sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Gil Vicente Reis de Figueiredo: Votos para a virada

Passado o primeiro turno, é preciso fazer uma avaliação cuidadosa do que efetivamente aconteceu. No primeiro turno de 2022, Lula teve 57,26 milhões de votos e Jair Bolsonaro 51,07 milhões: terminou 6,19 milhões à frente. Quatro anos depois, no primeiro turno de 2026, Lula teve 53,72 milhões e Flávio Bolsonaro 55,96 milhões: terminou 2,24 milhões atrás. Este artigo argumenta que essa perda de 8,8 milhões de votos de margem não foi um movimento homogêneo, mas a soma de fatores nacionais, econômicos e locais – sendo o endividamento das famílias um dos mais decisivos e, sobretudo, reversível.

A proposta aqui é entender essa mudança com precisão: onde aconteceu e que fatores a influenciaram, obtendo dados concretos que subsidiem sua reversão. É também urgente pensar em uma proposta que busque superar as origens mais tangíveis de alguns dos fatores subjacentes ao recente quadro eleitoral.

Em relação aos resultados obtidos, apresentamos, no Anexo abaixo, mapas detalhados.

Antes de seguir, algumas considerações metodológicas. O número de eleitores mudou, de uma eleição para outra, e comparar votos brutos misturaria a mudança de opinião com o crescimento do eleitorado. Por isso olhamos para a fatia de cada candidato nos votos válidos: em 2022, Lula teve 48,4%, e em 2026, 45,1%. Os votos da direita, no mesmo período, subiram 3,8%. Os demais candidatos, juntos, perderam pouco mais de 0,5%.

Em valores nominais, em 2022 Lula venceu por 6,2 milhões de votos, e em 2026, perdeu por 2,2 milhões. Esses números, porém, misturam a mudança de opinião com a alteração do tamanho do eleitorado, que não foi homogênea em todo o País. Para medir a magnitude da reversão, calculamos a mudança na margem (votos na direita – votos em Lula) em cada município, aplicando essa variação em pontos percentuais aos votos válidos de 2026. A soma dessas variações municipais resulta em um recuo total de 8,8 milhões de votos de margem – uma métrica de reversão, não a soma da diferença absoluta de votos entre os candidatos.

É fundamental entender, ao menos na medida do possível, por que Lula perdeu mais em uns lugares do que em outros. Para responder essa pergunta, comparamos os 5.555 municípios do país e dividimos a perda de votos de cada um em quatro partes.

A primeira parte é a que reflete um movimento de amplitude nacional. Essa é uma perda que aconteceu de forma homogênea, em todo lugar, do Acre ao Rio Grande do Sul, e que nenhuma característica de um particular município explica. Ela equivale a 5,5% de margem em cada município e soma 6,6 milhões, três quartos dos 8,8 milhões de votos perdidos.

Paradoxalmente, os últimos quatro anos revelam indicadores socioeconômicos positivos, como a estabilização da inflação, o menor desemprego, o aumento do valor real da renda média e a melhoria do índice de Gini – entre vários outros. É difícil avaliar exatamente como isso pode ter ocorrido. Entretanto, é provável que essas perdas dispersas se devam a fatores que não são facilmente quantificáveis, como a influência da mídia – rádios, tvs, grande imprensa –, a recorrente divulgação de mentiras em redes sociais ou as tentativas internacionais de ingerência (taxações e ações retaliatórias diversas).

Estudos de comunicação política sugerem que a exposição reiterada a determinadas narrativas – mesmo quando factualmente frágeis – pode deslocar a percepção de eleitores por meio de mecanismos como a definição da agenda pública (o conjunto de temas que o público passa a considerar relevantes) e o enquadramento prévio das questões (o modo pelo qual um tema, ao ser associado a certas imagens e valores, condiciona a avaliação posterior de candidatos e governos). A atuação de influenciadores digitais e a circulação de conteúdo em aplicativos de mensagem, cujo alcance não pode ser capturado por estatísticas públicas, reforçam a plausibilidade dessa hipótese, ainda que não seja possível quantificá-la com os dados disponíveis.

Um segundo componente se refere a fatores cujas séries históricas estão bem documentadas: a elevação da taxa Selic, a evolução dos gastos em ‘bets’, as dificuldades relacionadas ao crédito rural e, sobretudo, o consequente aumento do endividamento das famílias, que subiu, no período, em todos os estados brasileiros, embora de forma desigual: menos de 0,5% no Rio de Janeiro, e mais de 4% em Tocantins.

Para ficar apenas em um exemplo, em Goiás a inadimplência passou de 2,7% em setembro de 2022 para 7,1% em junho de 2026: ou seja, uma alta de 4,4%. Uma constatação do nosso estudo é que onde a inadimplência subiu mais, Lula perdeu mais votos, de forma sistemática. Para cada 1% a mais de alta, Lula perdeu, em média, 0,7%. Somando todos os municípios, dos 8,8 milhões de votos perdidos, pelo menos 1,3 milhão deles (15%) correspondem unicamente a este fator.

