sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Carlos Eduardo Araújo: O perigo de se dizer apolítico

Há pessoas que dizem odiar a política. Não querem discutir o assunto, evitam o debate e acreditam que a política é, por natureza, um elemento desagregador, uma força que insufla inimizades, aprofunda divergências e alimenta os ódios. Preferem, por isso, manter-se distantes, como se fosse possível construir uma existência alheia às disputas que atravessam a sociedade. Como se a política fosse algo que acontece lá fora, no mundo dos outros, sem repercussões sobre a vida de cada um de nós.

Ocorre que essa percepção, além de ilusória, ignora uma das mais antigas constatações da filosofia ocidental. Há mais de dois milênios, Aristóteles, logo no início de sua obra Política, afirmava que o homem é, por natureza, um animal político. Com isso, reconhecia que a vida humana não se realiza plenamente no isolamento, mas na convivência, na organização da comunidade e na participação, direta ou indireta, nas questões que dizem respeito à coletividade.

Não há, portanto, como escapar inteiramente à política. O ser humano é um ser social e, precisamente por viver em sociedade, é também um ser político. Nossas escolhas, nossos valores, nossas convicções, nossas aversões e até mesmo nossas omissões expressam determinada maneira de compreender o mundo e de nos posicionar diante dele. A política não se manifesta apenas no voto, na militância partidária ou nas discussões públicas. Ela também se revela naquilo que defendemos, no que toleramos, no que condenamos e, sobretudo, naquilo que aceitamos como natural ou inevitável.

Por isso, a pretensa neutralidade política, frequentemente apresentada como sinal de equilíbrio ou de superioridade diante das disputas ideológicas, nem sempre é aquilo que pretende ser. Muitas vezes, o discurso de quem se declara apolítico termina por favorecer a conservação da ordem existente, reproduzindo, ainda que inconscientemente, valores e interesses identificados com a direita e, em determinadas circunstâncias, com a extrema direita.

Afinal, quando alguém afirma que nada mudará em sua vida, independentemente de quem governe, não está apenas se afastando do debate: está formulando uma interpretação política da realidade, ainda que não se dê conta disso.

Ouvi, muito recentemente, uma afirmação dessa natureza. Dizia uma pessoa das minhas relações que não deveríamos nos envolver tanto com a política, pois, mesmo que um adversário profundamente nocivo ao país, oriundo de uma família marcada por graves controvérsias, denúncias e episódios que exigem investigação e responsabilização, chegasse ao poder, nada mudaria substancialmente em nossas vidas.

Continuaríamos a trabalhar, a cuidar de nossas famílias, a cumprir nossas obrigações e a seguir, tranquilamente, o curso de nossa existência. Afinal, argumentava essa pessoa, foi assim durante o governo de Jair Bolsonaro, do qual, como ela própria afirmou, todos sobrevivemos, como se o simples fato de termos sobrevivido fosse prova de que nada de grave tivesse acontecido.

Mas será mesmo? É possível olhar para os quatro anos daquele desgoverno e concluir, honestamente, que a política não fez diferença na vida dos brasileiros? A realidade histórica desmente essa tranquilidade quase irresponsável.

O governo de Jair Bolsonaro foi marcado por retrocessos, desmandos administrativos, conflitos institucionais e ataques a direitos sociais. A reforma da Previdência, aprovada em 2019, alterou profundamente as regras de aposentadoria, impondo condições mais rigorosas a milhões de trabalhadores. Para muitos brasileiros, especialmente aqueles submetidos a uma vida inteira de trabalho árduo, a aposentadoria tornou-se um horizonte mais distante, uma promessa adiada justamente quando o corpo já acumulava as marcas do tempo e do esforço.

Enquanto isso, os povos indígenas foram submetidos a um período de extrema vulnerabilidade. Os Yanomami, em particular, sofreram as consequências da expansão do garimpo ilegal, da violência e do enfraquecimento da proteção estatal.

