sexta-feira, 9 de outubro de 2026

África, a nova fronteira do narcotráfico latino-americano

Cartéis mexicanos e redes sul-americanas estão expandindo operações em países como África do Sul, Nigéria, Quênia, Moçambique e Guiné Equatorial, com produção local de drogas sintéticas e cooperação com grupos africanos...

Durante anos, a África foi vista sobretudo como escala numa das grandes rotas mundiais da cocaína: carregamentos vindos da América Latina cruzavam o Atlântico e seguiam rumo à Europa. Essa rota continua ativa, mas outra dinâmica está se consolidando: redes criminosas mexicanas estão levando para a África conhecimento técnico, operadores e, em alguns casos, a produção de drogas sintéticas.  

O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, na sigla em inglês) constatou uma rápida expansão do tráfico de metanfetamina na África. Dados do órgão mostram que, entre 2021 e 2024, Nigéria e África do Sul destacaram-se como os principais pontos africanos de saída de carregamentos dessa droga detectados pelas autoridades.    

Lucía Bird, diretora do Observatório de Economias Ilícitas da África Ocidental da Global Initiative Against Transnational Organized Crime, ressalva que o papel crescente de operadores mexicanos não é o único fator por trás da evolução dos mercados de drogas na África. "As redes mexicanas são um dos vários atores criminosos estrangeiros que atualmente operam nos mercados de drogas da África Ocidental. Mas as redes brasileiras e colombianas também são atores-chave no fornecimento de cocaína", afirma.

<><> De país de trânsito a local de produção

A mudança é particularmente visível no mercado de metanfetamina. Segundo Bird, a Nigéria tornou-se um centro de fabricação no início da década de 2010, e mexicanos participam há anos da transferência de técnicas de produção.

A metanfetamina já era produzida na África desde os anos 1990, mas os primeiros laboratórios clandestinos eram pequenos e atendiam principalmente à demanda local. "Nos últimos dez anos, a síntese de metanfetamina na África tornou-se mais industrializada e eficiente, com maiores volumes de produção e qualidade muito superior", afirma Bird.

Atualmente, há registro de produção em várias partes da África Subsaariana, destinada tanto a mercados africanos quanto ao sul da Ásia, à Austrália e à Nova Zelândia.

Mas a presença de mexicanos num laboratório africano não significa necessariamente que o Cartel de Sinaloa ou o Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG) tenham se instalado no continente.

<><> "Cozinheiros" que exportam conhecimento

A pesquisadora Victoria Dittmar, da InSight Crime e baseada no México, distingue entre dois modelos.

No primeiro, produtores independentes, conhecidos como "cozinheiros", vendem seus conhecimentos para fabricar metanfetamina ou outras drogas. Eles podem trabalhar para diferentes organizações, inclusive rivais. "Funciona muito pela lógica de quem paga melhor: eles vão trabalhar para quem oferecer as melhores condições."

Por isso, Dittmar recomenda cautela diante de algumas atribuições feitas por autoridades. "Se for apenas uma pessoa oriunda de Sinaloa, ela não necessariamente faz parte do Cartel de Sinaloa. Pode ser alguém independente." Segundo ela, as autoridades às vezes divulgam poucas informações sobre como estabeleceram essa ligação.

No entanto, investigações recentes da InSight Crime também apontam para pessoas mais próximas de organizações mexicanas, especialmente da facção dos Mayos, do Cartel de Sinaloa, que estariam estabelecendo diretamente operações de produção na Europa e na África por meio de alianças com grupos locais. "Eles não podem simplesmente chegar sozinhos e se instalar", ressalta Dittmar.

Além de África do Sul, Nigéria, Quênia e Moçambique, Dittmar menciona a Guiné Equatorial. Os países africanos podem servir para a produção voltada aos mercados locais, mas também como "trampolim para o mercado europeu e para o mercado da Oceania".

<><> Alianças em vez de filiais

Frédéric Massé, codiretor da Rede de Monitoramento e Análise do Crime Organizado na América Latina (Coral), considera que "o modelo dominante não é tanto a implementação de estruturas próprias, mas a aliança e a terceirização". Fora da América, os grupos mexicanos recorrem principalmente a intermediários, facilitadores logísticos e organizações locais, afirma Massé.

Por isso, essa "expansão" tem nuances. "A presença confirmada costuma limitar-se a operadores isolados, cidadãos mexicanos que fazem escala em países africanos e grupos locais 'franqueados'; não se trata de cartéis que operam como organizações corporativas com controle territorial no exterior", afirma Massé.

