Flávio
Bolsonaro e o voto envergonhado
O voto
em Flávio Bolsonaro no primeiro turno foi silencioso. Voto envergonhado. O
Brasil está dividido novamente. Só que desta vez a direita não fez estardalhaço
antes das eleições. Aliás, também não comemorou. Não teve dancinha, nem antes e
nem depois.
Diferente
do pai, que chegou ao milicianismo após ser expulso do Exército, Flávio
Bolsonaro já nasceu na maternidade miliciana. As pessoas que votaram nele,
contra Lula e Geraldo Alckmin, fizeram o voto negativo, sem qualquer orgulho.
Procuraram não revelar o voto. Flávio Bolsonaro esteve consciente disso o tempo
todo. Ele foi claro e pediu o “voto de protesto”.
O voto
em Flávio Bolsonaro foi igual ao voto no Jânio Quadros, naquela famosa eleição
para a prefeitura de São Paulo em 1985, quando o histriônico venceu Fernando
Henrique Cardoso. Lembro bem como os taxistas diziam para as meninas da PUC-SP,
que eles iriam votar no FHC, ou mesmo no Eduardo Suplicy. Era apenas uma forma
de esticar o papo com “garotas gostosinhas”. Mutatis mutandis ocorreu isso
nessa eleição. Só que com bem menos conversa e qualquer gostosura.
As
pessoas hoje, com a vitória do Flávio Bolsonaro, não ostentaram nenhum sinal de
arrogância. Todos quietos. É duro ter que tirar o Lula apelando para um
bandido!
Mas
elas não tiraram o Lula. Na verdade, a eleição deu empate, e o país continua o
mesmo de quando Lula venceu Jair Bolsonaro por uma pequena margem de votos. A
proposta Lula-Alckmin está no páreo, e tudo vai depender de nós mesmos, e desta
vez bem menos que de Lula.
Há uma
imprensa sedenta em dizer que foi uma eleição sem proposta. Mas essa imprensa
diria a mesma coisa se houvesse uma discussão programática. Fernando Haddad fez
uma discussão programática em São Paulo, e a imprensa desconsiderou.
Essas
eleições não precisaram de programa, pois as propostas são as mesmas da eleição
anterior e a maior parte dos brasileiros, relativamente, sabe o que quer. A
disputa se dá em torno de dois tipos de liberalismo, um conservador e um que
olha mais à esquerda. Nossa política demorou quarenta anos para se
americanizar, mas, enfim, chegamos a se parecer mais com os Estados Unidos do
que com a Europa.
O que
ocorreu no Brasil é que Lula, visto por muitos como socialista, resolveu fazer
do liberalismo não uma ideologia, mas realizá-lo como doutrina. O liberalismo
como ideologia diz que vai azeitar o capitalismo, mas é derrotado por ele. O
liberalismo como doutrina, diferentemente, realmente promete certas coisas que
se revelam como uma utopia capitalista.
Todo
liberal diz que o princípio do capitalismo é a liberdade. Escolho um emprego e,
se não gosto dele, abandono e vou buscar outro. O capitalismo não deixa isso
ocorrer na prática. Sustenta um nível de desemprego que tira a chance do
trabalhador de ser livre. Lula fez o pleno emprego, e então tornou o
liberalismo uma verdade. Muitos brasileiros puderam de fato buscar outros
empregos.
Uma
parte do liberalismo conservador, em especial aquele endossado pela chamada
classe média, viu nessas trocas de emprego uma chance de dizer que o brasileiro
não queria mais trabalhar. O trabalhador estaria ficando pouco no trabalho e já
pedia a conta, para então viver de alguma ajuda governamental.
A tese
do brasileiro vagabundo praguejou no discurso da classe média, e o aríete
sobrou para o peito do Lula. Ele teria incentivado a vagabundagem. Na verdade,
Lula fez o pleno emprego sem inflação, com crescimento do PIB e remediou a
inadimplência das famílias pelo programa Desenrola. Para quem teve um congresso
opositor, fez milagre.
Karl
Marx ficaria bem desapontado com Lula, ao ver que ele não aprofundou a crise
capitalista, mas deu sobrevida ao liberalismo como doutrina, deixando de lado o
liberalismo como ideologia. Isso seria suficiente para Lula e Geraldo Alckmin
vencerem as eleições no passado, quando os trabalhadores estavam organizados em
sindicatos, e quando esse tipo de organização era uma forma de politização.
Hoje,
esses benefícios alcançados pelos governos de Lula não se fazem sentir, não são
explorados como trunfo, e nem mesmo atingem a maior parte da sociedade. O
neoliberalismo vigente soterrou a oportunidade da população sentir que Lula
esteve próximo de realizar a utopia liberal.
Não é
fácil explicar isso para aquela parte da população que trabalha direto e tem
pouco tempo para se politizar. Difícil, inclusive, porque a militância do PT
reluta em aceitar dar nome real para o que Lula conquistou, que é o nome que
dei aqui: uma plataforma de realização da utopia liberal.
Até
pouco tempo uma parte do PT não aceitava nem dizer a palavra social democracia!
Uma parte do PT ainda prefere ficar xingando o adversário de “fascista” ou
“golpista”. Não digo que isso não seja a verdade para parte da direita, mas o
problema é que isso não significa nada para o eleitor.
Não faz
parte daquilo que poderia colocar o eleitor contra a direita. São adjetivos que
implicam em explicações demais, e que, uma vez dadas, também não atingem o
coração de ninguém. Chamar alguém de fascista ou golpista vai mudar voto de
quem? Ninguém mesmo!
O
Brasil está dividido como na eleição anterior. E aquela pessoa que quer ver
Lula e Geraldo Alckmin continuar as benfeitorias, mas vai ficar esperando Lula
dar um golpe mortal no adversário em algum debate televisivo, vai nos derrotar.
Para vencermos, vamos ter que sair de casa e virar voto com conversa
inteligente, afável. Não podemos ser derrotados por nós mesmos.
Fonte:
Por Paulo Ghiraldelli, em A Terra é Redonda

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