Há
10 anos sem eleições, Haiti vive transição sem fim
O Haiti, país mais pobre das Américas, adiou por tempo
indeterminado as eleições presidenciais e legislativas que deveriam ocorrer em
dezembro.
O país
está mergulhado em violência de gangues e caos político e não realiza
eleições nacionais há dez anos. Seu último presidente eleito, Jovenel Moïse, foi assassinado em
2021. Após sua morte, Ariel Henry assumiu como líder do país, mas renunciou em 2024 em meio à crise
política e de segurança.
Desde
então, o Haiti é governado por autoridades de transição lideradas por um
Conselho Presidencial. O colegiado deveria conduzir o país até a realização de
eleições e a transferência do poder a um governo eleito, mas o processo sofreu
sucessivos atrasos. Atualmente, o primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé está
à frente da administração do país.
O
Conselho Eleitoral Provisório (CEP) informou na terça-feira (06/10), em
comunicado, que um novo calendário eleitoral "será divulgado o mais
rapidamente possível", levando em conta as "exigências técnicas e
operacionais do processo, assim como as condições necessárias para a realização
adequada das diferentes etapas".
"Era
algo quase completamente previsível. O Haiti não dispõe das condições
necessárias para realizar eleições", afirmou à DW Eduardo Gamarra,
professor de ciência política da Universidade Internacional da Flórida (FIU) e
especialista em Haiti.
Da
Cidade do México, o analista político Diego da Rin, do centro de estudos
International Crisis Group (ICG), concorda: "Já se via que o calendário
ambicioso publicado em julho não poderia ser cumprido".
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Segurança não é o único obstáculo
O
principal desafio do país continua sendo garantir condições mínimas de
segurança.
De
acordo com um relatório elaborado por especialistas indicados pela ONU, existem
hoje "fraturas violentas" dentro da poderosa aliança de gangues que domina o país, o
que expõe a socidade haitiana a uma nova onda de violência, deslocamentos,
violência sexual e recrutamento de crianças, inclusive em áreas que já haviam
sido estabilizadas.
Com a
proximidade das eleições, antes previstas para 13 de dezembro, as relações
entre líderes criminosos, intermediários e figuras políticas e econômicas foram
reativadas.
"Não
é possível realizar eleições em um país onde há um governo que não governa além
de Pétion-Ville, uma área de alto padrão da capital, Porto Príncipe, e que dispõe de uma
polícia sem capacidade de assegurar o mínimo em termos de segurança
pública", afirma Eduardo Gamarra.
Somente
neste ano, ao menos 5,7 mil pessoas morreram ou ficaram feridas
pelas mãos de gangues criminosas ou durante operações contra esses grupos,
segundo dados da ONU. Além disso, devido à crescente violência, quase 1,5
milhão de pessoas foram deslocadas.
Para
combater a violência e a criminalidade, o Conselho de Segurança da ONU enviou
ao Haiti a Força de Supressão de Gangues, que deveria ser composta por cerca de
5,5 mil integrantes. Atualmente, porém, ela conta com menos de um terço desse
efetivo.
"Nenhum
dos elementos necessários para a realização de eleições está pronto",
afirma Diego da Rin. No entanto, a questão não se limita à segurança. Também
seguem pendentes os preparativos eleitorais e as condições políticas. Em julho,
por exemplo, o próprio CEP iniciou o registro de eleitores em nove dos dez
departamentos do país, mas deixou de fora o Departamento do Oeste, onde fica
Porto Príncipe, devido às condições de segurança.
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Primeiro a segurança ou primeiro as eleições?
A
questão agora é saber o que deve vir primeiro: estabilizar o país ou realizar
eleições para sair da crise? "Na Venezuela, por exemplo, dizem que é
preciso primeiro estabilidade, depois reconstrução e, por fim, eleições. No
Haiti, isso foi invertido. Querem fazer primeiro as eleições, depois a
estabilidade e, então, a reconstrução", afirma Gamarra.
