Carlos
Eduardo Araújo: O perigo de se dizer apolítico
Há
pessoas que dizem odiar a política. Não querem discutir o assunto, evitam o
debate e acreditam que a política é, por natureza, um elemento desagregador,
uma força que insufla inimizades, aprofunda divergências e alimenta os ódios.
Preferem, por isso, manter-se distantes, como se fosse possível construir uma
existência alheia às disputas que atravessam a sociedade. Como se a política
fosse algo que acontece lá fora, no mundo dos outros, sem repercussões sobre a
vida de cada um de nós.
Ocorre
que essa percepção, além de ilusória, ignora uma das mais antigas constatações
da filosofia ocidental. Há mais de dois milênios, Aristóteles, logo no início
de sua obra Política, afirmava que o homem é, por natureza, um animal
político. Com isso, reconhecia que a vida humana não se realiza plenamente no
isolamento, mas na convivência, na organização da comunidade e na participação,
direta ou indireta, nas questões que dizem respeito à coletividade.
Não há,
portanto, como escapar inteiramente à política. O ser humano é um ser social e,
precisamente por viver em sociedade, é também um ser político. Nossas escolhas,
nossos valores, nossas convicções, nossas aversões e até mesmo nossas omissões
expressam determinada maneira de compreender o mundo e de nos posicionar diante
dele. A política não se manifesta apenas no voto, na militância partidária ou
nas discussões públicas. Ela também se revela naquilo que defendemos, no que
toleramos, no que condenamos e, sobretudo, naquilo que aceitamos como natural
ou inevitável.
Por
isso, a pretensa neutralidade política, frequentemente apresentada como sinal
de equilíbrio ou de superioridade diante das disputas ideológicas, nem sempre é
aquilo que pretende ser. Muitas vezes, o discurso de quem se declara apolítico
termina por favorecer a conservação da ordem existente, reproduzindo, ainda que
inconscientemente, valores e interesses identificados com a direita e, em
determinadas circunstâncias, com a extrema direita.
Afinal,
quando alguém afirma que nada mudará em sua vida, independentemente de quem
governe, não está apenas se afastando do debate: está formulando uma
interpretação política da realidade, ainda que não se dê conta disso.
Ouvi,
muito recentemente, uma afirmação dessa natureza. Dizia uma pessoa das minhas
relações que não deveríamos nos envolver tanto com a política, pois, mesmo que
um adversário profundamente nocivo ao país, oriundo de uma família marcada por
graves controvérsias, denúncias e episódios que exigem investigação e
responsabilização, chegasse ao poder, nada mudaria substancialmente em nossas
vidas.
Continuaríamos
a trabalhar, a cuidar de nossas famílias, a cumprir nossas obrigações e a
seguir, tranquilamente, o curso de nossa existência. Afinal, argumentava essa
pessoa, foi assim durante o governo de Jair Bolsonaro, do qual, como ela
própria afirmou, todos sobrevivemos, como se o simples fato de termos
sobrevivido fosse prova de que nada de grave tivesse acontecido.
Mas
será mesmo? É possível olhar para os quatro anos daquele desgoverno e concluir,
honestamente, que a política não fez diferença na vida dos brasileiros? A
realidade histórica desmente essa tranquilidade quase irresponsável.
O
governo de Jair Bolsonaro foi marcado por retrocessos, desmandos
administrativos, conflitos institucionais e ataques a direitos sociais. A
reforma da Previdência, aprovada em 2019, alterou profundamente as regras de
aposentadoria, impondo condições mais rigorosas a milhões de trabalhadores.
Para muitos brasileiros, especialmente aqueles submetidos a uma vida inteira de
trabalho árduo, a aposentadoria tornou-se um horizonte mais distante, uma
promessa adiada justamente quando o corpo já acumulava as marcas do tempo e do
esforço.
Enquanto
isso, os povos indígenas foram submetidos a um período de extrema
vulnerabilidade. Os Yanomami, em particular, sofreram as consequências da
expansão do garimpo ilegal, da violência e do enfraquecimento da proteção
estatal.
