Flávio
Bolsonaro ameaça congelar aposentadorias e cortar pisos da saúde e educação
A
equipe responsável pelo programa econômico do candidato à Presidência Flávio
Bolsonaro (PL) estuda um pacote de medidas fiscais focado na contenção das
despesas obrigatórias da União para viabilizar um ajuste inicial da ordem de 2%
do PIB, o equivalente a cerca de R$ 250 bilhões, informa a Folha de São Paulo.
A meta corresponde a boa parte do esforço estimado por economistas para
estancar a trajetória de crescimento da dívida pública bruta. Também é vista
por assessores como o sinal necessário para reduzir a percepção de risco no
mercado financeiro, aliviar a pressão sobre os juros e estabilizar as contas
públicas. No entanto, a medida pode atingir diretamente aposentados e os pisos
da saúde e educação.
O
núcleo do plano mira as maiores rubricas do Orçamento federal: a desvinculação
dos reajustes da Previdência Social e do Benefício de Prestação Continuada
(BPC) em relação aos ganhos reais do salário mínimo, além do fim dos pisos
constitucionais que atrelam os gastos com saúde e educação ao comportamento das
receitas federais.
Pela
estratégia em análise, caso haja concessão de aumento real (acima da inflação)
para os trabalhadores da ativa, o reajuste das aposentadorias do INSS e do BPC
poderia ser menor ou ficar limitado estritamente à variação do Índice Nacional
de Preços ao Consumidor (INPC).
A
medida preservaria o valor real dos benefícios, respeitando cláusula pétrea da
Constituição, mas estancaria o efeito multiplicador do aumento acima da
inflação sobre a folha de pagamentos da Previdência. Dos mais de 41 milhões de
benefícios pagos pelo INSS, aproximadamente 70% correspondem ao valor do piso
nacional.
Paralelamente,
a proposta em estudo elimina a vinculação obrigatória de gastos com saúde (15%
da Receita Corrente Líquida) e educação (18% da Receita Líquida de Impostos),
passando a corrigi-los apenas pela inflação.
As
propostas foram apresentadas por interlocutores da campanha do senador em
encontros com empresários e agentes do mercado financeiro ao longo deste ano.
Procurada
pela Folha de São Paulo, a assessoria de Flávio afirmou que “não se pode
transformar conversas informais, interpretação de terceiros ou especulação
sobre o cenário econômico em posição oficial de uma candidatura, ocorridas
antes mesmo do início do período eleitoral”.
“A
orientação econômica da candidatura não é definida por relatos ou ilações de
terceiros. Ela está expressa, de forma objetiva e verificável, no plano de
governo, onde não constam tais propostas, e nas manifestações públicas feitas
ao longo da campanha por Flávio Bolsonaro, Rogério Marinho, Daniella Marques e
Adolfo Sachsida [membros da equipe]. Qualquer tentativa de substituir esse
conteúdo distorce os fatos e posições reais apresentadas”, completou a equipe.
No
início deste ano, Flávio afirmou que promoveria um “tesouraço” para equilibrar
as contas públicas. Seu coordenador de campanha, senador Rogério Marinho
(PL-RN), disse que o atual modelo econômico está “estourando”. Prometeu
mudanças e afirmou que as reformas da Previdência (2019) e trabalhista (2017)
seriam “revisitadas”.
Neste
momento, no entanto, a campanha baixou o tom das declarações para evitar dar
munição à oposição, que pode acusar Flávio de querer cortar direitos. Já o
plano de governo oficial do candidato para a área fiscal é vago e ocupa poucas
linhas entre as propostas gerais.
Para
viabilizar as reformas em um eventual governo Flávio sem o desgaste do capital
político do início do mandato, a estratégia desenhada pela equipe prevê a
apresentação de uma “Super PEC da Transição” no Congresso Nacional logo após o
resultado das urnas, no intervalo entre a eleição e a posse.
Esse
expediente foi apresentado por Luiz Felipe Trevisan, assessor econômico de
Flávio, a membros do Eurasia Group no início de setembro. Na eleição de domingo
(4), o PL, partido do senador candidato, aumentou sua força tanto na Câmara
quanto no Senado — assim como outras legendas de direita —, tornando mais fácil
a aprovação desse tipo de medida.
A
proposta buscaria inverter a lógica da PEC da Transição, de 2022, do governo
Lula: em vez de expandir licenças para gastos, a medida pretende reduzir
despesas em até 2% do PIB. O dispositivo traria um menu composto por cerca de
dez medidas, garantindo margem para a negociação parlamentar sobre a composição
final do texto, sem abrir mão da escala do ajuste.
