sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Jornal britânico destaca protagonismo da violência de facções criminosas e milícias na eleição do Brasil

Uma reportagem publicada pelo jornal britânico Financial Times nesta quinta-feira (15/10) retrata a crescente violência de facções criminosas no Brasil e aponta para o peso da segurança pública nas eleições presidenciais de 2026.

Segundo a publicação, "o medo e a raiva em relação ao crime organizado" marcaram uma série de eleições recentes na América Latina e o senador e candidato Flávio Bolsonaro (PL) espera que o mesmo aconteça nas urnas brasileiras.

"A percepção de que as autoridades brasileiras têm sido negligentes no combate aos grupos armados tem sido um dos principais motivos para o surgimento de um movimento populista de direita. Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, está em posição privilegiada para vencer a eleição presidencial de 25 de outubro, após ter ficado em primeiro lugar no primeiro turno das eleições", diz a reportagem.

Intitulada "As gangues, as armas e a batalha pelo Brasil", a matéria descreve como facções criminosas e milícias passaram a exercer controle sobre parcelas significativas do território brasileiro, especialmente em comunidades urbanas do Rio de Janeiro, influenciando a vida cotidiana de milhões de pessoas e ampliando seu alcance para praticamente todo o país.

Os repórteres visitaram o Complexo da Penha, na zona norte do Rio, onde moradores relatam a presença constante de barricadas armadas operadas por integrantes do Comando Vermelho. Um deles, o professor de artes marciais Thiago Braga, afirma que a circulação na região passou a ser controlada por traficantes fortemente armados e que o Estado está, em grande medida, ausente. "Se os jovens na barricada são mortos, outros tomam seu lugar. É um processo sem fim", afirmou ao Financial Times.

O texto destaca que, segundo levantamento do Instituto Fogo Cruzado e da Universidade Federal Fluminense, 31% do território do município do Rio está atualmente sob controle direto ou influência de grupos armados. Nessas áreas vivem quase 3 milhões de pessoas, o equivalente a mais de 40% da população da cidade. Ainda de acordo com a reportagem, o espaço dominado por essas organizações mais do que dobrou desde 2008.

"Poucos lugares na América Latina têm a mesma escala, diversidade e descaramento de comportamento de gangues como o Rio de Janeiro", diz o texto.

Mas o Financial Times afirma que o fenômeno deixou de ser um problema concentrado no Rio. Dados citados pelo jornal indicam que o Comando Vermelho já possui presença em 26 das 27 unidades federativas do país. O Primeiro Comando da Capital (PCC), principal grupo criminoso de São Paulo, também alcançou 26 Estados.

Especialistas ouvidos pela publicação avaliam que ambas as organizações já contam com mais integrantes do que alguns dos mais famosos cartéis da Colômbia e do México.

A reportagem também chama atenção para o avanço dessas organizações sobre a política.

"Em março, Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, foi preso e aguarda julgamento sob a acusação de atuar em favor do Comando Vermelho", cita o jornal.

Ao abordar as propostas de Flávio Bolsonaro para a área de segurança, o FT destaca promessas de ampliar operações policiais e construir megapresídios para integrantes de facções, em linha com estratégias adotadas em outros países da região, como El Salvador.

A publicação observa, contudo, que diversos especialistas questionam a eficácia dessas medidas. Segundo eles, justamente dentro do sistema prisional surgiram organizações como o Comando Vermelho e o PCC, que posteriormente expandiram suas redes pelo país.

"Bolsonaro, carioca, promete operações policiais mais agressivas e megaprisões para membros de gangues. No entanto, críticos afirmam que isso é exatamente o que o Brasil vem fazendo nas últimas três décadas. O Rio já possui uma das maiores taxas de pessoas mortas pela polícia no mundo", diz o texto.

O FT também destaca a proximidade de Flávio Bolsonaro com o governo de Donald Trump, que defende uma resposta mais militarizada contra a violência de gangues na América Latina e cujo governo classificou o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas.

"Para Lula, as pesquisas mostram que a segurança é um de seus pontos fracos. Para a frustração de muitos brasileiros mais pobres, uma ala da esquerda há muito minimiza a necessidade de confrontar grupos armados, argumentando que a redução da pobreza é a melhor maneira de resolver a violência urbana", diz a reportagem.

No entanto, o jornal britânico destaca que durante seu mandato atual, o governo federal lançou uma série de investigações sobre lavagem de dinheiro por gangues de tráfico de drogas.

"Os planos de Bolsonaro podem ter apelo popular, mas não foram bem recebidos por muitos dos especialistas que estudam a violência no Brasil. Eles enfatizam que o Comando Vermelho e o PCC foram fundados dentro de prisões e, desde então, têm usado o sistema para recrutar e construir redes nacionais", afirma o FT.

O jornal sugere ainda que, independentemente do vencedor da eleição presidencial brasileira, uma solução duradoura dependerá de o Estado recuperar o controle de territórios atualmente governados por facções e milícias.