Dittmar concorda quanto à importância dos parceiros locais. Os contatos podem ser estabelecidos tanto por emissários enviados por organizações mexicanas quanto por intermediários independentes. Ainda existem poucos processos judiciais capazes de reconstruir em detalhes como essas relações funcionam.

<><> Por que produzir na África?

A expansão também obedece a uma lógica econômica. Segundo Dittmar, o mercado americano de metanfetamina está saturado há anos, e os preços caíram. Ao mesmo tempo, a pressão sobre a produção no México e sobre as cadeias de insumos químicos vindos da Ásia aumenta os incentivos para buscar outros locais.

"O fluxo para, por exemplo, a África não está sujeito ao mesmo nível de escrutínio que as cadeias de fornecimento da China para o México", explica.

Isso não significa que a rota tradicional da cocaína tenha sido substituída. Para Dittmar, trata-se de dois negócios distintos. A especialista explica que as redes de cocaína entre América Latina, África e Europa são dominadas principalmente por grupos sul-americanos, entre eles colombianos e brasileiros, enquanto o papel mexicano é mais limitado. A expansão das drogas sintéticas responde a outra cadeia de suprimentos e envolve outros operadores.

<><> Criminosos são mais rápidos

O que ainda não está claro é até onde o fenômeno chegará. Dittmar afirma que essas conexões existem há cerca de uma década, mas observa uma evolução de intercâmbios pontuais de conhecimento para tentativas de estabelecer operações mais estáveis.

"Parece haver uma tendência de maior estabilidade. Mas ainda é muito cedo para dizer isso com certeza."

O desafio para as autoridades dos países envolvidos é acompanhar redes criminosas capazes de movimentar dinheiro, insumos químicos e drogas entre países que têm condições muito diferentes de combater o crime organizado. O negócio avança mais rápido do que a cooperação formal entre as autoridades: enquanto os mecanismos estatais dependem de acordos e procedimentos entre países, as organizações criminosas "se reorganizam com fluidez e sem fronteiras".

¨      Do sul da África à Austrália, a nova rota da metanfetamina do cartel de Sinaloa

Quando chegaram a Johannesburgo, supostos turistas mexicanos explicaram aos agentes de imigração que pretendiam conhecer os parques naturais sul-africanos para observar elefantes, rinocerontes, leões, leopardos e búfalos.

Na realidade, segundo a polícia, eles eram químicos enviados pelo cartel mexicano de Sinaloa para instalar um laboratório de metanfetamina em escala industrial no povoado rural de Swartruggens, um dos sete descobertos no sul da África nos últimos dois anos.

Os investigadores suspeitam que o laboratório faça parte de uma rede do cartel de Sinaloa destinada a abastecer Austrália e Nova Zelândia, os mercados de metanfetamina mais lucrativos do planeta, onde os preços são entre 65 e 100 vezes mais altos do que nos Estados Unidos.

Quando foi desmantelado, em maio, o laboratório tinha capacidade para produzir cinco toneladas por mês dessa droga sintética altamente viciante, o equivalente a mais de 1 bilhão de dólares (R$ 5,1 bilhões) em vendas no atacado na Austrália, acrescentaram as fontes.

Devon Naicker, chefe da unidade de combate aos entorpecentes da África do Sul, explicou que as autoridades investigam se uma carga apreendida neste ano na Austrália procedia de Swartruggens, a duas horas e meia de Johannesburgo.

O fato de a carga ter "passado pelo porto de Durban", na costa leste da África do Sul, e a "maneira como estava embalada" levam as autoridades a acreditar que ela foi produzida nessa instalação.

A África do Sul é o "lugar perfeito" para produzir metanfetamina, declarou à AFP uma fonte da área de segurança. Isso porque o país tem enormes extensões de terra onde os laboratórios podem ser escondidos, conexões marítimas e aéreas com todo o mundo e "corrupção, que desempenha um papel importante", afirmou a fonte. Além disso, quase um terço do comércio do país é realizado com China e Índia, de onde procedem os produtos químicos essenciais para fabricar metanfetamina.

A polícia australiana confirmou à AFP que havia detectado "um aumento do interesse dos cartéis mexicanos pelo mercado de drogas ilícitas da Austrália". No entanto, "devido à natureza delicada das operações, não faremos comentários sobre os cartéis mexicanos que atuam na África do Sul", acrescentou.