Da Rin
sustenta que "o Haiti não conseguirá derrotar completamente as gangues
antes de organizar suas eleições. Por isso, o governo terá de definir quais
condições mínimas de segurança deseja alcançar para avançar com a organização
do pleito e estabelecer metas realistas".
E o
problema da segurança vai muito além do controle de determinados bairros de
Porto Príncipe. Diversas organizações alertam que as gangues dominam amplas
áreas da capital e de outras regiões do país. Elas também controlariam portos,
estradas, combustível e atividades econômicas.
"As
gangues controlam sobretudo a faixa litorânea, onde está concentrada a maior
parte das atividades econômicas", afirma Da Rin. "Elas estabeleceram
pedágios ilegais, que neste momento são uma de suas principais fontes de
financiamento."
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Votar não é prioridade para os haitianos?
Há
ainda outro desafio: garantir que os haitianos possam e queiram participar das
eleições. "A coisa mais distante da mente deles neste momento é
votar", diz Gamarra. "O que está em suas cabeças é: vou comer hoje?
Vou conseguir sobreviver? Como me proteger da violência?"
Por
isso, não basta marcar uma data para as eleições. Também é necessário criar um
processo eleitoral no qual a população possa e queira participar. "Eles
não conseguiram recompor o cadastro eleitoral. Então quem vai votar no Haiti?
Essa é uma das perguntas centrais", insiste Gamarra.
Além
disso, segundo o especialista, a responsabilidade pela crise não recai apenas
sobre o Haiti. O professor considera insuficiente o envolvimento dos Estados
Unidos, dos países da região, das Nações Unidas e da União Europeia. "Se o
problema não existe para os Estados Unidos, então também não existe para o
restante do hemisfério", lamenta.
Diante
desse cenário, especialistas avaliam que o país corre risco de ficar preso em
um impasse sem perspectiva de solução.
"Isso
pode durar por tempo indeterminado. Pode ser uma transição sem fim", diz
Gamarra.
Da Rin
concorda: "Enquanto os preparativos técnicos para as eleições não
estiverem vinculados a um plano de segurança, com metas concretas, as eleições
continuarão sendo adiadas indefinidamente".
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Violência de gangues no Haiti matou 5,7 mil em 2026, diz
ONU
A
violência de gangues no Haiti deixou pelo menos 5,7 mil pessoas mortas ou feridas em
2026, e mais de mil mulheres e meninas foram estupradas, afirmou nesta
sexta-feira (02/10) o alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk.
Os
dados compilados pela missão da ONU no Haiti até 11 de setembro incluem também
230 sequestros, embora Türk tenha ressaltado que "os números reais
provavelmente são muito mais elevados".
Ao
discursar no Conselho de Direitos Humanos da ONU, Türk alertou que as gangues
continuam a se expandir, apesar do envio de uma força internacional de
segurança destinada a ajudar as autoridades haitianas a restaurar a ordem.
"Apesar
de algum sucesso na contenção de suas atividades em partes da capital, Porto
Príncipe, as gangues continuam a se adaptar e a se expandir, ressurgindo em
novas áreas e rearmando-se constantemente", afirmou.
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Contingente insuficiente
Türk
disse que o efetivo da Força de Combate às Gangues enviada ao país permanece
significativamente insuficiente. A missão multinacional tem como meta ampliar
seu contingente para 5,5 mil membros, mas conta atualmente com cerca de 1,5
mil, o que, segundo o alto comissário, é "muito abaixo do efetivo
necessário".
Ao
mesmo tempo, ele reiterou que a ONU tem "sérias preocupações quanto ao uso
desnecessário e desproporcional da força" pelas forças de segurança
nacionais do Haiti e por grupos civis de autodefesa formados em reação à
violência das gangues. Segundo o alto comissário, esses grupos mataram ou
feriram cerca de 280 pessoas somente este ano.
