Fernando
Nogueira da Costa: O Baile das Civilizações
Um
problema para toda a humanidade é compreender a nova geografia da
prosperidade. Necessita comparar as trajetórias históricas da Europa,
América, China e Índia e, no presente, o contraste entre o “Estado de
Engenharia” chinês e a “Sociedade de Advogados” norte-americana.
Naquela
noite, o salão de danças Globo Terrestre estava lotado.
Na
entrada, um letreiro luminoso anunciava: GRANDE BAILE DA PROSPERIDADE —
descubra quem inventou o melhor caminho para o progresso
O
convite era provocador. Afinal, cada convidado chegava convencido de já
conhecer a resposta: EU! Um dizia EUA…
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Primeira dança: a Europa das Corporações e a China dos Clãs
A
primeira a se apresentar foi uma senhora muito elegante, coberta de medalhas
antigas.
—
Europa das Corporações, muito prazer. Universidades, cidades autônomas,
guildas, ordens religiosas, sociedades científicas, parlamentos… Tenho um
currículo de mil anos.
Logo
atrás chegou um senhor de idade ainda mais difícil de calcular.
— Sou o
China dos Clãs. Minha família também tem larga experiência histórica.
—
Família? — perguntou Europa.
—
Exatamente. Família. Só.
China
explicou: durante séculos, sua sociedade organizara a cooperação através de linhagens
patrilineares. Parentes ajudavam parentes, reverenciavam ancestrais e
respeitavam os mais velhos.
Europa
sorriu:
— É
familiar. Na Europa, a partir do início da Idade Média, a Igreja Católica
combateu ativamente as estruturas de parentesco estendido, proibindo casamentos
consanguíneos, poligamia etc. Resultou na prevalência da família nuclear. Isso
estimulou um sistema moral universalista, facilitando normas de conduta e cooperação
entre estranhos.
E abriu
seu leque:
—
Guildas juntaram artesãos. Universidades reuniram estudiosos. Cidades
conquistaram autonomia. Comerciantes criaram contratos. Reis necessitando de
impostos, para pagar mercenários e guerrear, tiveram de negociar com essas
corporações sociais. Daí vieram representação, consentimento, parlamentos e
Estado de Direito.
Era uma
diferença histórica: na China, clãs e linhagens organizaram a cooperação por
parentesco; na Europa, associações formais reuniram pessoas sem vínculos
familiares, como guildas, universidades, fraternidades e cidades autônomas.
China
dos Clãs respondeu:
—
Enquanto vocês perdiam tempo com brigas entre feudos, reis, nobres, bispos e
cidades, nós tínhamos um Império. A China era tudo sob o céu!
— Nós
chamamos essa “briga” de pluralismo democrático.
— Nós
chamávamos de bagunça.
— E nós
chamávamos o seu sistema de autocracia.
— Nós
chamávamos de ordem imperial.
O
garçom percebeu ser prudente retirar as taças de cristal da mesa.
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A velha discussão sobre quem inventou o progresso
Europa
continuou:
— Minha
fragmentação política permitiu ao inovador, caso fosse perseguido por um rei,
atravessar a fronteira e ir para outro reino. Minhas universidades e sociedades
científicas fizeram circular ideias. Juntei o sábio ao fabricante. E então…
Fez uma
pausa teatral.
—
Revolução Industrial!
China
dos Clãs pigarreou:
— Minha
cara senhora, por volta do ano 1000, quando eu já possuía elevada capacidade
estatal e avanços tecnológicos, você ainda estava tentando descobrir quem
mandava em cada feudo.
A
música parou.
Esse
era um golpe baixo, porque era historicamente pertinente. Durante a Dinastia
Song, a China estava à frente da Europa em tecnologia, renda e capacidade
estatal; séculos depois, ocorreu a inversão dessa história, denominada de
Grande Reversão, acompanhada por uma Grande Bifurcação institucional entre as
duas civilizações.
Europa
recompôs-se:
— Mas
quem chegou primeiro à Revolução Industrial?
— Você.
—
Portanto…
—
Portanto nada. Uma fotografia do século XVIII não explica um filme de mil anos.
Europa
fechou o leque. Aquela China sabia discutir com a sabedoria confuciana.
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Segunda dança: a Sociedade dos Advogados e o Estado de Engenharia
De
repente, surgiu outro personagem histórico. Entrou apressado, tendo usado
trem-bala, um chinês jovem carregando uma planta de metrô em uma mão e uma
maquete de usina na outra.
— Com
licença. Vou ampliar a roda da história da prosperidade no salão.
— Quem
autorizou?! — gritou imediatamente um advogado americano.
Vestia
terno formal, como vivesse em uma Corte Suprema, e carregava uma pasta contendo
licenças, recursos, pareceres, normas ambientais… e uma ação judicial
preventiva contra a ampliação dos participantes do salão Globo Terrestre.
