O
Brasil digitalizou a exclusão
Brasil
não resolveu sua dívida histórica com a educação, apenas a tornou digital.
Hoje, pedir um benefício, procurar emprego, movimentar dinheiro, preencher uma
inscrição, enviar documentos, marcar um atendimento, acompanhar um processo e
acessar informações públicas depende, cada vez mais, de uma tela.
A
promessa que acompanha essa transformação é conhecida: a tecnologia
simplificaria processos, ampliaria acessos, eliminaria distâncias e
democratizaria oportunidades.
Mas
democratiza para quem? No Brasil, 29% das pessoas entre 15 e 64 anos são
analfabetas funcionais. Entre elas, 76% vivem em famílias com renda de até dois
salários mínimos e 58% são pretas ou pardas.
A
desigualdade educacional brasileira, portanto, não é abstrata, tem classe,
raça, cep, território e história. No entanto, agora tem também uma interface. É
dessa contradição que parte uma das discussões presentes em Inaf 25 anos:
alfabetismo no Brasil em tempos digitais, livro da Diálogos Editora organizado
por Heloisa Trenche Belusci e Roberto Catelli Jr.
A
publicação revisita os 25 anos do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf),
criado em 2001 pela Ação Educativa e pelo Instituto Paulo Montenegro e analisa
os resultados da edição de 2024, que pela primeira vez incorporou uma avaliação
realizada em ambiente digital.
Mais do
que um retrato sobre quem sabe ou não sabe ler, os dados permitem observar quem
possui as ferramentas necessárias para participar de uma sociedade que exige
cada vez mais leitura, interpretação, cálculo e capacidade de navegar por
sistemas digitais para realizar até atividades básicas da vida.
O
problema nunca foi simplesmente saber ler
Otermo
“analfabetismo funcional” pode produzir uma interpretação confortável: a de que
estamos diante de indivíduos que, por alguma razão, não aprenderam o
suficiente, mas os números contam outra história.
Quando
três quartos dos analfabetos funcionais pertencem a famílias que vivem com até
dois salários mínimos, é difícil sustentar que estamos diante de uma coleção de
fracassos individuais.
Quando
58% são pretos ou pardos, também não estamos diante de uma distribuição
aleatória. Estamos diante das consequências acumuladas de um país no qual o
acesso à educação de qualidade sempre esteve profundamente relacionado à
posição que cada pessoa ocupa na estrutura social.
A
pergunta deixa de ser “por que essas pessoas não aprenderam?” e passa a ser
outra: quais condições materiais foram oferecidas para que aprendessem? Quem
precisou abandonar a escola para trabalhar? Quem encontrou uma escola
precarizada? Quem teve tempo para estudar? Quem teve livros em casa? Quem teve
silêncio em casa para ler? Quem precisou
cuidar dos filhos enquanto estudava? Quem teve computador, internet, espaço,
silêncio? Quem conseguiu chegar ao fim da educação básica? E quem, depois de
adulto, encontrou uma política pública que lhe permitisse voltar?
Alfabetismo
não existe separado das condições concretas da vida.
A
internet chegou, a igualdade não
Aedição
de 2024 do Inaf acrescenta uma camada importante a essa discussão. Pela
primeira vez, a pesquisa avaliou habilidades em ambiente digital.
Um dos
resultados é particularmente revelador: entre pessoas classificadas no nível
elementar de alfabetismo, 95% haviam acessado a internet nos três meses
anteriores à pesquisa.
Aparentemente,
portanto, a exclusão digital estaria perto de ser superada, mas basta mudar a
pergunta. Em uma tarefa proposta pelo Inaf, apenas 17% conseguiram completar
corretamente todas as etapas de uma inscrição por formulário online.
Em
outra, somente 13% concluíram todas as etapas de uma compra pela internet.
Quando
era necessário escolher um filme a partir de determinados critérios e
justificar a escolha, apenas 4% conseguiram realizar integralmente a tarefa.
O
celular está na mão, a conexão existe, o aplicativo abre, mas isso, nem de
longe, significa igualdade.
