Francisco
Calmon: O risco de uma autocracia e a volta do velho sistema
Os três
Poderes da República são independentes e harmônicos entre si, segundo a
Constituição. Ocorre que, caso Flávio Bolsonaro vença a eleição, com a maioria
de áulicos no Congresso e, daqui a pouco tempo, também com a maioria no STF,
haverá mudanças na Carta Magna e ele se tornará um autocrata.
O risco
está na concentração de poder e na possibilidade de alterar as próprias regras
que sustentam o equilíbrio entre as instituições. Com um Congresso
majoritariamente alinhado e a perspectiva de uma maioria também no Supremo
Tribunal Federal, os mecanismos constitucionais de controle poderão ser
enfraquecidos, abrindo caminho para um governo autoritário. O equilíbrio entre
pesos e contrapesos desaparece.
Flávio
representa a volta do velho sistema: o capitalismo de extrema orientação
liberal, no qual a única perspectiva é a maximização do lucro e a pauperização
do proletariado. Esse projeto também significa a alienação dos bens naturais do
país, sua entrega às multinacionais, a subserviência absoluta aos EUA e um
governo voltado para atender aos interesses do mercado.
As
consequências desse modelo recairiam sobre a população trabalhadora, enquanto
os interesses do capital seriam privilegiados. O desemprego e o mapa da fome
estariam de volta, aprofundando a desigualdade social.
É isso
o que querem aqueles que votam em Flávio ou estão equivocados quanto ao projeto
que ele representa?
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Juros, crescimento econômico e a disputa eleitoral
Se
Galípolo tivesse baixado os juros, o Brasil teria crescido na faixa de 5%, e
não teria para ninguém. A redução dos juros poderia favorecer a atividade
econômica, estimular investimentos e ampliar as condições para a geração de
mais empregos, em vez de manter a economia submetida à camisa de força do
rentismo.
Mas
Galípolo trabalha a favor do rentismo e da manutenção de um exército de reserva
de mão de obra. Essa orientação parte da premissa de que o pleno emprego,
acompanhado de salários dignos, gera inflação. Assim, a política monetária
acaba subordinada à preocupação com os preços, enquanto o potencial de
crescimento econômico e a melhoria das condições de vida dos trabalhadores
ficam em segundo plano. Falta dialética nessa equação.
É nesse
contexto econômico e político que se coloca a disputa eleitoral.
Por que
Lula ganha no segundo turno? Porque haverá debates, e Flávio é fraco: só sabe
agredir e não tem projeto para apresentar. A comparação entre os candidatos
permitirá confrontar suas propostas e expor as diferenças entre as concepções
de país que representam.
Flávio
não entende de economia nem de gestão, nunca administrou nada e, segundo as
acusações aqui apontadas, sabe lavar dinheiro sujo, apropriar-se do dinheiro de
funcionários e ficar rico sem provar como ganhou. A fragilidade de sua
experiência administrativa e os questionamentos sobre sua trajetória poderão
pesar no confronto eleitoral, sobretudo quando tiver de apresentar propostas
concretas para o país.
O
dilema para o Brasil é: retrocesso à barbárie ou avanço civilizatório.
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Em nome do pai,
vote no filho. Por Gustavo Tapioca
Na
pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada em 28 de abril de 2026, os candidatos de
2022 foram novamente apresentados ao eleitor. Nesse cenário hipotético, Lula
aparecia com 45,2% e Jair Bolsonaro com 45,0%. A diferença era estatisticamente
irrelevante. Politicamente, o dado era estarrecedor.
Apesar
de um governo desastroso, robustas acusações de corrupção e de uma condenação a
27 anos e três meses de prisão por liderar a organização criminosa que golpe de
Estado, Jair Bolsonaro permanecia no mesmo patamar de intenção de voto de Lula,
o presidente que o derrotara nas urnas.
No dia
seguinte à divulgação da pesquisa Atlas/Bloomberg, em 29 de abril de 2026,
publicamos o artigo “Pesquisas mostram que o golpe ainda
respira”.
Sua conclusão continua valendo em outubro de 2026:
“a
democracia brasileira venceu juridicamente o golpe, mas ainda não derrotou a
mentalidade golpista.”
Pouco
mais de cinco meses depois, o primeiro turno da eleição de 2026, em 4 de
outubro, deu 47,03% dos votos válidos a Flávio Bolsonaro e 45,16% a Lula. O pai
estava fora da cédula. O filho levou o sobrenome e o projeto político ao
segundo turno, à frente do presidente Lula.
Pesquisa
e votação têm candidatos e bases de cálculo diferentes. O resultado das urnas
não tem margem de erro. O alerta da Atlas/Bloomberg em abril e o resultado do
primeiro turno da eleição, em 4 de outubro, permanece: a condenação do líder
não dissolveu a força eleitoral do bolsonarismo.
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A sentença transformada em perseguição
Em 25
de novembro de 2025, o STF determinou o início do cumprimento das penas de sete
condenados do núcleo central da trama golpista, entre eles Jair Bolsonaro,
generais, um almirante e ex-ministros.
Foi uma
vitória institucional. A responsabilização alcançou dirigentes que haviam
ocupado o comando do Estado e usado essa posição contra a ordem
democrática.
A
sentença, entretanto, não apaga as lealdades construídas em torno de um líder.
O bolsonarismo transforma a responsabilização em demonstração de
perseguição.
A
lógica lembra o trumpismo e sua versão brasileira, o bolsonarismo: a derrota é
apresentada como fraude; a investigação, como ataque; a condenação, como prova
de que o líder enfrenta o “sistema”.
