sexta-feira, 16 de outubro de 2026

‘A Meta está comprovadamente sabotando as eleições’, diz Letícia Cesarino

A Meta, dona do Instagram e do Whatsapp, está interferindo nas eleições brasileiras, afirma a antropóloga Letícia Cesarino, professora da Universidade Federal de Santa Catarina e autora de “Ecologias de crise: uma teoria cibernética da radicalização“, seu mais novo livro lançado pela editora Ubu.

Nos últimos dias, usuários mostraram que a inteligência artificial da Meta no WhatsApp aceita pedidos para gerar imagens com “Flávio 22”, mas teria restrições para fazer a mesma coisa quando o prompt vem com “Lula 13”.

É mais um caso de muitos relatados durante as eleições. A ONG CTRL+Z reuniu mais de mil casos de censura, banimentos, restrições a contas e queda no alcance de perfis do Instagram que postaram sobre as eleições no Brasil. A maioria das interferências aconteceu com perfis favoráveis a Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil e candidato à reeleição pelo PT.

Quando questionada pela campanha de Lula no Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, a empresa de Mark Zuckerberg negou interferência eleitoral, e disse que um problema com as visualizações de postagens do presidente Lula foi causado por uma falha técnica global. Não é a primeira vez que a campanha do petista é afetada pelas plataformas da empresa: em setembro, o uso de anúncios foi desabilitado temporariamente para o perfil de Lula no Facebook.

O impasse político brasileiro é tecnopolítico: não dá para falar de política, eleição e comunicação sem falar das redes sociais, que fazem um “parasitismo” com a vida offline, trazendo a lógica da economia da atenção e da manipulação das plataformas para o mundo fora delas.

Na conversa com o Intercept Brasil, Cesarino deixa claro que as plataformas não são simples ferramentas que podem ser usadas de forma boa ou ruim. Elas são ambientes, que a antropóloga compara a um rio: tem um fluxo, um sentido, e quem nada na mesma direção da correnteza ganha uma ajudinha do rio.

No caso das redes sociais, essa correnteza é o algoritmo, que se move no sentido da extrema direita, privilegiando posts e pautas extremistas, como a antropóloga já argumentou no livro “O mundo do avesso“. As plataformas, então, estão bem longe de ser ferramentas neutras.

Agora, em seu novo livro, Cesarino estuda como as plataformas intensificam a radicalização, levando jovens a participar de comunidades extremistas, caracterizadas por violência e misoginia.

Os grupos vão desde “celibatários involuntários”, conhecidos também como incel, que acreditam que são perdedores na loteria biológica e, portanto, indesejáveis para as mulheres, ou panelas de Discord que incentivam automutilacão e até suicídio.

Neste ano, Cesarino também lançou o livro “Cartografia da extrema direita” (Contracorrente), junto das pesquisadoras Marina Basso Lacerda e Isabela Kalil. Na entrevista, a antropóloga argumenta que muitas dessas trajetórias de radicalização se associam à extrema direita, que usa a misoginia para benefício eleitoral, como no caso dos recém-eleitos Lucas Pavanto e Eduarda Campopiano, do PL de São Paulo.

<><> Leia a conversa do Intercept Brasil com a antropóloga Letícia Cesarino.

•        O primeiro turno das eleições apresentou resultados muito difíceis para o campo progressista. A partir de 2027, o Brasil vai ter uma maioria de extrema direita no Senado. Qual papel as redes sociais tiveram nisso? Já falamos da importância delas em eleições desde 2018, mas aconteceu algo diferente em 2026?

Letícia Cesarino — A disrupção das redes sociais vem desde, pelo menos, 2013, quando houve as manifestações [Jornadas de Junho] e a virada na venda de smartphones no Brasil. Para esse ciborgue da vida real, que é a nossa relação com as máquinas, funcionar, tem que ter um nível de capilarização. Em 2018, a gente chega nesse nível de difusão, inicialmente com Facebook e WhatsApp.

Desde então, a gente teve uma modificação nesse padrão, com a importância das redes sociais de vídeos curtos. O Instagram não era uma presença de peso em 2018. Veio o TikTok, a “tiktokzação” do Instagram e agora até os próprios aplicativos de mensageria entraram nessa dinâmica de compartilhamento de vídeos curtos.

Esses ambientes digitais são uma camada paralela da realidade que atravessa a vida offline. Ela está junto da vida real, mas não segue a mesma lógica da vida real. Há um aspecto de simulação, de fantasia, e para a maioria dos usuários esse caráter simulado das plataformas – que são, por desenho, ambientes de manipulação e de influência – não está claro por causa de alienação técnica.