Durante
anos, parte da discussão sobre inclusão digital foi organizada em torno do
acesso à infraestrutura: quem possui computador, quem tem celular, quem
consegue se conectar à internet. Essa discussão continua importante, mas
tornou-se insuficiente.
A
questão agora é também o que cada pessoa consegue fazer depois que a tela
acende.
A
burocracia não desapareceu, virou aplicativo
Há uma
dimensão política nessa transformação. A digitalização costuma ser apresentada
como sinônimo de modernização. Menos papel, menos filas, menos deslocamentos,
menos burocracia.
Para
milhões de pessoas, pode efetivamente significar tudo isso. Para outras,
entretanto, uma repartição pública que antes tinha um balcão, uma pessoa e uma
possibilidade de pedir ajuda foi substituída por uma interface.
O
trabalhador que procura emprego precisa cadastrar currículo em uma plataforma.
A pessoa que busca determinado benefício precisa interpretar instruções, criar
senha, preencher campos, anexar documentos e acompanhar notificações.
Bancos
fecham agências enquanto operações migram para aplicativos, empresas
automatizam processos seletivos. Serviços públicos são reorganizados em torno
de cadastros e portais. A burocracia não necessariamente desapareceu.
Em
muitos casos, o trabalho necessário para atravessá-la foi transferido da
instituição para o indivíduo e pessoas chegam a essa nova ordem digital
carregando condições profundamente desiguais.
Para
alguém com escolarização elevada, computador próprio, conexão estável e
familiaridade com interfaces digitais, preencher mais um cadastro pode ser
apenas uma inconveniência.
Para
quem teve sua trajetória escolar interrompida, utiliza um celular antigo,
divide o aparelho, depende de pacote de dados e encontra dificuldades de
leitura e interpretação, o mesmo procedimento pode funcionar como barreira.
A
tecnologia é a mesma e as condições sociais de utilizá-la não são.
A
desigualdade brasileira também envelhece
Outro
dado ajuda a compreender a dimensão histórica do problema: 65% dos analfabetos
funcionais têm entre 40 e 64 anos.
Isso
significa que estamos falando de milhões de pessoas que atravessaram décadas de
profundas mudanças econômicas e tecnológicas carregando as consequências de
Agora o
país envelhece e, simultaneamente, digitaliza-se. É difícil imaginar
contradição mais evidente.
Pessoas
que não tiveram acesso adequado à escolarização quando jovens são cobradas,
décadas depois, por competências cada vez mais complexas para trabalhar e
acessar serviços.
Nesse
cenário, a Educação de Jovens e Adultos (EJA) não pode ser tratada como uma
política residual destinada a corrigir individualmente trajetórias escolares
“incompletas”, ela é parte da resposta pública a uma dívida coletiva.
“Discutir
alfabetismo em um país que envelhece exige olhar também para as oportunidades
educacionais oferecidas ao longo de toda a vida. Os dados evidenciam a
necessidade de políticas consistentes de Educação de Jovens e Adultos, capazes
de enfrentar desigualdades que persistem e afetam justamente parcelas da
população que tiveram seus direitos educacionais negados ao longo de suas
trajetórias”, afirma Heloisa Trenche Belusci, uma das organizadoras do livro.
A
tecnologia não elimina relações de classe
Existe
uma tendência de imaginar a tecnologia como uma força externa às relações
sociais. Primeiro surge a inovação. Depois caberia à sociedade “se adaptar”. Os
dados do Inaf sugerem o limite dessa narrativa. Nenhuma tecnologia chega a uma
sociedade vazia.
Ela
chega a uma sociedade já organizada por desigualdades de renda, raça,
escolarização, gênero e território.
Por
isso, a mesma tecnologia capaz de ampliar acesso para alguns pode aprofundar
barreiras para outros.
No
Nordeste, por exemplo, 42% das pessoas entre 15 e 64 anos estão em situação de
analfabetismo funcional.
Mais da
metade das pessoas nessa condição no país vive em municípios com até 100 mil
habitantes.
Isso
significa que discutir a digitalização do Brasil exige perguntar não apenas
quais tecnologias estão disponíveis, mas sobre quais desigualdades elas estão
sendo construídas.
