quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Há 10 anos sem eleições, Haiti vive transição sem fim

O Haiti, país mais pobre das Américas, adiou por tempo indeterminado as eleições presidenciais e legislativas que deveriam ocorrer em dezembro.

O país está mergulhado em violência de gangues e caos político e não realiza eleições nacionais há dez anos. Seu último presidente eleito, Jovenel Moïse, foi assassinado em 2021. Após sua morte, Ariel Henry assumiu como líder do país, mas renunciou em 2024 em meio à crise política e de segurança.

Desde então, o Haiti é governado por autoridades de transição lideradas por um Conselho Presidencial. O colegiado deveria conduzir o país até a realização de eleições e a transferência do poder a um governo eleito, mas o processo sofreu sucessivos atrasos. Atualmente, o primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé está à frente da administração do país.

O Conselho Eleitoral Provisório (CEP) informou na terça-feira (06/10), em comunicado, que um novo calendário eleitoral "será divulgado o mais rapidamente possível", levando em conta as "exigências técnicas e operacionais do processo, assim como as condições necessárias para a realização adequada das diferentes etapas".

"Era algo quase completamente previsível. O Haiti não dispõe das condições necessárias para realizar eleições", afirmou à DW Eduardo Gamarra, professor de ciência política da Universidade Internacional da Flórida (FIU) e especialista em Haiti.

Da Cidade do México, o analista político Diego da Rin, do centro de estudos International Crisis Group (ICG), concorda: "Já se via que o calendário ambicioso publicado em julho não poderia ser cumprido".

<><> Segurança não é o único obstáculo

O principal desafio do país continua sendo garantir condições mínimas de segurança.

De acordo com um relatório elaborado por especialistas indicados pela ONU, existem hoje "fraturas violentas" dentro da poderosa aliança de gangues que domina o país, o que expõe a socidade haitiana a uma nova onda de violência, deslocamentos, violência sexual e recrutamento de crianças, inclusive em áreas que já haviam sido estabilizadas.

Com a proximidade das eleições, antes previstas para 13 de dezembro, as relações entre líderes criminosos, intermediários e figuras políticas e econômicas foram reativadas.

"Não é possível realizar eleições em um país onde há um governo que não governa além de Pétion-Ville, uma área de alto padrão da capital, Porto Príncipe, e que dispõe de uma polícia sem capacidade de assegurar o mínimo em termos de segurança pública", afirma Eduardo Gamarra.

Somente neste ano, ao menos 5,7 mil pessoas morreram ou ficaram feridas pelas mãos de gangues criminosas ou durante operações contra esses grupos, segundo dados da ONU. Além disso, devido à crescente violência, quase 1,5 milhão de pessoas foram deslocadas.

Para combater a violência e a criminalidade, o Conselho de Segurança da ONU enviou ao Haiti a Força de Supressão de Gangues, que deveria ser composta por cerca de 5,5 mil integrantes. Atualmente, porém, ela conta com menos de um terço desse efetivo.

"Nenhum dos elementos necessários para a realização de eleições está pronto", afirma Diego da Rin. No entanto, a questão não se limita à segurança. Também seguem pendentes os preparativos eleitorais e as condições políticas. Em julho, por exemplo, o próprio CEP iniciou o registro de eleitores em nove dos dez departamentos do país, mas deixou de fora o Departamento do Oeste, onde fica Porto Príncipe, devido às condições de segurança.

<><> Primeiro a segurança ou primeiro as eleições?

A questão agora é saber o que deve vir primeiro: estabilizar o país ou realizar eleições para sair da crise? "Na Venezuela, por exemplo, dizem que é preciso primeiro estabilidade, depois reconstrução e, por fim, eleições. No Haiti, isso foi invertido. Querem fazer primeiro as eleições, depois a estabilidade e, então, a reconstrução", afirma Gamarra.

Da Rin sustenta que "o Haiti não conseguirá derrotar completamente as gangues antes de organizar suas eleições. Por isso, o governo terá de definir quais condições mínimas de segurança deseja alcançar para avançar com a organização do pleito e estabelecer metas realistas".

E o problema da segurança vai muito além do controle de determinados bairros de Porto Príncipe. Diversas organizações alertam que as gangues dominam amplas áreas da capital e de outras regiões do país. Elas também controlariam portos, estradas, combustível e atividades econômicas.

"As gangues controlam sobretudo a faixa litorânea, onde está concentrada a maior parte das atividades econômicas", afirma Da Rin. "Elas estabeleceram pedágios ilegais, que neste momento são uma de suas principais fontes de financiamento."

<><> Votar não é prioridade para os haitianos?

Há ainda outro desafio: garantir que os haitianos possam e queiram participar das eleições. "A coisa mais distante da mente deles neste momento é votar", diz Gamarra. "O que está em suas cabeças é: vou comer hoje? Vou conseguir sobreviver? Como me proteger da violência?"

Por isso, não basta marcar uma data para as eleições. Também é necessário criar um processo eleitoral no qual a população possa e queira participar. "Eles não conseguiram recompor o cadastro eleitoral. Então quem vai votar no Haiti? Essa é uma das perguntas centrais", insiste Gamarra.