O contrabando parece não ocorrer exclusivamente por via marítima. Em janeiro, uma mulher de 32 anos foi detida no aeroporto de Sydney, em um voo procedente da África do Sul, com 39 quilos de metanfetamina em pó na bagagem.

Além de lucrativo, o mercado australiano é enorme. "A metanfetamina é a droga ilícita mais consumida" depois da cannabis, segundo um relatório de 2024 elaborado pela agência antidrogas americana DEA e pelas polícias da Austrália e da Nova Zelândia.

Essas duas forças policiais já haviam constatado que núcleos locais da gangue de motociclistas Comancheros eram abastecidos com drogas pelo cartel de Sinaloa.

<><> A pista mexicana

As diferentes investigações policiais em andamento começam a esclarecer a cadeia de abastecimento criada pelo cartel mexicano no sul da África para atender à demanda australiana.

O mesmo modo de operação foi observado na Nigéria, no oeste da África, onde quatro mexicanos foram detidos neste ano durante operações em laboratórios de metanfetamina.

Na África do Sul, 16 mexicanos foram detidos desde 2024. O primeiro laboratório com essas características foi descoberto em 2020 na localidade agrícola de Marble Hall, ao nordeste de Johannesburgo.

Quando ocorreu a operação em Swartruggens, em maio, a enorme dimensão da estrutura já apontava claramente para a organização de Sinaloa.

Cinco dos 13 detidos eram mexicanos, todos químicos, segundo a polícia. Eles teriam começado a fabricar a droga pouco depois de chegar, em março de 2025, com vistos de turista válidos por três meses.

Também foram detidos dois moçambicanos, um zimbabuano e quatro sul-africanos, três deles integrantes da família africâner proprietária da extensa reserva de caça onde o laboratório foi instalado.

Os cartéis "parecem procurar agricultores que enfrentam dificuldades", embora nem sempre seja assim, declarou à AFP uma fonte próxima ao caso.

A família africâner comprou a propriedade em 2024. Além disso, os pais respondiam a um processo por alugar terrenos onde era produzido ilegalmente mandrax, um sedativo hipnótico destinado ao mercado local.

Segundo a polícia, os laboratórios de metanfetamina costumam ser instalados em propriedades isoladas, mas com acesso fácil às principais estradas, como no caso de Swartruggens.

<><> "Fede muito"

"Eles precisam de um fornecimento contínuo de produtos químicos" para fabricar os precursores e também "retirar rapidamente a substância final do laboratório", afirmou Naicker, da unidade anti-entorpecentes. Isso exige "várias cargas chegando nesses caminhões", acrescentou.

O cartel de Sinaloa utiliza o chamado método P2P, baseado no composto fenil-2-propanona, até então desconhecido na África do Sul, e em produtos químicos importados da China e da Índia, afirmou outro agente.

"Mas a fabricação dos precursores fede muito", declarou Naicker. "É possível sentir o cheiro a quilômetros de distância se o vento soprar naquela direção", explicou.

Em agosto, a polícia apreendeu cinco toneladas de solventes, catalisadores e reagentes usados pelos cartéis em uma operação na fronteira com o Zimbábue, realizada com a ajuda dos Estados Unidos.

Antes disso, as autoridades rastrearam um contêiner suspeito que havia entrado pelo porto de Durban até localizar cinco galpões cheios de produtos químicos e equipamentos em Midrand, a meio caminho entre Pretória e Johannesburgo.

No início deste mês, a polícia desmantelou um laboratório em escala industrial que "parece uma instalação mexicana" em uma propriedade de Klipvoor, a cerca de três horas ao norte de Johannesburgo, explicou Naicker.

Os grandes tanques encontrados no local, cada um com capacidade para várias centenas de litros, são outro indício do envolvimento dos cartéis.

"Trata-se de equipamento industrial, mas fabricado à mão. Não é possível encontrá-lo em nenhuma loja", afirmou uma fonte próxima à investigação.

"Acreditamos que eles tragam seus próprios caldeireiros para construir todos esses tanques. Esse é o nível de especificidade", acrescentou.

<><> Ensinando os moradores locais

O general de brigada Naicker afirmou que mexicanos de "alto nível" costumam chegar para instalar os laboratórios. Depois, porém, "deixam outros mexicanos responsáveis pela operação, pessoas com formação em química que entendem o processo (...) para dar continuidade à fabricação de metanfetamina".

Em outros casos, eles ensinavam aos moradores locais "como realizar a produção e vinham apenas para supervisioná-los", como ocorreu em um laboratório desmantelado em 2024, a 35 quilômetros de Johannesburgo, explicou.