Flávio
participa dessa operação. Na sabatina da TV Globo de 28 de agosto 2026, negou a
tentativa de golpe e a apresentou como uma “farsa armada para tirar o
presidente Bolsonaro da vida pública”.
Ao
negar o crime reconhecido no julgamento, o filho preserva a imagem do pai e
oferece aos seguidores uma explicação que dispensa rever sua adesão.
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“Meu pai vai subir a rampa comigo”
No dia
1º de março de 2026, durante o ato “Acorda, Brasil”, na Avenida Paulista, em
São Paulo, Flávio, ainda pré-candidato, fez uma promessa sobre o pai: “em
janeiro de 2027, ele irá pessoalmente subir aquela rampa do Planalto junto com
o povo brasileiro”.
Em 11
de abril, em Porto Alegre, no lançamento da pré-campanha de Luciano Zucco ao
governo do Rio Grande do Sul, ampliou a promessa: “Todas as pessoas que foram
perseguidas vão subir a rampa com a gente”.
Na
quarta-feira, 7 de outubro, após o primeiro turno, voltou à promessa em reunião
do PL. Disse que pretende governar “com o presidente Bolsonaro do meu lado, que
ele vai subir aquela rampa junto com a gente”.
O
condenado pelo crime de golpe de Estado passa a ser apresentado como
perseguido. Seu retorno é oferecido como reparação de uma injustiça. A promessa
mobiliza o ressentimento e dá à eleição a aparência de uma revanche.
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O pai como mito, o filho como instrumento
Jair
Bolsonaro está condenado, inelegível e preso. O Supremo o condenou como líder
da organização criminosa que tentou um golpe de Estado. A trama incluía o plano
“Punhal Verde e Amarelo”, que previa assassinar Lula e Geraldo Alckmin, então
presidente e vice-presidente eleitos, além do ministro Alexandre de
Moraes.
Flávio
representa esse campo político numa candidatura que promete devolver o
bolsonarismo ao governo. A disputa de 2026, portanto, é entre Lula e o filho do
líder da trama que previa seu assassinato.
O
primeiro turno confirma a capacidade de mobilização nacional dessa candidatura.
A continuidade também aparece nos compromissos públicos do filho. Na entrevista
de agosto, Flávio prometeu trabalhar pela anistia durante a transição. A
libertação do pai e dos demais condenados foi incorporada ao projeto
eleitoral.
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Em nome do pai, vote no filho
Para a
militância que considera Jair uma vítima, eleger Flávio significa abrir o
caminho para sua libertação e para o retorno do bolsonarismo ao poder. O pai
permanece como mártir. O filho se apresenta como aquele que poderá restaurar
seu lugar.
No
artigo “Flávio anuncia o roteiro do golpe
por dentro”,
publicado na quarta-feira, 7 de outubro, examinamos a combinação entre as
promessas de libertar o pai, alterar a Constituição e interferir no equilíbrio
entre os Poderes.
Esse
projeto pode voltar ao comando do Estado com a força política que sobreviveu à
condenação. Para o bolsonarismo, a sentença precisa ser desacreditada e o
líder, apresentado como injustiçado. A herança familiar precisa parecer
renovação para que o filho leve adiante o mesmo projeto.
Para
uma parcela radicalizada dos seguidores, aceitar a condenação exigiria rever a
própria história e reconhecer que seu líder tentou impedir a posse do vencedor,
comandando uma trama que previa assassinar o presidente Lula. A narrativa de
perseguição oferece uma saída: preservar a lealdade e atribuir aos adversários
a responsabilidade pelo destino do pai.
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O precedente turco
Recep
Tayyip Erdoğan está no poder na Turquia há 23 anos: foi primeiro-ministro de
2003 a 2014 e é presidente desde então. A reforma constitucional aprovada em
2017 e implementada em 2018 substituiu o parlamentarismo por uma Presidência de
poderes concentrados.
O cargo
de primeiro-ministro desapareceu, a fiscalização parlamentar enfraqueceu e a
independência judicial foi comprometida. As eleições continuaram, com
restrições à oposição e vantagem governista na cobertura da
imprensa.
É o
mecanismo do autoritarismo eleitoral: preservar o voto enquanto se esvaziam os
controles sobre o governante.
No
Brasil, já presidencialista, o risco de um caminho semelhante aparece nas
propostas de Flávio Bolsonaro. Ele anuncia que usará a maioria parlamentar para
mudar a Constituição e reformar o Judiciário.
Ao
defender o fim da reeleição, cogitou ampliar o próprio mandato de quatro para
cinco anos, deixando a decisão ao Congresso. Também prometeu indicar cinco
ministros para o STF e defende que o Senado afaste Alexandre de Moraes e outros
ministros por impeachment. A promessa de libertar o pai explicita o interesse
familiar que acompanha essa reorganização das instituições.
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A luta continua
Flávio
aposta no respaldo de Donald Trump e Marco Rubio — os defensores da doutrina
“Este hemisfério é nosso” e líderes da ultradireita que se espalha pelo mundo e
já chegou em todos os países da América do Sul, com exceção do Uruguai e da
joia da coroa chamada Brasil. Por enquanto.
Em 25
de outubro, os brasileiros decidirão quem ocupará a Presidência. Depois, se
vencer, Lula certamente dirá sua frase famosa: a luta continua,
companheiros.
A luta
para impedir que a memória do golpe seja convertida em culto, a condenação de
golpistas em martírio, e o Brasil em patrimônio dos Bolsonaro e quintal dos
Estados Unidos.
Fonte:
Brasil 247

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