sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Embate de Lula com a Meta expõe desafios para fiscalizar redes sociais

A campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acusa a Meta, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, de favorecer conteúdos do adversário do petista, o senador Flávio Bolsonaro (PL). A empresa nega essas acusações.

Um levantamento divulgado pela Secretaria Nacional de Comunicação do PT aponta que a página de Flávio tinha, em média, 2,96 vezes mais engajamento que a de Lula, mesmo com 17,2% seguidores a menos.

Entre os pontos listados pela campanha do petista estão a suposta redução do alcance de publicações de Lula, retirada de conteúdo e dificuldades para impulsionar postagens em determinados dias. O caso foi levado pelo partido ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Em nota, a Meta admite que houve problemas técnicos em todo o mundo. A big tech americana nega que tentou favorecer algum candidato no Brasil e diz que trata da mesma forma as duas candidaturas presidenciais. "Cumprimos com as normas eleitorais e estamos comprometidos com a isonomia do uso das nossas plataformas por todos", afirma a empresa.

Ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a empresa de tecnologia disse que houve uma falha técnica global que afetou as visualizações de diversos perfis no mundo, inclusive o de Lula. Já em relação a contas de terceiros citadas na petição da equipe de Lula, a Meta se negou a fornecer detalhes, sob o argumento de que não integram o processo e têm direito ao sigilo.

Não é a primeira vez que a big tech é acusada de favorecer partidos de extrema direita. A empresa já foi alvo de acusações parecidas em eleições de países como Alemanha, Itália e Polônia. A Meta sempre alega que cumpre as normas locais e nega qualquer favorecimento a um determinado candidato.

<><> O que há de concreto nas alegações da campanha petista?

Para os especialistas, a acusação feita pela campanha de Lula é complexa, porque as plataformas não costumam esclarecer o modo de funcionamento de seus algoritmos, que são os responsáveis pela distribuição de conteúdos aos usuários.

"É muito difícil afirmar que há uma interferência na campanha do Lula, somente com base nos dados que conseguimos ter acesso hoje. Não é que essa interferência não possa existir, mas as plataformas hoje funcionam como uma caixa-preta, em que as recomendações dos algoritmos não são mapeadas", afirma Débora Salles, coordenadora de pesquisa do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NetLab UFRJ).

Segundo ela, mesmo que as plataformas possam oferecer alguns dados quando solicitados, há muitas limitações. "Eles dão acesso basicamente ao conteúdo, mas não às decisões de recomendações aos usuários e o impacto disso no que os usuários efetivamente consomem", diz Salles.

Há alguns estudos que apontam que os algoritmos tendem a distribuir de forma mais rápida os conteúdos considerados mais simples, com argumentos e frases mais curtas. "Esse tipo de conteúdo mais simples é uma das características de alguns grupos que a gente pode chamar de extrema direita ou direita radical", diz o cientista político Kleber Carrilho, pesquisador e professor da Universidade de Helsinque, na Finlândia.

Por essa característica, diz Carrilho, é comum que a extrema direita consiga um alcance maior. Isso porque os especialistas dizem que a comunicação da esquerda costuma focar na apresentação de propostas e fatos, o que nem sempre culmina em publicações virais.

"A esquerda tende a não ser tão incisiva, tende a falar de projetos", afirma Carrilho. "Então, não é tão simples assim. Não é simplesmente: ‘Nossa, eu fui lá e apertei o botão, e o conteúdo foi distribuído'. Na verdade, existem camadas de desenvolvimento muito anteriores a esse momento em que pode ocorrer essa distribuição", acrescenta.

<><> Visualização e recomendações do algoritmo

Em 2024, Carrilho participou de estudos sobre as eleições parlamentares europeias. "Foi um trabalho com dez países da Europa, que reuniu vários pesquisadores. Notamos que a direita tem maior distribuição. Mas quando você faz uma análise do conteúdo da extrema direita, nota que um político dançando no Parlamento tem uma distribuição muito maior nas redes. Outra coisa é um discurso de cinco minutos. É o mesmo parlamento, mas o conteúdo [da dança] é mais relevante para aquela rede", afirma.

Com base naquilo que dá visualização, dizem os especialistas, os algoritmos das redes costumam definir as recomendações e outros tipos de publicações que terão mais destaque nas plataformas.

