Gil
Vicente Reis de Figueiredo: Votos para a virada
Passado
o primeiro turno, é preciso fazer uma avaliação cuidadosa do que efetivamente
aconteceu. No primeiro turno de 2022, Lula teve 57,26 milhões de votos e Jair
Bolsonaro 51,07 milhões: terminou 6,19 milhões à frente. Quatro anos depois, no
primeiro turno de 2026, Lula teve 53,72 milhões e Flávio Bolsonaro 55,96
milhões: terminou 2,24 milhões atrás. Este artigo argumenta que essa perda de
8,8 milhões de votos de margem não foi um movimento homogêneo, mas a soma de
fatores nacionais, econômicos e locais – sendo o endividamento das famílias um
dos mais decisivos e, sobretudo, reversível.
A
proposta aqui é entender essa mudança com precisão: onde aconteceu e que
fatores a influenciaram, obtendo dados concretos que subsidiem sua reversão. É
também urgente pensar em uma proposta que busque superar as origens mais
tangíveis de alguns dos fatores subjacentes ao recente quadro eleitoral.
Em
relação aos resultados obtidos, apresentamos, no Anexo abaixo, mapas
detalhados.
Antes
de seguir, algumas considerações metodológicas. O número de eleitores mudou, de
uma eleição para outra, e comparar votos brutos misturaria a mudança de opinião
com o crescimento do eleitorado. Por isso olhamos para a fatia de cada
candidato nos votos válidos: em 2022, Lula teve 48,4%, e em 2026, 45,1%. Os
votos da direita, no mesmo período, subiram 3,8%. Os demais candidatos, juntos,
perderam pouco mais de 0,5%.
Em
valores nominais, em 2022 Lula venceu por 6,2 milhões de votos, e em 2026,
perdeu por 2,2 milhões. Esses números, porém, misturam a mudança de opinião com
a alteração do tamanho do eleitorado, que não foi homogênea em todo o País.
Para medir a magnitude da reversão, calculamos a mudança na margem (votos na
direita – votos em Lula) em cada município, aplicando essa variação em pontos
percentuais aos votos válidos de 2026. A soma dessas variações municipais
resulta em um recuo total de 8,8 milhões de votos de margem – uma métrica de
reversão, não a soma da diferença absoluta de votos entre os candidatos.
É
fundamental entender, ao menos na medida do possível, por que Lula perdeu mais
em uns lugares do que em outros. Para responder essa pergunta, comparamos os
5.555 municípios do país e dividimos a perda de votos de cada um em quatro
partes.
A
primeira parte é a que reflete um movimento de amplitude nacional. Essa é uma
perda que aconteceu de forma homogênea, em todo lugar, do Acre ao Rio Grande do
Sul, e que nenhuma característica de um particular município explica. Ela
equivale a 5,5% de margem em cada município e soma 6,6 milhões, três quartos
dos 8,8 milhões de votos perdidos.
Paradoxalmente,
os últimos quatro anos revelam indicadores socioeconômicos positivos, como a
estabilização da inflação, o menor desemprego, o aumento do valor real da renda
média e a melhoria do índice de Gini – entre vários outros. É difícil avaliar
exatamente como isso pode ter ocorrido. Entretanto, é provável que essas perdas
dispersas se devam a fatores que não são facilmente quantificáveis, como a
influência da mídia – rádios, tvs, grande imprensa –, a recorrente divulgação
de mentiras em redes sociais ou as tentativas internacionais de ingerência
(taxações e ações retaliatórias diversas).
Estudos
de comunicação política sugerem que a exposição reiterada a determinadas
narrativas – mesmo quando factualmente frágeis – pode deslocar a percepção de
eleitores por meio de mecanismos como a definição da agenda pública (o conjunto
de temas que o público passa a considerar relevantes) e o enquadramento prévio
das questões (o modo pelo qual um tema, ao ser associado a certas imagens e
valores, condiciona a avaliação posterior de candidatos e governos). A atuação
de influenciadores digitais e a circulação de conteúdo em aplicativos de
mensagem, cujo alcance não pode ser capturado por estatísticas públicas,
reforçam a plausibilidade dessa hipótese, ainda que não seja possível
quantificá-la com os dados disponíveis.
Um
segundo componente se refere a fatores cujas séries históricas estão bem
documentadas: a elevação da taxa Selic, a evolução dos gastos em ‘bets’, as
dificuldades relacionadas ao crédito rural e, sobretudo, o consequente aumento
do endividamento das famílias, que subiu, no período, em todos os estados
brasileiros, embora de forma desigual: menos de 0,5% no Rio de Janeiro, e mais
de 4% em Tocantins.
Para
ficar apenas em um exemplo, em Goiás a inadimplência passou de 2,7% em setembro
de 2022 para 7,1% em junho de 2026: ou seja, uma alta de 4,4%. Uma constatação
do nosso estudo é que onde a inadimplência subiu mais, Lula perdeu mais votos,
de forma sistemática. Para cada 1% a mais de alta, Lula perdeu, em média, 0,7%.
