sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Frei Maurício Solfa: Fé e política - a quem pertence a nossa consciência?

 A relação entre fé e política é uma das questões mais delicadas da vida em sociedade. Precisamos escolher entre viver a fé e assumir nossas responsabilidades como cidadãos? O Evangelho oferece uma importante reflexão sobre essa questão

Em Mateus (22,15-21), Jesus é questionado sobre o pagamento de impostos a César. Diante da armadilha, responde: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Jesus não propõe uma separação absoluta entre fé e sociedade, mas nos convida a reconhecer nossas responsabilidades como cidadãos sem transformar nenhum poder humano em senhor absoluto de nossa consciência.

A política influencia diretamente a saúde, a educação, o trabalho, a segurança e a dignidade das pessoas. Por isso, não pode ser indiferente à fé cristã. Quando orientada pelo bem comum, torna-se uma forma de serviço à sociedade. Entretanto, a fé não deve ser instrumentalizada pela política, nem a política utilizada para manipular a fé. Nenhum partido, líder ou ideologia pode reivindicar para si o monopólio dos valores cristãos.

O texto de Isaías (45,1-6), aprofunda essa reflexão. Deus chama Ciro, rei da Pérsia, de seu ungido. Por meio dele, o povo de Israel seria libertado do exílio na Babilônia e poderia retornar à sua terra. A conquista da Babilônia pelos persas, em 539 a.C., abriu caminho para esse retorno.

O surpreendente é que Ciro não pertencia ao povo de Israel e não conhecia o Senhor como o Deus da aliança. Mesmo assim, tornou-se instrumento de libertação. Essa passagem revela que a ação de Deus pode acontecer por caminhos inesperados, inclusive por meio de pessoas que não compartilham a nossa fé.

Não podemos confundir a vontade de Deus com os interesses de um grupo político, nem considerar a identidade religiosa de alguém uma garantia de compromisso com o Evangelho. Isso não significa aprovar indistintamente as ações de qualquer governante, mas discernir os frutos de suas decisões, especialmente seus efeitos sobre a justiça, a liberdade e a dignidade humana.

O cristão tem o direito e o dever de participar da vida política, analisar propostas e avaliar governos à luz de critérios éticos. Também precisa reconhecer que pessoas de boa-fé podem pensar diferentemente. Quando a divergência se transforma em ódio e desumanização do adversário, a convivência democrática e a fraternidade ficam ameaçadas.

A fé não pode servir para legitimar interesses particulares ou silenciar questionamentos. Seu compromisso social se manifesta no acolhimento dos pobres, na defesa dos direitos humanos, no combate à fome, na promoção da paz e na denúncia das injustiças.

Se fomos criados à imagem e semelhança de Deus, toda pessoa possui uma dignidade que independe de sua religião, condição social ou posição política. Fidelidade a Deus não significa fidelidade automática a um partido ou líder, mas coerência entre o Evangelho e nossas ações.

Dar a César o que é de César é assumir nossas responsabilidades como cidadãos. Dar a Deus o que é de Deus é reconhecer que nenhum poder está acima da dignidade humana, da justiça e do amor.

A fé não precisa transformar o altar em palanque. Precisa contribuir para que a sociedade seja um lugar onde os direitos sejam respeitados e ninguém seja esquecido.

•        “Deus nos livre de uma reforma protestante”: Caio Fábio critica mercantilização da fé e defende subversão espiritual

A troca de mensagens entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) escancara a promiscuidade entre grandes esquemas financeiros, como o caso Master, e impérios religiosos como a Igreja Batista da Lagoinha.

A avaliação é do escritor e teólogo Caio Fábio, que, em entrevista ao programa O Mundo é um Moinho, da TV GGN [confira abaixo], apontou o contraste moral entre noitadas em casas de shows e a frequência a cultos matutinos no templo comandado pela família Valadão como o símbolo da crise de integridade que consome o meio evangélico. Para ele, o episódio expõe o avanço de uma “naturalização da iniquidade” que não será corrigida por manobras institucionais ou tentativas de uma nova reforma luterana.

“A gente caiu na naturalização da iniquidade. Isso é um negócio infinitamente mais sério. E que reforma, Deus nos livre de reforma protestante. A reforma protestante não fez nada, é só um catolicismo com dieta. Tirou lá, tomou Monjaro, o nome desse negócio que se toma para ficar magro de repente. É uma dieta de Monjaro foi o que o protestantismo fez: tirou os ídolos dos nichos, mas os nichos estão lá, tá tudo lá, continuou mais ou menos a mesma coisa. Lutero nunca quis reforma protestante nenhuma, ele queria era o melhoramento, a diminuição da gordura obscurantista da Igreja Católica.”

A ação histórica do monge alemão Martinho Lutero no século XVI não visava fundar uma nova religião ou erguer aparatos burocráticos. A intenção de Lutero ao afixar suas 95 teses era promover um debate interno para livrar o catolicismo dos excessos dogmáticos e do comércio das indulgências, reafirmando pilares como a centralidade bíblica e a salvação pela fé. Ao institucionalizar-se, o protestantismo acabou replicando as mesmíssimas estruturas de dominação medieval, apenas substituindo a figura do padre pela do pastor profissional, conforme explica o pensador durante a entrevista.

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Sobre a captura do discurso bíblico por projetos de poder, exemplificada pelo trânsito de políticos moralistas entre orgias e altares, Caio Fábio argumentou que o ecossistema corporativo da fé transformou-se em uma plataforma de dominação. “Isso tudo são construções humanas, construções políticas, econômicas, culturais e egocêntricas. Isso não tem nada a ver com o que Jesus chamou de igreja. Isso aí são associações humanas feitas em nome da Bíblia, do Deus da Bíblia e do Jesus cujo nome aparece na Bíblia. Quem controla a narrativa bíblica e religiosa controla o mundo ou boa parte dele.”

Ele ressaltou ainda que a lógica bíblica do Evangelho não se confunde com pactos de cúpula nem com o uso da religião por bancadas parlamentares ou governos. “O reino de Deus nunca é feito por decreto, nunca vem de ordens imperiais ou de ou governamentais ou presidenciais. O reino de Deus nasce em pequenos corações, em lugares inóspitos, inesperados”, pontuou.

Fundador e ex-presidente da Associação Evangélica Brasileira nos anos 1990, Caio Fábio rememorou o momento em que decidiu se afastar da representação institucional do segmento.

“Eu vi que aquilo ali era só uma fachada e que eu tava só dando cara, uma cara palatável pro mundo para esconder a monstruosidade que era praticada aqui pelos evangélicos, pelos líderes, pelos pastores nas minhas costas”, declarou.

Por fim, o entrevistado destacou que a verdadeira resistência à cooptação política e à mercantilização da fé não virá de novas denominações ou CNPJs, mas da desinstitucionalização da espiritualidade e da expansão dos chamados “desigrejados”.

“Igreja é amor, como Deus é amor. A verdadeira igreja, aquela feita de gente que trata umas às outras com amor sem pedir certidão de filiação, de membresia, de ligação, de confissão, de catequismo, de batismo, de nada para ninguém. O fato do outro ser humano já é a realidade mais santa que eu posso encontrar e encarar”, arrematou.

 

Fonte: Jornal GGN

 

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