sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Fim da escala 6x1 é 'vitória' e dá 'impulso eleitoral' para Lula, destaca imprensa internacional

A aprovação do fim da escala 6x1 pelo Senado, na noite de quarta-feira (14/10), repercutiu na imprensa internacional como uma vitória política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) às vésperas do segundo turno.

A proposta foi aprovada em dois turnos, por 75 votos a favor e apenas um contra, e poderá ser promulgada pelo Congresso porque manteve o texto aprovado pela Câmara em maio.

"Senado do Brasil aprova jornada de trabalho mais curta em vitória para Lula", destacou a Reuters.

A agência descreveu a medida como a maior reformulação dos direitos trabalhistas brasileiros em décadas e ressaltou que a aprovação entrega ao presidente uma importante conquista legislativa a menos de duas semanas da eleição de 25 de outubro.

A Reuters também destacou o apoio de parlamentares de diferentes campos políticos, incluindo Flávio Bolsonaro (PL), adversário de Lula no segundo turno, que antes se opunha à mudança.

O texto citou a estimativa do governo de que mais de 37 milhões de trabalhadores com emprego formal poderão ser beneficiados pela redução do limite semanal de 44 para 40 horas.

A Associated Press (AP) ressaltou a expectativa do presidente de fortalecer sua candidatura com a medida.

Segundo analistas e políticos citados pela AP, aliados de Bolsonaro deixaram de bloquear a proposta para evitar desgaste eleitoral do candidato diante da popularidade da mudança.

A reportagem também registrou que empresários e parlamentares defendiam uma transição de dez anos para a implementação das novas regras.

O Financial Times destacou a aprovação como uma vitória de Lula e o cumprimento de uma de suas principais promessas antes do segundo turno.

O jornal ressaltou que Flávio Bolsonaro, apontado no texto como favorito na disputa, mudou de posição e apoiou a reforma.

Mas também ouviu o cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), segundo quem o efeito eleitoral pode ser limitado, porque os trabalhadores só começarão a sentir os benefícios depois da eleição.

Para ele, a aprovação dificilmente reverterá, em tão pouco tempo, o desgaste provocado pelo custo de vida e pelo endividamento das famílias.

O jornal britânico também afirmou que a mudança aproximará o Brasil de países de renda mais alta, onde as jornadas diminuíram com ganhos de produtividade e eficiência.

Ao mesmo tempo, destacou alertas de entidades empresariais sobre o aumento dos custos, especialmente no comércio, limpeza, restaurantes, bares e hotéis.

O The Guardian destacou a vitória política de Lula e a mudança de posição de Bolsonaro diante do apoio popular à reforma.

Na França, o Le Monde, em notícia com a AFP, ressaltou no título que o Parlamento aprovou a redução do tempo de trabalho prometida por Lula.

A chamada destacou a expectativa do presidente de fortalecer sua posição no segundo turno e registrou que Bolsonaro votou a favor da reforma, apesar de ter se oposto a ela.

A Deutsche Welle, em texto produzido com informações de AP e Reuters, também apresentou a aprovação como uma vitória para Lula antes do segundo turno.

O veículo alemão destacou a redução da jornada de 44 para 40 horas e afirmou que a decisão poderia dar impulso ao presidente na disputa eleitoral.

O fim da escala 6x1 é resultado de uma campanha lançada após um vídeo do então balconista de farmácia Rick Azevedo viralizar no final de 2023. Ele foi eleito vereador no Rio de Janeiro pelo PSOL no ano seguinte e acaba de conquistar uma vaga na Câmara dos Deputados, que assumirá em 2027.

Com o impacto do desabafo de Azevedo nas redes sociais, o fim da escala 6x1 tomou proporções nacionais como demanda de trabalhadores, com apoio da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP). Em fevereiro de 2025, ela apresentou uma PEC que foi juntada a outra, apresentada em 2019 pelo então deputado petista Reginaldo Lopes e que havia sido "engavetada" pelo Congresso.

<><> O que muda com o fim da escala 6x1

O texto aprovado no Senado é idêntico ao que teve aval da Câmara em maio — qualquer alteração exigiria que a PEC fosse submetida à nova análise pelos deputados. Mudanças na Constituição só entram em vigor quando o texto é aprovado de forma idêntica nas duas casas legislativas.

A proposta prevê que a obrigatoriedade de ao menos dois dias de folga entre em vigor 60 dias depois da promulgação da alteração constitucional, etapa que ocorre logo após a aprovação no Congresso.

Já a redução da jornada de 44 horas semanais para 40 horas entraria em vigor em duas etapas. Primeiro, haveria a redução para 42 horas, também após os 60 dias. O limite de 40 horas seria alcançado após mais um ano.