Imagens de crianças e adultos reduzidos a condições extremas de desnutrição, que as faziam se assemelharem a egressos de campos de concentração nazista, expuseram ao país e ao mundo uma tragédia humanitária que não poderia ser tratada como simples fatalidade. A omissão do poder público diante de uma população que dependia e depende de sua proteção revelou, de maneira brutal, o preço que os mais vulneráveis podem pagar quando o Estado se afasta de suas responsabilidades.

E o que dizer das mulheres, das pessoas LGBTQIA+, das comunidades de religiões de matriz africana? O que dizer da disseminação de preconceitos, da hostilidade contra minorias e da legitimação de discursos que, em vez de promoverem o respeito à diversidade, estimulavam a intolerância? Quando autoridades públicas transformam a diferença em motivo de desprezo e a discriminação em instrumento de mobilização política, não estamos diante de meras divergências de opinião. Estamos diante de um processo de corrosão e, no limite, de supressão da convivência democrática.

A pandemia de Covid-19 talvez tenha constituído a expressão mais dramática desse descompromisso com a vida. Enquanto o país enfrentava uma emergência sanitária de proporções devastadoras, o presidente da República minimizava a gravidade da doença, fazia chacota do sofrimento alheio, desestimulava medidas de proteção e promovia aglomerações. A vacinação, que deveria ter sido tratada como prioridade absoluta de saúde pública, tornou-se objeto de controvérsias políticas e de declarações irresponsáveis, até mesmo de negociatas.

O Brasil ultrapassou a marca de 700 mil mortes oficialmente registradas por Covid-19. Estudos e análises sobre a condução da pandemia apontaram que uma parcela expressiva dessas mortes poderia ter sido evitada mediante uma resposta governamental mais rápida, coordenada e comprometida com as evidências científicas. A dimensão exata das mortes evitáveis depende dos critérios e das metodologias empregados, mas a gravidade das falhas na resposta federal foi amplamente documentada.

É preciso compreender o significado humano desses números. Por trás de cada morte havia uma pessoa, uma família, uma história interrompida, um abraço que não aconteceu, uma despedida impossível. Mortos que não puderam ser devidamente velados, familiares privados do direito de honrar seus entes queridos, vivos impedidos de realizar os rituais da despedida. A política, naquele momento, deixou de ser uma abstração debatida nos parlamentos para se tornar uma questão de vida ou morte. Literalmente.

Também a educação, a cultura, a ciência e a proteção ambiental sofreram os efeitos de uma orientação governamental que promoveu conflitos, desvalorizou o conhecimento científico e enfraqueceu políticas públicas. Na Amazônia, o avanço do desmatamento, da mineração ilegal e das invasões de territórios indígenas evidenciou os riscos de uma política ambiental predatória. O discurso oficial contribuiu para um ambiente de hostilidade contra a fiscalização e de descrédito em relação à proteção dos ecossistemas.

No campo social, a fome voltou a ocupar um lugar vergonhoso na realidade brasileira, em um país capaz de produzir alimentos em abundância. Em 2022, o Brasil retornou ao Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, segundo os dados então divulgados. Milhões de pessoas passaram a enfrentar a insegurança alimentar, enquanto a pobreza e a desigualdade expunham as contradições de uma sociedade que convive com a abundância de uns e a privação de muitos.

Não podemos esquecer que aquele cenário de miséria e desamparo deu origem à tristemente célebre fila do osso, uma das imagens mais degradantes e dolorosas daquele período, que permanece na memória nacional como símbolo da fome e da indignidade a que tantos brasileiros foram submetidos.

E ainda poderíamos falar da fragilização das instituições, dos ataques reiterados ao sistema eleitoral, das ameaças à democracia e da disseminação de uma linguagem política agressiva, beligerante e marcada pelo desprezo ao adversário, tratado como inimigo. Poderíamos continuar enumerando fatos, episódios e consequências, numa lista tão extensa que dificilmente caberia nestas páginas.