"Desde
o início do ano, mais da metade de todas as baixas ocorreu no contexto de
operações de segurança, com centenas de pessoas atingidas por balas perdidas e
drones explosivos", disse Türk.
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"Cabeça da serpente"
William
O'Neill, especialista designado por Türk para questões de direitos humanos no
Haiti, relatou a jornalistas que a situação é "grave, mas não
desesperadora".
Ele
afirmou que, se uma Força de Combate às Gangues com efetivo completo dispusesse
das recursos adequados, como inteligência, equipamentos de visão noturna,
helicópteros, poderia ser altamente eficaz contra as gangues, cujo poder está
concentrado nas mãos de poucos.
O'Neill
observou que não é segredo quem são os líderes das gangues nem onde eles estão;
portanto, se uma equipe pudesse intervir rapidamente e prender a cúpula,
"muito provavelmente a gangue entraria em colapso".
As
gangues entendem a dinâmica de poder, "e se você for mais poderoso do que
elas, acabou o jogo", disse o especialista, que ajudou a criar a Polícia
Nacional do Haiti em 1995.
Capturar
um grupo de líderes do alto escalão ou "cortar a cabeça da
serpente", seria "absolutamente decisivo", disse O'Neill à
associação de correspondentes da ONU.
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Armas vindas da Flórida
"Se
for possível cortar e sufocar o acesso deles a financiamento e armamento"
através de embargos de armas e sanções, "isso se torna muito mais fácil do
que qualquer ação cinética", acrescentou.
Quanto
às armas recuperadas das gangues, uma "quantidade esmagadora" pôde
ser rastreada até lojas de armas em "dez a 12 códigos postais da
Flórida", afirmou, advertindo que os Estados Unidos "precisam fazer
muito mais".
O'Neill
disse que as gangues não possuem ideologias e se sustentam na
"criminalidade pura", sendo que cerca de metade de seus membros eram
menores de idade.
"As
gangues não têm apoio popular; é zero. A população as odeia, e com razão",
afirmou.
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Como traficantes mexicanos driblam maior fiscalização
A
descoberta de um suposto megalaboratório de metanfetamina no estado mexicano de
Chihuahua em meados de setembro reacendeu o debate sobre a força da indústria
das drogas sintéticas no México. Embora o governo tenha intensificado as
operações contra o narcotráfico sob pressão dos Estados Unidos, especialistas
afirmam que os cartéis vêm adaptando seus métodos de produção e distribuição.
Enquanto o mercado de fentanil dá sinais de
retração, a metanfetamina continua em
expansão, impulsionada por técnicas de fabricação mais baratas e pela
persistente demanda nos EUA e no próprio México.
"Cem
mil doses diárias de metanfetamina que não chegarão mais às nossas ruas, a
nenhum jovem, a nenhuma família de Chihuahua, e que não vão cruzar a
fronteira", comemorou a governadora do estado mexicano de Chihuahua, María
Eugenia Campos, após a descoberta de um suposto laboratório clandestino de
drogas, que chamou atenção por suas dimensões.
A
instalação, localizada nas proximidades da cidade de Parral, supostamente
era capaz de produzir até 100 quilos de metanfetamina por dia.
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Dimensão da produção de drogas
Inicialmente,
os traficantes mexicanos buscaram reduzir a dependência da cocaína colombiana
investindo na produção de drogas sintéticas, explica o analista político e
especialista em segurança David Saucedo.
Segundo
ele, enquanto os grandes cartéis instalaram complexos industriais clandestinos,
como o de Chihuahua, com cerca de mil metros quadrados destinados à produção de
metanfetamina, organizações menores passaram a operar laboratórios
rudimentares, com apenas cinco metros quadrados, em áreas isoladas, onde a
dispersão dos vapores tóxicos é mais fácil.
Contudo,
diante da forte pressão do governo dos Estados Unidos para desmantelar os
chamados "macrolaboratórios", os grandes cartéis estariam migrando
para estruturas menores, o que lhes permitiria escapar mais facilmente das
operações policiais e reduzir prejuízos em caso de apreensões, afirma Saucedo.