A mudança também prevê que os trabalhadores beneficiados não sofrerão redução salarial.

•        A força das ruas garantiu aprovação do fim da escala 6×1 no Senado patronal. Por Milton Alves

A aprovação do fim da escala 6×1 no Senado foi uma vitória histórica da classe trabalhadora brasileira. A pujança das manifestações dos últimos dias foi o empurrão final que faltava para enquadrar o Senado patronal.

A persistência de Lula, que assumiu a bandeira como uma causa, ao lado conjunto do movimento sindical, também contribuíram para garantir essa significativa vitória. Após a Constituinte de 1988, que estabeleceu alguns direitos trabalhistas e sociais, a classe trabalhadora amargou um longo ciclo de derrotas, de retirada de direitos, resultado da ofensiva neoliberal das últimas três décadas.

A vitória de ontem, foi um passo importante, mas é necessário continuar a pressão das ruas e uma ação articulada do movimento sindical para evitar a sabotagem patronal na implantação da lei aprovada nos setores da indústria do petróleo, comércio, construção civil, indústria têxtil, entre outros segmentos que agrupam milhões de braços de trabalhadores e trabalhadoras.

Além disso, temos no STF a ameaça da pejotização ampla, geral e irrestrita, uma espada afiada contra os direitos dos trabalhadores — mais exploração, menos direitos.

Na agenda da esquerda, segue na ordem do dia a luta pela revogação das contrarreformas trabalhista e previdenciária.

Agora, no momento, a tarefa urgente e prioritária, é elegermos Lula presidente para um quarto mandato. Com a palavra, o chão do asfalto. Dia 18 (domingo) todos e todas nas ruas do Brasil!

•        Lula em alta: vitória no Senado, alento nas pesquisas e fé na virada. Por Tereza Cruvinel

A noite de quarta (14) foi histórica para os trabalhadores do Brasil, que ganharam um dia de descanso semanal em suas vidas, e foi auspiciosa, talvez premonitória, para o presidente Lula. Poucas horas depois da divulgação da pesquisa Quaest, que o trouxe tecnicamente empatado com Flávio Bolsonaro (46% a 44%), ele colheu uma grande vitória no Senado, com a aprovação da PEC que acaba com a escala de trabalho 6×1, pelo vistoso placar de 75 a 1 votos. Até o adversário Flávio Bolsonaro, embora já tenha falado muito contra a proposta, foi obrigado a votar a favor. A iniciativa, entretanto, é do governo e ninguém tasca.

De quebra, a Câmara também aprovou outra matéria de interesse do Planalto, o projeto que corrige o limite de faturamento para os empreendedores que atuam como MEIs. Fixado hoje em R$ 81 mil, o teto subirá para R$ 120 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028.

A redução da jornada de trabalho sem perda salarial é o que se pode chamar de conquista histórica dos trabalhadores numa época de perda de direitos, precarização das relações trabalhistas e crescente gasto de tempo no deslocamento entre a casa e o trabalho. O ganho de mais um dia livre terá impacto notável sobre a vida privada e a vida social, e certamente a aprovação da PEC trará algum ganho eleitoral para Lula.

É revigorado por estes fatos, animado com os resultados da pesquisa Quaest divulgada ontem, e também pelas grandes manifestações populares de apoio dos últimos dias, que nesta quinta-feira Lula participa de entrevista-sabatina no Jornal Nacional (TV Globo). No domingo enfrentará o candidato do PL no debate da TV Bandeirantes. Aliás, muito ridícula, quase pueril, a explicação que Flávio Bolsonaro deu para seu recuo em relação ao debate: ele estava dizendo que não iria para induzir Lula a confirmar a ida. Como se Lula, temendo muito o confronto, tivesse aceitado pensando em chegar sozinho para um debate que acabaria sendo transformado em entrevista. Lorota. Flávio recuou porque avaliações de sua campanha concluíram que o desgaste com a ausência seria grande.

Lula, segundo auxiliares, neste momento está calçando as sandálias do realismo: evita o salto alto (ao contrário do adversário, que fala como presidente eleito) porque sabe, e o tracking da campanha mostra, que a virada ainda não aconteceu. Não aconteceu, mas ele acredita que ela é possível e está a caminho. A pesquisa Quaest deu uma indicação disso, ao trazer Lula empatado com Flávio Bolsonaro. Ele com 44%, o senador com 46%. Como esta foi a primeira pesquisa da Quaest no segundo turno, não é possível a comparação com índices anteriores.

