Xadrez
de um eventual governo Flávio Bolsonaro
O
modelo é a Argentina de Milei, transformada em enorme colônia agrícola e
mineral, com suas riquezas sendo apropriadas por grupos externos.
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Peça 1 – cem anos atrás
O mundo
é uma espiral. Dá voltas, retorna sempre ao mesmo lugar alguns degraus acima.
Essa foi uma verdade que adotei em meu livro “Os Cabeças de Planilha”, e serve
para entender os movimentos atuais da civilização.
Em fins
do século XIX, ocorreu a segunda revolução industrial, com o avanço na produção
de aço, eletricidade, petróleo, química, telecomunicações e o surgimento das
grandes corporações.
Foi a
primeira globalização tecnológica. O capital financeiro descobriu os grandes
negócios com ferrovias, navios a vapor e telégrafo, permitindo a integração dos
mercados mundiais e a expansão gigantesca do comércio e dos fluxos de capital.
A
tecnologia internacionalizou a economia muito mais rapidamente do que se
internacionalizaram as instituições políticas — enquanto o Estado nacional
permaneceu como unidade básica de soberania. Essa tensão seria central para as
crises políticas do século XX.
Capitais,
comércio, matérias-primas, comunicações e grandes empresas atravessavam
fronteiras, enquanto a autoridade política continuava concentrada nos Estados
nacionais. Esse movimento cria enorme concentração de renda, ao mesmo tempo em
que os novos meios de comunicação, com o advento do rádio e do telégrafo sem
fio, desorganizam totalmente o sistema anterior.
Cria-se
uma nova ordem supranacional, com o capital financeiro britânico e
norte-americano aliando-se aos capitais nacionais para interferir na política.
A ferramenta principal era a ideologia do livre mercado, propagada pelos
“financistas”, acompanhada do financiamento de campanhas eleitorais.
O novo
mundo provoca duas irrupções: por um lado, a competição entre as novas
potências e a velha ordem; por outro — no âmbito interno dos países —, a reação
das massas contra as condições de vida e o questionamento do Estado-nação. O
nazismo propondo o Estado como instrumento da comunidade racial, e o comunismo
soviético apresentando o Estado nacional como uma construção histórica
destinada a ser superada.
No
Ocidente, a crise de 1929 interrompe a escalada pelo fim dos Estados nacionais.
E a Segunda Guerra decreta o fim do ciclo nazista.
Os
pactos posteriores, como os Acordos de Bretton Woods, tornaram os Estados
nacionais novamente protagonistas de uma nova ordem baseada na colaboração
internacional e no controle do livre fluxo de capitais.
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Peça 2 – a repetição do ciclo
O novo
ciclo se inicia com o fim do padrão-ouro e do controle de câmbio pelos países.
O capital financeiro volta a provocar instabilidades. Ao mesmo tempo, tem
início uma nova revolução tecnológica com os avanços na digitalização e no
ciclo da informática, desaguando nas big techs e gerando enormes oportunidades
de investimento para os países centrais.
O
capital financeiro espalha-se por todas as economias, com movimentos
descontrolados que provocam sucessivas bolhas e crises. No entanto, mantém o
controle ideológico sobre as políticas nacionais mediante a ideologia do livre
mercado e o mito da “lição de casa”. A promessa era a de que, se o país fizesse
bem a lição — isto é, restringisse gastos sociais, na Previdência, em
infraestrutura e em pontos essenciais para o desenvolvimento —, ocorreria o
milagre do crescimento.
A crise
de 2008 foi o ápice da internacionalização do capital. Mostrou o fracasso do
chamado neoliberalismo, inclusive na União Europeia, com estragos monumentais
sobre as economias nacionais. Contudo, por ter gerado interesses gigantescos,
seu controle ideológico sobre os países emergentes permaneceu.
Com as
criptomoedas, as redes sociais e o uso intensivo de algoritmos, a mídia
tradicional perde o controle da narrativa e há uma invasão das diversas
modalidades de crime organizado sobre a economia formal. Articula-se uma
organização da ultradireita mundial em torno da bandeira da desregulamentação —
tema que atende aos interesses do mercado financeiro, dos grandes cartéis, do
crime organizado, do jogo e do agronegócio.
Ao
longo de todo o período pós-Segunda Guerra, os avanços civilizatórios se deram
através de leis, regulamentos, doutrinas e constituições. Foi esse avanço que
coibiu a atividade ilegal, os atentados contra o meio ambiente, limitou a
atuação das mineradoras, impediu guerras comerciais, definiu limites à atuação
das big techs.
Montou-se,
então, a grande operação contra toda sorte de regulação, culminando, na quadra
atual, com o ataque final ao último obstáculo ao controle absoluto do mundo
ocidental: os Estados nacionais.
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Peça 3 – a lógica de Bolsonaro
O
modelo básico é a Argentina de Milei, transformada em uma enorme colônia
agrícola e mineral, com suas riquezas sendo apropriadas por grupos externos.