No começo, eu abordei que as plataformas fazem colapsar as diferenças entre público e privado, fato e ficção. Agora, estamos num contexto de englobamento do real pelo digital. Simulações e fantasias que se consolidaram no digital estão se materializando na vida real. É quase um parasitismo, uma colonização.

Nessa eleição de 2026, houve um ponto de virada, e essas tendências que estavam crescendo talvez se tornem a nova norma. Mais políticos com esse perfil de nativos digitais, que fizeram seus mandatos e suas trajetórias dentro da lógica da economia de atenção, foram eleitos. Parte dos partidos de direita e do centrão se bolsonarizou, entrou dentro dessa lógica. É o que aconteceu também no Partido Republicano, nos Estados Unidos, que se trumpificou.

O que causou isso foi uma tendência de extremização e a normalização do extremismo. O próprio Flávio Bolsonaro representa um pouco disso, porque ele tem essa dualidade de moderado e extremista ao mesmo tempo. Tarcísio de Freitas e Ronaldo Caiado também são assim.

•        Durante a campanha, tivemos alguns exemplos de interferência das big techs. O Instagram derrubou a conta do Revelando Brasil depois da viralização de um vídeo com Fábio Porchat sobre o Caso Master. A Meta desabilitou temporariamente o uso de anúncios pela campanha do Lula. É possível enxergar nisso uma ação das empresas de tecnologia em favor do campo bolsonarista, em associação com Trump, ou não temos evidências suficientes para falar isso?

Evidência a gente nunca vai ter. Esse problema é estrutural. As plataformas têm um viés técnico, uma arquitetura que beneficia a extrema direita. E as plataformas são inauditáveis.

Eu não tenho a menor dúvida que essa interferência está acontecendo. Depois que Donald Trump foi eleito para seu segundo mandato, Mark Zuckerberg gravou um vídeo dizendo que a Meta estava entrando em uma nova era, com mudanças profundas em moderação, fact-checking e possibilidade de impulsionamento de conteúdo político, abaixando contenções para discursos homofóbicos e eugênicos.

O vídeo mostrava que Zuckerberg faria o que fosse preciso para garantir os interesses de Trump, que também são interesses da própria Meta.

A segunda eleição de Trump foi o ponto de virada, porque, como indica o [cientista político Steven] Levistky é no segundo mandato que os autocratas conseguem se encastelar no poder. Isso coincidiu com a corrida das IAs, quando finalmente os Estados Unidos têm uma concorrente à altura: a China. Quase 30 anos sem regulação dessas empresas estadunidenses de tecnologia e agora, com os chineses, elas têm sua primeira possível barreira de contenção.

As empresas e Trump têm um inimigo em comum, a China. Agora vemos eles, unidos, se voltando para a América Latina, com os Estados Unidos se reposicionando como um império regional. O Brasil é a peça que falta ser conquistada no tabuleiro do continente.

Uma evidência muito clara de interferência da Meta é o vídeo do Pix do Nikolas Ferreira. Aquele alcance é matematicamente impossível. Já estava dado, ali, que eles estavam fazendo testes com o algoritmo.

•        Apesar disso, ainda há disputa a ser tida nas redes sociais? É possível fazer campanha nesse campo minado?

Sim, sempre dá. Mas você precisa ter consciência de onde está jogando. As plataformas não são simples mídias ou tecnologias, mas sim ambientes paralelos ao da vida real, territórios de soberania paralela privada estrangeira.

É como um rio, que não é neutro porque puxa para um lado, tem correnteza. Essa correnteza são os algoritmos. Dá para nadar contra a correnteza e ganhar terreno. Jones Manoel, Ana Elisa, a Giovana Mondardo aqui em Santa Catarina, todos fazem isso, usam bem as redes sociais. Mas enquanto eles têm que nadar contra a correnteza, Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato, Júlia Zanatta e Gustavo Gayer estão flutuando, nadando com a ajuda da correnteza.

Para a eleição do Executivo Federal de 2026 é preciso fazer tudo, o possível e o impossível, porque é um ponto de virada. Quem ganhar vai ficar quatro anos no poder, e em quatro anos essa virada autoritária vai acontecer se o Flávio for presidente. E a Meta está sabotando. Com ela não sabotando, já seria desfavorável. Agora, ela acelerou o ritmo da corrente.

Nessa situação, eu vejo que qualquer resultado eleitoral é possível, se nada grande acontecer no meio do caminho. O Flávio pode aumentar sua margem de votos, o Lula pode virar.