Imagens
de crianças e adultos reduzidos a condições extremas de desnutrição, que as
faziam se assemelharem a egressos de campos de concentração nazista, expuseram
ao país e ao mundo uma tragédia humanitária que não poderia ser tratada como
simples fatalidade. A omissão do poder público diante de uma população que
dependia e depende de sua proteção revelou, de maneira brutal, o preço que os
mais vulneráveis podem pagar quando o Estado se afasta de suas
responsabilidades.
E o que
dizer das mulheres, das pessoas LGBTQIA+, das comunidades de religiões de
matriz africana? O que dizer da disseminação de preconceitos, da hostilidade
contra minorias e da legitimação de discursos que, em vez de promoverem o
respeito à diversidade, estimulavam a intolerância? Quando autoridades públicas
transformam a diferença em motivo de desprezo e a discriminação em instrumento
de mobilização política, não estamos diante de meras divergências de opinião.
Estamos diante de um processo de corrosão e, no limite, de supressão da
convivência democrática.
A
pandemia de Covid-19 talvez tenha constituído a expressão mais dramática desse
descompromisso com a vida. Enquanto o país enfrentava uma emergência sanitária
de proporções devastadoras, o presidente da República minimizava a gravidade da
doença, fazia chacota do sofrimento alheio, desestimulava medidas de proteção e
promovia aglomerações. A vacinação, que deveria ter sido tratada como
prioridade absoluta de saúde pública, tornou-se objeto de controvérsias
políticas e de declarações irresponsáveis, até mesmo de negociatas.
O
Brasil ultrapassou a marca de 700 mil mortes oficialmente registradas por
Covid-19. Estudos e análises sobre a condução da pandemia apontaram que uma
parcela expressiva dessas mortes poderia ter sido evitada mediante uma resposta
governamental mais rápida, coordenada e comprometida com as evidências
científicas. A dimensão exata das mortes evitáveis depende dos critérios e das
metodologias empregados, mas a gravidade das falhas na resposta federal foi
amplamente documentada.
É
preciso compreender o significado humano desses números. Por trás de cada morte
havia uma pessoa, uma família, uma história interrompida, um abraço que não
aconteceu, uma despedida impossível. Mortos que não puderam ser devidamente
velados, familiares privados do direito de honrar seus entes queridos, vivos
impedidos de realizar os rituais da despedida. A política, naquele momento,
deixou de ser uma abstração debatida nos parlamentos para se tornar uma questão
de vida ou morte. Literalmente.
Também
a educação, a cultura, a ciência e a proteção ambiental sofreram os efeitos de
uma orientação governamental que promoveu conflitos, desvalorizou o
conhecimento científico e enfraqueceu políticas públicas. Na Amazônia, o avanço
do desmatamento, da mineração ilegal e das invasões de territórios indígenas
evidenciou os riscos de uma política ambiental predatória. O discurso oficial
contribuiu para um ambiente de hostilidade contra a fiscalização e de
descrédito em relação à proteção dos ecossistemas.
No
campo social, a fome voltou a ocupar um lugar vergonhoso na realidade
brasileira, em um país capaz de produzir alimentos em abundância. Em 2022, o
Brasil retornou ao Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a
Alimentação e a Agricultura, segundo os dados então divulgados. Milhões de
pessoas passaram a enfrentar a insegurança alimentar, enquanto a pobreza e a
desigualdade expunham as contradições de uma sociedade que convive com a
abundância de uns e a privação de muitos.
Não
podemos esquecer que aquele cenário de miséria e desamparo deu origem à
tristemente célebre fila do osso, uma das imagens mais degradantes e dolorosas
daquele período, que permanece na memória nacional como símbolo da fome e da
indignidade a que tantos brasileiros foram submetidos.
E ainda
poderíamos falar da fragilização das instituições, dos ataques reiterados ao
sistema eleitoral, das ameaças à democracia e da disseminação de uma linguagem
política agressiva, beligerante e marcada pelo desprezo ao adversário, tratado
como inimigo. Poderíamos continuar enumerando fatos, episódios e consequências,
numa lista tão extensa que dificilmente caberia nestas páginas.