No caso
de uma eleição de Flávio Bolsonaro, não há nada mais previsível do que suas
consequências. Mas, devido à maior complexidade da economia brasileira, em um
ritmo distinto.
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1. Um autoritarismo negociado, não necessariamente uma ruptura explícita
Em vez
de um golpe de Estado clássico, o autoritarismo por mudanças graduais:
nomeações, alterações legislativas, restrições orçamentárias e pressão sobre
instituições de fiscalização.
A
hipótese seria a preservação da fachada institucional acompanhada da redução da
capacidade de controlar o Executivo. Para isso, uma aliança estável com o
Congresso seria mais importante do que a mobilização permanente contra ele.
Esse trabalho será favorecido pela nova composição do Congresso, com maioria de
ultradireita bolsonarista.
O
limite: a Presidência não controla automaticamente STF, Ministério Público ou
Polícia Federal. Cada instituição tem mecanismos distintos de nomeação,
autonomia e controle. Por isso, inicialmente haveria o controle do STF. A
partir dele, pactos com setores lavajatistas do MPF e da PF.
Pode-se
aguardar perseguição implacável aos adversários, pior do que ocorreu no período
Lava Jato.
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2. A blindagem do passado como prioridade de governo
Uma
questão decisiva seria saber quanto da energia política do governo seria
destinada à proteção da família e de aliados diante de processos e
investigações.
Isso
poderia aparecer em propostas de anistia, mudanças legais ou disputas por
nomeações. O conflito central seria entre governar para uma agenda pública e
governar para administrar passivos políticos e judiciais.
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3. Uma política social preservada na marca e enfraquecida na estrutura
Em vez
de extinguir programas populares, o governo Flávio Bolsonaro poderia conservar
benefícios de transferência de renda e reduzir investimentos nos serviços
universais.
O
resultado hipotético seria:
renda
mínima mantida → serviços
públicos mais frágeis → maior dependência
de soluções privadas.
Na
saúde, isso poderia ocorrer por contratação privada crescente e perda de
capacidade própria do SUS. Na educação, por financiamento insuficiente,
terceirização e expansão de modelos privados. O ponto de apuração seria o
orçamento efetivo, não apenas o discurso.
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4. Privatizações como reorganização do poder econômico
A
questão não seria apenas “privatizar ou não”, mas quem compraria, com qual
financiamento, sob quais regras e com que fiscalização.
Concessões
de infraestrutura, saneamento, energia e serviços digitais poderiam formar uma
base empresarial vinculada à sustentação do governo. O risco seria substituir
monopólios públicos por posições privadas pouco reguladas.
As
relações de Flávio com o universo do Banco Master, do Careca do INSS e de
esquemas pesados permitem prever uma corrida desregrada aos ativos públicos.
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5. Uma coalizão econômica com contradições internas
Não
haveria necessariamente um “mercado” homogêneo. Bancos, agronegócio, indústria,
plataformas digitais e concessionárias podem querer políticas diferentes.
Um
alinhamento intenso com Washington, por exemplo, poderia entrar em conflito com
setores dependentes do comércio com a China. A abertura comercial poderia
agradar importadores e prejudicar segmentos industriais.
A
hipótese é de um governo que tentaria acomodar esses interesses por benefícios
seletivos, produzindo uma política econômica menos coerente do que a propaganda
liberal sugere.
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6. Segurança pública como eixo de legitimação
O
endurecimento penal poderia funcionar como resposta política de alta
visibilidade a problemas sociais de solução lenta.
A
exemplo do que aconteceu no Rio de Janeiro de Cláudio Castro, expansão de operações, encarceramento e
vigilância poderia produzir demonstrações de força sem atingir, na mesma
proporção, lavagem de dinheiro, corrupção e financiamento das organizações
criminosas.
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7. Maior poder de barganha das corporações armadas
Em vez
de presumir uma subordinação completa dos militares ao presidente, deve-se
considerar outra possibilidade: uma relação de troca.
Apoio
político e institucional poderia ser negociado em torno de orçamento,
carreiras, proteção jurídica e participação em cargos. Nas polícias, benefícios
corporativos poderiam reforçar alianças com governadores e bancadas.
O risco
seria a ampliação de áreas de poder pouco sujeitas ao controle civil, não
necessariamente uma cadeia de comando pessoal e uniforme.
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8. Guerra cultural como instrumento administrativo
A
disputa ideológica poderia sair das declarações e entrar na gestão: critérios
de financiamento cultural, escolha de dirigentes, currículos, produção de
estatísticas e prioridades científicas.
Não
seria preciso fechar uma universidade ou um instituto para enfraquecê-lo.
Bastariam contingenciamento, perda de pessoal e nomeações que alterassem sua
missão.
O
efeito possível seria a erosão da capacidade estatal de produzir conhecimento
independente, inclusive sobre desigualdade, ambiente e saúde.