Estratégias híbridas, focando no digital e na vida real, podem ser úteis. Quando você posta coisas no status do WhatsApp, é uma forma de tirar a mediação algorítmica, porque o WhatsApp não tem algoritmo. Sua rede de relações sociais, encontros face a face, tudo isso não tem algoritmo. Uma coisa não exclui a outra, então não é pra ficar brigando com o coleguinha que está fazendo algo diferente de você. Não interessa. Quanto mais a gente fizer, melhor. Tem que fazer tudo.

A gente não pode ficar preguiçoso ou esmorecer: um vídeo nas redes pode quebrar a expectativa de alguém, cada novo eleitor pode ser ganho por uma quebra de expectativa diferente. Cada um vai funcionar de um jeito. Furar bolha, para mim, é isso: gerar desconforto para a pessoa sair do lugar em que ela está. Até o dia 25 [data do segundo turno das eleições], o caminho é sair atirando para todos os lados. Porque não é uma estratégia só que vai funcionar.

•        Você deixa muito claro que as plataformas virtuais não são só ferramentas, mas sim ambientes que influenciam seus usuários. Qual o problema de individualizar nossos problemas com redes sociais, sem reconhecer esse aspecto ambiental? Como lidar com patologias individuais, como a radicalização que você aborda em “Ecologias de crise”, levando em conta que são são maiores que o indivíduo, acontecem em relação com o ambiente?

No caso da radicalização, esses meninos que fazem massacres são sintomas de uma extremização da ecologia maior em que eles estão inseridos. E as plataformas e os algoritmos são fonte desse desequilíbrio, dessa patologia.

A radicalização até está ficando mais explícita na ideologia de alguns dos CEOs do Vale do Silício. Os neorreacionários são abertamente pós-democracia e acreditam que ela é um sistema falido. Para muitos deles, é bom que a democracia colapse, porque ela é um sistema degenerado que vai abrir espaço para pequenos estados de soberania privada. Muitos desses magnatas da tecnologia estão se radicalizando pessoalmente, em diferentes níveis, como [Elon] Musk, Zuckerberg, Bezos, Peter Thiel, Marc Andreessen.

A infraestrutura técnica que provoca a radicalização precisa ser substituída, porque o Vale do Silício já tem uma hegemonia quase absoluta. Mas não é impossível. Temos que começar a trabalhar nos pequenos espaços que temos, montando servidores e construindo infraestruturas em universidades, sindicatos e outros espaços. Algumas instituições já estão fazendo isso, recusando o armazenamento de dados na nuvem do Google, por exemplo.

A internet do futuro, se ela vier a existir depois do modelo verticalizado das big techs, vai ser uma internet mais descentralizada, com tecnologias mais amigáveis, sem a economia da atenção.

Mas isso ainda está longe. No nível da proteção de sujeitos vulneráveis, como os adolescentes, de salvar vidas, mesmo, algo que pode ser feito é tirar das telas. O celular é o gancho que conecta a mente do indivíduo humano a essa grande mente monstruosa, ciborgue, cibernética das plataformas. Essa é uma forma de reduzir a influência do aparato na sua vida.

No caso da democracia, é um pouco mais difícil. Há uma relação entre dois aparatos: um institucional, com o estado democrático de direito, o jornalismo profissional e a academia, que organizava o mundo pré-digital, e outro aparato que são as plataformas.

É uma contraposição de sistemas, e é diferente do caso da radicalização dos adolescentes, que são sujeitos vulneráveis distribuídos em tudo quanto é tipo de família. Não há um paliativo de proteção individual, a solução de sair das telas. Você tem que transformar os partidos, tem que transformar como a esquerda ganha as eleições, criar um modelo próprio para nadar no rio das redes sociais, mas sem copiar completamente o que a direita faz.

•        Homens jovens e solteiros têm mais propensão a entrar em espirais de radicalização na internet. Globalmente, esse demográfico também está mais propenso a votar em candidatos de extrema direita, numa polarização política de gênero. Por quê?

Essa propensão dos homens jovens e solteiros para a radicalização já estava presente no neonazismo e no jihadismo antes da digitalização. Tem a ver com uma fase de vida, mesmo. Quando um jovem começa a sair do núcleo doméstico, ele tem que fazer a transição para ser uma pessoa autônoma na sociedade. A antropologia chama isso de fase liminar, quando o indivíduo está saindo de uma estrutura social e ainda não se inseriu em outra. Esse espaço liminar é a área de maior risco para captura por organizações extremistas.

Mas por que isso acontece mais com meninos do que com meninas, que também passam pela adolescência? As pesquisas explicam que é uma questão de expectativa do papel do homem na sociedade, porque quem vai fundar uma nova família, uma nova estrutura social, é ele. Quando ele não consegue fazer essa transição com sucesso, seja pela razão que for, ele pode ser capturado.