Os pesquisadores mencionam também o impacto da extrema direita por meio de inúmeros propagadores de seus conteúdos, o que faz com que o alcance das publicações não se restrinja aos perfis oficiais.

"Mesmo que o Flávio, enquanto pessoa, tenha menos seguidores, ele está amparado por uma rede de capilaridade de distribuição de conteúdos. Ainda falta ao campo progressista a construção dessa rede. E o que compõe essa rede não são apenas pessoas individuais, mas também essa dinâmica de pequenos, médios e grandes influenciadores", diz Mayra Goulart, coordenadora do Laboratório de Partidos Eleições e Política Comparada (LAPPCOM) da UFRJ.

"Nessa nova forma de organização da opinião pública, não existe uma separação nítida entre emissor e receptor. Esses influenciadores, ao mesmo tempo que são emissores de conteúdo, recebem conteúdo e dialogam com ele. É essa dinâmica espontânea que coloca a extrema direita relativamente à frente do campo progressista nas redes", acrescenta.

<><> A regulamentação das redes

Na Europa, as plataformas são obrigadas a impedir interferências eleitorais desde novembro de 2022, quando entrou em vigor uma lei chamada Regulamento dos Serviços Digitais (ou DSA, como é conhecida). Isso inclui que elas devem esclarecer sobre as atividades de moderação que fazem.

"Por mais que ofereçam informação na Europa, o que já é algo a mais do que temos hoje no Brasil, eles ainda têm problemas com isso. Já aqui no Brasil, as plataformas não são obrigadas a dar nenhum tipo de esclarecimento [sobre os algoritmos]", diz Salles.

A pesquisadora frisa que essa falta de transparência se aplica à moderação de conteúdo, alcance de publicações, exclusão de posts e perfis nas redes, entre outras medidas adotadas pelas plataformas.

Um dos receios da campanha de Lula é de que a Meta esteja agindo sob o pretexto de apoiar o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em uma tentativa de prejudicar o petista. Em janeiro de 2025, no início do atual mandato do presidente americano, o dono da Meta, Mark Zuckerberg, afirmou que atuaria com o republicano contra países ou governos que defendem algum tipo de regulamentação das redes sociais.

<><> Interferência americana?

Desde o início da campanha, a equipe de Lula tem receio de uma possível interferência americana nas eleições a favor de Flávio. Uma das possibilidades que passou a ser cogitada é de que o republicano fizesse eventual interferência a favor dos Bolsonaro por meio de big techs.

"A situação do Brasil se torna mais perigosa, ou mais controversa, porque existem alegações de possíveis interferências estrangeiras e possível uso das empresas especialmente pelos Estados Unidos", diz Salles. Ela frisa, porém, que como não há detalhes do funcionamento do algoritmo das redes em relação à disputa eleitoral, não há como comprovar ou até mesmo negar uma possível interferência americana. "Vira um pouco de especulação."

O cenário atual evidencia a importância da regulamentação das redes no país, para que as plataformas esclareçam a forma como moderam os conteúdos, dizem os especialistas. "Essa regulamentação deve tornar mais nítido, mais claro, como as redes organizam essa dinâmica de distribuição e hierarquização de conteúdos", avalia Goulart.

Carrilho acredita que ainda que haja uma regulamentação, dificilmente as plataformas vão detalhar como funcionam seus algoritmos. "Não dá para dizer que não há [favorecimento a determinado partido] nas plataformas atualmente, mas não há possibilidade de verificação instantânea disso. O algoritmo não está aberto e não vai ficar, mesmo que a Justiça brasileira mande. Sabemos que há limites, até porque é ‘segredo industrial' dessas empresas", afirma Carrilho.

<><> As regras do TSE

Neste ano, o TSE estabeleceu novas regras para a propaganda eleitoral nas redes, mas especialistas dizem que ainda há dificuldades para lidar com questões como o uso dos algoritmos.

As regras estabelecem limites para a atuação das plataformas digitais durante a campanha. Entre as medidas estão restrições à recomendação de perfis oficiais de candidatos, proibições ao uso de inteligência artificial para favorecer ou recomendar candidaturas e exigências de transparência na publicidade política.

Essa regulamentação também prevê medidas contra a desinformação eleitoral e práticas de manipulação do alcance de conteúdos, além de estabelecer condições para o impulsionamento pago de propaganda. Conforme o TSE, essas normas têm o objetivo de evitar favorecimento a determinado candidato por meio das plataformas.

