sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Flávio Bolsonaro e o voto envergonhado

O voto em Flávio Bolsonaro no primeiro turno foi silencioso. Voto envergonhado. O Brasil está dividido novamente. Só que desta vez a direita não fez estardalhaço antes das eleições. Aliás, também não comemorou. Não teve dancinha, nem antes e nem depois.

Diferente do pai, que chegou ao milicianismo após ser expulso do Exército, Flávio Bolsonaro já nasceu na maternidade miliciana. As pessoas que votaram nele, contra Lula e Geraldo Alckmin, fizeram o voto negativo, sem qualquer orgulho. Procuraram não revelar o voto. Flávio Bolsonaro esteve consciente disso o tempo todo. Ele foi claro e pediu o “voto de protesto”.

O voto em Flávio Bolsonaro foi igual ao voto no Jânio Quadros, naquela famosa eleição para a prefeitura de São Paulo em 1985, quando o histriônico venceu Fernando Henrique Cardoso. Lembro bem como os taxistas diziam para as meninas da PUC-SP, que eles iriam votar no FHC, ou mesmo no Eduardo Suplicy. Era apenas uma forma de esticar o papo com “garotas gostosinhas”. Mutatis mutandis ocorreu isso nessa eleição. Só que com bem menos conversa e qualquer gostosura.

As pessoas hoje, com a vitória do Flávio Bolsonaro, não ostentaram nenhum sinal de arrogância. Todos quietos. É duro ter que tirar o Lula apelando para um bandido!

Mas elas não tiraram o Lula. Na verdade, a eleição deu empate, e o país continua o mesmo de quando Lula venceu Jair Bolsonaro por uma pequena margem de votos. A proposta Lula-Alckmin está no páreo, e tudo vai depender de nós mesmos, e desta vez bem menos que de Lula.

Há uma imprensa sedenta em dizer que foi uma eleição sem proposta. Mas essa imprensa diria a mesma coisa se houvesse uma discussão programática. Fernando Haddad fez uma discussão programática em São Paulo, e a imprensa desconsiderou.

Essas eleições não precisaram de programa, pois as propostas são as mesmas da eleição anterior e a maior parte dos brasileiros, relativamente, sabe o que quer. A disputa se dá em torno de dois tipos de liberalismo, um conservador e um que olha mais à esquerda. Nossa política demorou quarenta anos para se americanizar, mas, enfim, chegamos a se parecer mais com os Estados Unidos do que com a Europa.

O que ocorreu no Brasil é que Lula, visto por muitos como socialista, resolveu fazer do liberalismo não uma ideologia, mas realizá-lo como doutrina. O liberalismo como ideologia diz que vai azeitar o capitalismo, mas é derrotado por ele. O liberalismo como doutrina, diferentemente, realmente promete certas coisas que se revelam como uma utopia capitalista.

Todo liberal diz que o princípio do capitalismo é a liberdade. Escolho um emprego e, se não gosto dele, abandono e vou buscar outro. O capitalismo não deixa isso ocorrer na prática. Sustenta um nível de desemprego que tira a chance do trabalhador de ser livre. Lula fez o pleno emprego, e então tornou o liberalismo uma verdade. Muitos brasileiros puderam de fato buscar outros empregos.

Uma parte do liberalismo conservador, em especial aquele endossado pela chamada classe média, viu nessas trocas de emprego uma chance de dizer que o brasileiro não queria mais trabalhar. O trabalhador estaria ficando pouco no trabalho e já pedia a conta, para então viver de alguma ajuda governamental.

A tese do brasileiro vagabundo praguejou no discurso da classe média, e o aríete sobrou para o peito do Lula. Ele teria incentivado a vagabundagem. Na verdade, Lula fez o pleno emprego sem inflação, com crescimento do PIB e remediou a inadimplência das famílias pelo programa Desenrola. Para quem teve um congresso opositor, fez milagre.

Karl Marx ficaria bem desapontado com Lula, ao ver que ele não aprofundou a crise capitalista, mas deu sobrevida ao liberalismo como doutrina, deixando de lado o liberalismo como ideologia. Isso seria suficiente para Lula e Geraldo Alckmin vencerem as eleições no passado, quando os trabalhadores estavam organizados em sindicatos, e quando esse tipo de organização era uma forma de politização.

Hoje, esses benefícios alcançados pelos governos de Lula não se fazem sentir, não são explorados como trunfo, e nem mesmo atingem a maior parte da sociedade. O neoliberalismo vigente soterrou a oportunidade da população sentir que Lula esteve próximo de realizar a utopia liberal.

Não é fácil explicar isso para aquela parte da população que trabalha direto e tem pouco tempo para se politizar. Difícil, inclusive, porque a militância do PT reluta em aceitar dar nome real para o que Lula conquistou, que é o nome que dei aqui: uma plataforma de realização da utopia liberal.

Até pouco tempo uma parte do PT não aceitava nem dizer a palavra social democracia! Uma parte do PT ainda prefere ficar xingando o adversário de “fascista” ou “golpista”. Não digo que isso não seja a verdade para parte da direita, mas o problema é que isso não significa nada para o eleitor.

Não faz parte daquilo que poderia colocar o eleitor contra a direita. São adjetivos que implicam em explicações demais, e que, uma vez dadas, também não atingem o coração de ninguém. Chamar alguém de fascista ou golpista vai mudar voto de quem? Ninguém mesmo!

O Brasil está dividido como na eleição anterior. E aquela pessoa que quer ver Lula e Geraldo Alckmin continuar as benfeitorias, mas vai ficar esperando Lula dar um golpe mortal no adversário em algum debate televisivo, vai nos derrotar. Para vencermos, vamos ter que sair de casa e virar voto com conversa inteligente, afável. Não podemos ser derrotados por nós mesmos.

 

Fonte: Por Paulo Ghiraldelli, em A Terra é Redonda 

 

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