Além disso, segundo o especialista, a responsabilidade pela crise não recai apenas sobre o Haiti. O professor considera insuficiente o envolvimento dos Estados Unidos, dos países da região, das Nações Unidas e da União Europeia. "Se o problema não existe para os Estados Unidos, então também não existe para o restante do hemisfério", lamenta.

Diante desse cenário, especialistas avaliam que o país corre risco de ficar preso em um impasse sem perspectiva de solução.

"Isso pode durar por tempo indeterminado. Pode ser uma transição sem fim", diz Gamarra.

Da Rin concorda: "Enquanto os preparativos técnicos para as eleições não estiverem vinculados a um plano de segurança, com metas concretas, as eleições continuarão sendo adiadas indefinidamente".

¨      Violência de gangues no Haiti matou 5,7 mil em 2026, diz ONU

A violência de gangues no Haiti deixou pelo menos 5,7 mil pessoas mortas ou feridas em 2026, e mais de mil mulheres e meninas foram estupradas, afirmou nesta sexta-feira (02/10) o alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk.

Os dados compilados pela missão da ONU no Haiti até 11 de setembro incluem também 230 sequestros, embora Türk tenha ressaltado que "os números reais provavelmente são muito mais elevados".

Ao discursar no Conselho de Direitos Humanos da ONU, Türk alertou que as gangues continuam a se expandir, apesar do envio de uma força internacional de segurança destinada a ajudar as autoridades haitianas a restaurar a ordem.

"Apesar de algum sucesso na contenção de suas atividades em partes da capital, Porto Príncipe, as gangues continuam a se adaptar e a se expandir, ressurgindo em novas áreas e rearmando-se constantemente", afirmou.

<><> Contingente insuficiente

Türk disse que o efetivo da Força de Combate às Gangues enviada ao país permanece significativamente insuficiente. A missão multinacional tem como meta ampliar seu contingente para 5,5 mil membros, mas conta atualmente com cerca de 1,5 mil, o que, segundo o alto comissário, é "muito abaixo do efetivo necessário".

Ao mesmo tempo, ele reiterou que a ONU tem "sérias preocupações quanto ao uso desnecessário e desproporcional da força" pelas forças de segurança nacionais do Haiti e por grupos civis de autodefesa formados em reação à violência das gangues. Segundo o alto comissário, esses grupos mataram ou feriram cerca de 280 pessoas somente este ano.

"Desde o início do ano, mais da metade de todas as baixas ocorreu no contexto de operações de segurança, com centenas de pessoas atingidas por balas perdidas e drones explosivos", disse Türk.

<><> "Cabeça da serpente"

William O'Neill, especialista designado por Türk para questões de direitos humanos no Haiti, relatou a jornalistas que a situação é "grave, mas não desesperadora".

Ele afirmou que, se uma Força de Combate às Gangues com efetivo completo dispusesse das recursos adequados, como inteligência, equipamentos de visão noturna, helicópteros, poderia ser altamente eficaz contra as gangues, cujo poder está concentrado nas mãos de poucos.

O'Neill observou que não é segredo quem são os líderes das gangues nem onde eles estão; portanto, se uma equipe pudesse intervir rapidamente e prender a cúpula, "muito provavelmente a gangue entraria em colapso".

As gangues entendem a dinâmica de poder, "e se você for mais poderoso do que elas, acabou o jogo", disse o especialista, que ajudou a criar a Polícia Nacional do Haiti em 1995.

Capturar um grupo de líderes do alto escalão ou "cortar a cabeça da serpente", seria "absolutamente decisivo", disse O'Neill à associação de correspondentes da ONU.

<><> Armas vindas da Flórida

"Se for possível cortar e sufocar o acesso deles a financiamento e armamento" através de embargos de armas e sanções, "isso se torna muito mais fácil do que qualquer ação cinética", acrescentou.

Quanto às armas recuperadas das gangues, uma "quantidade esmagadora" pôde ser rastreada até lojas de armas em "dez a 12 códigos postais da Flórida", afirmou, advertindo que os Estados Unidos "precisam fazer muito mais".

O'Neill disse que as gangues não possuem ideologias e se sustentam na "criminalidade pura", sendo que cerca de metade de seus membros eram menores de idade.

"As gangues não têm apoio popular; é zero. A população as odeia, e com razão", afirmou.

¨      Como traficantes mexicanos driblam maior fiscalização

A descoberta de um suposto megalaboratório de metanfetamina no estado mexicano de Chihuahua em meados de setembro reacendeu o debate sobre a força da indústria das drogas sintéticas no México. Embora o governo tenha intensificado as operações contra o narcotráfico sob pressão dos Estados Unidos, especialistas afirmam que os cartéis vêm adaptando seus métodos de produção e distribuição. Enquanto o mercado de fentanil dá sinais de retração, a metanfetamina continua em expansão, impulsionada por técnicas de fabricação mais baratas e pela persistente demanda nos EUA e no próprio México.

