sexta-feira, 16 de outubro de 2026

PF aponta Flávio Bolsonaro como “usuário master” de conta de offshore ligada a jato de Vorcaro

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, figurava como “usuário master” da conta bancária da Alcazar Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, que detinha um terço de um jato executivo utilizado por ele em uma viagem aos Estados Unidos, em janeiro de 2025. A informação consta de um relatório da Polícia Federal (PF), elaborado no âmbito das investigações sobre irregularidades no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Segundo os investigadores, documentos extraídos do iCloud do advogado Willer Tomaz mostram que Flávio tinha um perfil de acesso que, em princípio, permitia elevado nível de gerenciamento da conta mantida no Santander. A PF avalia que a condição pode indicar eventual participação econômica ou societária do senador na empresa. Flávio e Tomaz, no entanto, negam ter dividido uma conta bancária ou mantido relações financeiras e societárias.

A investigação identificou uma troca de e-mails entre a secretária do advogado, Fayla Menezes, e funcionários do Santander, em 22 de maio de 2025. Na mensagem, ela solicita a inclusão de um novo usuário no perfil master da conta da Alcazar Holdings e pede a desvinculação de contas associadas a Flávio Bolsonaro e a Willer Tomaz. O banco respondeu que as contas haviam sido excluídas do contrato.

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Em seu relatório, a PF afirma que o perfil de usuário master conferia ao senador “nível elevado de acesso e gerenciamento” e “acesso operacional relevante” à conta. Os investigadores também destacam que a Alcazar Holdings possuía participação de 33,33% na Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A., empresa proprietária de uma das cotas do jato Embraer Legacy 650, de matrícula PP-NLR.

A aeronave foi utilizada por Flávio em uma viagem de ida e volta entre Brasília e Fort Lauderdale, na Flórida, em janeiro de 2025. Na ocasião, o senador viajou acompanhado de Tomaz. Os outros cotistas do avião eram Laerte Cosentino, proprietário da Totvs, e a empresa Prime You, que tinha Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, entre seus sócios.

A viagem havia sido revelada anteriormente pela revista piauí. Na ocasião, Flávio afirmou que havia viajado como convidado do advogado, de quem é amigo. Tomaz, por sua vez, declarou desconhecer que a Prime You integrava a sociedade proprietária da aeronave e que a empresa tinha Vorcaro como sócio.

<><> Viagens e mensagens privadas

Os documentos analisados pela PF também apontam que Tomaz teria custeado viagens de Flávio e de familiares do senador por meio de outra empresa, a Cathedral Holding, utilizada como intermediária na compra de passagens aéreas. Para os investigadores, os registros sugerem que a companhia poderia ter sido empregada não apenas em operações patrimoniais, mas também no financiamento ou na organização de deslocamentos pessoais.

A apuração identificou reservas de voos em jatos executivos para viagens à Europa em abril e maio de 2025. Em uma delas, com saída de Lisboa e destino a Nice, na França, aparecem como passageiros Flávio, Tomaz e suas respectivas esposas. Em outra reserva, para um voo entre Cascais, em Portugal, e Nice, constam o senador, suas filhas, sua mulher, Fernanda Bolsonaro, além de Tomaz, sua esposa e outros familiares. A investigação jornalística indica que o destino final seria Mônaco, onde fica a região dos cassinos de Monte Carlo.

Tomaz afirmou que os deslocamentos foram viagens de lazer realizadas com as famílias, que teriam embarcado como convidadas, sem pagamento ou contrapartida.

Os investigadores também encontraram registros de conversas entre o advogado e Flávio no Confide, aplicativo de mensagens criptografadas que permite a destruição automática das mensagens e dificulta a captura de telas. De acordo com a PF, o número de telefone do senador aparecia entre os contatos favoritos de Tomaz.

<><> Relação com o caso Banco Master

O jato também aparece em outra frente relacionada ao Banco Master. Segundo relatório da PF apresentado pelo ministro André Mendonça ao plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), em maio de 2025, Vorcaro negociou com Viviane Barci de Moraes, advogada e mulher do ministro Alexandre de Moraes, um contrato de R$ 50 milhões que previa a cessão da participação da Prime You na aeronave, além de R$ 10 milhões para a manutenção do avião, em pagamento por serviços não especificados.

O escritório Barci de Moraes Associados, de Viviane e de seus filhos, também havia firmado outro contrato com o Banco Master, no valor de R$ 131 milhões, dos quais R$ 80 milhões teriam sido pagos.

Vorcaro foi sócio da Prime You entre setembro de 2021 e setembro de 2025. O mesmo Legacy 650 foi utilizado pelo ministro Alexandre de Moraes e sua mulher em uma viagem realizada em agosto de 2025, conforme informação divulgada anteriormente pelo colunista Lauro Jardim, de O Globo.