Uma fonte da área de segurança afirmou que os mexicanos detidos "estão na parte inferior da cadeia" de comando, incluindo os presos em Swartruggens em maio, embora tivessem conhecimentos técnicos.

Os cinco disseram à polícia que tiveram os olhos vendados e foram mantidos como reféns ao chegar à África do Sul.

No entanto, um investigador zombou das declarações e respondeu que "eles receberam tudo o que queriam" para que sua "estadia fosse confortável". "Que sequestrador dá aos seus reféns... comida e bebidas alcoólicas caras?"

<><> Laboratórios industriais na Nigéria

Um padrão semelhante é observado na Nigéria. Uma década após as autoridades acreditarem ter expulsado os cartéis mexicanos, começaram a reaparecer laboratórios de metanfetamina supostamente ligados aos grupos de Sinaloa e Jalisco Nova Geração.

Assim como a África do Sul, a Nigéria tem vastas extensões de áreas remotas onde os laboratórios podem ser escondidos, além de portos e aeroportos com fiscalização vulnerável pelos quais a mercadoria pode ser traficada.

Em maio, as autoridades desmantelaram o maior laboratório de metanfetamina já descoberto no país, na zona rural do estado de Ogun.

Três mexicanos foram detidos sob a acusação de manter vínculos com os cartéis, assim como sete nigerianos. Outro mexicano foi preso em uma operação realizada em junho no estado de Oyo.

"A produção em escala industrial encontrada nos dois laboratórios confirma que o objetivo era o mercado internacional, especialmente a Europa, o Sudeste Asiático e a Oceania", declarou à AFP Femi Babafemi, porta-voz da Agência Nacional de Combate às Drogas.

O laboratório do estado de Ogun ficava em uma floresta entre os povoados de Abidagba e Iroto. Os moradores receberam inicialmente os forasteiros com satisfação.

"Ouvimos rumores de que construiriam um conjunto habitacional no local", afirmou Florence Banjo, de 59 anos. "Fiquei feliz porque finalmente asfaltariam a estrada que leva ao nosso povoado", mas "ficamos decepcionados".

<><> "Grande capacidade de corromper"

Cinco dos 28 laboratórios de metanfetamina desmantelados na Nigéria desde 2016 tinham mexicanos envolvidos, afirmou Babafemi.

Segundo ele, os mexicanos apareceram pela primeira vez há uma década. "Eles vieram transmitir seus conhecimentos técnicos aos colaboradores locais. Depois que foram expulsos, os colaboradores locais assumiram o controle".

A retomada das atividades dos cartéis na África se deve, em parte, à pressão exercida sobre eles pelos Estados Unidos e pelos governos da América Latina, afirmou Babafemi.

"Devemos nos preocupar seriamente com a expansão" dos cartéis "para fora de seu principal reduto", afirmou Vanda Felbab-Brown, diretora da Iniciativa sobre Grupos Armados Não Estatais da Brookings Institution.

Segundo ela, a África é "um ambiente operacional favorável aos mexicanos, que têm grande capacidade de corromper as pessoas".

A metanfetamina produzida por eles é muito mais potente e letal do que a versão da droga que grupos criminosos chineses procedentes da China e de Mianmar costumavam contrabandear para a Austrália, acrescentou.

Em Moçambique, antes considerado apenas um país de trânsito de drogas, dois mexicanos foram detidos no aeroporto da capital, Maputo, em abril.

Posteriormente, uma grande quantidade de produtos químicos usados para fabricar metanfetamina foi encontrada na casa de seu suposto cúmplice local.

<><> Consumo local

A produção e o trânsito em grande escala de drogas sintéticas na África também estimulam o consumo local, o que preocupa as autoridades da Nigéria e do sul do continente.

"Com frequência, os intermediários são pagos com drogas, e não apenas com dinheiro, e depois precisam colocar esse produto nos mercados locais", afirmou Antonio De Vivo, chefe do escritório de Maputo do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC).

Paulo Ferrao, de 27 anos, ex-dependente químico que trabalha em um centro de desintoxicação perto de Maputo, testemunha os danos causados pela metanfetamina cristalina no local.

"Estamos recebendo mais casos relacionados à metanfetamina, o que significa que a heroína já não é suficiente para aqueles que estão por trás do tráfico de drogas", afirmou Ferrao.

 

Fonte: DW Brasil/AFP

 

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