"No caso das dinâmicas político-eleitorais, o Tribunal Superior Eleitoral exigiu, neste ano, que fosse entregue o plano da Meta para a distribuição e a hierarquização de conteúdo e a moderação de conteúdo. E isso foi entregue. Se há efetiva transparência no cumprimento desse plano, a gente ainda não sabe", afirma Goulart.

A ação da campanha do PT contra a Meta segue no TSE. Após a big tech apresentar defesa e negar qualquer irregularidade para favorecer Flávio, a Justiça pediu manifestação da coligação de Lula para seguir com o processo.

•        Políticos influenciadores transformam campanhas no Brasil

Com mais de 3 milhões de votos recebidos no último domingo (04/10), Nikolas Ferreira (PL-MG) se tornou o deputado federal mais votado da história do Brasil. Lucas Pavanato (PL-SP) ficou logo atrás, com votação também acima dos 3 milhões.

Os dois construíram uma base fiel de seguidores — e de eleitores — através das redes sociais. Em vídeos publicados em seus perfis, dialogam com um público conservador falando de pautas como segurança pública e defendendo o que chamam de "família tradicional", além de posicionarem veementemente contra os direitos de pessoas trans e as cotas raciais.

O fenômeno se estende também a deputados alinhados à esquerda. Erika Hilton (PSOL-SP), reeleita para a Câmara com mais de 1,5 milhão de votos, e Ana Elisa (PT-MG), escolhida para o primeiro mandato por mais de 500 mil eleitores, também têm uma presença forte nas redes.

"A rede social foi tratada como demérito várias vezes", disse Ana Elisa em um vídeo publicado em seu perfil no Instagram na segunda-feira (05/10). Com o sucesso nas urnas, a jovem de 21 anos foi chamada para participar da estratégia digital da campanha de Lula para o segundo turno. "Não existe mais separação entre redes e ruas. Quem está nas ruas está nas redes. A discussão está aqui. A vida está sendo pautada na tela do telefone", afirma.

"É uma consolidação de algo que a gente vem observando pelo menos desde 2016, talvez até um pouco antes", afirma a diretora de pesquisa e operações do InternetLab, Heloisa Massaro. "Houve uma mudança significativa na forma de fazer campanhas, na forma como as pessoas consomem informação política, onde vão procurar sobre os candidatos."

A centralidade das redes sociais é predominante especialmente entre o público jovem. Em 2026, a pesquisa Digital News Report, do Instituto Reuters, mostrou que as redes sociais são a principal fonte de notícias de 39% dos jovens de 18 a 24 anos.

"As redes sociais aparecem como esse lugar onde as pessoas sentem que conseguem construir seu próprio ecossistema de informação e conteúdo e encontrar informações plurais e diferentes", diz Massaro.

<><> Fenômeno global

O fenômeno não é exclusivo do Brasil. Para a pesquisadora Emma Connolly, da Universidade de Ottawa, dinâmicas semelhantes podem ser observadas em diversos países. "Os políticos não são apenas bons políticos. Eles também são usuários habilidosos das redes sociais, ou pelo menos contam com uma equipe de mídia social competente por trás deles."

A tendência vem se construindo há mais de uma década, mas Heloisa Massaro cita a primeira eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, em 2016, como um ponto de virada. A campanha pelo Brexit, no Reino Unido, em 2018, também movimentou as redes. No mesmo ano, Jair Bolsonaro conseguiu se eleger presidente do Brasil mesmo tendo pouco tempo de TV e rádio no horário eleitoral gratuito durante o primeiro turno.

Como exemplos internacionais dos últimos anos, Connolly cita o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e o atual primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham.

Ao mesmo tempo, as plataformas digitais também mudaram. Se, em 2012, a campanha de reeleição de Barack Obama se destacou pelo uso do Facebook para mobilizar eleitores, hoje políticos disputam atenção principalmente em plataformas de vídeos curtos, competindo não apenas com adversários, mas também com influenciadores, entretenimento e uma infinidade de outros conteúdos.

"A divisão entre influenciador e político vai ficando cada vez menos clara", explica Massaro.

<><> O político influenciador

Nesse ambiente, argumenta Connolly, não basta ter uma mensagem política clara. É preciso adaptá-la ao público-alvo e aos formatos e linguagens de cada plataforma, independente do espectro politico do candidato.