A
avaliação da campanha é que o avanço célere do pacote geraria uma queda
imediata no prêmio de risco e na curva de juros antes mesmo do início do novo
mandato. No início desta semana, com Flávio à frente de Lula no primeiro turno
eleitoral, a Bolsa disparou, os juros futuros recuaram e o dólar despencou.
Em
outra frente de formulação, o plano econômico de Flávio vem sendo abastecido
pelo “Projeto Brasil”, elaborado pelo economista Adolfo Sachsida para subsidiar
a candidatura. Sachsida foi secretário de Política Econômica e ministro de
Minas e Energia no governo Jair Bolsonaro (PL). Como advogado, visita com
frequência o ex-presidente preso.
Por
trás das diretrizes gerais do projeto, dezenas de especialistas, entre
economistas, juristas e ex-integrantes do Ministério da Economia, preparam nos
bastidores minutas detalhadas de propostas legislativas e decretos para 2027.
O
trabalho foca na substituição do atual arcabouço fiscal por uma nova âncora
baseada no controle da trajetória da dívida/PIB, além de privatizações, corte
de ministérios, fim de supersalários no funcionalismo, revisão de subsídios e
ampla desregulamentação.
• Flávio Bolsonaro vai cortar dinheiro da
educação, saúde, aposentadorias e Minha Casa, Minha Vida
O
presidente Lula (PT) afirmou, em vídeo publicado em suas redes sociais nesta
quinta-feira (8), que o plano econômico de seu adversário nas eleições, o
candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), prevê um corte de cerca de R$
200 bilhões no orçamento federal que afetará diretamente programas sociais
essenciais, como o Pé-de-Meia, Farmácia Popular, Minha Casa, Minha Vida,
merenda escolar e o Gás do Povo. De acordo com o chefe do Executivo, a medida
da oposição foca a contenção de gastos sobre a população de menor renda para
preservar as elites.
“Bem,
você já viu meu adversário dizendo que vai cortar R$ 200 bilhões do orçamento.
Quando ele fala em cortar R$ 200 bilhões, você sabe do que eles vão cortar? Vão
cortar do Pé-de-Meia, do Farmácia Popular, do Minha Casa, Minha Vida, da
merenda escolar, do Gás do Povo… Não vão dar aumento do salário mínimo para os
trabalhadores acima da inflação e não vão dar aumento do salário mínimo para os
aposentados. É isso que eles vão cortar, porque toda vez que alguém da elite
fala que vai cortar, ele corta do povo, corta do sangue do povo e não corta dos
ricos. Nós fizemos o contrário. E por isso vamos manter e aprimorar todas as
nossas políticas sociais”, declarou o presidente Lula.
A
declaração do presidente ocorre em meio aos estudos da equipe responsável pelo
programa econômico de Flávio Bolsonaro para a elaboração de um pacote de
medidas fiscais. O plano da candidatura do PL é focado na contenção das
despesas obrigatórias da União para viabilizar um ajuste fiscal inicial da
ordem de 2% do Produto Interno Bruto (PIB), o equivalente a cerca de R$ 250
bilhões. A meta corresponde a grande parte do esforço estimado por economistas
para conter o avanço da dívida pública bruta, sendo vista por assessores como
um sinal necessário para reduzir a percepção de risco no mercado financeiro,
aliviar a pressão sobre os juros e estabilizar as contas públicas.
No
entanto, as propostas em análise atingem diretamente os aposentados e os pisos
constitucionais da saúde e da educação. O núcleo do plano econômico da oposição
mira as maiores rubricas do Orçamento federal: a desvinculação dos reajustes da
Previdência Social e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) em relação aos
ganhos reais do salário mínimo, além do fim das regras constitucionais que
atrelam os gastos obrigatórios com saúde e educação ao comportamento das
receitas federais.
Pela
estratégia que vem sendo elaborada pelos assessores do candidato do PL, caso
haja concessão de aumento real (acima da inflação) para os trabalhadores da
ativa, o reajuste das aposentadorias do Instituto Nacional do Seguro Social
(INSS) e do BPC poderia ser menor ou ficar limitado estritamente à variação do
Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). Em contrapartida, Lula garantiu
que sua gestão continuará priorizando a manutenção e o aprimoramento dos
investimentos sociais do país.
