Efeito
complexo de vira-lata: Brasil, clima e geopolítica
No
início do século 20, a percepção de que os EUA se tornariam uma potência já era
evidente. Essa percepção é refletida numa frase frequentemente atribuída a
Jean-Jules Jusserand, embaixador da França naquele país, entre 1902 e 1924, que
teria sintetizado a situação geoestratégica privilegiada dos Estados Unidos:
“Ao Norte, um vizinho fraco; ao Sul, outro vizinho fraco; no Leste, peixe; e no
Oeste, peixe”.
Seja a
frase de Jusserand ou não, a ascendência dos EUA no mundo acabou se
concretizando. Veio a primeira e, depois, a Segunda Guerra, e os EUA saíram
vitoriosos. Por não terem tido que lutar batalhas em seu próprio território, à
exceção do episódio de Pearl Harbor, saíram praticamente ilesos, com uma
indústria forte e prontos para liderar o planeta. Do outro lado, a União
Soviética encontrou-se numa posição semelhante, de modo que, entre 1950 e 1989,
a Guerra Fria foi o pano de fundo de um mundo bipolar.
Os EUA
dominaram o planeta com o apoio da Europa, enquanto um processo multipolar
começava a se consolidar. A Organização das Nações Unidas (ONU) se fortaleceu,
ainda que sob forte influência americana, em um mundo com cerca de 200 países.
Tudo
caminhou em “velocidade de cruzeiro” até que, em 2008, uma crise financeira se
abateu sobre os EUA e a Europa. Foi nesse momento que uma ideia de 2001, de Jim
O’Neill, do Goldman Sachs, de chamar de Bric os emergentes Brasil, Rússia,
Índia e China, ganhou força. O Bric ganhou um S com a entrada da África do Sul,
em 2011, formando o Brics, agrupamento que posteriormente incorporaria novos
membros.
Por
trás desses eventos, aparentemente relacionados à crise econômica de 2008, o
Brics passou a crescer, mas a China se destacou ao dobrar seu Produto Interno
Bruto (PIB) entre 2007 e 2012.
Nada
disso é simples. Os movimentos geopolíticos resultam de inúmeros fatores que
interagem entre si, e a ascensão chinesa não pode ser atribuída a uma única
causa. Neste artigo, porém, os mecanismos importam menos do que o resultado. A
China ascendeu a uma posição que a coloca hoje como rival, ou potencial rival,
dos EUA. Há previsões de modelagem que a colocam, de fato, como um segundo polo
de poder mundial até por volta de 2050.
Se tudo
continuar caminhando como até agora, podemos considerar que estamos a caminho
de um mundo bipolar. A movimentação geopolítica americana no segundo mandato de
Donald Trump tem incluído o afastamento de algumas instituições e mecanismos
multilaterais, num cenário de competição crescente entre os Estados Unidos e a
China.
Em seu
livro Geopolítica Global, Braz Baracuhy dedica um capítulo em que os EUA e a
China são apresentados como polos de poder, tendo a Índia, ainda bem distante,
como possível terceira potência. O problema, como aponta Baracuhy, é que o
sistema tripolar não é estável. Para ele, a bipolaridade ou a multipolaridade
seria um sistema mais estável. Isto porque, quando três grandes centros de
poder passam a ter forças comparáveis, qualquer aproximação entre dois deles
altera a posição relativa do terceiro. É justamente aí que a Índia começa a
tornar o cenário interessante.
Se
continuar crescendo nas próximas décadas, poderá aproximar-se dos dois grandes
polos atuais, mas o fará em condições geográficas muito diferentes daquelas que
historicamente favoreceram os Estados Unidos. A Índia convive com a China e o
Paquistão, com disputas territoriais, armas nucleares na vizinhança e uma
competição crescente pelo controle do Oceano Índico. Sua geografia lhe confere
importância estratégica, mas também lhe impõe custos e riscos.
É nesse
ponto que vale fazer uma pergunta que, à primeira vista, pode parecer estranha:
e o Brasil? Para começar a respondê-la, um caminho é retomar a frase atribuída
a Jusserand. Parte da vantagem extraordinária dos Estados Unidos residia em sua
geografia. Enquanto as potências europeias passaram séculos convivendo com
invasões e guerras em suas próprias fronteiras, os americanos puderam crescer
protegidos por dois oceanos e, ao norte e ao sul, por países que não
constituíam ameaças equivalentes às encontradas na Europa ou na Ásia. A
geografia é fundamental, mas não explica, por si só, a transformação dos
Estados Unidos em potência. Eles mesmos criaram as condições para que seus
recursos econômicos, demográficos, tecnológicos e políticos fossem acumulados e
convertidos em poder.
Se
olharmos o mapa do Brasil sob a mesma perspectiva, algumas semelhanças chamam a
atenção. Ao Norte, temos uma floresta de dimensões continentais; a Oeste,
países que não representam uma ameaça estratégica comparável; mais adiante, a
barreira dos Andes; a Leste, o Atlântico; e, ao Sul, nenhuma grande potência
hostil. A comparação termina aí, pois as condições geográficas não determinam
destinos nacionais. Entretanto, elas constituem aquilo que Baracuhy trata como
condições iniciais, e é justamente isso que torna interessante pensar sobre o
lugar que o Brasil poderia ocupar numa reorganização do poder mundial.