Além disso, a pesquisadora Heloisa Massaro destaca que os atores políticos constroem sua imagem e sua base de seguidores nas redes ao longo de anos, e não apenas nos meses de campanha oficial.

E o sucesso online depende da capacidade de construir relações com o público. "O público quer cada vez mais sentir que existe uma relação direta com os políticos. E acho que é por isso que as redes sociais têm funcionado de forma especialmente eficaz em movimentos populistas, por exemplo", afirma Connolly. Para a pesquisadora, as redes ajudam a reduzir a distância entre representantes e público, criando a percepção de uma relação mais próxima e pessoal.

"Os atores políticos têm um trabalho realmente difícil. Eles precisam aparecer nas redes sociais de uma forma que seja considerada autêntica, o que não é fácil", acrescenta ela.

Massaro cita uma pesquisa realizada pelo InternetLab sobre a relação de jovens com influenciadores: "Tem muito uma camada de olhar para esses influenciadores como 'gente como a gente'. Gente que veio de onde a gente veio". Tradicionalmente, os políticos, assim como as celebridades, estariam num lugar mais distante. A figura do político influenciador consegue explorar essa sensação de proximidade.

<><> Eleitor faz parte da campanha

Os eleitores, por sua vez, deixaram de ocupar apenas o papel de receptores da mensagem política. Segundo Massaro, eles se transformaram em agentes ativos das campanhas: "A campanha passa a ser uma campanha em rede". Ao comentar, compartilhar ou interagir com o conteúdo, os eleitores ajudam a ampliar sua circulação e alcance, influenciando o debate público.

"Uma das principais mudanças que estamos observando diz respeito ao que os atores políticos esperam do público em termos de engajamento", acrescenta Connolly. "A comunicação não acontece mais apenas em um único sentido, do político para o público. Hoje, ela também ocorre entre os próprios membros do público e partindo do público de volta para os atores políticos. É um ambiente muito mais dinâmico."

<><> Desafios da Justiça Eleitoral

Com as novidades na dinâmica da campanha, a Justiça Eleitoral precisou adaptar as regras prevendo a disputa do campo digital. Hoje, a legislação proíbe disparo de mensagens de conteúdo político-eleitoral em massa, e prevê o monitoramento e a remoção de publicações mentirosas.

Influenciadores digitais podem demonstrar apoio espontâneo a candidatos, mas não podem ser contratados e pagos para publicar propaganda eleitoral. O impulsionamento de conteúdo nas plataformas é permitido, se partir dos partidos e coligações, e precisa ser claramente identificado. E a campanha precisa prestar contas do dinheiro gasto na estratégia digital.

Neste ano, oTribunal Superior Eleitoral (TSE) também determinou que os algoritmos das redes sociais não poderão recomendar os perfis e publicações de candidatos para usuários que não os seguem.

"Acho que no cerne de tudo isso está uma discussão sobre como garantir algum nível de igualdade de chances num ambiente onde não é tão claro o que faz com que uma pessoa tenha mais alcance e mais engajamento", analisa Massaro.

Connolly também aponta a falta de transparência das plataformas como um desafio para a comunicação política: "Não temos uma boa noção de como isso funciona porque a opacidade dos algoritmos torna muito difícil rastrear exatamente a trajetória de uma determinada narrativa política. E isso dificulta bastante o planejamento das campanhas em alguns aspectos."

<><> Comunidade offline ainda tem influência

As especialistas destacam que, apesar do crescimento da importância das campanhas nas redes, o mundo offline não perdeu a influência nas decisões de voto. "Não é só sobre uma disputa dentro das redes. Muitas vezes elas funcionam como ferramentas", defende Massaro. "No Brasil, por exemplo, a gente tem um poder muito grande das religiões, por exemplo", aponta.

"Acho que os atores políticos estão vivendo um momento um pouco complicado, porque não podem se dar ao luxo de não usar as redes sociais. Acho que hoje é dado como certo que elas representam uma parte enorme das campanhas", afirma Connolly. "Mas, ao mesmo tempo, elas não podem substituir tudo o mais que faz parte de uma campanha."

Massaro conclui: "Não dá para continuar fazendo campanha como se fazia antes e achar que vai funcionar, usar a mesma linguagem e forma de mobilização no ambiente das redes sociais. Ao mesmo tempo, também não dá para acreditar que apenas uma boa linguagem digital e uma disputa na rede vai resolver tudo."

 

Fonte: DW Brasil

 

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