outra (outras se
fosse possível…) candidatura de esquerda, de tal modo a não só desgastar nas
disputas do dia-a-dia da campanha eleitoral as candidaturas de direita, mas de
abrir espaço para a reabsorção, ou mesmo o voto útil no 1º Turno, desses votos
em uma eventual segunda rodada de competição.
É certo
que hoje sabemos disso e, portanto, não escapamos de sermos engenheiros de obra
pronta – entretanto, não nos isenta, ou não isenta a esquerda da “ordem” de ter
cometido erro tão fatal. O desprezo ingênuo à força relativa; uma força de
ânimo, de temperamento, de esperança e sonho, e também, concreto e de
compreensão teórica que eles possuem do país e da política, da esquerda radical
e revolucionário, é algo equivocado para dizer o mínimo, para não falar de uma
análise tola e estupidamente elitista. E que está nos custando caro, agora.
Pois de onde estabelecer a “transferência” de votos para Lula e o PT? Os
eleitores de Caiado, Zema e Santos, em tese, não terão nenhuma dúvida em quem
irão votar…
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Tese três
E na
câmara dos Deputados Federais? Adianto que não tenho condições de analisar os
números com precisão para examinar o sentido geral dos resultados eleitorais,
me detenho em um ponto de vista apenas. Assim: Erika Hilton (PSOL) 6,73%
[1.596.472], Sâmia Bomfim (PSOL) 2,46% [583.107], Fernanda Melchionna (PSOL)
4,59% [280.262], Guilherme Cortez (PSOL) 1,16% [275.450], Professora Luciene
Cavalcante (PSOL) 1,07% [253.778], Jones Manoel (PSOL) 4,73% [249.077], Duda
Salabert (PSOL) 2,00% [229.535], Fábio Felix (PSOL) 13,41% [224.224], Rick
Azevedo (PSOL) 2,16% [191.371], Talíria Petrone (PSOL) 1,38% [122.500], Natália
Boulos (PSOL) 0,48% [114.552], Glauber Braga (PSOL) 0,97% [86.314], Pastor
Henrique Vieira (PSOL) 0,88% [77.584], Sônia Guajajara (PSOL) 0,23% [54.207],
Ana Elisa (PT) 4,57% [524.219], Renato Freitas (PT) 1,84% [115.227], Elias
Jabbour (PCDOB) 1,17% [103.219].
Definitivamente:
houve e há um ganho qualitativo considerável. Isto porque nomes
expressivos da esquerda radical conseguiram se reeleger, e a eles e elas vieram
compor uma nova geração de políticos, teóricos e intelectuais de esquerda com
consistentes tendências antissistema. Neste sentido preciso, a esquerda saiu
“vitoriosa”: é um dado objetivo e subjetivo que emergiu dessa eleição. Por
exemplo, a única bandeira concreta de mobilização que temos até o momento para
enfrentar Flávio Bolsonaro e o conjunto da direita, o fim da escala 6 por 1,
foi conformada, defendida e levada à frente, predominantemente, por esse grupo
agora reeleito e eleito. Não podemos perder isso de vista.
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Tese quatro
As
eleições de domingo 04/10 demonstraram duas circunstâncias. Por um lado, que o
campo da disputa eleitoral, e é urgente que isso seja sedimentado novamente em
nós, não é um espaço político favorável para o conjunto da esquerda. O fato de
o PT e Lula terem governado o país em quatro ocasiões (2002-2006, 2006-2010,
2010-2014, 2022-2026) não desfaz a verdade de que a competição schumpeteriana
pelo voto, sobretudo na era das redes sociais, do personalismo potencializado
pela técnica (berlusconização da política como afirma Perry Anderson), da
exploração da cultura da celebridade e da gestão estatal do neoliberalismo não
beneficia aqueles e aquelas que lutam por uma sociedade justa e igualitária,
isso significa que a eventual derrota pode com todas as debilidades advindas
com ela, e são muitas (não somos Polianas da vez) conduzir a esquerda em geral
e a radical para outras instâncias da ação política. Pode ainda revigorá-la
(reorganizando as fileiras, organizando nosso ódio, soerguendo a subjetividade
dos trabalhadores que irão enfrentar as medidas do Ajuste Fiscal Fascista
dos Bolsonaros, elaborando táticas coletivas novas, adensando a construção
partidária pela base etc).