"Na preparação para as Olimpíadas, o Rio tentou implementar um novo modelo que instalava quartéis da polícia em favelas e iniciava o patrulhamento da comunidade. Os níveis de violência caíram em muitas das favelas onde o programa foi implementado. No entanto, o programa, na prática, entrou em colapso em meio a uma grave crise econômica no Estado do Rio em 2016", diz.

¨      As facções mudam o cenário eleitoral. Por Antonio Gonçalves

Os candidatos para a presidência da República têm como plataforma o incremento da Segurança Pública e o enfrentamento das facções, porém, pouco se fala da influência crescente das organizações criminosas nas eleições brasileiras.

O primeiro turno das eleições de 2026 já aconteceram e agora estamos às vésperas de acontecer o segundo turno para presidente da República e, com elas, a atuação das facções se faz notar e o Estado não consegue mitigar sua atuação, a ponto de ter de se adequar à realidade das organizações criminosas.

No Rio de Janeiro, local central das operações do Comando Vermelho, a violência cresce a ponto de o Estado ter de modificar 71 zonas eleitorais, em 20 municípios, por domínio de facções (dessas, 44 estavam em áreas dominadas pelo Comando Vermelho). Há um aumento, tanto da preocupação, quanto da influência, afinal, nas eleições de 2024, 53 zonas eleitorais já haviam sido substituídas em dez cidades.

Recente reportagem publicada na Revista Piauí, em agosto de 2026, revela que, nas últimas cinco eleições realizadas no Brasil, 80 candidatos a deputado, prefeito e vereador estavam sendo formalmente investigados sob suspeita de ligações diretas com facções e milícias. Destes, 49 foram eleitos.

A influência das facções criminosas revela uma preocupação crescente não apenas com a Segurança Pública, mas sim, com o funcionamento da propria Democracia. De que forma?

1) Nas disputas eleitorais, através de candidatos vinculados ou associados a facções; 2) A governança informal e clandestina das facções com transferência de sua influência em determinados territórios e, por conseguinte, a capacidade de influir na disputa eleitoral; e

3) Uso de erário advindo do crime para financiar e/ou apoiar projetos políticos.

A influência das facções pode ser direta ou indireta. Claro que não há um candidato membro de uma organização, porém, advindo com financiamento indireto, com ligações diretas já é outra história. A mudança dos locais de votação faz com que a população possa votar em paz e pela própria consciência, será?

Um morador de uma comunidade controlada por uma facção pode até votar em outro local, contudo, a pressão para votar “livremente” no candidato controlado ou financiado pela organização criminosa é a mesma. Muito eleitores tentam fotografar o voto para comprovar a fidelidade.

As facções são uma realidade nas eleições e o Estado não consegue fazer tal fato recrudescer. É um retrato fiel da realidade e da presença das organizações criminosas no País. A preocupação transcende às fronteiras nacionais, a ponto da Agência Brasileira de Inteligência – ABIN apontar um nível crítico de potencial influência e interferência externa dos Estados Unidos da América nas eleições brasileiras de 2026, em relatório enviado à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral e ao Ministério da Justiça.

É um absurdo pensar em uma fiscalização ou ingerência externas nas eleições brasileiras. Contudo, já passou da hora do Governo Federal implementar mudanças a fim de minorar a influência das facções criminosas nas eleições brasileiras. Quanto mais permissiva tem sido a falta de ingerência e controle no processo eleitoral, sem a construção de elementos mais seguros de proteção e identificação de candidatos advindos das organizações criminosas e com recursos oriundos do mundo do crime, mais nos aproximamos de um risco concreto à democracia. As facções são um fato concreto no Brasil e as autoridades, os Estados, Municípios e, especialmente, o Governo Federal e o Tribunal Superior Eleitoral precisam modificar seus mecanismos eleitorais para limitar e coibir a presença das facções no Estado Democrático de Direito brasileiro. Urgentemente. 

¨      Milícias, facções e poder econômico: artigo analisa avanço do crime organizado no Brasil. Por Marcelo Phintener

O avanço das milícias e das facções criminosas no Brasil vai além da disputa territorial e da violência armada. Essa é a análise apresentada pelo jornalista Marcelo Phintener em artigo publicado em 7 de outubro de 2026 no site Outras Palavras. O texto argumenta que o crime organizado também atua como força econômica, com conexões entre atividades ilegais, agentes públicos, empresas e circuitos financeiros.

No artigo, intitulado a partir da discussão sobre a chamada “zona cinzenta”, Phintener compara a expansão das milícias brasileiras à atuação de organizações mafiosas na Itália. A análise utiliza obras do escritor Roberto Saviano, como Gomorra e ZeroZeroZero, para discutir como grupos criminosos transformam a violência em patrimônio, influência política e fonte de renda.

Segundo o autor, interpretar o narcotráfico e as milícias apenas como desvios da economia formal dificulta a compreensão de suas estruturas. Ele sustenta que, em determinadas regiões, esses grupos controlam serviços, impõem cobranças à população e estabelecem relações com setores da economia legal.