Somando todos os municípios, dos 8,8 milhões de votos perdidos, pelo menos 1,3
milhão deles (15%) correspondem unicamente a este fator.
As
regiões, estados e municípios em que o endividamento avançou e,
correspondentemente, onde a votação no Presidente Lula diminuiu por essa razão,
podem assim, ser mapeados. A perda de votos correspondente ao endividamento /
inadimplência tem uma característica importante, do ponto de vista eleitoral:
nos correspondentes municípios, a votação de Lula caiu 0,57% para cada 1% de
alta da inadimplência; mas os votos na direita não subiram na mesma proporção –
apenas 0,14%. Esse eleitor, então, ao deixar de votar em Lula, não aderiu ao
outro lado, o que é um bom indicador de que é um voto que pode ser recuperado.
Um
terceiro segmento é o do agro. Para avaliar detalhadamente esse fator, medimos
o peso da agropecuária na economia de cada município brasileiro, isto é, quanto
da riqueza produzida ali vem da lavoura e da criação. Quanto maior esse peso,
maior a perda: cada 1% a mais de agro na economia local significou, em média,
0,08% de perda de votos (redução do voto em Lula + aumento de voto na direita).
Parece
pouco, mas num município em que o agro é um terço da economia isso equivale a
uma perda de 2,4%. No país, dos 8,8 milhões de votos de margem perdidos, cerca
de 900.000 (~10%) correspondem a esse indicador. Esse ‘fator agro’ capta uma
diversidade de elementos: a dívida do produtor, os preços, a identidade
política do setor e mesmo suas próprias redes de informação.
Por
último, há as características locais. É o que está relacionado com a dinâmica
específica do município: o tamanho da cidade, a renda, a história de voto e
tudo o que os outros registros não alcançam, como lideranças, imprensa local e
mesmo acontecimentos da região. Num município, os fatores locais podem gerar
uma perda maior do que o esperado, ou, ao contrário, menor. No País como um
todo, a soma é zero.
Um
exemplo ajuda a ver como essas partes se encaixam. Em Uberlândia, com 409.921
votos válidos, Lula perdeu 36.052 votos. O movimento de amplitude nacional
responde por 22.623 deles. A inadimplência, que em Minas Gerais subiu 2,1%,
pode estar relacionada a 5.003 votos. O agro, que pesa menos de 3% na economia
da cidade, pode ter tido influência em 940 votos.
Os
7.486 restantes correspondem a fatores locais – ou seja, Uberlândia perdeu um
pouco mais do que o esperado para uma cidade do seu tamanho e renda. No Brasil
como um todo, os números são os seguintes: a mudança de cunho nacional equivale
a 6,56 milhões de votos; a inadimplência, a 1,31 milhões; ao fator agro, 0,91
milhão; e a fatores locais, como mencionado, soma zero. Total, 8,78 milhões de
votos.
Para
encerrar este tópico, duas observações: no apêndice a este texto podem ser
encontrados detalhes e esclarecimentos quanto à forma como os números aqui
mencionados foram obtidos; e é preciso dizer também o que esses números não
provam: eles mostram correlações, ou seja, quão alinhada cada parcela está às
perdas, mas não demonstram uma relação de causalidade. Ainda assim, a força e a
sistematicidade dessas associações – sobretudo no caso da inadimplência –
constituem um indicador robusto para a ação política: se a perda de votos
acompanha o endividamento, atuar sobre este último tende a reverter aquela.
<><>
Algumas regiões críticas
Inadimplência
e agro, juntos, respondem por um quarto do total da perda constatada, ou seja,
~2,2 milhões de votos. Em Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Maranhão e
Tocantins, 40% a 50%; no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Minas Gerais e no
Paraná, o peso é menor – até 25%; aí, pesaram mais tendências nacionais e
fatores locais. Essa diferença tem explicação plausível. Goiás, Mato Grosso e
Mato Grosso do Sul têm economias fortemente ancoradas no agronegócio, e
sentiram de forma mais aguda a crise do crédito rural e a alta da inadimplência
no campo.
Maranhão
e Tocantins combinam peso relevante do agro com renda média baixa e
endividamento crescente das famílias. Já nos estados do Sudeste e do Sul, a
economia mais diversificada dilui o efeito desses fatores, e a perda tende a
ser explicada por movimentos nacionais e por dinâmicas locais específicas.
A perda
de votos não é homogênea. Metade do recuo está concentrado em 537 municípios
que reúnem 56% dos eleitores do país, e quase 80% dessa perda está em
municípios urbanos, sobretudo em cidades médias, de 50 mil a 200 mil eleitores.
Há também os 711 municípios onde Lula venceu em 2022 e Flávio em 2026,
sobretudo em regiões em que o agro é importante, em Minas, no Rio Grande do
Sul, no Paraná, em São Paulo e em Goiás. Eles chamam a atenção no mapa, e somam
cerca de 1 milhão de votos perdidos.
