quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Por que o resultado das eleições não deve surpreender?

Poucos dias após o resultado das urnas do primeiro turno das eleições de 2026, no Brasil, fica um mistério. O mistério sobre se há mistério ou não, no resultado destas eleições. A tomada do senado, da câmara dos deputados, por parte do PL, retirando quadros históricos da esquerda dos plenários, como Marina Silva, Gleise Hoffman, Manuela D’Avila, a eleição e avanço de candidaturas a governo, também do PL, pelo país afora, parece reforçar a sensação de que a política tem se tornado, cada vez mais, subterrânea, invisível, surpreendente.

Mas a sensação de que os votos brotam subitamente, nas urnas, indica que invisível é o seu portador: o eleitor. Os invisíveis são os que perderam os laços de emprego, de carreira, de direitos, de serviços, de sociabilidade cotidiana e coletiva, por meios dos espaços urbanos e comunitários. São os desempregados, os precarizados, os periféricos, os marginalizados, os jovens sem perspectiva. E, pelo papel limitado que qualquer governo progressista tem, no Brasil, por sua condição de dependente, o que se produz, efetivamente, é um conjunto de decepção, frustração e ressentimento na massa destes invisíveis.

Por maior que seja o esforço de um governante mais progressista, o máximo que tem conseguido fazer é administrar a colaboração-antagônica, imposta por uma Doutrina de Segurança Nacional, que restringe nossa democracia e nosso desenvolvimento, mantendo-nos reféns históricos do projeto estadunidense para nosso país e nosso continente. Qualquer inflexão mais ao estilo Sul-Sul é sinal do inimigo interno: o comunismo. Em uma contra-revolução sem revolução, a ofensiva conservadora esmaga a esquerda com uma força escandalosamente desproporcional, o que aponta para um acúmulo da direita e um vazio na esquerda.

O que estamos testemunhando é a repetição da tragédia da dependência, na sua forma farsesca: a famigerada farsa eleitoral. Assim, com seus cotidianos apartados de uma realidade de privilegiados que gozam da riqueza nacional, uma massa, de fato, não acredita mais nisto que, de tanto repetir, caiu na dinâmica das práticas mercantis, daquilo que rege, solene, nosso cotidiano.

Neste aspecto, o reino da razão cínica, em que todos sabem que tudo é uma questão de vantagem pessoal e de negócios, aprofunda a volatilidade do voto, que se expandiu como valor de troca. O clientelismo já não é uma prática ilegal, é a cultura política do reino do mercado, este sim universal, global, mundial.

É nesta condição que o voto permanece circulando, cumprindo seu papel de farsa, como as práticas mercantis e suas ilusões quanto a sucesso e riqueza. Nas zonas eleitorais, o que se ouvia eram queixas de trabalhadoras, que “perdiam seu dia de folga para eleger pilantras”, e mães pobres e atípicas, com suas colinhas no bolso, aflitas em cumprir o que combinaram com o pastor.

Se olharmos os mapas das eleições deste ano, veremos manchas vermelhas nos centros, nas capitais, indicando voto na esquerda, e um esparramar de marcas azuis, nas periferias, como votos, principalmente, do PL: onde o governo Lula não chega, onde o Estado não chega e uma massa fica entregue ao reino do particular.

É o nome deste particular que precisamos encontrar para dar fim ao mistério das eleições no Brasil de hoje. Este particular, este modo de vida que assume universalidade, em que todos acreditam, é o do empreendedorismo e da fé, soluções solitárias e, também, místicas, que entregam cada um a uma guerra de todos contra todos, em que é cada um por si e Deus por todos.

O Estado, por sua vez, faz-se, também, ainda mais místico, distante, opressor. Em uma filiação, cada vez mais profunda, da doutrina norte-americana, o “público”, sem seus serviços, amarrados a Regimes de Recuperação Fiscal, entregues a O.S.s, vai assumindo feições de ameaça ao indivíduo. Sua face mais eficiente se particularizou em papas da política, distribuindo prebendas, via emendas parlamentares.

O judiciário, com seus luxos e regalias, representa a verdadeira porta do céu, enquanto o papel de re-ligar os indivíduos é o das igrejas neopentecostais, pela via da promessa, e as milícias ordenadoras, pela via do terror. Por isto o voto parece um mistério: porque ele vem do invisível – do subterrâneo do voto da bala e do supraterreno do voto da bíblia.