• “Flávio vai acabar com a CLT”. Por Alex
Solnik
Passei
agora num posto de gasolina onde sempre abasteço. Perguntei ao frentista se ele
votou no dia 4 de outubro. “Não votei porque estava trabalhando, mas vou votar
no segundo turno”. “Ah é? E vai votar em quem?”. “Vou votar no Lula”, disse
ele, sem pestanejar.
“Por
que você vai votar no Lula?”, perguntei. “Porque o outro”, disse ele, “vai
acabar com a CLT”. Ele nem sabia o nome do “outro”. Mas tinha certeza que ele
vai acabar com a CLT se for eleito. O frentista não elogiou Lula, nada disso,
apenas definiu seu voto porque o outro vai prejudicá-lo.
Me
pareceu uma frase eficiente e simples para Lula usar na campanha. “Flávio vai
acabar com a CLT”. Não precisa ser dita com efeitos especiais de filme de
terror. Nem para causar medo. É só dizer como o frentista disse, acompanhado de
um sorriso: “o outro vai acabar com a CLT”.
Isso
pode ser dito numa conversa informal como essa que eu tive com ele, entre o
cliente e o frentista de um posto de gasolina. Dos 48.244.696 trabalhadores e
trabalhadoras CLT, ao menos 47 milhões são eleitores. Ou seja, a frase atinge
um terço do eleitorado.
• O plano fiscal de Flávio Bolsonaro
precisa que os juros façam parte do trabalho. Por André Vieira
A
reação positiva dos mercados no primeiro dia útil após o primeiro turno embute
uma aposta: a de que um eventual governo Flávio Bolsonaro fará um forte ajuste
fiscal. O mercado ainda espera, porém, maior detalhamento da proposta. No
início de setembro, Adolfo Sachsida, integrante da equipe econômica do
candidato, disse que seria possível colocar a relação dívida/PIB em trajetória
de queda em 18 meses. Assessores têm mencionado informalmente cortes de até R$
200 bilhões no primeiro ano. Parece muito, mas equivale a cerca de 1,5% do PIB
— praticamente o tamanho do déficit estrutural, estimado em 1,4% do PIB.
É aí
que os juros precisam fazer uma parte importante do trabalho. Com juro real
perto de 7% e crescimento de 2%, seria necessário superávit primário de cerca
de 3,25% do PIB para estabilizar a dívida. Se o juro real cair para 4% ou 5%, a
necessidade recua para 1,6% a 2,5%; aos 3% observados durante parte do governo
Temer, bastariam 0,8%. A estratégia da equipe econômica de Flávio fica mais
clara: cortar gastos, produzir um choque de credibilidade e deixar a queda do
custo da dívida completar parte do ajuste.
A
aritmética funciona melhor que o calendário. No governo Temer, os ganhos mais
expressivos nos juros levaram de dois a três anos para aparecer e ocorreram num
mundo em que os EUA tinham juros reais negativos; hoje estão perto de 2%. Há
ainda uma circularidade incômoda: para o mercado cobrar menos do governo,
precisa primeiro acreditar no ajuste. Só que a equipe ainda não detalhou
medidas estruturais em áreas como Previdência, vinculações, abono salarial ou
seguro-desemprego. Reforma administrativa, redução de ministérios, eliminação
de cargos e diminuição da burocracia podem ajudar, mas dificilmente produzirão
sozinhas uma economia dessa dimensão.
A
equação fica mais apertada porque Flávio também promete reduzir impostos. Menos
impostos, desregulamentação e juros menores podem elevar investimento e
crescimento, melhorando a dinâmica da dívida no futuro. Mas cortes tributários
reduzem receita imediatamente, crescimento adicional leva tempo e venda de
ativos diminui o estoque da dívida apenas uma vez. Até que esses benefícios
apareçam, o ajuste precisa existir no Orçamento.
A
aposta, portanto, não é economicamente absurda: credibilidade fiscal pode
reduzir os juros e, com eles, o superávit necessário para estabilizar a dívida.
Se todos os dias fossem como segunda-feira, tudo seria mais fácil. Mas a semana
continua – e a euforia do mercado acaba tendo de encontrar a aritmética fiscal.
O problema é transformar a expectativa de juros menores em premissa antes de
mostrar de onde sairão os cortes. Credibilidade pode reduzir o tamanho do
ajuste necessário. Não pode substituir o ajuste que cria a credibilidade.
Fonte:
Brasil 247

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