<><> Flávio e advogado contestam relatório

Em nota, a assessoria de Flávio Bolsonaro negou que o senador tenha mantido uma conta na qual Willer Tomaz ou qualquer empresa do advogado figurasse como usuário master. A defesa argumentou que o próprio e-mail enviado ao Santander demonstra que a vinculação era indevida e que a solicitação de desvinculação foi feita justamente para corrigir a situação.

O senador também classificou as afirmações como falsas e acusou a divulgação de informações de tentar interferir no processo eleitoral. A nota afirma que os responsáveis por eventuais notícias falsas deverão responder na forma da lei.

Tomaz igualmente negou a existência de vínculo financeiro ou societário com Flávio, sustentando que os dois mantêm apenas uma relação de amizade. Para o advogado, o e-mail não comprova o compartilhamento de conta bancária, e a hipótese de participação econômica ou societária seria uma inferência sem fundamento.

O advogado também criticou a divulgação de dados extraídos de seu celular e de sua conta no iCloud, classificando-a como vazamento criminoso e afirmando que os responsáveis deverão responder judicialmente.

O relatório da PF, por sua vez, considera que os registros bancários e a participação indireta da Alcazar Holdings na empresa proprietária do jato justificam a investigação sobre uma possível relação econômica ou societária do senador com a holding. As informações descritas no documento, contudo, são apresentadas como hipóteses investigativas, e não como comprovação definitiva de participação societária de Flávio Bolsonaro na empresa.

•        Vorcaro contratou Temer por R$ 30 milhões para tentar destravar venda do Master

O escritório de advocacia de Michel Temer (MDB) firmou um contrato de até R$ 30 milhões com o Banco Master, de Daniel Vorcaro, para tentar viabilizar a venda da instituição financeira ao Banco de Brasília (BRB). As informações foram publicadas pelo jornal O Globo, nesta quarta-feira (14), a partir de documentos e mensagens trocadas entre ex-banqueiro e o publicitário Elsinho Mouco, interlocutor do ex-presidente.

O acerto, assinado em 3 de setembro de 2025, previa o pagamento de R$ 10 milhões em honorários iniciais, divididos em duas parcelas de R$ 5 milhões, e uma taxa de êxito de R$ 20 milhões condicionada à aprovação da transação pelo Banco Central (BC). A operação, no entanto, acabou vetada pela autoridade monetária.

Procurados, nem Temer nem Mouco se manifestaram.

<><> Estratégia regulatória e pressão jurídica

O contrato previa a atuação da banca jurídica em frentes estratégicas para destravar a negociação com o banco público do Distrito Federal. Entre as atribuições do escritório estavam o acompanhamento de ações judiciais e o pedido de mediação junto a órgãos reguladores.

A banca também deveria atuar em uma representação no Tribunal de Contas da União (TCU) distribuída ao ministro Jhonatan de Jesus. A denúncia havia sido apresentada pelo Bluebank, integrante do mesmo grupo financeiro do Master.

Outra meta descrita no documento visava anular eventuais decisões do BC que tivessem a participação do diretor Renato Lemos. A instituição atribuía a Lemos uma conduta “equivocada e prejudicial à negociação”, apontando-o como responsável pela demora na análise do processo.

<><> Cobranças e ligações diretas com o ex-presidente

A troca de mensagens aponta que a formalização do acordo foi seguida por cobranças frequentes de honorários feitas por Mouco. Registros mostram pedidos de comprovantes de transferência e apelos à tesouraria do Master.

Em 4 de setembro de 2025, o publicitário enviou mensagem a Vorcaro: “Assim que assinar o contrato e fizerem a transferência me envia o comprovante. Vamos à luta!”. Já em 11 de novembro, Mouco confirmou o recebimento parcial de valores ao escrever que “entrou a metade”. A documentação, contudo, não permite confirmar se houve o pagamento integral das parcelas iniciais.

Além do papel de intermediação exercido por Mouco, os registros revelam contatos telefônicos diretos entre Temer e Vorcaro. Em 5 de setembro, dois dias após o envio do contrato, o ex-presidente enviou uma mensagem pedindo contato: “Qdo pud er me ligue”. Naquele mesmo dia, ambos conversaram por telefone durante dois minutos e 16 segundos, ligação repetida em outras datas daquele mês.

<><> Encontros no exterior e desfecho das negociações

A aproximação entre as partes resultou ainda na organização de agendas internacionais. Em novembro de 2025, Temer articulou reuniões para Vorcaro nos Emirados Árabes Unidos.

Em mensagem enviada ao banqueiro, o ex-presidente indicou o agendamento de compromissos no Hotel Raffles, em Dubai, reunindo interlocutores locais e do Iraque.

As tratativas foram interrompidas em 17 de novembro de 2025, quando Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de Guarulhos, enquanto tentava embarcar para Dubai. A prisão ocorreu após o fracasso de uma nova tentativa de negociação do Master, desta vez com o grupo Fictor, também travada por objeções do Banco Central.