Diante de tudo isso, como sustentar que nada muda em nossas vidas quando muda o governo? Como afirmar que tanto faz quem ocupa a Presidência da República, quem controla o Congresso, Nacional, quem toma as decisões no STF ou quais interesses orientam as decisões do Estado? Essa indiferença só é possível quando se ignora que os direitos de que desfrutamos, os serviços públicos de que dependemos, as liberdades que exercemos e as oportunidades que temos não existem independentemente das escolhas políticas. São, em grande medida, resultado delas.

E é justamente por isso que precisamos olhar com seriedade para o futuro.

Imaginemos um eventual governo de Flávio Bolsonaro, amparado por um Congresso Nacional amplamente dominado pelo bolsonarismo e pela extrema direita. Imaginemos um Executivo fortalecido por uma maioria parlamentar hostil à diversidade, avessa à proteção social e disposta a aprofundar a agenda política e econômica que marcou o governo anterior. Nesse cenário, o que impediria a retomada de políticas que já produziram consequências tão graves para o país? Que garantias teríamos de que os direitos sociais, a proteção ambiental, a educação pública, a cultura e as instituições democráticas permaneceriam a salvo?

É bastante plausível que muitos desses retrocessos não apenas se repetissem, mas também se agravassem em um eventual governo de Flávio Bolsonaro. Trata-se de reconhecer os riscos inerentes a um projeto político, à sua trajetória, às ideias que o inspiram e às forças que o sustentam. A experiência histórica não nos permite prever o futuro com absoluta certeza, mas nos impõe o dever de aprender com o passado e de levar a sério os sinais que ele nos oferece.

Tudo aquilo que o governo Lula procurou reconstruir após a devastação dos anos Bolsonaro, seja no combate à fome, na valorização do salário mínimo, na recuperação das políticas sociais, na proteção ambiental ou no fortalecimento das instituições, poderia ser ameaçado por uma nova guinada à extrema direita. Conquistas que exigiram anos de luta e de reconstrução poderiam ser comprometidas em um espaço de tempo muito menor do que aquele necessário para recuperá-las.

E não seriam apenas os mais pobres a sofrer as consequências. A classe média, que tantas vezes acredita estar protegida das turbulências políticas, também depende da qualidade dos serviços públicos, da estabilidade institucional, das oportunidades educacionais, da segurança jurídica e de um ambiente econômico e social que lhe permita planejar o futuro.

Nenhuma classe social vive inteiramente isolada das decisões do Estado. A ilusão de imunidade política costuma desaparecer quando os efeitos das decisões governamentais finalmente chegam à porta de casa.

Mais grave ainda seria a possibilidade de um aprofundamento da polarização, do ressentimento e da perseguição aos que pensam de maneira diferente. Uma democracia não se destrói apenas quando suas instituições são formalmente abolidas. Ela também se deteriora quando o adversário passa a ser tratado como inimigo, quando a divergência se converte em ameaça e quando a violência verbal prepara o terreno para a violência concreta.

É por tudo isso que não podemos minimizar os perigos da extrema direita, muito menos naturalizar sua presença no poder como se estivéssemos diante de uma alternância política qualquer, sem maiores consequências para a sociedade. Há diferenças profundas entre projetos de país, e essas diferenças se traduzem em direitos preservados ou suprimidos, vidas protegidas ou abandonadas, liberdades ampliadas ou restringidas.

A política pode, de fato, produzir conflitos, acirrar paixões e alimentar inimizades. Mas a solução não está em abandoná-la, e sim em compreendê-la, debatê-la e participar dela com responsabilidade. A recusa ao debate não elimina os conflitos da sociedade; apenas nos torna menos capazes de compreender suas causas e de enfrentar suas consequências.

A política não deixa de existir quando fechamos os olhos para ela. Continua agindo, decidindo, escolhendo quem será protegido e quem será abandonado.

E, quando finalmente percebemos seus efeitos em nossa própria vida, talvez já seja tarde demais para impedir aquilo que, por indiferença, permitimos que acontecesse.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

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