quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Francisco Calmon: O risco de uma autocracia e a volta do velho sistema

Os três Poderes da República são independentes e harmônicos entre si, segundo a Constituição. Ocorre que, caso Flávio Bolsonaro vença a eleição, com a maioria de áulicos no Congresso e, daqui a pouco tempo, também com a maioria no STF, haverá mudanças na Carta Magna e ele se tornará um autocrata.

O risco está na concentração de poder e na possibilidade de alterar as próprias regras que sustentam o equilíbrio entre as instituições. Com um Congresso majoritariamente alinhado e a perspectiva de uma maioria também no Supremo Tribunal Federal, os mecanismos constitucionais de controle poderão ser enfraquecidos, abrindo caminho para um governo autoritário. O equilíbrio entre pesos e contrapesos desaparece.

Flávio representa a volta do velho sistema: o capitalismo de extrema orientação liberal, no qual a única perspectiva é a maximização do lucro e a pauperização do proletariado. Esse projeto também significa a alienação dos bens naturais do país, sua entrega às multinacionais, a subserviência absoluta aos EUA e um governo voltado para atender aos interesses do mercado.

As consequências desse modelo recairiam sobre a população trabalhadora, enquanto os interesses do capital seriam privilegiados. O desemprego e o mapa da fome estariam de volta, aprofundando a desigualdade social.

É isso o que querem aqueles que votam em Flávio ou estão equivocados quanto ao projeto que ele representa?

<><> Juros, crescimento econômico e a disputa eleitoral

Se Galípolo tivesse baixado os juros, o Brasil teria crescido na faixa de 5%, e não teria para ninguém. A redução dos juros poderia favorecer a atividade econômica, estimular investimentos e ampliar as condições para a geração de mais empregos, em vez de manter a economia submetida à camisa de força do rentismo.

Mas Galípolo trabalha a favor do rentismo e da manutenção de um exército de reserva de mão de obra. Essa orientação parte da premissa de que o pleno emprego, acompanhado de salários dignos, gera inflação. Assim, a política monetária acaba subordinada à preocupação com os preços, enquanto o potencial de crescimento econômico e a melhoria das condições de vida dos trabalhadores ficam em segundo plano. Falta dialética nessa equação.

É nesse contexto econômico e político que se coloca a disputa eleitoral.

Por que Lula ganha no segundo turno? Porque haverá debates, e Flávio é fraco: só sabe agredir e não tem projeto para apresentar. A comparação entre os candidatos permitirá confrontar suas propostas e expor as diferenças entre as concepções de país que representam.

Flávio não entende de economia nem de gestão, nunca administrou nada e, segundo as acusações aqui apontadas, sabe lavar dinheiro sujo, apropriar-se do dinheiro de funcionários e ficar rico sem provar como ganhou. A fragilidade de sua experiência administrativa e os questionamentos sobre sua trajetória poderão pesar no confronto eleitoral, sobretudo quando tiver de apresentar propostas concretas para o país.

O dilema para o Brasil é: retrocesso à barbárie ou avanço civilizatório.

¨       Em nome do pai, vote no filho. Por Gustavo Tapioca 

Na pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada em 28 de abril de 2026, os candidatos de 2022 foram novamente apresentados ao eleitor. Nesse cenário hipotético, Lula aparecia com 45,2% e Jair Bolsonaro com 45,0%. A diferença era estatisticamente irrelevante. Politicamente, o dado era estarrecedor. 

 Apesar de um governo desastroso, robustas acusações de corrupção e de uma condenação a 27 anos e três meses de prisão por liderar a organização criminosa que golpe de Estado, Jair Bolsonaro permanecia no mesmo patamar de intenção de voto de Lula, o presidente que o derrotara nas urnas. 

No dia seguinte à divulgação da pesquisa Atlas/Bloomberg, em 29 de abril de 2026, publicamos o artigo “Pesquisas mostram que o golpe ainda respira”. Sua conclusão continua valendo em outubro de 2026:  

“a democracia brasileira venceu juridicamente o golpe, mas ainda não derrotou a mentalidade golpista.” 

Pouco mais de cinco meses depois, o primeiro turno da eleição de 2026, em 4 de outubro, deu 47,03% dos votos válidos a Flávio Bolsonaro e 45,16% a Lula. O pai estava fora da cédula. O filho levou o sobrenome e o projeto político ao segundo turno, à frente do presidente Lula. 

Pesquisa e votação têm candidatos e bases de cálculo diferentes. O resultado das urnas não tem margem de erro. O alerta da Atlas/Bloomberg em abril e o resultado do primeiro turno da eleição, em 4 de outubro, permanece: a condenação do líder não dissolveu a força eleitoral do bolsonarismo. 

<><> A sentença transformada em perseguição 

Em 25 de novembro de 2025, o STF determinou o início do cumprimento das penas de sete condenados do núcleo central da trama golpista, entre eles Jair Bolsonaro, generais, um almirante e ex-ministros. 

Foi uma vitória institucional. A responsabilização alcançou dirigentes que haviam ocupado o comando do Estado e usado essa posição contra a ordem democrática. 

A sentença, entretanto, não apaga as lealdades construídas em torno de um líder. O bolsonarismo transforma a responsabilização em demonstração de perseguição.  

A lógica lembra o trumpismo e sua versão brasileira, o bolsonarismo: a derrota é apresentada como fraude; a investigação, como ataque; a condenação, como prova de que o líder enfrenta o “sistema”. 