Depois
que o presidente americano, Donald Trump, ameaçou atacar laboratórios com mísseis, os
grupos criminosos teriam inclusive transferido parte de suas
"cozinhas" de drogas para áreas urbanas. Na avaliação de Saucedo, o
objetivo seria aumentar o risco de mortes de civis caso ocorresse um ataque,
elevando assim o custo político e midiático para os EUA.
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Menos fentanil, mais metanfetamina
José
Andrés Sumano Rodríguez, pesquisador do Colégio da Fronteira Norte, explica à
DW que os traficantes mexicanos dominaram o método de produção baseado no
precursor químico conhecido como P2P, fundamental para a fabricação de
metanfetamina. Com isso, deixaram de depender de medicamentos altamente
controlados no México, como a pseudoefedrina. No Brasil, a pseudoefedrina é
permitida, mas seu uso e comercialização são controlados pela Anvisa, já que
a substância pode ser utilizada na fabricação ilegal de metanfetamina.
"Eles
[os fabricantes de drogas mexicanos] encontraram um método mais barato e
baseado em insumos menos regulados. Ainda assim, o gargalo continua sendo a
disponibilidade de precursores químicos vindos da Ásia e de cozinheiros
especializados", afirma.
Segundo
Sumano, atualmente há uma redução das mortes por overdose de fentanil nos
Estados Unidos. Com a metanfetamina, porém, a situação é diferente.
"O
mercado parece estar mais abastecido, com produtos de maior pureza e apreensões
que batem recordes. O aumento das apreensões e do fechamento de laboratórios no
México não está se traduzindo em menor disponibilidade da droga nos Estados
Unidos. Além disso, o consumo de metanfetamina também aumentou
consideravelmente no México", afirma.
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Pressão dos Estados Unidos
O
governo da presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, intensificou o combate ao
narcotráfico em meio à crescente pressão dos Estados Unidos, principal destino
das drogas produzidas no México.
O
secretário de Segurança, Omar García Harfuch, afirma que, desde outubro de
2024, as forças de segurança mexicanas já desmontaram 2.771 laboratórios
clandestinos.
Para
Sumano, embora o governo mexicano esteja fazendo mais do que em anos
anteriores, os resultados ainda ficam aquém do esperado.
Na
avaliação do pesquisador, seria necessário concentrar esforços nos pontos mais
vulneráveis da cadeia de produção, especialmente no fornecimento de precursores
químicos e na formação dos chamados "cozinheiros", responsáveis pela
fabricação das drogas.
David
Saucedo também critica o fato de o governo divulgar apenas o número absoluto de
laboratórios fechados, sem apresentar estimativas sobre o total de instalações
clandestinas existentes no país.
"Falta
saber qual é o impacto real dessas operações", argumenta.
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Além dos laboratórios
David
Mora, analista sênior para o México do International Crisis Group (ONG voltada
à resolução e prevenção de conflitos armados internacionais), também recomenda
cautela ao interpretar os números oficiais. Segundo ele, o governo costuma
mencionar o fechamento de "locais ou áreas de concentração",
categoria que pode incluir não apenas fábricas de metanfetamina, mas também
depósitos e pontos de transporte de drogas e de seus componentes químicos.
"Essas
ações de curto prazo são muito importantes. As apreensões devem ser
reconhecidas e celebradas", afirma Mora à DW.
Mas ele
ressalta uma questão central: "a pergunta é quantas dessas
descobertas levam a prisões. E quantas dessas prisões resultam em investigações
criminais profundas e sérias, capazes de desmantelar as redes de
produção."
Por
isso, o especialista defende que as operações contra laboratórios clandestinos
sejam acompanhadas por investigações judiciais igualmente intensivas, para
atingir não apenas as estruturas físicas, mas toda a cadeia criminosa envolvida
no narcotráfico.
Fonte:
DW Brasil

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