Uma
política pública não se torna universal simplesmente porque está disponível
online, um serviço não se torna acessível apenas porque existe um aplicativo.
Uma
vaga de emprego não está igualmente disponível para todos apenas porque foi
publicada numa plataforma. A igualdade formal de acesso à ferramenta não
elimina a desigualdade material das condições para utilizá-la.
Alfabetizar
também é distribuir poder
Há,
finalmente, algo maior em jogo: ler não serve apenas para preencher
formulários.
Alfabetismo
significa também capacidade de interpretar o mundo, comparar informações,
compreender contratos, reconhecer interesses, acessar conhecimento e participar
da vida pública.
Em uma
sociedade inundada por informação e mediada por algoritmos, essas capacidades
tornam-se ainda mais decisivas. É por isso que alfabetização nunca foi apenas
uma questão pedagógica. Ela é também uma questão de distribuição de poder. Quem
consegue compreender uma informação pública? Quem lê as condições de um
contrato? Quem consegue comparar uma proposta de trabalho? Quem identifica uma
fraude? Quem entende uma cobrança? Quem consegue pesquisar versões diferentes
de um acontecimento? Quem consegue produzir e fazer circular a própria
narrativa?
A
discussão sobre alfabetismo em tempos digitais é, portanto, também uma
discussão sobre quem possui as ferramentas necessárias para agir com autonomia
na sociedade contemporânea.
Para
Roberto Catelli Jr., responsável pelo Inaf na Ação Educativa e organizador da
publicação, a dimensão digital permite justamente ampliar o alcance dessa
análise.
“Os 25
anos do Inaf nos permitem olhar para uma trajetória extensa de produção de
conhecimento sobre o alfabetismo no Brasil e, ao mesmo tempo, para os novos
desafios colocados pelas transformações da sociedade. A incorporação da
dimensão digital amplia essa análise e ajuda a compreender como as habilidades
de leitura, escrita e matemática são mobilizadas em contextos cada vez mais
mediados pela tecnologia”, afirma.
Vinte e
cinco anos depois, a pergunta continua sendo sobre desigualdade
Com 160
páginas, “Inaf 25 anos: alfabetismo no Brasil em tempos digitais” reúne
especialistas para analisar a trajetória do indicador e os resultados de 2024.
Os
textos discutem alfabetismo e letramento digital, conectividade, numeramento,
desigualdades raciais, geracionais e de gênero, Educação de Jovens e Adultos,
escolarização, trabalho, cidadania e desenvolvimento humano.
O livro
será lançado no dia 21 de outubro, das 19h às 21h, no auditório da Ação
Educativa, em São Paulo, em evento gratuito e aberto ao público.
A
programação terá debate com Daniela Costa (Cetic.br), Ana Elisa Ribeiro
(Cefet-MG), Edneia Gonçalves (Ação Educativa), Rosalina Maria Soares (Fundação
Roberto Marinho) e Maria Clara Di Pierro (FEUSP), seguido de lançamento,
coquetel e sessão de autógrafos.
Vinte e
cinco anos de dados do Inaf ajudam a desmontar uma fantasia particularmente
conveniente: a de que o avanço tecnológico, por si só, produz avanço social.
Não produz.
Digitalizar
uma sociedade desigual não elimina automaticamente suas desigualdades. Se
milhões de pessoas chegam ao mundo digital depois de terem acesso desigual à
escola, ao tempo, à renda, aos livros e às oportunidades de aprendizagem, não
existe razão para imaginar que a simples chegada de uma nova tecnologia apagará
essas diferenças.
Ela
pode ampliá-las. A questão que o Brasil precisa enfrentar, portanto, não é
apenas como colocar mais pessoas online.
É quem
controla as condições para que elas possam ler, compreender, trabalhar,
participar e exercer direitos nesse mundo.
Porque,
se o direito à educação continua sendo distribuído de maneira desigual, o risco
é transformar a promessa de democratização digital em algo muito mais antigo e
conhecido no Brasil: uma nova tecnologia para administrar velhas desigualdades.
Fonte:
Por Jéssica Balbino, em Jácobin Brasil

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