Além
dessa situação geográfica relativamente protegida, o Brasil possui território
continental, uma população numerosa, enorme disponibilidade de água doce,
grande capacidade agrícola, recursos minerais, biodiversidade, fontes de
energia diversificadas e uma extensa costa voltada para o Atlântico Sul. Há
ainda uma característica que provavelmente se tornará cada vez mais importante
neste século: a capacidade de produzir grandes quantidades de alimentos.
Estamos tão acostumados a pensar no Brasil como potência agrícola que, às
vezes, isso parece apenas uma característica intrínseca de nossa economia.
Entretanto, num planeta que caminha para uma população próxima de dez bilhões
de pessoas e que, simultaneamente, enfrentará mudanças climáticas, alterações
nos regimes de chuva, ondas de calor e perturbações nas cadeias internacionais
de produção e comércio, produzir alimentos, dispor de água e ter capacidade
energética também são atributos geopolíticos.
Nada
disso significa que o Brasil seja, ou inevitavelmente venha a ser, uma grande
potência. A disponibilidade desses recursos não constitui, por si só, poder.
Eles precisam ser articulados por instituições, tecnologia, infraestrutura,
diplomacia e, principalmente, por uma estratégia capaz de estabelecer objetivos
que ultrapassem os ciclos políticos de curto prazo. Esse está entre os pontos
mais interessantes da análise de Baracuhy: condições geográficas, econômicas,
tecnológicas e diplomáticas estabelecem possibilidades, mas não determinam
resultados.
É aqui
que a geopolítica começa a encontrar o tema que dá título a este ensaio. Nelson
Rodrigues cunhou a expressão “complexo de vira-lata” a partir da derrota
brasileira para o Uruguai na Copa de 1950. A expressão sobreviveu ao futebol
porque parece capturar algo recorrente em nossa maneira de olhar o País: a
tendência de nos percebermos menores do que somos, sobretudo quando nos
comparamos com os países que elegemos como referência.
O
problema passa, então, a ser construir uma estratégia de longo prazo. Educação,
ciência, tecnologia, agricultura, energia, infraestrutura, defesa e diplomacia
são frequentemente discutidas como políticas relativamente independentes e
sujeitas às oscilações dos ciclos políticos. Uma estratégia nacional exigiria
enxergá-las como componentes de um mesmo sistema e, sobretudo, pensar em
décadas, algo que a China fez de maneira bastante explícita, que os Estados
Unidos fizeram em diferentes momentos de sua história e que a Índia procura
fazer agora. Não precisamos copiar nenhum desses modelos, pois as condições
brasileiras são diferentes; precisamos reconhecer nossos próprios recursos e
decidir o que queremos fazer com eles. Isso nos leva a perguntar se estamos
realmente pensando como nação ou se permanecemos tão absorvidos por nossas
questões internas que deixamos de acompanhar os movimentos de longo prazo do
mundo.
Às
vésperas de uma eleição nacional, essa pergunta talvez seja especialmente
pertinente. As eleições inevitavelmente organizam o debate em torno dos
problemas mais imediatos do País e das escolhas para o próximo mandato. Mas
algumas das decisões que determinarão a posição do Brasil no mundo terão
consequências muito além dos próximos quatro anos.
Nesse
sentido, a posição internacional brasileira apresenta uma ambiguidade que pode
se revelar uma vantagem. O País participa do Brics, mantém relações econômicas
profundas com a China e, ao mesmo tempo, relações históricas, culturais e
científicas igualmente profundas com o mundo ocidental. Soma-se a isso uma
tradição diplomática que permite ao Brasil dialogar com atores que nem sempre
dialogam facilmente entre si. Num mundo que volta a se organizar em torno da
competição entre os Estados Unidos e a China, essa posição poderá ser
desconfortável se formos pressionados a escolher entre os dois polos, mas
valiosa se tivermos clareza sobre nossos próprios interesses. Talvez a questão
não seja escolher um lado, mas adquirir capacidade suficiente para escolher por
nós mesmos.
Isso
não significa imaginar o Brasil como uma quarta potência prestes a juntar-se
aos Estados Unidos, à China e à Índia. Nada na situação atual permite tal
afirmação, e o próprio quadro apresentado por Baracuhy coloca o Brasil em um
patamar diferente. Mas se o sistema internacional está novamente em
transformação e muitos dos recursos de que o País dispõe tendem a ganhar maior
importância nas próximas décadas, talvez exista um espaço estratégico que ainda
não aprendemos a enxergar.
É por
isso que vale a pena retornar à imagem com a qual começamos. Se alguém
observasse o mapa brasileiro com o mesmo distanciamento com que Jusserand teria
observado o mapa dos Estados Unidos no início do século 20, encontraria, ao
Norte, uma imensa floresta; a Oeste, vizinhos sem capacidade de ameaçar nossa
integridade territorial e, mais adiante, uma cordilheira; a Leste, o Atlântico;
e, ao Sul, nenhuma grande potência hostil. Encontraria também um País
continental, produtor de alimentos e de energia, e sem inimigos estratégicos
imediatos. Talvez isso seja suficiente para inverter a pergunta que normalmente
fazemos. Em vez de perguntar se o Brasil possui condições para, algum dia,
tornar-se uma potência, talvez devêssemos perguntar por que um País que dispõe
dessas condições encontra tanta dificuldade em transformá-las em um projeto de
futuro.
Fonte:
Por Marcos Buckeridge – Jornal da USP

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