Tesouraço
de Flávio pode ser mortal para o SUS
Uma
matéria do jornal Folha de S.Paulo, publicada nesta quarta-feira (7), mostra um apanhado
das medidas que a equipe econômica do candidato à Presidência da República
Flávio Bolsonaro (PL) tem prometido à Faria Lima em um eventual governo. A meta
seria realizar um ajuste inicial da ordem de 2% do PIB, o equivalente a cerca de
R$ 250 bilhões.
Entre
as iniciativas listadas para alcançar essa meta estão a desvinculação dos
reajustes da Previdência Social e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) do
salário mínimo, podendo receber abaixo do valor que o governo considera o
básico para sobreviver. Também estaria nos planos o fim dos pisos
constitucionais que estabelecem a obrigatoriedade de investimentos na Saúde e
na Educação.
Oficialmente,
o candidato nega. “Vocês (aposentados) vão ter reajuste, sim, acima da inflação
das suas aposentadorias, que é uma coisa sagrada”, disse nesta quinta-feira (8). O que ele considera
“sagrado” não foi respeitado durante o governo do pai, Jair Bolsonaro, que
apenas repôs a inflação do salário mínimo e das aposentadorias, sem nunca ter
dado aumento real. A fala também contrasta com o que disse o coordenador de campanha
do candidato do PL em uma entrevista concedida em março.
“O modelo está estourando. Só posso dizer que a gente vai ter que revisitar a
Previdência”, disse o senador Rogério Marinho (PL-RN).
Mas o
que significaria um corte da magnitude de 2% do PIB para a Saúde? Para a
médica, professora titular da UFRJ e coordenadora do Grupo de Pesquisa e
Documentação sobre Empresariamento da Saúde, Ligia Bahia, o programa de Flávio
é uma “fake news” pelo fato de ser impossível compatibilizar tamanhos cortes no
orçamento com a promessa de melhorar o Sistema Único de Saúde (SUS).
Ela
destaca que, diante de um quadro de restrição orçamentária na área, seria pouco
provável que o ministro anunciado por Flávio para comandar a pasta, o médico
oftalmologista e presidente licenciado do Conselho Deliberativo do Hospital
Israelita Albert Einstein, Cláudio Lottenberg, assumisse o ministério. “O que a
gente acha, e já posso antecipar, é que ele vai governar com militares, tal
como o pai fez com o Pazuello”, aponta, lembrando o titular do Ministério da
Saúde que comandou as ações da área durante parte da pandemia de covid-19.
“Acho que ninguém com algum prestígio na área da saúde toparia ser ministro com
esse grau de corte de gastos.”
Risco
para as políticas sociais
O
presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Rômulo Paes de
Sousa, chama a atenção para o fato de Flávio Bolsonaro não ter deixado
explícito o que vai fazer na economia em seu plano de governo, que tem
generalidades como o uso da expressão “tesouraço” sem especificar onde os
cortes serão feitos de fato.
“Parte
de suas declarações parece contradizer o que outros interlocutores ligados a
ele disseram a determinados setores econômicos. O que se percebe é o improviso
na definição das medidas, enquanto diferentes setores disputam a agenda do
candidato. Ele é um candidato que mobiliza interesse, mas não apresenta um
projeto claro para o Brasil nem um compromisso com uma proposta consistente de
desenvolvimento econômico e social”, pontua.
Para
Paes de Sousa, embora não haja um detalhamento, a trajetória do senador e de
seu grupo sinaliza uma direção. “No entanto, o histórico político do candidato
e das forças que o apoiam aponta para uma alocação de recursos que favorece
principalmente os segmentos mais ricos da população. No fundo, essa é a grande
questão em disputa neste debate eleitoral: a quem o Estado brasileiro vai
servir, dependendo de quem vencer”, afirma.
“O que
o candidato parece sugerir é que, em caso de vitória, haverá uma forte
restrição das políticas sociais, com cortes concentrados principalmente nessa
área”, destaca. “Na prática, isso significa menos atendimento em saúde, menos
universidades, menos escolas públicas e menos proteção social, incluindo uma
previdência mais restrita. E não se trata apenas de reduzir o valor das
aposentadorias ou dos benefícios assistenciais, mas também de dificultar o
acesso a eles.”
O
presidente da Abrasco alerta que o eleitor “precisa estar atento aos próprios
interesses”, afirmando que uma candidatura como a de Flávio não parece ecoar as
expectativas da maioria da população, e sim as de uma minoria que recebe
isenções, desde contribuições previdenciárias até diferentes benefícios
tributários.