Mas ilusório, também, supor que todo este transcendentalismo que explica o voto brasileiro é, de fato, transcendental. Ele conta com um cálculo, que envolve um laço concreto do eleitor com serviços e acompanhamento prestados pela igreja, pelo pastor. Com as experiências residuais de interação, nos cultos. Ele conta com a presença ostensiva de forças armadas, legais e ilegais, nas vielas e becos. Ele conta com o endividamento e a carestia, diante de taxas de juros no firmamento, e de seu contraponto em projetos de deputados, via orçamento secreto.

 Tudo isto, não tenhamos dúvida, financiado, também, por grupos de agentes empresariais estadunidenses, cumprindo a agenda da Comissão Trilateral, com sua internacional capitalista, que, de dois em dois anos, atualiza sua forma de dominação do território latino-americano e europeu.

Como um universalismo ainda mais místico, as BigTechs não deixam de cumprir seu papel de conexão: unificam comunidades de pensamento, conectando-as em seus mundos particulares, onde posições políticas também circulam, em uma reprodução por ramos de pensamento. Estes ramos não se tocam, são intangíveis, mas, em cada nicho, fazem circular ideias como mercadorias e mercadorias como ideias.

Ocorre que a esquerda, também, caiu neste mesmo feitiço religioso: da mercadoria e da fé. Embrenhou-se em torres de representação, do mercado politico das eleições, nas abóbadas das negociações superestruturais, isolou-se em mandatos messiânicos, esvaziou de vitalidade seus instrumentos terrenos, associativos, como partidos e sindicatos, absorveu os movimentos sociais e perdeu, por completo, o território, o lugar, o espaço do cotidiano, da classe trabalhadora, entregue ao pântano bárbaro do mercado. A esquerda tornou-se vertical, quase gótica, e, quanto mais celestial, mais crédula em milagres.

Perdoai-nos a mais crua explicação para a crueldade, mas se a chamada esquerda não romper com seus próprios misticismos, não será capaz de compreender que voto não tem mistério. Ele é econômico, em seu sentido mais cotidiano, mais material: é o reflexo da organização do espaço.  Este último cada vez mais entregue aos interesses supremos do reino do particular.

Retomando para si a organização do espaço, quem sabe a esquerda volte a se apresentar como o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, o espírito de uma situação espiritualmente desumana.

•        São três golpes. Por Flo Menezes

O modelo de democracia burguesa, que se opõe cabalmente ao de uma democracia radicalmente popular, forja situações em que o cidadão “médio” – ou seja, aquele não politizado, não consciente das manobras que nos são impingidas pelo mecanismo ideológico de dominação do capitalismo – é levado a crer que, com seu voto, esteja efetivamente mudando a sociedade.

Evidentemente que, em tais processos eleitorais, alguns candidatos habilitados a participarem do pleito decorrem de escolhas democráticas, quando estas são frutos de discussões com ampla participação de setores sociais populares, mas tais personagens são exceções à regra.

Participar das eleições com seu voto significa dar seu acordo a este mecanismo aparentemente democrático, mas nem por isso efetivamente democrático, mas em política as situações concretas é as que ditam as estratégias mais eficazes para que se atinjam fins específicos. Não é preciso citar Vladímir Lênin nem ninguém nesse contexto: a cada situação concreta, sua ação correspondente.

A tarefa mínima que se impõe aos que almejam uma transformação social radical que nos traga justiça social, igualdade de direitos e de condições de vida, liberdade de pensamento, de pesquisa, de criação artística, que nos propicie, a todos, acesso pleno à educação pública e de qualidade e a oportunidade de usufruir dos aportes mais significativos que a história cultural da humanidade nos legou e nos lega, é a de estarmos cônscios dessas manipulações e, estrategicamente, atuar com nosso voto da maneira mais progressista possível, mesmo sabendo que, num sistema como esse, tais processos eleitorais escamoteiam aqueles mecanismos de dominação e de alienação das massas populares e de toda a população.