—
Sociedade dos Advogados, Estados Unidos da América.
O
chinês apresentou-se:
—
Estado de Engenharia.
— O
senhor possui licença para construir?
— Já
construí.
O
americano olhou pela janela. Havia uma estação ferroviária nova para trem-bala.
— Mas
eu ainda nem terminei o estudo de impacto ambiental!
—
Também fiz a maior ponte suspensa do mundo.
—
Ponte?!
— E
energias renováveis, veículos elétricos, robótica e inteligência artificial.
— Vou
processá-lo!
—
Enquanto isso, construiremos outra fábrica robótica.
Era a
caricatura perfeita da oposição entre a China contemporânea como Estado de
Engenharia, governado por tecnocratas concentrados em execução física e
infraestrutura, diante dos Estados Unidos como Sociedade de Advogados, marcada
por procedimentos, litígios, regulamentação e vetos capazes de retardar
projetos.
O
americano ergueu o indicador:
—
Direitos individuais!
O
engenheiro baixou o capacete:
—
Capacidade de execução!
—
Devido processo legal!
— Trem
de alta velocidade!
—
Avaliação ambiental!
—
Painéis solares!
—
Audiência pública!
— Porto
novo!
—
Recurso judicial!
—
Cidade nova!
—
Liminar!
O DJ
interrompeu a música:
—
Senhores, desse jeito ninguém dança.
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Quando construir demais também quebra coisas
A velha
China dos Clãs chamou discretamente o jovem engenheiro.
— Meu
descendente, menos entusiasmo. Nossa família já aprendeu uma coisa sobre
excesso de confiança.
O
Estado de Engenharia não gostou.
— Mas
construímos mais rápido!
— Sim.
E às vezes construímos coisas desnecessárias.
— Temos
escala!
— E
dívidas.
—
Planejamento!
— E
decisões erradas em grande escala.
—
Engenharia social!
A velha
China arregalou os olhos:
— Aí é
justamente onde você deve tomar cuidado.
A velha
China Imperial ressalta os dois lados para o jovem: a capacidade chinesa de
mobilização produz infraestrutura em grande escala, mas também gera
endividamento, projetos inúteis e controles sociais rígidos. A velocidade capaz
de “quebrar imobilidade” pode igualmente “quebrar pessoas”.
O
americano aproveitou:
— Viu?
Por isso existem advogados.
O
engenheiro retrucou:
— E
quem protege vocês dos próprios advogados?
Silêncio.
Europa
cochichou:
— Boa
pergunta.
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A intrusa no salão
Foi
quando o porteiro apareceu aflito.
— Temos
um problema.
— Outro
engenheiro? — perguntou o americano.
— Outra
civilização.
Uma
jovem acabara de entrar pela porta dos fundos. Usava um vestido formado por
tecidos de muitas regiões, falava inglês com desenvoltura, carregava uma
Constituição enorme debaixo do braço e equilibrava no outro um pacote com
infraestrutura digital, exploração espacial e serviços de software.
— Quem
é você? — perguntaram todos.
— Índia
das Castas.
— Seu
nome não estava na lista! — protestou a Europa.
— Esse
é justamente o problema das listas feitas por eurocêntricos.
A
Sociedade dos Advogados aproximou-se:
— A
senhora possui credencial?
— Sou a
maior democracia do baile.
— Isso
não responde à pergunta.
— Ah,
entendo como funciona mal sua sociedade com uma democracia eleitoral onde o
mais votado nem sempre se elege: em vez de cada eleitor, um voto, é cada estado
um punhado de votos…
O
Estado de Engenharia perguntou:
— E
onde estão suas grandes obras?
—
Algumas chegaram. Outras estão presas no trânsito.
China
dos Clãs sorriu:
—
Finalmente, apareceu alguém cuja sociedade também preservou organizações
baseadas em pertencimento comunitário.
—
Calma, vovô. Minhas castas tiveram historicamente natureza ocupacional, mas
minha trajetória não é uma cópia da sua.
A jovem
Índia explicou: alcançara a independência diante do Império britânico, em 1947,
sendo muito pobre, extremamente diversa, dividida por línguas, religiões,
regiões, comunidades e castas — e, apesar disso, escolhera precocemente
eleições competitivas e democracia de massas.
— Fiz
uma coisa considerada improvável: comecei a democratizar antes de enriquecer.
Europa
ergueu a sobrancelha:
— E
prosperou?!
— Ainda
estou dançando.
— Isso
não é resposta.
— Para
civilizações, menos de cem anos também não são resposta.
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O espelho etnocêntrico
Índia
então percebeu um enorme espelho dourado no centro do salão.
Acima
dele estava escrito:
MODELO
UNIVERSAL DE CIVILIZAÇÃO BEM-SUCEDIDA.
Europa
correu primeiro para diante dele.
—
Naturalmente sou eu.