"Cem mil doses diárias de metanfetamina que não chegarão mais às nossas ruas, a nenhum jovem, a nenhuma família de Chihuahua, e que não vão cruzar a fronteira", comemorou a governadora do estado mexicano de Chihuahua, María Eugenia Campos, após a descoberta de um suposto laboratório clandestino de drogas, que chamou atenção por suas dimensões.

A instalação, localizada nas proximidades da cidade de Parral, supostamente era capaz de produzir até 100 quilos de metanfetamina por dia.

<><> Dimensão da produção de drogas

Inicialmente, os traficantes mexicanos buscaram reduzir a dependência da cocaína colombiana investindo na produção de drogas sintéticas, explica o analista político e especialista em segurança David Saucedo.

Segundo ele, enquanto os grandes cartéis instalaram complexos industriais clandestinos, como o de Chihuahua, com cerca de mil metros quadrados destinados à produção de metanfetamina, organizações menores passaram a operar laboratórios rudimentares, com apenas cinco metros quadrados, em áreas isoladas, onde a dispersão dos vapores tóxicos é mais fácil.

Contudo, diante da forte pressão do governo dos Estados Unidos para desmantelar os chamados "macrolaboratórios", os grandes cartéis estariam migrando para estruturas menores, o que lhes permitiria escapar mais facilmente das operações policiais e reduzir prejuízos em caso de apreensões, afirma Saucedo.

Depois que o presidente americano, Donald Trump, ameaçou atacar laboratórios com mísseis, os grupos criminosos teriam inclusive transferido parte de suas "cozinhas" de drogas para áreas urbanas. Na avaliação de Saucedo, o objetivo seria aumentar o risco de mortes de civis caso ocorresse um ataque, elevando assim o custo político e midiático para os EUA.

<><> Menos fentanil, mais metanfetamina

José Andrés Sumano Rodríguez, pesquisador do Colégio da Fronteira Norte, explica à DW que os traficantes mexicanos dominaram o método de produção baseado no precursor químico conhecido como P2P, fundamental para a fabricação de metanfetamina. Com isso, deixaram de depender de medicamentos altamente controlados no México, como a pseudoefedrina. No Brasil, a pseudoefedrina é permitida, mas seu uso e comercialização são controlados pela Anvisa, já que a substância pode ser utilizada na fabricação ilegal de metanfetamina.

"Eles [os fabricantes de drogas mexicanos] encontraram um método mais barato e baseado em insumos menos regulados. Ainda assim, o gargalo continua sendo a disponibilidade de precursores químicos vindos da Ásia e de cozinheiros especializados", afirma.

Segundo Sumano, atualmente há uma redução das mortes por overdose de fentanil nos Estados Unidos. Com a metanfetamina, porém, a situação é diferente.

"O mercado parece estar mais abastecido, com produtos de maior pureza e apreensões que batem recordes. O aumento das apreensões e do fechamento de laboratórios no México não está se traduzindo em menor disponibilidade da droga nos Estados Unidos. Além disso, o consumo de metanfetamina também aumentou consideravelmente no México", afirma.

<><> Pressão dos Estados Unidos

O governo da presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, intensificou o combate ao narcotráfico em meio à crescente pressão dos Estados Unidos, principal destino das drogas produzidas no México.

O secretário de Segurança, Omar García Harfuch, afirma que, desde outubro de 2024, as forças de segurança mexicanas já desmontaram 2.771 laboratórios clandestinos.

Para Sumano, embora o governo mexicano esteja fazendo mais do que em anos anteriores, os resultados ainda ficam aquém do esperado.

Na avaliação do pesquisador, seria necessário concentrar esforços nos pontos mais vulneráveis da cadeia de produção, especialmente no fornecimento de precursores químicos e na formação dos chamados "cozinheiros", responsáveis pela fabricação das drogas.

David Saucedo também critica o fato de o governo divulgar apenas o número absoluto de laboratórios fechados, sem apresentar estimativas sobre o total de instalações clandestinas existentes no país.

"Falta saber qual é o impacto real dessas operações", argumenta.

<><> Além dos laboratórios

David Mora, analista sênior para o México do International Crisis Group (ONG voltada à resolução e prevenção de conflitos armados internacionais), também recomenda cautela ao interpretar os números oficiais. Segundo ele, o governo costuma mencionar o fechamento de "locais ou áreas de concentração", categoria que pode incluir não apenas fábricas de metanfetamina, mas também depósitos e pontos de transporte de drogas e de seus componentes químicos.

"Essas ações de curto prazo são muito importantes. As apreensões devem ser reconhecidas e celebradas", afirma Mora à DW.

Mas ele ressalta uma questão central: "a pergunta é quantas dessas descobertas levam a prisões. E quantas dessas prisões resultam em investigações criminais profundas e sérias, capazes de desmantelar as redes de produção."

Por isso, o especialista defende que as operações contra laboratórios clandestinos sejam acompanhadas por investigações judiciais igualmente intensivas, para atingir não apenas as estruturas físicas, mas toda a cadeia criminosa envolvida no narcotráfico.

 

Fonte: DW Brasil

 

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