As regiões, estados e municípios em que o endividamento avançou e, correspondentemente, onde a votação no Presidente Lula diminuiu por essa razão, podem assim, ser mapeados. A perda de votos correspondente ao endividamento / inadimplência tem uma característica importante, do ponto de vista eleitoral: nos correspondentes municípios, a votação de Lula caiu 0,57% para cada 1% de alta da inadimplência; mas os votos na direita não subiram na mesma proporção – apenas 0,14%. Esse eleitor, então, ao deixar de votar em Lula, não aderiu ao outro lado, o que é um bom indicador de que é um voto que pode ser recuperado.

Um terceiro segmento é o do agro. Para avaliar detalhadamente esse fator, medimos o peso da agropecuária na economia de cada município brasileiro, isto é, quanto da riqueza produzida ali vem da lavoura e da criação. Quanto maior esse peso, maior a perda: cada 1% a mais de agro na economia local significou, em média, 0,08% de perda de votos (redução do voto em Lula + aumento de voto na direita).

Parece pouco, mas num município em que o agro é um terço da economia isso equivale a uma perda de 2,4%. No país, dos 8,8 milhões de votos de margem perdidos, cerca de 900.000 (~10%) correspondem a esse indicador. Esse ‘fator agro’ capta uma diversidade de elementos: a dívida do produtor, os preços, a identidade política do setor e mesmo suas próprias redes de informação.

Por último, há as características locais. É o que está relacionado com a dinâmica específica do município: o tamanho da cidade, a renda, a história de voto e tudo o que os outros registros não alcançam, como lideranças, imprensa local e mesmo acontecimentos da região. Num município, os fatores locais podem gerar uma perda maior do que o esperado, ou, ao contrário, menor. No País como um todo, a soma é zero.

Um exemplo ajuda a ver como essas partes se encaixam. Em Uberlândia, com 409.921 votos válidos, Lula perdeu 36.052 votos. O movimento de amplitude nacional responde por 22.623 deles. A inadimplência, que em Minas Gerais subiu 2,1%, pode estar relacionada a 5.003 votos. O agro, que pesa menos de 3% na economia da cidade, pode ter tido influência em 940 votos.

Os 7.486 restantes correspondem a fatores locais – ou seja, Uberlândia perdeu um pouco mais do que o esperado para uma cidade do seu tamanho e renda. No Brasil como um todo, os números são os seguintes: a mudança de cunho nacional equivale a 6,56 milhões de votos; a inadimplência, a 1,31 milhões; ao fator agro, 0,91 milhão; e a fatores locais, como mencionado, soma zero. Total, 8,78 milhões de votos.

Para encerrar este tópico, duas observações: no apêndice a este texto podem ser encontrados detalhes e esclarecimentos quanto à forma como os números aqui mencionados foram obtidos; e é preciso dizer também o que esses números não provam: eles mostram correlações, ou seja, quão alinhada cada parcela está às perdas, mas não demonstram uma relação de causalidade. Ainda assim, a força e a sistematicidade dessas associações – sobretudo no caso da inadimplência – constituem um indicador robusto para a ação política: se a perda de votos acompanha o endividamento, atuar sobre este último tende a reverter aquela.

<><> Algumas regiões críticas

Inadimplência e agro, juntos, respondem por um quarto do total da perda constatada, ou seja, ~2,2 milhões de votos. Em Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Maranhão e Tocantins, 40% a 50%; no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Minas Gerais e no Paraná, o peso é menor – até 25%; aí, pesaram mais tendências nacionais e fatores locais. Essa diferença tem explicação plausível. Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul têm economias fortemente ancoradas no agronegócio, e sentiram de forma mais aguda a crise do crédito rural e a alta da inadimplência no campo.

Maranhão e Tocantins combinam peso relevante do agro com renda média baixa e endividamento crescente das famílias. Já nos estados do Sudeste e do Sul, a economia mais diversificada dilui o efeito desses fatores, e a perda tende a ser explicada por movimentos nacionais e por dinâmicas locais específicas.

A perda de votos não é homogênea. Metade do recuo está concentrado em 537 municípios que reúnem 56% dos eleitores do país, e quase 80% dessa perda está em municípios urbanos, sobretudo em cidades médias, de 50 mil a 200 mil eleitores. Há também os 711 municípios onde Lula venceu em 2022 e Flávio em 2026, sobretudo em regiões em que o agro é importante, em Minas, no Rio Grande do Sul, no Paraná, em São Paulo e em Goiás. Eles chamam a atenção no mapa, e somam cerca de 1 milhão de votos perdidos.

