Silvio
Caccia Bava: Sob a ameaça do fascismo
Estamos
a poucos dias do segundo turno das eleições presidenciais. E há muita coisa em
jogo. Não se trata de uma disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. Não vamos
confundir as coisas. Trata-se de uma disputa entre a democracia e o fascismo.
O
cenário global não é alentador. A extrema direita avança por toda parte, com
exceção da Suécia, onde venceu a social-democracia. Na América Latina, México,
Brasil e Uruguai são países em que vigoram regimes democráticos, mesmo com
todos os seus problemas. Eles desafiam o projeto neocolonial norte-americano.
Para
enfrentar essa resistência, os Estados Unidos criaram o Escudo das Américas: 14
países se alinham e se submetem à estratégia norte-americana, participando de
uma aliança político-militar para proteger os interesses dos Estados Unidos e
garantir sua hegemonia no continente. Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia,
Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras,
Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago fazem parte do Escudo.
As
ameaças de intervenção militar no Brasil ganham concretude. A guerra híbrida
que os Estados Unidos já praticam contra o Brasil pode mobilizar militarmente o
Escudo das Américas para operações conjuntas que realizem ações em território
brasileiro.
“O
senador independente Bernie Sanders e 30 deputados democratas dos Estados
Unidos enviaram carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, cobrando
explicações sobre ações da administração Trump que, segundo os parlamentares,
configuram uma tentativa coordenada de interferir nas eleições presidenciais
brasileiras de outubro.”
A
interferência norte-americana nas eleições brasileiras está sendo denunciada
também pelo próprio governo federal brasileiro. As plataformas digitais se
aliaram a Trump em favor de Flávio, buscando desestabilizar o governo Lula e
impedir sua reeleição.
A
perseguição aos imigrantes nos Estados Unidos dá a percepção da truculência do
fascismo. Agentes do Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados
Unidos (ICE, na sigla em inglês) invadem casas, quebram vidros de automóveis
para retirar de dentro as pessoas que se recusam a sair, separam crianças de
seus pais, remetem os imigrantes detidos para prisões em outros países…
instauram o terror. Os supremacistas brancos atacam, prendem e expulsam
latino-americanos.
“O
fascismo sempre aparece em épocas de crises agudas. Não parece que os políticos
e as elites empresariais que sustentam o fascismo do fim dos tempos tenham
qualquer plano para um futuro ao alcance daqueles que não são ricos. Em vez
disso, eles preveem ‘tempos difíceis’ permanentes, como disse certa vez o
diretor executivo da Palantir, Alex Karp, e imaginam um mundo em que grupos
relativamente pequenos sobreviverão, protegendo a si mesmos e sua riqueza em
meio ao caos, aos conflitos e aos desastres sucessivos.”
Submeter
o Brasil a seus interesses é muito importante para o controle norte-americano
sobre a América do Sul. Devemos esperar ações desestabilizadoras até as
eleições, a manipulação das redes sociais, denúncias de escândalos e corrupção,
tudo a ser comprovado a posteriori. E, se o resultado das eleições não
for favorável a Flávio, haverá questionamento das eleições, nova tentativa de
golpe.
O
Observatório Lupa encontrou 68 páginas e 38 sites recém-criados, com
publicações simultâneas e textos semelhantes. Dos mais de mil anúncios
encontrados, que somam no mínimo 92 milhões de exibições, cerca de 70% têm os
Estados Unidos como localização, com uma LLC de Delaware como anunciante e
pagador do valor de US$ 106 mil estimado pela Meta, podendo chegar a US$ 221
mil. Esse caso, que aparentemente favorece Cury e ataca Flávio e Lula, comprova
a possibilidade de ações de interferência nas eleições a partir do exterior.
As big
techs norte-americanas são denunciadas pelo pastor Henrique, do Psol, no
Facebook: elas estão reduzindo o alcance dos algoritmos das candidaturas de
esquerda e progressistas nas redes sociais. No dia 25 de setembro, Marcelo
Freixo, candidato do PT a deputado federal, denunciou que a Meta bloqueou o
Facebook da campanha de Lula.
No
plano interno, nossas instituições democráticas estão em sua maior crise
republicana. O Congresso, o Supremo Tribunal Federal, a Procuradoria-Geral da
República, ministros do governo Lula, a Polícia Federal, empresários e
banqueiros estão denunciados por corrupção no caso Master. Se tomarmos esse
caso do Master como exemplo da ação de empresas junto às instâncias de poder, o
que pensar do poder de empresas que valem trilhões de dólares?