Por
outro lado, não podemos ser domesticados pela mídia corporativa, os
capitalistas da comunicação, que buscam, sistematicamente, disseminar a
percepção de uma derrota totalmente avassaladora, em especial para contenda
presidencial, como se os 47% de Flávio Bolsonaro eliminasse os 45% de Lula.
Ora, em uma eventual derrota teremos metade do país ao nosso lado, indignado,
insatisfeito, com sentimento verdadeiro de mudança, e em alguns casos prontos
para o combate de classes; ademais, e nisso o tirocínio lulista é ciente de si
e da situação ao qual se encontra. Há ao menos vinte milhões de votos para
serem disputados – no corpo-a-corpo, nas ruas, nas redes sociais, nos bairros
mais pobres, com os idosos ausentes no 1º Turno etc. Se os votos em Ronaldo
Caiado, Romeu Zema, Renan Santo e Augusto Cury serão, inevitavelmente,
transferidos para Flávio Bolsonaro: temos, é preciso insistir, vinte milhões de
votos para que Lula consiga vencer o 2º Turno.
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Tese cinco
Por
fim, se estamos a enfrentar o fascismo, exige-se coerência tática.
Ora, é o momento derradeiro daquilo que na teórica socialista clássica ficou
conhecido como frente única. Ao lado da frente ampla, é urgente
construir uma unidade de ação com a esquerda radical e revolucionária, e
sua capacidade de agitação, disposição para a luta político-social e anseio de
mudança. É de responsabilidade do Partido dos Trabalhadores e dos que defendem
a “democracia” (intelectuais, formadores de opinião, mídia segmentada,
universidade, sindicados, movimentos sociais) mover esforços de diálogo,
conversação franca e realística e abertura de espírito – na base de
compromissos, evidentemente – com as jovens organizações da esquerda radical,
de tal modo que esses atuem, via os aparelhos que possuem, seus partidos,
sindicatos que dirigem, coletivos de juventude, DCE’s, na concretude cotidiana
desses quinze dias, objetivando o vinte milhões de eleitores e eleitoras que ou
votaram nulo ou votaram em branco.
Nos
dias que antecederam seu assassinato pelo governo socialdemocrata de
Ebert-Noske-Scheidemann, que utilizaram os Freikorps, as tropas
paramilitares instrumentalizadas pela burguesia alemã e que germinaram a SA
nazista (grupos de assalto e extermínio físico de comunistas, trabalhadores,
judeus, não-brancos, não alemães) anos depois, Rosa Luxemburgo escreveu um dos
mais belos textos da história intelectual da esquerda e do socialismo, A
Ordem Reina em Berlim. O que ela diz ali? Dentre outras considerações, Rosa
afirma que “o caminho para [a esquerda] […] está inteiramente pavimentado de
derrotas […] no entanto, essa mesma história leva irresistivelmente, passo a
passo, à vitória final”. E conclui alertando que “onde estaríamos nós hoje sem
essas ‘derrotas’ das quais extraímos experiência histórica, conhecimento, poder
e idealismo?”
A águia
da revolução, como a chamavam os socialistas da época, escreveu tais linhas
após o esmagamento cruel e sanguinário empreendido pela contrarrevolução, no
instante imediato cujo o crânio dos trabalhadores e comunistas assassinados
ficaram irreconhecíveis com as coronhadas recebidas. (“Os filhinhos da
burguesia, […] [dos herdeiros] dourados [e] dos oficiais” tinham uma coragem
imensa digna de um “pigmeu” nesses dias de enfrentamento aos operários
famintos, descalços e desarmados).
Não se
trata de romantismo nostálgico; não temos nada decidido, o processo eleitoral,
mesmo que desvantajoso e adverso, nestes próximos quinze dias segue em aberto.
A lembrança de Rosa Luxemburgo de que vitórias por vezes são antecedidas por
derrotas, é a lembrança de que a esperança e o ideal de uma humanidade redimida
e livre do sofrimento (imposto pelo capital e seus sicários) podem ser
transformadas em armas concretas e poderosas de luta por nós e pelos de baixo.
Fonte:
Por Ronaldo Tadeu de Souza, Blog da Boitempo

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