<><> Milícias e controle territorial

O artigo destaca que as milícias brasileiras têm características próprias, especialmente por sua origem ligada a integrantes e ex-integrantes de forças de segurança. A atuação desses grupos envolve cobranças por proteção, controle do fornecimento de gás, água, internet e transporte, além de negócios imobiliários e ocupação irregular de terrenos.

Phintener recorre aos estudos dos pesquisadores José Cláudio Souza Alves e Bruno Paes Manso para descrever a transformação de grupos de extermínio em organizações que exploram economicamente territórios periféricos.

Como exemplo, o texto cita o desabamento de dois prédios na Muzema, na zona oeste do Rio de Janeiro, em 2019. A tragédia deixou 24 mortos e é apresentada como um caso que evidencia os riscos associados à construção irregular em áreas submetidas ao controle miliciano.

O autor também aponta a existência de alianças entre grupos armados. Segundo a análise, a fronteira entre milícias e tráfico de drogas nem sempre corresponde à divisão apresentada publicamente, já que investigações identificaram organizações que combinam diferentes atividades criminosas.

Dados apontam expansão do domínio armado

Para dimensionar o problema, o artigo utiliza dados do Mapa Histórico dos Grupos Armados, elaborado pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI/UFF) em parceria com o Instituto Fogo Cruzado.

De acordo com os números citados, em 2024 cerca de 34,9% dos moradores da Região Metropolitana do Rio de Janeiro — aproximadamente 4 milhões de pessoas — viviam sob domínio ou influência de grupos armados.

O levantamento também indica que as milícias controlavam ou influenciavam cerca de 201 quilômetros quadrados, equivalentes a 49,4% da área sob domínio armado considerada no estudo. O artigo ressalta ainda a desigualdade socioeconômica e racial presente nesses territórios.

Phintener afirma que o crescimento das organizações não pode ser atribuído exclusivamente a um governo. O texto aborda diferentes períodos da política fluminense, incluindo o avanço registrado entre 2016 e 2020, e discute fatores como a crise financeira estadual, mudanças na política de segurança e disputas entre grupos criminosos.

<><> Armas e conexões políticas

Outro eixo da análise é a política de armas adotada durante o governo de Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022. O autor relaciona a flexibilização das regras para colecionadores, atiradores desportivos e caçadores (CACs) ao aumento do acesso a armamentos e menciona levantamentos sobre armas desviadas para organizações criminosas.

O artigo também aborda relações políticas controversas. Entre os exemplos citados está a homenagem feita pelo então deputado estadual Flávio Bolsonaro ao policial Adriano da Nóbrega na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, além da contratação de familiares dele em seu gabinete.

O texto ressalta que as investigações envolvendo o gabinete foram anuladas pelos tribunais superiores por razões processuais, sem julgamento de mérito. A referência é apresentada como parte da discussão sobre as relações entre política e grupos armados, e não como prova de condenação criminal.

<><> Crime organizado e mercado financeiro

A análise se estende para além das periferias do Rio de Janeiro e aborda a circulação de recursos de origem criminosa por empresas e instituições financeiras.

Como exemplo, Phintener cita a Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025, que investigou suspeitas de infiltração do crime organizado em setores como combustíveis, importação e distribuição de produtos e estruturas financeiras.

Segundo o artigo, as investigações apontaram possíveis conexões entre atividades ilegais e empresas, fundos de investimento e outros agentes da economia formal. O autor utiliza o caso para discutir como recursos obtidos com o crime podem circular por negócios legalmente constituídos.

A partir dessa análise, o texto questiona os limites da relação entre capital legal e ilegal e sustenta que a resposta ao crime organizado precisa considerar não apenas os grupos armados, mas também os mecanismos econômicos que permitem a movimentação e a ocultação de recursos.

Eleições de 2026 e desafios para o próximo governo

Na parte final, Phintener relaciona o tema ao cenário eleitoral de 2026 e aos desafios que serão enfrentados pelo governo a partir de 2027. Para o autor, a disputa eleitoral não determina, por si só, o fim das estruturas criminosas, que envolvem questões de segurança pública, fiscalização financeira, controle territorial e funcionamento das instituições.

O artigo também questiona a eficácia de operações policiais de alta letalidade quando não são acompanhadas de medidas capazes de atingir as fontes de renda e as redes de financiamento das organizações criminosas.

Como referência histórica, o autor retoma a experiência italiana no combate às máfias e argumenta que prisões e operações policiais, isoladamente, não impedem que a acumulação de recursos ilegais se desloque para outros setores.

A conclusão é que milícias e facções precisam ser compreendidas também a partir de sua dimensão econômica e das relações que estabelecem com estruturas legais. Na avaliação de Phintener, enfrentar o problema exige investigar tanto a violência nos territórios quanto os circuitos financeiros, políticos e institucionais que podem sustentar essas organizações.

 

Fonte: BBC News Brasil/Debate Jurídico/082 Notícias

 

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