Os
limites da democracia liberal estão sendo expressos nessa conjuntura. As
mudanças na economia mudaram as regras do jogo. Desde a crise financeira de
2008 assistimos ao crescimento vertiginoso das big techs, à manipulação
crescente da opinião pública e ao enfraquecimento das democracias, dominadas
pelo poder econômico.
Neste
momento, qualquer tentativa de reforma institucional que busque restabelecer a
democracia só trará mais problemas, com a extrema direita imprimindo sua marca
nas reformas. Não há como voltar atrás e tentar repetir o que já foi, recompor
o jogo democrático. E esse é o grande desafio.
O
modelo atual de exploração do capitalismo tem no fascismo a expressão política
dessa opressão. Já houve um momento, no começo do século XX, em que a ameaça do
comunismo fez com que o capitalismo cedesse e criasse o welfare state,
políticas públicas para atender às necessidades das maiorias. Hoje, sem
ameaças, capitalismo e fascismo caminham juntos e buscam destruir todas as
conquistas de direitos humanos que as mobilizações sociais obtiveram com suas
lutas.
A
realidade internacional rebate na política brasileira. O fascismo bate à porta
do Brasil, prometendo repressão, corte no orçamento das políticas sociais,
isenção de impostos para empresas, congelamento do salário mínimo, maior
desigualdade e exclusão.
O
bolsonarismo se alinha aos interesses neocoloniais dos Estados Unidos de
transformar o Brasil num grande fazendão, que lhes ofereça petróleo, minerais
raros, riquezas naturais e alimentos, e compre produtos manufaturados. A
desindustrialização faz parte dessa estratégia.
Junto
com esse alinhamento econômico, temos uma internacional de extrema direita que
prega o racismo, a misoginia, a discriminação, o combate ao diferente, o
combate ao comunismo, o combate ao terrorismo, seja lá o que se entenda por
isso, o combate a qualquer manifestação coletiva de crítica ao governo.
Mesmo
aqueles que não gostam de Lula precisam pensar nas consequências de optar por
Flávio Bolsonaro. Não podemos colocar na presidência um miliciano e converter o
Brasil num narcoestado.
¨
A normalização do fascismo. Por Fernando Sarti Ferreira e
Lincoln Secco
Há
pouco mais de uma década, no rescaldo das manifestações de 2013 e do processo
eleitoral de 2014, já era possível pressentir que algo havia se rompido dentro
da Nova República e, mais precisamente, que um velho conhecido voltava a
espreitar a sociedade brasileira. Contudo, há um evento que pode ser
considerado o verdadeiro divisor de águas e que, à época, e até hoje, é tratado
de maneira fortuita.
No
ímpeto de tentar reverter a derrota nas urnas, o partido de “quadros técnicos”
e que, desde sua fundação, cada vez mais evocava forças que não poderia
controlar, decidiu que as eleições gerais de 2014 teriam sido fraudadas,
normalizando uma das tantas teses lorianas que circulavam nos submundos da
internet desde antes da explosão das redes sociais.
Na
impossibilidade de vencer o pleito, seu resultado foi questionado, jogando
sobre as eleições um ar de suspeição que, combinada com a guinada política à
direita do governo e a precipitação da crise econômica, detonou a série de
manifestações que deram tração ao golpe de 2016. Quase dez anos depois, os
exageros do playboy mineiro que não sabia perder, desaguariam na Intentona de
2023 e, posteriormente, nas eleições de 2026. Não foi por falta de aviso que
chegamos até aqui.
Há
pouco menos de dez anos atrás, em um texto intitulado “7 de abril de 2018”,
escrito no contexto da prisão de Lula, esse processo foi resumido por meio de
um breve conto. Ei-lo:
“Ao
entrar no zoológico, não hesitou. Em um primeiro momento, abriu as jaulas.
Depois, os portões que davam acesso à avenida que se dirigia ao centro da
cidade. Vibrou ao ver como os leões colocaram as pessoas contra a parede. Dava
gritos de alegria ao ver como os elefantes pisoteavam pobres coitados.
Divertia-se com os macacos puxando o cabelo das crianças. Mesmo as girafas, tão
simpáticas, contribuíam para o espetáculo, espichando seus pescoços até a laje
das casas e prédios e denunciando aos gritos as pessoas que se achavam mais
espertas ou pensavam não ter nada a ver com aquilo.
Ao seu
lado, um amigo chato, daqueles cuja principal função é recobrar nossa
consciência, perguntou:
–
Rapaz. Como é que você vai fazer para trazer todo mundo de volta pra jaula?”.