Quando a radicalização começa no digital, começam a entrar outros fatores que tendem a se somar a essas tendências que já eram observadas antes. O caso da machosfera é muito claro, porque pega desde homens mais velhos, que já têm relacionamentos, até adolescentes e pré-adolescentes, que entram em contato com os incels, com um perigo de radicalização maior. Há diferentes trajetórias possíveis de radicalização misógina digital.

Pesquisadores argumentam que a misoginia foi capturada pela extrema direita digital, da mesma forma que as teorias da conspiração também foram capturadas. E o uso da misoginia tem recompensa. Você vê o [Lucas] Pavanato, aquela Eduarda [Campopiano] e a quantidade de votos que eles fizeram, com um discurso até mais extremo, levantando a questão do voto feminino. Não está tendo contenção e eles estão sendo recompensados por isso. É um nicho em que os empreendedores políticos podem prosperar muito. Os algoritmos incentivam e essa direita instrumentaliza a misoginia, porque é benéfica para eles.

O fascismo do século passado era sobre eugenia e raça, e esse fascismo de agora parece ser sobre gênero.

•        Muitas trajetórias de radicalização partem do ponto de que é preciso mudar as normas vigentes, porque dentro delas não há qualquer mudança possível. Em “Ecologias de crise”, você traz bastante o filósofo e crítico cultural Mark Fisher, que refletia sobre o realismo capitalista, essa ideologia que faz com que seja mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. O futuro está cancelado e não conseguimos vislumbrar uma saída. O que é possível aprender com esses processos de radicalização para pensar em formas de mudar as normas vigentes, mas não na direção do extremismo e sim no sentido de uma sociedade mais igualitária e mais justa?

No “Ecologias de crise”, o processo que eu chamo de radicalização pode acabar terminando em morte, violência extrema, atentado. Claro que nem todo mundo vai até o final, mas a tendência é clara.

A radicalização ocorre porque a transformação está bloqueada. Você não consegue se readaptar ao nível de transformação que você precisaria. Na radicalização, você passa por uma simulação de transformação, não uma transformação real.

A solução real envolveria que nossos sistemas sociopolíticos voltassem a estar livres para oscilar, para testar novas coisas, mas as plataformas bloqueiam isso. Precisamos ter brincadeira, fantasia e storytelling, mas de forma espontânea, longe da lógica de controle e simulação das big techs. Para que o play [Cesarino usa a palavra em inglês por sua multiplicidade de sentidos, como jogo, brincadeira, experimentação, diversão, encenação e contação de histórias] possa produzir alternativas diante da crise. Ele precisa ser livre, exercendo criatividade e forçando as fronteiras do possível e do pensável, com infraestruturas que possibilitem arejar alternativas.

O Fisher diagnosticou esse problema muito bem ao escrever sobre o realismo capitalista. Com o fim do socialismo real – que foi ruim, mas existia como alternativa –, veio um momento sem alternativa alguma. Esse realismo é a base da radicalização de direita. A saída seria desbloquear a imaginação política. E essa não é uma questão somente de organização política, mas de tecnopolítica. Esse bloqueio não está só na cabeça das pessoas: ele tem uma infraestrutura material, já que hoje nossa mente está delegada para esses ambientes digitais que funcionam com uma lógica de controle.

Essa alternativa não vai vir do nada. Temos princípios do comum, da igualdade, princípios que precisam ser reorganizados num novo sistema, numa nova gramática que não seja a mesma do socialismo e do anarquismo do século XIX, mas mantendo as mesmas premissas. Uma nova gramática que consiga capturar demandas que hoje estão sendo capturadas pela extrema direita. É como a Naomi Klein fala: as teorias da conspiração erram nos fatos, mas acertam nos afetos.

·        Hoje, um dos problemas que nos bloqueia é que as elites que nos controlam, as plataformas, são invisíveis. Fica difícil achar que isso é um problema. Antes, era possível personificar essas elites no patrão. Agora, muitos são patrões de si mesmos. Você vai se odiar?

Esse ódio geralmente é projetado no inimigo que a extrema direita vai te apresentar como culpado de tudo. A radicalização da extrema direita também envolve um nível contrarrevolucionário, de proteção do sistema, para que ele não precise mudar.

Precisamos de formas para fazer esse desbloqueio, que inicialmente pode ser numa chave de imaginação mais abstrata, mas que em algum momento precisa se colocar em infraestruturas reais. Para mim, a psicodelia tinha que estar rolando solta, com a galera testando várias imaginações diferentes, vendo o que ganha tração. Precisamos recolonizar esse espaço do imaginário.

 

Fonte: Por Eduardo Lima, para The Intercept

 

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