“É uma
agenda em que os recursos do Estado seriam ainda mais capturados por uma elite
econômica que o próprio candidato diz combater. Uma característica dos grupos
de extrema direita, como o que o candidato representa no Brasil, é
apresentar-se como popular, preocupado com o país e capaz de resolver seus
problemas”, explica. “Na prática, porém, a confusão entre as declarações de
seus diversos interlocutores parece apontar para uma agenda em que a maioria da
população brasileira perde. E perde muito.”
O
fantasma do teto de gastos e o desfinanciamento do SUS
“As
medidas fiscais previstas pela equipe do candidato Flávio Bolsonaro, conforme
registradas na matéria da Folha, representam um ataque frontal ao
Sistema Único de Saúde (SUS)”, diz a economista da Associação Brasileira de
Estudos de Saúde (ABrES), Mariana Alves Melo. “Já vimos algo semelhante
acontecer. Em 2016, com a promulgação da Emenda Constitucional nº 95, conhecida
como teto de gastos, o piso federal do SUS foi congelado nos valores de 2017.”
Mariana
lembra que esse congelamento provocou um período de desfinanciamento da saúde pública no Brasil: a
cada ano, havia menos recursos para manter o SUS. “Isso ocorreu justamente
quando a população envelhecia, crescia a necessidade de incorporar tecnologias
e medicamentos para melhorar os resultados em saúde e se faziam sentir os efeitos
das mudanças climáticas sobre as condições de saúde da população. Entre 2017 e
2022, a perda acumulada foi de aproximadamente R$ 60 bilhões.”
O
período crítico para a área só começou a ser revertido com a PEC da Transição,
promulgada no final de 2022, após a eleição do governo Lula, que permitiu
investimentos fora do teto de gastos para 2023 e determinou a criação de um
novo regime fiscal.
“A
medida teve um efeito importante sobre os recursos disponíveis para o SUS
naquele ano. A proposta orçamentária elaborada ainda pelo governo Bolsonaro
previa cortes de aproximadamente 50% a 60% em políticas já consolidadas, o que
poderia levar à sua descontinuidade. Entre elas estavam políticas de provimento
médico, como o Programa Médicos pelo Brasil, iniciativas capilares, como o
Farmácia Popular, e as políticas de saúde indígena”, recorda.
Embora
o Arcabouço Fiscal não tenha estabelecido o regime considerado necessário e
desejável para o SUS, ele não desvinculou o piso da Saúde do mínimo
constitucional, lembra a economista. “Com a extinção dos efeitos da Emenda
Constitucional nº 95, o piso federal voltou a corresponder a 15% da receita
corrente líquida. Como resultado, entre 2023 e 2025, houve um incremento
nominal de aproximadamente R$ 165 bilhões nos recursos do SUS.”
As
medidas prometidas pela equipe econômica de Flávio Bolsonaro à Faria Lima,
segundo Mariana, representariam uma volta atrás, alinhando-se ao antigo Teto de
Gastos estabelecido no governo Temer e mantido por Jair Bolsonaro. “Se os
recursos do SUS forem congelados e corrigidos apenas pela inflação, não será
possível atender às novas demandas que recaem sobre o sistema. Entre elas estão
os efeitos das mudanças climáticas, novas pandemias e epidemias e os avanços
tecnológicos, necessários para ampliar o acesso e tornar o sistema mais
eficiente, adverte.
“Uma
medida como essa, anunciada pelo candidato Flávio Bolsonaro, provocaria um novo
período de retrocesso na implementação do direito universal à saúde. Teríamos
perdas, piores resultados em saúde, descontinuidade de políticas e interrupção
dos avanços recentes”, sustenta.
Além do
impacto direto na saúde pública, a economista ressalta os efeitos que os cortes
na área teriam sobre a própria economia. “O SUS é a maior política do Estado
brasileiro e uma das que mais promovem distribuição de renda. O gasto público
tem efeito multiplicador: quando o Estado investe no SUS e amplia a oferta e a
diversidade de serviços, também movimenta a economia, gera renda e empregos e
aumenta o retorno em tributos e impostos”, define.
“Por
isso, os efeitos de uma medida fiscal dessa magnitude, anunciada pelo candidato
à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, seriam negativos não só para as
condições de saúde da população, mas também para o próprio ciclo econômico”,
conclui.
Fonte:
Por Glauco Faria, em Outra Saúde

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