Índia
riu:
—
Eurocentrismo…
A
Sociedade dos Advogados ocupou o lugar:
— Agora
sou eu.
—
Americocentrismo…
O
Estado de Engenharia afastou ambos:
— O
futuro sou eu.
A jovem
balançou a cabeça:
—
Sinocentrismo…
A velha
China dos Clãs ficou constrangida.
Conhecia
aquela palavra. Durante séculos, lembrou ela, o Império se imaginara como “Tudo
sob o Céu”. Seu governante era o Filho do Céu. A civilização chinesa imaginava
ocupar o centro simbólico do mundo e daí os povos externos à sua esfera
cultural eram vistos como bárbaros.
—
Confesso — disse China. — Já tivemos nossa fase de achar o mapa-múndi em volta
de nós não ter nada de interesse para os chineses autossuficientes.
Europa
tossiu discretamente.
— Algum
problema? — perguntou Índia.
—
Poeira colonial. Até hoje sofro com ela, devido às Independências nacionais…
—
Imaginei.
Sua
advertência contra o etnocentrismo critica a tendência eurocêntrica de
converter a experiência europeia em padrão universal e estende a advertência ao
americocentrismo. Dada sua má experiência, a China deveria evitar a mesma
tendência de sinocentrismo ao julgar outras sociedades tomando a própria
experiência como referência superior.
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A dança impossível
Índia
subiu ao palco.
— Vocês
cometeram o mesmo erro a noite inteira.
— Qual?
— perguntaram os quatro.
—
Confundiram trajetória histórica com receita universal.
Apontou
para Europa:
— Você,
de início, mostrou a força das corporações, das regras impessoais e da
circulação descentralizada do conhecimento.
Para
China dos Clãs:
— Você
tinha mostrado a força da confiança comunitária, da continuidade histórica e da
coordenação.
Para o
americano:
— Você
mostrou o valor dos direitos individuais, do pluralismo e dos freios ao poder.
Para o
engenheiro chinês:
— E
você mostrou a importância da capacidade de fazer, construir, fabricar e
transformar conhecimento em coisas reais.
Os
quatro sorriram. Finalmente, alguém reconhecia a superioridade de cada um.
Mas
Índia completou:
— E
todos mostraram também seus defeitos.
Os
sorrisos desapareceram.
—
Corporações viraram privilégios exclusivistas. Clãs excluíram quaisquer
estranhos. Sociedade de Advogados transformou garantias legais em paralisia da
infraestrutura. Estado de Engenheiros trata pessoas como peças de uma máquina.
— E as
castas? — perguntou Europa.
Índia
respirou fundo:
— Podem
transformar ocupações herdadas em hierarquias sociais duradouras. Eu não disse
ter vindo aqui ensinar perfeição. Vim ensinar comparação.
O DJ
aproximou-se:
— Então
qual música devo tocar?
Índia
respondeu:
—
Nenhuma dança solo.
—
Valsa?
—
Coevolução.
— Nunca
ouvi.
—
Ninguém ouviu direito ainda. Por isso precisamos aprender os passos.
Europa
ofereceu a mão à China dos Clãs. A Sociedade dos Advogados, desconfiada,
aceitou dançar com o Estado de Engenharia — depois de fazê-lo assinar um termo
de responsabilidade. Índia dançou com todos.
Naturalmente,
pisaram várias vezes nos pés uns dos outros.
Era o
Globo Terrestre, afinal.
Antes
de sair, a jovem Índia virou o grande espelho dourado. No verso havia uma frase
escrita havia séculos, embora ninguém soubesse por quem:
“Quem
se considera o centro do mundo acaba confundindo a própria trajetória com o
destino da humanidade”.
Ela
acrescentou embaixo, com batom:
“Errar
é histórico. Repetir o erro é burrice”.
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Moral da estória:
O
progresso não possui uma única coreografia. Clãs, corporações, mercados,
Estados, democracias, burocracias, engenheiros e advogados são configurações
históricas, capazes de gerar capacidades e também bloqueios. O erro começa
quando uma civilização transforma seu êxito temporário em prova de
superioridade permanente.
O
etnocentrismo alimenta a ilusão da autossuficiência: deixa-se de
aprender justamente quando os outros começam a inovar. Aconteceu a decadência
da Europa quando se imaginou centro definitivo da civilização. Hoje, os Estados
Unidos confundem liderança histórica com supremacia permanente. É igualmente um
risco para a China novamente poderosa se ela transformar sua ascensão em novo sinocentrismo.
No
Salão Globo Terrestre, portanto, a civilização mais capaz de permanecer
próspera não é aquela com a cara de pau de proclamar ter inventado a melhor
dança, definitivamente, mas sim aquela capaz de observar os passos
alheios, reconhecer os próprios tropeços e aprender novas coreografias sem
deixar de ser ela mesma.
Fonte:
Viomundo

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