No
interior agrícola, a explicação mais consistente com a perda de votos é uma
crise do crédito rural. Em julho de 2026, quase um quarto da carteira de
crédito rural estava atrasada, inadimplente, prorrogada ou renegociada. As
renegociações oferecidas pelo governo deixaram de fora as dívidas com
cooperativas e tradings e a Cédula de Produto Rural, que responde por mais de
40% do crédito da safra; isso afetou, por exemplo, segmento importante dos
produtores gaúchos – um breve olhar mostra que, nos mapas que localizam as
perdas de votos, essa é uma região crítica.
Se três
quartos da virada não têm endereço, a que corresponderão?
É
difícil definir exatamente os fatores que estão por trás dessas perdas, mesmo
acompanhando diversas séries temporais. O fato é que a medição da popularidade
de governos (como a do Presidente Lula) não é feita continuamente. Por outro
lado, não há indicadores precisos do posicionamento da grande mídia – como
rádios, tvs, e outros meios de comunicação; e nem é possível quantificar com a
necessária acurácia a influência das mídias sociais.
Entretanto,
há alguns dados, embora não sistemáticos, que mostram ocorrências de impacto
significativo. Em janeiro de 2025, por exemplo, chegou-se ao auge da divulgação
em massa de boatos mentirosos, que chegaram a atingir centenas de milhões de
visualizações: o Pix iria ser taxado; isso provocou queda de popularidade do
Presidente Lula. Várias outras variáveis foram testadas, mas não se
sustentaram. O partido do prefeito eleito em 2024, por exemplo, não demonstrou
relação nenhuma com a perda de votos no respectivo município.
<><>
Proposta para potencializar a mudança de voto
O
presente estudo mostra um possível caminho para se tentar virar o jogo neste
segundo turno, ao identificar, ainda que parcialmente, onde foram perdidos
votos em 2026. Entretanto, para recuperar esses votos é preciso enfrentar,
vigorosa e imediatamente, questões claramente subjacentes, como, por exemplo,
as vinculadas ao endividamento estrutural da população, em especial a mais
pobre.
Vale
registrar que o recente posicionamento do Presidente vetando as ‘bets’ foi
muito positivo, dado que estancar o papel nefasto destas é um elemento central
para fazer face ao endividamento. Contudo, é preciso ir além disso: apenas esse
movimento não é suficiente. Sabemos que, em razão da autonomia do Banco
Central, o controle da taxa Selic foge hoje ao âmbito do executivo.
Por
outro lado, os atuais programas do tipo ‘Desenrola’, embora neste momento
essenciais e necessários, são paliativos e limitados, não resolvendo de forma
permanente e sustentada as espirais de endividamento que corroem a renda da
população. Assim, seria crucial preservar (pelo menos) as classes menos
favorecidas, minimizando sua exposição ao apetite agiota do capital financeiro.
Uma
proposta nessa direção seria garantir, para todos os que tenham renda mensal de
até três salários-mínimos:
(i) A
imediata renegociação das dívidas existentes, garantido juro que tenha como
máximo o teto do consignado do INSS — referência de crédito com juros baixos e
garantia real, fixado pelo Conselho Nacional de Previdência Social —, com a
criação adicional de linhas de crédito da CEF ou do BB com esse mesmo limite de
juros, de forma a reduzir o risco de futuras inadimplências.
(ii) A
suspensão, por 12 meses, de execuções judiciais e leilões de propriedades
rurais, permitindo que dívidas do setor agrícola sejam renegociadas sem perda
de patrimônio. Quanto à viabilidade orçamentária, uma estimativa de ordem de
grandeza indica que seu custo pode ser compensado, ao menos parcialmente, pela
redução de perdas futuras com inadimplência, e pela recuperação do crédito.
Politicamente,
essa proposta teria um forte apelo popular, alinhando-se estrategicamente com
projetos do campo progressista e com o diagnóstico central deste estudo – o
endividamento é um dos principais vetores da perda de votos havida.
<><>
Perdas de votos por inadimplência e fator agro, por região
A
tabela abaixo mostra, na segunda coluna, o recuo havido em cada região, além do
total (nível Brasil), entre 2022 e 2026, do ponto de vista da candidatura Lula.
Isso significa o total de votos perdidos, que é a soma daqueles que Lula teve a
menos com os que a direita teve a mais. O total é de 8.781.368. Uma parte
desses pode ser mapeada, e se refere a eleitores que se movimentaram ou por
dificuldades financeiras (terceira coluna) ou pelo que chamamos ‘fator Agro’,
ou seja, moram em regiões em que parte significativa da economia local é
vinculada ao agronegócio.
Neste
estudo mapeamos os votos que correspondem à ‘inadimplência’; são 1.312.078.
Desses, um percentual maior corresponde a eleitores que deixaram de votar em
Lula, cerca de 80%, sendo que apenas em torno de 20% do total migraram para
Flávio Bolsonaro. Portanto, são votos mais prováveis de serem recuperados. Por
outro lado, dos votos afetados pelo ‘fator Agro’ (economia do município ligada
ao agronegócio), que são 914.231, a situação se inverte: pouco mais de um terço
(37%) são eleitores que deixaram de votar em Lula, ao passo que o restante
(63%) se compõe de votantes atraídos pelo bolsonarismo. A próxima tabela mostra
em detalhe essa situação.
Fonte:
A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário