Do
Vale do Jequitinhonha ao Vale do Lítio: o dilema coletivo
Por
décadas, o Vale do Jequitinhonha, no Nordeste de Minas Gerais, foi
frequentemente retratado a partir da escassez. Nos últimos anos, porém, essa
narrativa começou a ganhar outro sentido. Com a exploração de suas reservas de
lítio (um mineral utilizado principalmente na produção de baterias) a região
passou a ser apresentada como estratégica para a transição energética global.
Jequitinhonha
é uma herança indígena. O nome, do dialeto do povo ancestral Maxakali, remete
ao “rio largo e cheio de peixes” que atravessa o vale. No entanto, no discurso
de governos e empresas o território ganhou o rótulo de “Vale do Lítio” e se
tornou o centro de um debate que extrapola os limites de Minas Gerais e do
próprio Brasil.
O
avanço da mineração de lítio no Vale do Jequitinhonha colocou a região numa
corrida global por minerais considerados essenciais para a transição
energética.
Por
outro lado, será que é possível falar em uma transição energética justa quando
os custos sociais e ambientais recaem sobre quem vive no Vale do Jequitinhonha?
Antes
de responder essa pergunta, é necessário entender melhor alguns fatores sobre o
lítio, a transição energética e a própria história da região mineira.
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Onde fica o Vale do Jequitinhonha e por que ele é estratégico?
O Vale
do Jequitinhonha abrange cerca de 55 municípios, no Nordeste de Minas Gerais. A
ocupação da região começou na época da colonização, em torno da bacia do rio. O
Jequitinhonha tem por volta de 1000 km de extensão e nasce na Serra do
Espinhaço, em Minas Gerais. Dali, ele recebe importantes afluentes e corre para
a Bahia, até desaguar no litoral baiano, na cidade de Belmonte.
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A história de exploração no Vale do Jequitinhonha
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Dos primeiros exploradores ao fim do ciclo do ouro e do diamante
Quem
prestou atenção às aulas de História lembra que Minas Gerais sempre foi alvo de
exploradores e aventureiros, em busca de riquezas. Ainda no século XVI, o rio
Jequitinhonha serviu como via de transporte para os primeiros exploradores, uma
ação que ecoou ao longo dos séculos, sendo repetida por outros que vieram
depois.
Como
consequência, o Vale foi moldado pela exploração mineral. A extração de ouro e
diamante seguiu até o início do século XIX, quando entrou em crise, em parte
pela queda dos preços do diamante após as descobertas na África do Sul. Esse
foi um dos fatores que impulsionou a dispersão populacional.
Libertos,
refugiados e homens livres se espalharam pelo interior, formaram quilombos e
passaram a viver da roça e da criação de animais. Assim, a agricultura e a
pecuária foram engatinhando até se desenvolverem na região.
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A invasão e os povos originários
Além
disso, como ocorreu no restante das Américas, a invasão europeia se manteve em
constante conflito com os povos originários. No Vale do Jequitinhonha não foi
diferente.
No
início do século XIX a Coroa Portuguesa passou a incentivar a colonização de
áreas mais remotas do Vale, concedendo terras, isentando impostos e dizimando
indígenas.
Esse é
o cenário que deu forma e ditou o ritmo de vida da sociedade do Vale do
Jequitinhonha. Hoje, o Vale é reconhecido tanto por sua rica cultura e pelo
desenvolvimento da agricultura familiar quanto pela pecuária extensiva. E mais
recentemente a região também passou a ser associada à exploração do lítio.
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O que é lítio e por que ele é tão importante
O lítio
é utilizado principalmente na produção de baterias de íons de lítio, presentes
em eletrônicos de consumo, veículos elétricos e sistemas de armazenamento de
energia.
A
expansão dessas tecnologias aumentou a demanda por baterias e colocou o mineral
no centro das discussões sobre transição energética. No caso dos veículos
elétricos, as baterias de lítio são atualmente a principal tecnologia
utilizada.