Diante
de tudo isso, como sustentar que nada muda em nossas vidas quando muda o
governo? Como afirmar que tanto faz quem ocupa a Presidência da República, quem
controla o Congresso, Nacional, quem toma as decisões no STF ou quais
interesses orientam as decisões do Estado? Essa indiferença só é possível
quando se ignora que os direitos de que desfrutamos, os serviços públicos de
que dependemos, as liberdades que exercemos e as oportunidades que temos não
existem independentemente das escolhas políticas. São, em grande medida,
resultado delas.
E é
justamente por isso que precisamos olhar com seriedade para o futuro.
Imaginemos
um eventual governo de Flávio Bolsonaro, amparado por um Congresso Nacional
amplamente dominado pelo bolsonarismo e pela extrema direita. Imaginemos um
Executivo fortalecido por uma maioria parlamentar hostil à diversidade, avessa
à proteção social e disposta a aprofundar a agenda política e econômica que
marcou o governo anterior. Nesse cenário, o que impediria a retomada de
políticas que já produziram consequências tão graves para o país? Que garantias
teríamos de que os direitos sociais, a proteção ambiental, a educação pública,
a cultura e as instituições democráticas permaneceriam a salvo?
É
bastante plausível que muitos desses retrocessos não apenas se repetissem, mas
também se agravassem em um eventual governo de Flávio Bolsonaro. Trata-se de
reconhecer os riscos inerentes a um projeto político, à sua trajetória, às
ideias que o inspiram e às forças que o sustentam. A experiência histórica não
nos permite prever o futuro com absoluta certeza, mas nos impõe o dever de
aprender com o passado e de levar a sério os sinais que ele nos oferece.
Tudo
aquilo que o governo Lula procurou reconstruir após a devastação dos anos
Bolsonaro, seja no combate à fome, na valorização do salário mínimo, na
recuperação das políticas sociais, na proteção ambiental ou no fortalecimento
das instituições, poderia ser ameaçado por uma nova guinada à extrema direita.
Conquistas que exigiram anos de luta e de reconstrução poderiam ser
comprometidas em um espaço de tempo muito menor do que aquele necessário para
recuperá-las.
E não
seriam apenas os mais pobres a sofrer as consequências. A classe média, que
tantas vezes acredita estar protegida das turbulências políticas, também
depende da qualidade dos serviços públicos, da estabilidade institucional, das
oportunidades educacionais, da segurança jurídica e de um ambiente econômico e
social que lhe permita planejar o futuro.
Nenhuma
classe social vive inteiramente isolada das decisões do Estado. A ilusão de
imunidade política costuma desaparecer quando os efeitos das decisões
governamentais finalmente chegam à porta de casa.
Mais
grave ainda seria a possibilidade de um aprofundamento da polarização, do
ressentimento e da perseguição aos que pensam de maneira diferente. Uma
democracia não se destrói apenas quando suas instituições são formalmente
abolidas. Ela também se deteriora quando o adversário passa a ser tratado como
inimigo, quando a divergência se converte em ameaça e quando a violência verbal
prepara o terreno para a violência concreta.
É por
tudo isso que não podemos minimizar os perigos da extrema direita, muito menos
naturalizar sua presença no poder como se estivéssemos diante de uma
alternância política qualquer, sem maiores consequências para a sociedade. Há
diferenças profundas entre projetos de país, e essas diferenças se traduzem em
direitos preservados ou suprimidos, vidas protegidas ou abandonadas, liberdades
ampliadas ou restringidas.
A
política pode, de fato, produzir conflitos, acirrar paixões e alimentar
inimizades. Mas a solução não está em abandoná-la, e sim em compreendê-la,
debatê-la e participar dela com responsabilidade. A recusa ao debate não
elimina os conflitos da sociedade; apenas nos torna menos capazes de
compreender suas causas e de enfrentar suas consequências.
A
política não deixa de existir quando fechamos os olhos para ela. Continua
agindo, decidindo, escolhendo quem será protegido e quem será abandonado.
E,
quando finalmente percebemos seus efeitos em nossa própria vida, talvez já seja
tarde demais para impedir aquilo que, por indiferença, permitimos que
acontecesse.
Fonte:
A Terra é Redonda

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