Dito isto, basta observar as eleições democrático-burguesas recentes para ver que o que trouxeram de verdadeiras transformações sociais em nossa sociedade foi muito, muito pouco. Perpetuou-se o jogo sujo da conciliação de classes e da concessão a privilégios os mais descarados das camadas dominantes, corroboradas pelo isolamento sistemático das massas nos processos sociais, que delegam em seus representantes a tarefa e a esperança de que, em meio a essa trama suja e visceralmente comprometida com os interesses das classes dominantes, consigam verter em realidade um mínimo de medidas que lhes tragam pequenas melhorias.

Caso tais medidas de fato se tornem realidades, promovendo melhorias sociais inquestionáveis, ainda que pequenas, tem-se ao menos uma mudança qualitativa mínima que dignifica um pouco mais a vida humana, o que não é, admitamos, nada desprezível, pois mudanças socialistas também se fazem por conquistas sociais mínimas mesmo em meio às sociedades tardo-capitalistas.

Do contrário, seria como que abdicar de qualquer luta e torcer para “quanto pior, melhor” – uma posição tipicamente pequeno-burguesa com aparência de “revolucionária”, que não leva em conta o real sofrimento das classes mais subalternas do capitalismo. Tais conquistas sociais, no âmago desses processos eleitorais democrático-burgueses, é o que caracteriza o reformismo ou, numa hipótese um pouco piorada, o melhorismo, que sequer chega a implantar reformas de base, mas que institui programas de melhoria substancial nas condições de vida dos trabalhadores.

Obviamente que nossa escolha deveria se pautar por algo mais profundo, radical. A via revolucionária proporia então um rompimento com o sistema representativo burguês e a instauração de uma efetiva democracia popular, aquela que parte de organizações setoriais e socialmente implantada numa ampla rede de conselhos populares, bairro a bairro, em cada cidade, para que o cidadão participe ali não com seu mero “voto”, mas com sua palavra!

Foi assim que o PT começou, mas foi disso que logo abriu mão… Nos meus tempos de juventude, tendo sido eu um dos 3000 primeiros filiados do partido logo aos meus 18 anos, em 1980, numa campanha de filiação que viabilizaria a fundação do PT em São Paulo, participava semanalmente das reuniões do Diretório do Campo Belo, onde, jovem, sentava à roda em meio a políticos de grande envergadura moral, ética e política, tais como os saudosos Éder Sader, Plínio de Arruda Sampaio, Dr. Carlini… Eram tempos mágicos! Saíamos do Diretório engrandecidos, certos de que fazíamos política efetiva, participativa, e, consequentemente, transformacional.

Os caminhos adotados pelo PT apontaram, no entanto, para outro lado: o abandono da educação política das massas em prol das alianças, da conciliação de classes e da “governabilidade”. Com tal estratégia, corroborada pela sistemática expulsão das correntes mais à esquerda do PT nos anos 1990, fez-se ruir a esperança de que o PT constituiria a plataforma política ideal de uma radical transformação social. Em tal processo, não deixou de constituir, contudo, o partido político com maior representatividade popular, mesmo que a real participação popular nos processos decisórios tenha diminuído drasticamente, uma vez que as deliberações passaram, cada vez mais, a serem ditadas pela oligarquia partidária que domina o partido, e isto desde o Grupo Articulação que promoveu a expulsão dos setores mais à esquerda do partido no passado, como já aludido.

Lula é o grande líder não apenas da fundação do PT, mas também de sua opção reformista. Imantou a luta da esquerda em torno de sua personalidade, que sempre se pautou pela conciliação de classes e por conquistas parciais, ainda que inquestionáveis, para as classes trabalhadoras. Adestrou possíveis novas lideranças e catalisou de modo quase “monocrático” as disputas eleitorais em torno de seu nome como única opção viável.

Em momentos mais apaziguados, correu para a direita, em momentos mais críticos, como o atual, corre para a esquerda. Nesse ziguezague, faz-nos lembrar uma frase proferida por um político de direita que nem merece ter seu nome aqui citado, validando-a: “governar é como tocar um violino: segurar com a esquerda e tocar com a direita”.

Sabemos, nós que apostamos pelas vias de transformações radicais e que não nutrimos qualquer esperança no capitalismo, o quão tal via se vê comprometida com os próprios mecanismos de dominação ideológica do capitalismo. E ao que assistimos hoje não deveria minimamente nos surpreender: faz parte desta opção reformista o pêndulo que oscila entre fases progressistas e regressistas, numa “alternância de poder” que se promulga como “salutar”, mas que, na verdade, faz com que conquistas parciais nunca encontrem garantia de que sejam permanentes, pondo em risco condições mínimas de dignidade humana e fazendo a sociedade oscilar entre momentos de maior avanço social com épocas de grande retrocesso e barbárie.