Desde
então, com robusto apoio de intelectuais progressistas, com a complacência da
maioria dos dirigentes do maior partido de esquerda do hemisfério e o
patrocínio da alta-burguesia colonial e seus sequazes na grande imprensa,
vivemos a normalização do fascismo. Intelectuais de esquerda e progressistas,
muito bem-posicionados nos grandes meios de comunicação, gastaram muita tinta
para dizer “não é fascismo”, ou, pior ainda, “ainda não podemos afirmar se é
fascismo” – é um exercício mórbido e cômico pensar o momento exato em que
poderemos nomear o que vivemos de fascismo.
Desde
então, mesmo que que não fosse nossa intenção, o fascismo foi normalizado. Há
quase dez anos convivemos com fascistas na rua, nos espaços de lazer e locais
de trabalho. Está cheio de rinocerontes andando por aí; você cruza o farol e
tem um lagarto atravessando, uma cobra rastejando; você pega o carro de
aplicativo e tem um crocodilo na direção; você pode até mesmo eleger uma
ariranha para Câmara de Deputados e uma maritaca para o Senado.
Tamanha
é a normalização que não podemos falar de “fascismo”, sendo preferível outros
termos como populismo de extrema direita, alt-right, e, aquele que,
definitivamente, é o mais ridículo, ultradireita.
Como já
repetimos inúmeras vezes em diversos espaços, “o fascismo está firmemente
ancorado no governo, na sociedade e na economia vigentes. Ele é uma ação
estabilizadora da ordem, “disfarçada em cruzada milenar de vitalismo heroico”,
nas palavras de Arno Mayer. O fascismo é uma ação política e uma rede de
relações. É uma técnica de mobilização, pura tática e, portanto, extremamente
flexível e capaz de violar repetidamente seus próprios princípios.
A
inconsistência é a sua natureza ideológica, já que seu programa é o de
mobilizar as massas, grupos extremamente heterogêneos, estratos sociais em
crise altamente diversificados, além de atrair e tranquilizar os poderosos
fiadores da ordem social. O fascismo, assim, é uma mobilização radical em
defesa da ordem. Nas palavras de João Bernardo, é a Revolta da Ordem. Uma
revolta impulsionada pelo desejo de transformação radical das condições de vida
do indivíduo sem colocar em causa os fundamentos da estrutura social
responsável por produzir essas péssimas condições de vida”.
O
antipetismo existe e foi muito bem delineado em suas fases históricas pela
pesquisadora argentina Dolores Rocca Rivarola. Ela demonstra como o petismo
nunca foi o espaço que condensou o ideário comunista, entretanto isso foi o
núcleo narrativo da campanha de Fernando Collor. A imprensa corporativa, no
entanto, reduz o fenômeno ao ódio a um partido quando se trata de uma
sinédoque. É o ódio à democracia, ao feminismo, aos direitos sociais e
trabalhistas, à igualdade e que se projeta no PT.
Se não
entendermos a questão assim, cairemos no modo Globo News de culpar o PT pelo
antipetismo. Esse fenômeno representa valores enraizados na sociedade. Homens
traduzem seu ressentimento diante do micro poder perdido na família, por
exemplo, no PT. O bolsonarismo tem força e resiliência porque representa um
modo de vida. São milhões de pessoas com uma forma comum de vida nos escalões
intermediários entre a extrema pobreza e o trabalho formal. No entanto, são
incapazes de uma articulação de baixo para cima e seu ressentimento atomizado é
capturado pela manipulação racional de seu irracionalismo, ou seja: o fascismo.
Uma das
dificuldades de entender o fascismo bolsonarista é seu ultra liberalismo e a
subserviência aos EUA. Não vale a pena recordar que o início do governo
Mussolini foi marcado pelo liberalismo econômico e anti liberalismo político.
Outrossim, se o nazismo era industrialista, é porque esse é o aspecto que
caracterizava fundamentalmente a burguesia alemã e sua inserção no mercado
mundial. Isso serve para o agrarismo e o extrativismo integralista e
bolsonarista.
Mas
podemos evocar uma outra experiência histórica para tratar dessa relação servil
da família Bolsonaro com os EUA. Em vez de olhar para a Alemanha ou Itália
fascistas, podemos olhar para a França e outros países ocupados. Uma das
facetas do fascismo é o colaboracionismo.
O tema
sempre foi incômodo na memória francesa e a tendência do pós-guerra foi
reduzi-lo a algumas figuras de proa da traição nacional. Mas aos poucos a
historiografia foi demonstrando que se tratava de um fenômeno social amplo. O
colaboracionismo também foi uma modalidade de normalização do nazismo.
