sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Denise Assis: Meninos, eu vi

Meninos, eu vi. Eu vi o dia virar noite. Vi as notícias e fotos com políticos pré-1964 sumirem das revistas que eu folheava ajoelhada na cadeira da sala e com os cotovelos espetados em suas páginas, porque era tão pequena que não as podia sustentar. Vi no lugar daqueles rostos, surgirem fotos de homens fardados, carrancudos, que não davam mais festas com senhoras de vestidos fluidos e mãos enluvadas.

Vi surgir na TV, antes de cada programa, um documento com tarja verde e amarela, na diagonal, dizendo que aquela exibição teve a aprovação de uma tal de D. Censura.

Vi saírem de cartaz, no cinema, os filmes de Glauber Rocha, para darem lugar a comédias insossas e faroestes macarrônicos, tendo um tal de “Ringo” como astro. Depois, já maiorzinha, notei que os cartazes traziam mulheres seminuas, em profusão. Tudo era proibido, menos desviar a atenção do distinto público para as coisas desimportantes.

Enquanto crescia, as mudanças iam acontecendo. A valorização excessiva ao futebol, os desfiles cívicos como atração, as notícias sobre as proibições no teatro, os livros retirados de circulação.

Vi morrer os festivais da canção. Vi as músicas ficarem cada vez mais tristes.

Vi proibirem o samba animado com o qual a minha tia estava me ensinando a dançar. Era um verão especial. Estava de férias pela primeira vez sem a família, curtindo a praia e experimentando os primeiros passos do samba ao som de “Apesar de você”, que dali a uma semana foi recolhido e silenciado.

Paguei pra ver o dia surgir apesar deles. Vi o sol clarear, e a censura sumir. E, lhes digo, nada melhor do que ouvir Rita Lee poder cantar suas letras despudoradas. Nada mais feliz do que colocar um voto na urna, como há muito não se praticava.

Meninos, eu vi a cara da censura e o descortinar de um novo Brasil. Por favor, não queiram conhecê-la. D. Censura não é amigável. Vocês não iriam gostar dela depois de terem o direito de ir e vir. Vocês iriam odiar seus ditames, suas rabugices, seus “pode e não pode”. Não saiam das ruas. Lutem. Virem esse jogo. Amanhã há de ser outro dia.

•        Ainda estamos aqui. E não vamos esquecer. Por Gustavo Tapioca

O recado da mobilização é claro: não vamos esquecer o que vocês fizeram no governo passado. Esse alerta precisa chegar a quem ainda não enxergou o que está em jogo em 25 de outubro.

O Brasil enfrenta uma das eleições mais decisivas desde a redemocratização. A escolha do próximo presidente pode fortalecer um projeto de concentração de poder que ameaça o futuro da República.

Parte do eleitorado já despertou. A pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta quinta-feira, 13 de outubro, mostra que Lula passou de 49% para 57% entre os jovens de 16 a 24 anos, em comparação com o levantamento sobre segundo turno do fim de setembro. 

São oito pontos percentuais a mais. No conjunto dos eleitores, Flávio continua numericamente à frente, com 48% contra 45% de Lula. A mobilização é urgente. Os meninos e meninas do Brasil soltaram o grito de guerra. “Vamo pra rua.”

A pesquisa foi realizada entre 10 e 12 de outubro, período em que entidades estudantis organizaram atos na avenida Paulista e em Copacabana. As ruas dão rosto à recusa do retrocesso e aproximam gerações que têm razões profundas para defender a democracia. 

Muitos dos jovens que agora se mobilizam ainda eram crianças ou adolescentes quando a pandemia atropelou suas vidas. Viram as máscaras entrarem na rotina, os hospitais lotarem, os tubos de oxigênio faltarem, os enterros em massa, o choro da perda. Carregam a memória das despedidas impossíveis e das famílias enlutadas.

<><> A pandemia de irresponsáveis

A Covid-19 deixou mais de milhares de mortos no Brasil. Ao fim de 2022, quando Jair Bolsonaro encerrou seu governo, o país registrava exatos 693.853 mortes. A tragédia foi agravada pela irresponsabilidade de quem tinha o dever de proteger a população. 

Em junho de 2021, quando o país já ultrapassava 500 mil mortos, o epidemiologista Pedro Hallal estimou, em depoimento à CPI da Pandemia, que 400 mil dessas mortes poderiam ter sido evitadas se o Brasil tivesse alcançado a média mundial de enfrentamento da doença. E se tivesse um governo que cumprisse sua missão de proteger a população.

Na mesma CPI, o representante da Pfizer confirmou a demora do governo Bolsonaro nas negociações de vacinas. Ofertas feitas em 2020 ficaram sem resposta. O negacionismo e os atrasos na proteção da população cobraram um preço que as famílias continuam pagando. 