E estamos diante de mais uma!

Com todas as evidências, o atual processo eleitoral democrático-burguês escancara-se como uma deslavada farsa, pois de “democrático” nada tem! Corroído pela onda de fake news, pela avassaladora influência das igrejas evangélicas em sua vertente mais reacionária, pelo controle das chamadas “redes sociais” pelas bigtechs, e pelo monitoramento e condução coercitiva e escamoteada do processo eleitoral pela intervenção política já em curso do imperialismo norte-americano, o que temos agora é um novo Golpe de Estado! O terceiro, numa sequência bem organizada e reiterada, promovida pela ultraorganizada ultradireita!

O primeiro golpe de Estado se deu com o impeachment de Dilma Rousseff. Não vem ao caso, aqui, mais uma vez de discorrer sobre o caráter reformista do petismo e dos compromissos de classe assumidos por seu governo. As críticas são infindáveis… Mas fato é que ali tratou-se, como bem sabemos, de um golpe parlamentar.

O segundo constituiu um golpe militar, que, entretanto, malogrou. Por sorte…, pois teria sido ainda mais cruel, com uma implantação imediata de um regime de exceção aos moldes da Contrarrevolução de 1964.

O terceiro, o presente: o golpe pelo voto democrático-burguês. Não se trata de “democracia”. Trata-se de um processo perverso e completa e visceralmente corrompido por todos os fatores que apontamos acima, e pior: chancelado por quase metade da população brasileira!

Não nos iludamos: a votação conquistada pela delinquência política no primeiro turno das eleições comprova que quase metade da população brasileira (sem fazermos aqui uma análise detalhada de sua composição classista) chancelou, com seu voto “democrático”, o golpe militar fracassado de poucos anos atrás!

Ilusão acharmos que estamos em meio a um processo democrático e que “simplesmente” saímos atrás. Indubitavelmente a tarefa urgente que nos cabe, agora, é abnegarmos qualquer mínima fragmentação do campo progressista (dos democrático-burgueses aos revolucionários) e tentar reverter o quadro, dando vitória, mais uma vez, ao “ímã” Lula.

Não nos sobra, estrategicamente, outra alternativa quanto à eleição presidencial, sob pena de sermos irresponsáveis a ponto de “jogar a toalha”, sem levar em conta os enormes retrocessos sociais que teremos de enfrentar por longos anos, no caso de uma vitória da extrema-direita. Mas mesmo que o consigamos, mesmo que Lula atinja a votação majoritária, seu governo será encurralado por um Congresso dominado pela extrema direita, forçando-o a pender ainda mais para a direita – o que, não duvidemos, Lula talvez saiba fazê-lo, mais uma vez, com seus dotes incomuns de conciliador de classes.

No entanto, se a ultradireita vencer, não há dúvida de que o golpe fatal será consumado. Não será sequer preciso que o novo governante feche o Congresso: este já estará dominado pelos setores mais reacionários de que temos notícia, fortemente amparado por vários governadores da extrema direita nos principais Estados da federação. Bastará acabar com a atual Constituição, promover uma nova, instituída por uma corja travestida de “democracia”, abolindo direitos sociais os mais elementares, e subjugar por completo o já corroído sistema judicial do país. Metas, aliás, já anunciadas pelo candidato oponente, sem qualquer pudor.

O que temos à frente, portanto, é o que já se configura: a Barbárie, com B maiúsculo. E a isto dá-se o nome de fascismo. Sem qualquer ilusão quanto à opção reformista, é preciso reconhecer que a cada etapa necessitamos agir de modo concreto, evitando a catástrofe maior. Votar, mais uma vez, em Lula! Para fazer frente a tal estado calamitoso de coisas, contudo, apenas uma ampla mobilização popular, de trabalhadores, de estudantes, de intelectuais, com muita, mas muita resistência, organização e unidade de ação, poderá nos trazer alguma esperança.

 

Fonte: Por Clarisse Gurgel, em A Terra é Redonda

 

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