No interior agrícola, a explicação mais consistente com a perda de votos é uma crise do crédito rural. Em julho de 2026, quase um quarto da carteira de crédito rural estava atrasada, inadimplente, prorrogada ou renegociada. As renegociações oferecidas pelo governo deixaram de fora as dívidas com cooperativas e tradings e a Cédula de Produto Rural, que responde por mais de 40% do crédito da safra; isso afetou, por exemplo, segmento importante dos produtores gaúchos – um breve olhar mostra que, nos mapas que localizam as perdas de votos, essa é uma região crítica.

Se três quartos da virada não têm endereço, a que corresponderão?

É difícil definir exatamente os fatores que estão por trás dessas perdas, mesmo acompanhando diversas séries temporais. O fato é que a medição da popularidade de governos (como a do Presidente Lula) não é feita continuamente. Por outro lado, não há indicadores precisos do posicionamento da grande mídia – como rádios, tvs, e outros meios de comunicação; e nem é possível quantificar com a necessária acurácia a influência das mídias sociais.

Entretanto, há alguns dados, embora não sistemáticos, que mostram ocorrências de impacto significativo. Em janeiro de 2025, por exemplo, chegou-se ao auge da divulgação em massa de boatos mentirosos, que chegaram a atingir centenas de milhões de visualizações: o Pix iria ser taxado; isso provocou queda de popularidade do Presidente Lula. Várias outras variáveis foram testadas, mas não se sustentaram. O partido do prefeito eleito em 2024, por exemplo, não demonstrou relação nenhuma com a perda de votos no respectivo município.

<><> Proposta para potencializar a mudança de voto

O presente estudo mostra um possível caminho para se tentar virar o jogo neste segundo turno, ao identificar, ainda que parcialmente, onde foram perdidos votos em 2026. Entretanto, para recuperar esses votos é preciso enfrentar, vigorosa e imediatamente, questões claramente subjacentes, como, por exemplo, as vinculadas ao endividamento estrutural da população, em especial a mais pobre.

Vale registrar que o recente posicionamento do Presidente vetando as ‘bets’ foi muito positivo, dado que estancar o papel nefasto destas é um elemento central para fazer face ao endividamento. Contudo, é preciso ir além disso: apenas esse movimento não é suficiente. Sabemos que, em razão da autonomia do Banco Central, o controle da taxa Selic foge hoje ao âmbito do executivo.

Por outro lado, os atuais programas do tipo ‘Desenrola’, embora neste momento essenciais e necessários, são paliativos e limitados, não resolvendo de forma permanente e sustentada as espirais de endividamento que corroem a renda da população. Assim, seria crucial preservar (pelo menos) as classes menos favorecidas, minimizando sua exposição ao apetite agiota do capital financeiro.

Uma proposta nessa direção seria garantir, para todos os que tenham renda mensal de até três salários-mínimos:

(i) A imediata renegociação das dívidas existentes, garantido juro que tenha como máximo o teto do consignado do INSS — referência de crédito com juros baixos e garantia real, fixado pelo Conselho Nacional de Previdência Social —, com a criação adicional de linhas de crédito da CEF ou do BB com esse mesmo limite de juros, de forma a reduzir o risco de futuras inadimplências.

(ii) A suspensão, por 12 meses, de execuções judiciais e leilões de propriedades rurais, permitindo que dívidas do setor agrícola sejam renegociadas sem perda de patrimônio. Quanto à viabilidade orçamentária, uma estimativa de ordem de grandeza indica que seu custo pode ser compensado, ao menos parcialmente, pela redução de perdas futuras com inadimplência, e pela recuperação do crédito.

Politicamente, essa proposta teria um forte apelo popular, alinhando-se estrategicamente com projetos do campo progressista e com o diagnóstico central deste estudo – o endividamento é um dos principais vetores da perda de votos havida.

<><> Perdas de votos por inadimplência e fator agro, por região

A tabela abaixo mostra, na segunda coluna, o recuo havido em cada região, além do total (nível Brasil), entre 2022 e 2026, do ponto de vista da candidatura Lula. Isso significa o total de votos perdidos, que é a soma daqueles que Lula teve a menos com os que a direita teve a mais. O total é de 8.781.368. Uma parte desses pode ser mapeada, e se refere a eleitores que se movimentaram ou por dificuldades financeiras (terceira coluna) ou pelo que chamamos ‘fator Agro’, ou seja, moram em regiões em que parte significativa da economia local é vinculada ao agronegócio.

Neste estudo mapeamos os votos que correspondem à ‘inadimplência’; são 1.312.078. Desses, um percentual maior corresponde a eleitores que deixaram de votar em Lula, cerca de 80%, sendo que apenas em torno de 20% do total migraram para Flávio Bolsonaro. Portanto, são votos mais prováveis de serem recuperados. Por outro lado, dos votos afetados pelo ‘fator Agro’ (economia do município ligada ao agronegócio), que são 914.231, a situação se inverte: pouco mais de um terço (37%) são eleitores que deixaram de votar em Lula, ao passo que o restante (63%) se compõe de votantes atraídos pelo bolsonarismo. A próxima tabela mostra em detalhe essa situação.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

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