Por trás dos números estão pais, mães, filhos, vizinhos e amigos. Pessoas que poderiam estar vivas. Lugares vazios à mesa. A saudade que nenhuma campanha eleitoral consegue apagar.

<><> A memória vem de longe

A memória que chega às ruas em outubro de 2026 vem de mais longe. A ditadura de 1964 a 1985 perseguiu, torturou e matou brasileiros, a maioria jovens na casa dos 20 anos que lutavam pela liberdade. As cicatrizes dessa violência atravessam gerações. Esquecer ajuda quem pretende fazer do autoritarismo uma alternativa aceitável. 

Décadas depois, o desprezo pela vida e pela vontade popular reapareceu nas tramas golpistas do governo Bolsonaro 2019 a 2022. A mesma sanha autoritária dos anos1970, que torturou e matou jovens no passado, e a fúria sanguinária que arquitetou o plano “Punhal Verde e Amarelo” para decapitar a democracia, em 2023, prevendo o assassinato do presidente Lula e do vice Alkmin, são as mesmas que ainda tentam se perpetuar na eleição de outubro de 2026.

A ofensiva contra a democracia culminou nos ataques de 8 de janeiro de 2023. Se o golpe desse certo, Lula não estaria aqui em outubro de 2026 disputando a reeleição com o Bolsonaro filho, de prenome Flávio. 

<><> Bolsonaro, Nunca mais

Jair Bolsonaro foi condenado pelo STF a 27 anos e três meses de prisão por sua participação na tentativa de golpe. Agora, seu filho e herdeiro político disputa a Presidência assumindo o compromisso de libertar o pai a quem jura “continuar seu legado”.

 Em 7 de outubro, Flávio Bolsonaro voltou a anunciar que o pai Jair subiria a rampa do Planalto “para colocar a faixa no filho dele”.  O vínculo que importa é político e foi assumido pelo próprio candidato. Flávio apresenta o retorno do pai como parte de sua vitória. 

O eleitor tem o direito de perguntar o que acontecerá com as instituições que investigaram, julgaram e condenaram a tentativa de golpe: Depois de tudo o que o país sofreu, vamos entregar a Presidência a quem faz da libertação do condenado uma bandeira de campanha?

É esse projeto de continuidade familiar e impunidade que a juventude tem o direito de recusar. Sua presença nas ruas cobra uma resposta dos adultos. E os tios e tias responderam o apelo dos mais jovens. Estão nas ruas para também afirmar Bolsonaro, nunca mais.

Esta conversa é com você que não gosta de Lula, se decepcionou com o PT, votou em outro candidato, anulou o voto ou deixou de votar no primeiro turno. Sua insatisfação merece ser ouvida. Querer salário melhor, segurança e serviços públicos decentes é um direito. Cobrar o governo é uma obrigação democrática.

O perigo começa quando essa insatisfação é usada para entregar o Estado a um projeto que pode enfraquecer os mecanismos de fiscalização e de alternância no poder.

<><> Dinastia Bolsonaro

No vídeo “Dinastia Bolsonaro: Por que essa eleição é diferente de todas”, Aline Câmara sintetiza o alerta:

“A família Bolsonaro não pode comandar todas as instituições desse país”, como diz que vai fazer o candidato Bolsonaro da vez se for eleito. Nenhuma família pode. Nenhum sobrenome está acima da Constituição.

Depois do primeiro turno, Flávio Bolsonaro falou em usar a vantagem da direita no Congresso para mudar a Constituição e “redemocratizar o país”. Ao explicar a proposta, citou reformas do Judiciário e o fim da reeleição, deixando aberta a possibilidade de mandatos de cinco anos. Essas intenções precisam ser examinadas à luz do compromisso de reabilitar politicamente o pai. 

A Constituição exige três quintos dos votos, em dois turnos, em cada Casa, para aprovar emendas. E impede mudanças que visem abolir a separação dos Poderes, o voto periódico e os direitos e garantias individuais. Uma vitória eleitoral não autoriza poder sem controle. 

Quando os Poderes deixam de fiscalizar uns aos outros, a corrupção ganha proteção, a oposição perde espaço e o cidadão fica mais vulnerável. Eleições podem continuar existindo enquanto as condições de uma disputa livre são destruídas.

O que está em jogo é também nossa capacidade de escolher novamente. Você pode discordar de Lula hoje e continuar discordando amanhã. Pode denunciar erros, exigir mudanças e construir outra opção política. Para isso, precisa conservar a liberdade de criticar o governo, organizar uma alternativa e substituí-lo pelo voto.

Em 25 de outubro, pense na vida que você quer ter depois da eleição. Pense no direito de discordar sem medo e de mudar o governo sem enfrentar a violência de quem se recusa a sair.

O Brasil não é herança dos Bolsonaro. A República não é negócio de família.

Desperte. Vá votar. Os mortos não podem comparecer às urnas. Nós podemos — e temos o dever de impedir que o esquecimento abra caminho para a repetição da tragédia. Em memória de Rubem Paiva, os meninos e meninas do Brasil, de mãos dadas aos adultos, gritam nas ruas: 

Ainda estamos aqui. E não vamos esquecer.

•        Cresce o medo da volta da ditadura. Por Alex Solnik

Os números da pesquisa Quaest que acaba de sair mostram empate técnico: Flávio, 46%; Lula, 44%. Mas o dado mais importante é que os brasileiros estão ficando com medo da volta da ditadura, sobretudo os jovens.

Isso reflete o teor das declarações de Flávio desde o fim do primeiro turno sobre “mudar a Constituição” e “redemocratizar o país”.

A pesquisa revela que, antes do primeiro turno, os eleitores tinham mais medo da vitória de Lula do que da de Flávio: 43% a 40%. Agora, o medo da vitória de Lula estacionou em 43%; não subiu. Já o medo da vitória de Flávio subiu três pontos percentuais: de 40% para 43%.

Entre os jovens, os números são ainda mais favoráveis a Lula: antes, 48% tinham medo de sua vitória e 39%, da de Flávio. Hoje, o medo de Lula caiu para 45%, e o de Flávio subiu para 45%.

Está ficando claro que, mais do que o embate entre Lula e Flávio, o segundo turno contrapõe democracia e ditadura. Lula é a democracia, e Flávio, a ditadura.

•        Esforço deve ser sobre os 33 milhões de ausentes no 1º turno; vira voto não funciona com bolsonaristas. Por Marco Damiani

A dez dias das urnas, em uma campanha que agora conta com a presença de grandes massas nas ruas, a candidatura à reeleição precisa lembrar de chamar, convidar, convocar e insistir pela presença dos mais de 33 milhões eleitores que faltaram no primeiro turno. A decisão será deles, assim como é correta a avaliação segundo a qual a definição do resultado de 4 de outubro ficou nas mãos dos que não quiserem participar. O não voto definiu a vitória apertada de Flávio Bolsonaro sobre Lula.

Além de contraproducente, acreditar que pode dar certo, a esta altura do campeonato, uma estratégia de ‘vira voto’ chega a ser ingenuidade. A escolha bolsonarista é cristalizada desde o surgimento dessa nefasta corrente política. Quem já tentou em família, entre amigos ou com as pessoas com quem têm relações sociais sabe que se trata de uma missão impossível.

O que pode, deve e precisa ser disputado, com bem maiores chances positivas, é o sufrágio dos que não compareceram à primeira volta. Para esse grande contingente, motes de salvação nacional em razão dos planos de entrega de País aos interesses dos Estados Unidos, de alerta sobre o exemplo da empobrecida Argentina em que o candidato bolsonarista se mira e, especialmente, do esvaziamento dos programas sociais criados nos governos de Lula encerra grande potencial de convencimento.

Convencer quem não foi antes a ir votar agora também não é tarefa fácil, como se vê nos índices muito semelhantes de abstenção em primeiro e segundo turnos nas últimas eleições presidenciais. Trata-se, no entanto, da melhor, para não dizer única, chance do momento.

No plano ideal, candidatos de direita como Augusto Cury, do Avante, e a incógnita ideológica Renan Santos, do Missão, deveriam ter sido procurados pelos partidos da coligação que sustenta a chapa Lula-Alckmin. Eles poderiam conclamar suas bases para contribuir na defesa do Brasil tal qual o conhecemos, e até somar na próxima gestão de governo. Que ninguém se espante.

Conversar, articular e propor está na base da democracia. Formação de alianças em segundo turno ocorrem, com naturalidade, em todos os grandes regimes democráticos do mundo. Aqui, ao que se vê, é um tabu para a esquerda.

A pesquisa Quaest divulgada ontem, que apontou empate técnico entre Lula e o filho do capitão em vias de ser expulso do Exército também aferiu que 40% dos votos dados ao candidato do Missão migram, agora, para o nome da extrema-direita. Mesmo com o respaldo de ter obtido mais de 2,6 milhões de votos no primeiro turno, Renan foi tratado com desprezo. Nenhum emissário o procurou, ainda que ele tenha mostrado as cortinas vermelhas de seu apartamento em sinal de aproximação.

Ontem, o ex-candidato do Missão, declarou que não irá votar no segundo turno. Cury abraçou Bolsonaro, após ter manifestado incerteza sobre como se posicionaria. Renan e Cury poderiam sim ter sido cooptados, mas seria preciso, ao menos, tentar.

Lula está em ascensão, e ainda assim precisa de fatos novos para vencer. Quanto mais amplas forem as manifestações de massa que certamente deverão ocorrer até o final da campanha, mais chance existirá de virar o jogo. Se ficar parecendo que apenas o PT está interessado na vitória de Lula, talvez não seja suficiente.

 

Fonte: Brasil 247

 

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