Em
nosso contexto, duas atitudes foram fundamentais para a normalização do
fascismo. A primeira foi a condescendência com o reacionarismo ideológico e
político de amplos setores da sociedade brasileira, lidos como expressões
legítimas que “a esquerda” não conseguiu ler. É impossível tirar leite de uma
mamadeira de piroca, há de convir.
A
intentona golpista não foi efeito de alguma dissociação cognitiva – seja lá o
que for isso –, as pessoas não foram manipuladas e impelidas às ações do 8 de
janeiro. “Dissociação cognitiva” é negar que as pessoas tinham intenção de
fazer o que elas deliberaram e fizeram. Se alguém as conduziu ao erro, foi quem
se esforçou em dizer que o fascismo era uma expressão política legitima da
sociedade brasileira.
Hoje
pagamos o preço de boa parte deles ter sido libertada, além da repressão não
ter avançado sobre o núcleo financeiro, mas principalmente político do
golpismo, o Partido Liberal, de Valdemar da Costa Neto. Caso não
normalizássemos o fascismo, o partido teria sido proscrito, sua direção
encarcerada e seu patrimônio confiscado.
A
segunda atitude foi a frente ampla, enfileirando nela cadáveres insepultos da
Nova República, como os mortos vivos de Incidente em Antares de Érico
Veríssimo. O que era necessário é ampliar o arco de alianças entre a
heterogênea classe trabalhadora brasileira pós-desindustrialização. O sucesso
com os muito pobres – e também com os muito ricos – nunca conseguiu ser
reproduzido em relação aos setores da classe trabalhadora espremidos na
baixíssima faixa de rendimentos entre 2 e 5 salários-mínimos.
Tão
estreita quanto o orçamento desses trabalhadores, é o horizonte de expectativas
em um mundo assolado pela destruição do trabalho vivo e o colapso ambiental.
Não foi oferecido nada a esse grupo, a não ser arcabouço fiscal e, aos 45 do
segundo tempo, a isenção do imposto de renda. O que não se percebeu é que a
isenção interpelou um grupo que já havia sido convencido pelo trabalho de base
do fascismo que a sonegação era o caminho; o imposto, roubo. Acrescente-se
grande parte do país baseada no latifúndio e no extrativismo e que foi
sistematicamente apoiado pelos governos progressistas.
Não
aprendemos nada e não esquecemos nada entre o ajuste de Joaquim Levy e o de
Fernando Haddad. Não conseguimos propor nada de concreto para um público cada
vez mais disposto a pular do precipício. E para quem gostaria de superar a
esquerda vigente, estamos uma vez mais a depender dos soldados vietnamitas do
PT, apesar de seus generais de fancaria.
Embora
o fascismo tenha uma base de massas de milhões de pessoas, há também milhões de
trabalhadores e trabalhadoras, além de setores da classe média, que, por
desesperança, por terem aspirações que vão muito além daquelas oferecidas pela
esquerda, não foram votar ou votaram nulo ou branco.
Apesar
de todos os erros cometidos, nós precisamos, agora, mais do que nunca, de um
programa mínimo, bem direto, que aponte para a conquista de importantes
direitos sociais, extremamente relevantes para combater o inferno cotidiano dos
trabalhadores brasileiros. Uma verdadeira “Carta ao Povo Brasileiro”, ou
melhor, uma “Carta ao Verdadeiro Povo Brasileiro”, assumindo o compromisso que
no próximo mandato, por exemplo, haverá tarifa zero no transporte público; que
haverá um combate aberto pela redução dos juros e contra o endividamento dos
trabalhadores, além de promover uma mobilização constante da sociedade
brasileira contra os retrocessos sociais que o Congresso tentará impor.
Em
relação aos setores médios, vale aqui o mesmo que foi dito por nós há quatro
anos: “É preciso assediar e dividir esse grupo, por meio de uma radicalização
programática direcionada a ele, não reforçando seus preconceitos e assumindo
suas bandeiras conservadoras. A classe média, como demonstrou ao longo das duas
últimas décadas, tem sérias dificuldades de compreender e até mesmo de perceber
os ganhos que teria em um governo petista. Para rachar esse grupo seria
importante, por exemplo, assinalar uma transformação radical nas alíquotas do
imposto renda para o financiamento de um robusto serviço público e o
compromisso de combater os oligopólios da educação e da saúde, que escorcham
esse setor por meio de mensalidades abusivas e serviços de qualidade duvidosa”.
Fonte: Le
Monde/Terra é Redonda

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