Mesmo sem comparar indevidamente pesquisas distintas, podemos lembrar que a primeira do Datafolha, na semana passada, apontou diferença maior a favor do candidato do PL: 49% x 45% em votos totais, ou 52% x 48% em votos válidos. De lá para cá, Lula tem crescido, ganhando votos entre os que se abstiveram no primeiro turno, e mesmo de uma parte menor dos que votaram em outros candidatos da direita. Hoje veremos se o Datafolha confirma esta tendência.

<><> Lula pode repetir Dilma em 2014, diz Lavareda

Analisando ontem a pesquisa Quaest conosco no Boa Noite da TV 247, o cientista político Antonio Lavareda, presidente do Conselho Científico do Ipespe, destacou a mudança de cenário e de expectativas trazida por ela:

“Ao final do primeiro turno, o presidente Lula era visto como um provável derrotado, como candidato com poucas chances de vir a ganhar a eleição, algo em torno de 20% a 30%. Nas primeiras pesquisas depois do dia 4, a distância entre ele e Flávio Bolsonaro começou com quatro pontos e chegou até a seis pontos. Na nossa, fechada na quinta-feira (8/10), a distância foi de 5,4%, correspondentes a mais de seis milhões de votos. Mas veio a reação, com a mobilização dos jovens, os atos de rua, a movimentação nas redes, tudo isso… Este esforço vem apresentando resultados. A diferença entre Lula e Flávio foi se reduzindo nas pesquisas do final de semana, como a da Nexus e a do PoderData. Esta da Quaest trouxe um passo a mais, uma nova melhora da performance do presidente Lula e de seus números, mostrando que há uma possibilidade ainda… Vamos deixar bem claro. Neste momento, Flávio Bolsonaro ainda é favorito para ganhar a eleição, mas Lula recuperou a competitividade, abrindo-se a possibilidade de vermos, entre tantas singularidades, a repetição da linha do tempo de 2014”.

Trata-se do segundo turno da disputa entre Aécio Neves e Dilma Rousseff. Como Lula, ela era a incumbente e buscava a reeleição. Lavareda recorda: Aécio saiu na frente e Dilma só conseguiu ultrapassá-lo nas pesquisas de 20 de outubro.

“Nas pesquisas dos dias 8 e 9 de outubro, ela perdia para Aécio de 46% a 44%, e na pesquisa de 15 e 16 de outubro ela perdia de 45% a 43%. Somente nas pesquisas de 20 de outubro ela conseguiu virar, com uma marca de 46% a 43% a favor dela, logo ampliada para 47% a 43%, fechando a última semana com este placar. Ela acabou obtendo uma diferença em votos válidos de 3,4% e de 2,5% em votos totais. Assim, a pesquisa Quaest de hoje alimenta a expectativa, entre os apoiadores e eleitores do presidente, entre os que fazem a campanha, de que venhamos a assistir algo semelhante ao segundo turno de 2014.”

Em todas as outras eleições que tiveram segundo turno, quem saiu na frente manteve a dianteira e a linha seguiu mais ou menos estável até a vitória de quem ganhou o primeiro turno e saiu na frente no segundo. “Ainda que Bolsonaro tenha chegado a colocar uma vantagem de 18 pontos percentuais sobre Haddad em 2018, para fechar com esta diferença reduzida a dez pontos percentuais”, ressalva Lavareda.

Se as pesquisas da Palver e do Datafolha, nesta quinta-feira, vierem com as mesmas inclinações da Quaest, estará sinalizada uma tendência de empate real, numérico. Se chegarmos ao dia da eleição com empate numérico, diz ele, para ganhar, o presidente precisaria chegar com uma vantagem que lhe permita compensar a perda com a abstenção, que alcança mais seu eleitorado.

“Se acontecer de Lula, que não é favorito, vir a ganhar a eleição, será por uma distância, digamos… peruana”. No Peru, a presidente Keiko Fujimori ganhou por aquela diferença mínima de 0,2%, bem menor que a diferença obtida por Lula em 2022. “Já Flávio, se vier a ganhar, poderá ser por uma margem mais folgada, porque ele perde menos com a abstenção. Ganhará por algo em torno de 3%, ou três milhões de votos.”

Lula, portanto, está em alta. As votações de ontem no Congresso serão mais um fator de impulso, somando-se à poderosa energia das ruas. Há quem considere sem futuro a busca de eleitores entre os que faltaram ao primeiro turno, mas a pesquisa da Quaest mostrou também que foi neste contingente, e menos entre os eleitores de Caiado, Cury e Renan, que Lula conseguiu os votos para reduzir a distância que o separava do adversário.

 

Fonte: BBC News Brasil/Brasil 247

 

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