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Como surgiu o “Vale do Lítio” em Minas Gerais
O nome
“Vale do Lítio” está ligado a uma iniciativa do governo mineiro para promover a
exploração do lítio no Vale do Jequitinhonha.
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Um nome lançado em Nova York
Em maio
de 2023, o então governo estadual lançou o Lithium Valley Brazil, na Nasdaq
(uma das principais bolsas de valores dos Estados Unidos). O objetivo era
divulgar a exploração de lítio em Minas Gerais e atrair investidores.
No ano
seguinte, a iniciativa passou a integrar o Projeto Estratégico Vale do Lítio,
ampliando a proposta para questões relacionadas ao desenvolvimento da região e
aos impactos da mineração.
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A região e a economia verde
Com o
nome, a exploração do lítio passou a ser associada à chamada economia verde e à
transição energética. O Vale do Jequitinhonha, por sua vez, ganhou espaço em
uma disputa que envolve empresas, governos e interesses internacionais.
Por
outro lado, um estudo da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) aponta que a
expansão da mineração de lítio no Vale do Jequitinhonha tem provocado disputas
pelo território e afetado as comunidades locais.
Mas o
que significa, na prática, chamar esse lítio de “verde”?
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O que está por trás do “lítio verde”
O termo
lítio verde passou a circular no Vale com a entrada de mineradoras estrangeiras
e associa a exploração do mineral às ideias de desenvolvimento sustentável e
“mineração responsável”.
Por
outro lado, uma pesquisa da UFMG vê nesse discurso a volta das ideias
desenvolvimentistas de meados do século XX, agora com selo verde. Segundo o
estudo, a expressão esconde as desigualdades entre quem lucra com o lítio e
quem arca com os impactos, enquanto a mineração avança sobre os territórios.
É a
chamada “fachada verde”, o famoso greenwashing. A água é um exemplo: a pesquisa
aponta que a imagem do rio Jequitinhonha como poluído, difundida por
empresários do setor, ajuda a justificar o uso intenso do recurso pelas
mineradoras. Enquanto isso, comunidades locais convivem com a escassez de água
potável.
O uso
do lítio em tecnologias relacionadas à redução do uso de combustíveis fósseis
não implica que sua extração esteja livre de impactos ambientais e sociais. Não
torna sua mineração “sustentável”.
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Poeira, ruído e pressão
Na
prática, a expansão da mineração de lítio tem produzido mudanças no cotidiano
de comunidades próximas às áreas de exploração. Uma reportagem do jornal El
País, de 2024, relatou que moradores convivem com poeira e ruídos provocados
pelas detonações realizadas na mina em operação, além de terem relatado
rachaduras em casas.
A
reportagem também registrou preocupações com os efeitos da atividade sobre uma
área de proteção ambiental próxima ao município de Araçuaí. Na região existem
dezenas de nascentes.
Em uma
reportagem, publicada em 2024, a Mongabay Brasil ouviu moradores de comunidades
do Vale do Jequitinhonha. Eles relataram uma série de problemas associados à
mineração, incluindo poeira, ruídos, alterações em cursos d’água, interdição de
caminhos comunitários e conflitos pelo uso e pela posse da terra.
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Relatos de problemas de saúde e a decisão judicial
A
reportagem também registrou relatos de problemas respiratórios e outros
impactos à saúde após a chegada da mineração na região. Em uma atualização,
publicada em 2026, a reportagem informou que, por determinação judicial, passou
a incluir a ressalva de que não há estudos científicos que comprovem nexo
causal entre as atividades da mineradora e os problemas de saúde relatados.
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Aluguel, emprego e pouco valor agregado
Além
dos impactos ambientais, a dinâmica econômica e social dos municípios
envolvidos também foi alterada. Uma matéria do jornal Le Monde, de 2026,
mostrou que o aumento da procura por moradia em Araçuaí contribuiu para a
elevação dos aluguéis e sobrecarregou serviços públicos.
A
reportagem também mostra que, embora a atividade tenha criado empregos e
movimentado a economia local, os benefícios econômicos ainda não produziram a
transformação esperada para uma das regiões mais pobres de Minas Gerais.