Flávio participa dessa operação. Na sabatina da TV Globo de 28 de agosto 2026, negou a tentativa de golpe e a apresentou como uma “farsa armada para tirar o presidente Bolsonaro da vida pública”.  

Ao negar o crime reconhecido no julgamento, o filho preserva a imagem do pai e oferece aos seguidores uma explicação que dispensa rever sua adesão. 

<><> “Meu pai vai subir a rampa comigo” 

No dia 1º de março de 2026, durante o ato “Acorda, Brasil”, na Avenida Paulista, em São Paulo, Flávio, ainda pré-candidato, fez uma promessa sobre o pai: “em janeiro de 2027, ele irá pessoalmente subir aquela rampa do Planalto junto com o povo brasileiro”. 

Em 11 de abril, em Porto Alegre, no lançamento da pré-campanha de Luciano Zucco ao governo do Rio Grande do Sul, ampliou a promessa: “Todas as pessoas que foram perseguidas vão subir a rampa com a gente”. 

Na quarta-feira, 7 de outubro, após o primeiro turno, voltou à promessa em reunião do PL. Disse que pretende governar “com o presidente Bolsonaro do meu lado, que ele vai subir aquela rampa junto com a gente”. 

O condenado pelo crime de golpe de Estado passa a ser apresentado como perseguido. Seu retorno é oferecido como reparação de uma injustiça. A promessa mobiliza o ressentimento e dá à eleição a aparência de uma revanche. 

<><> O pai como mito, o filho como instrumento 

Jair Bolsonaro está condenado, inelegível e preso. O Supremo o condenou como líder da organização criminosa que tentou um golpe de Estado. A trama incluía o plano “Punhal Verde e Amarelo”, que previa assassinar Lula e Geraldo Alckmin, então presidente e vice-presidente eleitos, além do ministro Alexandre de Moraes. 

Flávio representa esse campo político numa candidatura que promete devolver o bolsonarismo ao governo. A disputa de 2026, portanto, é entre Lula e o filho do líder da trama que previa seu assassinato. 

O primeiro turno confirma a capacidade de mobilização nacional dessa candidatura. A continuidade também aparece nos compromissos públicos do filho. Na entrevista de agosto, Flávio prometeu trabalhar pela anistia durante a transição. A libertação do pai e dos demais condenados foi incorporada ao projeto eleitoral. 

<><> Em nome do pai, vote no filho  

Para a militância que considera Jair uma vítima, eleger Flávio significa abrir o caminho para sua libertação e para o retorno do bolsonarismo ao poder. O pai permanece como mártir. O filho se apresenta como aquele que poderá restaurar seu lugar. 

No artigo “Flávio anuncia o roteiro do golpe por dentro”, publicado na quarta-feira, 7 de outubro, examinamos a combinação entre as promessas de libertar o pai, alterar a Constituição e interferir no equilíbrio entre os Poderes. 

Esse projeto pode voltar ao comando do Estado com a força política que sobreviveu à condenação. Para o bolsonarismo, a sentença precisa ser desacreditada e o líder, apresentado como injustiçado. A herança familiar precisa parecer renovação para que o filho leve adiante o mesmo projeto. 

Para uma parcela radicalizada dos seguidores, aceitar a condenação exigiria rever a própria história e reconhecer que seu líder tentou impedir a posse do vencedor, comandando uma trama que previa assassinar o presidente Lula. A narrativa de perseguição oferece uma saída: preservar a lealdade e atribuir aos adversários a responsabilidade pelo destino do pai. 

<><> O precedente turco 

Recep Tayyip Erdoğan está no poder na Turquia há 23 anos: foi primeiro-ministro de 2003 a 2014 e é presidente desde então. A reforma constitucional aprovada em 2017 e implementada em 2018 substituiu o parlamentarismo por uma Presidência de poderes concentrados.  

O cargo de primeiro-ministro desapareceu, a fiscalização parlamentar enfraqueceu e a independência judicial foi comprometida. As eleições continuaram, com restrições à oposição e vantagem governista na cobertura da imprensa.  

É o mecanismo do autoritarismo eleitoral: preservar o voto enquanto se esvaziam os controles sobre o governante. 

No Brasil, já presidencialista, o risco de um caminho semelhante aparece nas propostas de Flávio Bolsonaro. Ele anuncia que usará a maioria parlamentar para mudar a Constituição e reformar o Judiciário. 

Ao defender o fim da reeleição, cogitou ampliar o próprio mandato de quatro para cinco anos, deixando a decisão ao Congresso. Também prometeu indicar cinco ministros para o STF e defende que o Senado afaste Alexandre de Moraes e outros ministros por impeachment. A promessa de libertar o pai explicita o interesse familiar que acompanha essa reorganização das instituições. 

<><> A luta continua 

Flávio aposta no respaldo de Donald Trump e Marco Rubio — os defensores da doutrina “Este hemisfério é nosso” e líderes da ultradireita que se espalha pelo mundo e já chegou em todos os países da América do Sul, com exceção do Uruguai e da joia da coroa chamada Brasil. Por enquanto. 

Em 25 de outubro, os brasileiros decidirão quem ocupará a Presidência. Depois, se vencer, Lula certamente dirá sua frase famosa: a luta continua, companheiros. 

A luta para impedir que a memória do golpe seja convertida em culto, a condenação de golpistas em martírio, e o Brasil em patrimônio dos Bolsonaro e quintal dos Estados Unidos. 

 

Fonte: Brasil 247

 

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