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9. Soberania digital como ponto de dependência externa
O
alinhamento aos Estados Unidos poderia repercutir em contratos de nuvem,
inteligência artificial, telecomunicações e armazenamento de dados públicos.
A
pergunta seria se o governo estimularia capacidade tecnológica nacional ou
ampliaria a dependência de fornecedores estrangeiros. Isso não decorre
automaticamente da nacionalidade das empresas: depende de contratos,
portabilidade, controle das chaves de acesso e jurisdição aplicável.
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10. Um governo mais estável politicamente — e, por isso, mais capaz de executar
sua agenda
O risco
de um governo Flávio Bolsonaro não estaria apenas na repetição do governo do
pai. Estaria na possibilidade de organizar, negociar e tornar duradouro aquilo
que, no primeiro bolsonarismo, frequentemente esbarrou na improvisação e no
conflito.
O
desfecho final seria um grande salto no escuro, seguindo o exemplo do governo
Milei, com a entrega final do país aos parceiros de negócios da família Trump.
• O que é ‘split payment’, mecanismo de
combate a fraudes que Flávio Bolsonaro pretende extinguir se eleito
A
campanha de Flávio Bolsonaro (PL) afirmou que pretende acabar com o chamado
split payment, mecanismo criado pela reforma tributária para separar e recolher
automaticamente os impostos sobre o consumo no momento em que uma operação é
paga. A promessa foi feita pela coordenadora do núcleo econômico da campanha,
Daniella Marques, que afirmou que o sistema prejudica o capital de giro de
pequenos negócios.
O
ministro da Fazenda, Dario Durigan, reagiu à declaração nesta quarta-feira
(07/10) e defendeu a manutenção do mecanismo. Segundo ele, o split payment
reduz o espaço para fraudes e para a atuação das chamadas “noteiras”, empresas
que emitem documentos fiscais e geram créditos tributários sem recolher os
impostos correspondentes. “Ser contra um avanço como esse é favorecer quem
frauda”, afirmou.
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Como funciona
O split
payment, ou pagamento fracionado, altera a forma como o imposto é recolhido. Em
uma operação abrangida pelo sistema, o valor correspondente ao Imposto sobre
Bens e Serviços (IBS) e à Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) é separado
no momento da liquidação financeira. Essa parcela é direcionada ao poder
público, enquanto a empresa recebe o restante do valor da operação.
A
lógica busca evitar uma situação comum no modelo atual: a empresa recebe o
pagamento de uma venda, registra a operação e posteriormente deve recolher o
imposto. Nesse intervalo, o tributo permanece no caixa da empresa. Com a
separação automática, o imposto é encaminhado diretamente ao Fisco, reduzindo a
possibilidade de que a empresa deixe de recolhê-lo.
O
mecanismo também está relacionado ao funcionamento do Imposto sobre Valor
Agregado (IVA), adotado pela reforma tributária. No novo modelo, o imposto pago
em uma etapa da cadeia gera crédito para a empresa que participa da etapa
seguinte. O split payment permite vincular o aproveitamento desse crédito ao
efetivo recolhimento do tributo.
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Impacto limitado
Daniella
Marques afirmou que um eventual governo de Flávio Bolsonaro pretende extinguir
o split payment. Questionada diretamente sobre a medida, respondeu: “Claro que
sim”. Segundo ela, o sistema “asfixia o capital de giro do pequeno, que já está
asfixiado”.
A
crítica se refere ao fato de que, em vez de permanecer temporariamente no caixa
da empresa, a parcela destinada aos impostos é separada no momento do
pagamento. Para a campanha, essa mudança pode reduzir os recursos disponíveis
para financiar as operações até o momento em que a empresa normalmente faria o
recolhimento dos tributos.
Durigan
contesta esse argumento e afirma que o impacto sobre pequenos negócios será
limitado. Segundo o ministro, a implementação será gradual e o sistema não
alcançará diretamente as operações de varejo com consumidor final na primeira
etapa. Ele também defendeu que a redução da sonegação pode beneficiar empresas
que cumprem regularmente suas obrigações tributárias.
O fim
do split payment não poderia ser determinado apenas por uma decisão
administrativa do presidente. O mecanismo integra a regulamentação da reforma
tributária e sua retirada exigiria alteração da legislação pelo Congresso.
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Quando começa
O split
payment ainda não está em funcionamento nas operações reais. A Receita Federal
informou que os testes de integração entre instituições de pagamento e a
plataforma pública do sistema começam no próximo dia 15, em ambiente controlado
e sem impacto sobre consumidores ou transações reais.
A
implementação será gradual. O modelo começa de forma opcional em 2027 e está
previsto para se tornar obrigatório em 2028, inicialmente nas operações entre
empresas, conhecidas como B2B.
Microempreendedores
individuais e nanoempreendedores, que realizam vendas diretamente ao
consumidor, permanecem no Simples Nacional e não terão de recolher impostos
pelo split payment.
Fonte:
Por Luís Nassif, no Jornal GGN/Brasil de Fato

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