De
acordo com o Le Monde, grande parte do material produzido na região é exportada
na forma de concentrado de espodumênio. A matéria-prima agrega pouco valor
tecnológico na própria região. Assim, apesar do Vale do Jequitinhonha
participar de uma cadeia produtiva voltada para uma tecnologia considerada
essencial, a região permanece distante das etapas de maior valor dessa cadeia.
No Vale
do Jequitinhonha, o debate passa não apenas pela finalidade do lítio depois que
ele deixa a região. O foco também está nas condições em que é extraído e pela
forma como seus benefícios e impactos são distribuídos.
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O paradoxo ambiental da transição energética
A
transição energética busca reduzir a dependência de combustíveis fósseis e
ampliar o uso de fontes de menor emissão de gases de efeito estufa. Mas essa
mudança também aumenta a demanda por minerais necessários para as novas
tecnologias energéticas, entre eles o lítio.
Uma
análise publicada na revista Nature Energy indica que a demanda global por
células de bateria deve crescer de forma expressiva até 2040. Isso significa
que a mudança na matriz energética também depende, por ora, da expansão da
atividade mineradora.
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O Triângulo do Lítio
Esse
aumento da demanda já colocou grandes áreas da América do Sul sob pressão. O
chamado Triângulo do Lítio, formado por Argentina, Bolívia e Chile, concentra
grandes reservas do mineral. A região se tornou uma das principais na
exploração de lítio do mundo.
Nesses
territórios, a expansão da mineração também tem afetado comunidades locais. Os
impactos estão relacionados ao uso da água e da terra e questões de saúde,
bem-estar, justiça social e direitos territoriais.
Esse é
um dos paradoxos da transição energética: reduzir determinados impactos
ambientais pode exigir a ampliação de outras formas de exploração dos recursos
naturais, que também causam impactos socioambientais. A transição não elimina a
mineração, mas modifica os minerais demandados e aumenta a exploração dos
locais que concentram esses recursos.
Por
isso, discutir uma transição energética não envolve apenas substituir uma fonte
de energia por outra.
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Um território que reflete um dilema global
A
história do Vale do Jequitinhonha ajuda a entender que a exploração de recursos
naturais não é uma questão nova na região. O que mudou foi o recurso
considerado importante para a economia e a narrativa que o acompanha. Se, no
passado, ouro e diamantes atraíram exploradores para o território, hoje o lítio
ocupa esse lugar, com a promessa de ser um mineral fundamental para o futuro.
A
diferença é que, desta vez, a demanda não parte apenas de interesses locais ou
nacionais. O lítio extraído em Minas Gerais está inserido em uma cadeia
internacional ligada às tecnologias energéticas e às transformações da matriz
energética mundial.
Ao
mesmo tempo, a mineração não distribui da mesma forma seus benefícios e seus
impactos. Enquanto governos e empresas apresentam a exploração do lítio como
oportunidade de desenvolvimento, comunidades próximas às minas convivem com
poeira, ruídos, alterações no uso do território, pressão sobre a moradia e
preocupações relacionadas à água e às atividades que sustentam a vida local.
Esse é
o dilema: a transição energética é necessária para enfrentar a crise climática,
mas os caminhos escolhidos para viabilizá-la também precisam considerar os
territórios e as pessoas envolvidos nesse processo.
O caso
do Vale do Jequitinhonha mostra que uma transição energética não pode ser
avaliada apenas pelo destino dos minerais extraídos ou pelas tecnologias
produzidas a partir deles. Também é preciso olhar para quem extrai, onde
extrai, em quais condições e como os benefícios e os impactos são distribuídos.
A
região, que durante décadas foi apresentada principalmente a partir da
escassez, agora ocupa um lugar de destaque na economia do lítio. A questão que
permanece é se essa nova posição será capaz de mudar, de fato, as condições de
vida de quem vive na região e a que custo.
Fonte:
eCycle

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