A relação de negócios antecedia a crise da instituição. As conversas entre os investigados remontam a outubro de 2023, quando a família de Vorcaro, por meio do fundo Moriah Asset, adquiriu uma cota de R$ 1 milhão para patrocinar o documentário “963 Dias”, obra sobre a trajetória política de Temer produzida a um custo total de R$ 12 milhões.

•        Mensagens indicam que Vorcaro editava matérias do Metrópoles antes de serem publicadas

Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro revelam que a direção do portal Metrópoles submetia reportagens a ele antes da publicação, atendia a pedidos de edição e sugeria pautas para favorecer os negócios do Banco Master, informa o UOL.

A linha direta entre o ex-banqueiro e a CEO do grupo Metrópoles, Lilian Tahan, foi estabelecida em maio de 2024, após um encontro promovido pelo assessor de imprensa do Master. No dia seguinte à reunião, o assessor escreveu a Vorcaro: “a Lilian gostou muito de vc. Foi muito bom ter te colocado com o Luis Estevão. Eu tenho o contato dele, mas acho melhor ela mesmo fazer essa ponte, concorda?”, referindo-se ao ex-senador Luiz Estevão, dono do veículo e que passou ao regime aberto em 2021 após cumprir pena por desvio de recursos públicos.

Nos meses seguintes, Vorcaro passou a ler e editar textos antes de irem ao ar. Um levantamento do UOL apontou que ao menos 14 matérias do site foram enviadas previamente ao ex-banqueiro, sendo que 11 foram alteradas após seus pedidos e duas foram publicadas a pedido do próprio dono do Master.

Em abril de 2025, ao enviar um perfil sobre o empresário, Lilian Tahan escreveu a Vorcaro: “se tiver alguma incorreção, me avise!! Não publicarei sem nos falarmos”. Questionada sobre a prática, a executiva afirmou que “checar com a fonte se a matéria reflete o contexto passado para o veículo é uma prática que adoto com personalidades empresárias, da política e do Judiciário”.

As mensagens também mostram a evolução dos contratos comerciais entre as partes. Um mês após a reunião inicial, o Master pagou R$ 1 milhão ao Metrópoles. Em julho, foram acertados R$ 900 mil adicionais para financiamento de projetos de “educação financeira” da seguradora Kovr e do banco digital Will. Em novembro de 2024, Tahan apresentou uma nova proposta e o valor final fechado foi de R$ 20 milhões, conforme diálogo entre a diretora de marketing Ana Matos e Vorcaro.

Na conversa, Ana Matos comentou: “tá caro esse Metrópoles”. O ex-banqueiro respondeu: “coisa mais importante [da] nossa vida é esse Metrópoles”. Dois dias depois, ele completou: “dei ok pra Lilian”. Na sequência, a diretora de marketing questionou: “o valor que fechamos com o Metrópoles (20 mi) eu faço todo no CNPJ banco ou divido com Kovr e Will?”. O montante foi quitado pelo Master em 2025 em parcelas de R$ 5 milhões.

Lilian Tahan declarou que o contrato de publicidade não tinha relação com a cobertura jornalística sobre o banco: “basta ver a quantidade de matérias publicadas pelo Metrópoles expondo a situação das empresas de Vorcaro, tais como Banco Master, Ambipar, Fictor, Oncoclínicas dentre outras”, afirmou.

As edições ocorriam enquanto o Master enfrentava grave crise financeira e tentava aprovação do Banco Central para vender 58% de seu capital ao BRB, banco estatal do Governo do Distrito Federal. Em 2 de abril de 2025, Vorcaro reclamou de uma publicação sobre uma suposta oferta de compra de ativos por R$ 1: “Proposta de 1 real nunca existiu!”. Tahan respondeu: “Tiramos”.

Em 9 de abril, Tahan ofereceu o envio de um documento físico que chegou à redação. No dia seguinte, sugeriu uma pauta: “me diga o que acha: um comparativo entre o balanço dos bancos. Ajuda ou atrapalha?”. Vorcaro respondeu: “pode ser bom! Eu conseguiria dar uma olhada antes pra checar os dados”. Tahan assentiu: “claro!”. O texto foi publicado após passar pelo ex-banqueiro. Em maio, o empresário solicitou: “pode retirar Hapvida do texto?”, em matéria sobre venda de ativos ao BTG Pactual, pedido aceito por Tahan.

O ex-banqueiro também atuou na cobertura sobre Renato Gomes, diretor do Banco Central responsável pela análise da fusão com o BRB e que posteriormente se opôs ao negócio, levando o Master à liquidação extrajudicial. Em agosto de 2025, ao receber a prévia de uma entrevista com o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto, Vorcaro orientou: “acho que o texto ta otimo. Mas eu nao falaria tanto do renato, concentraria essa materia no roberto. Senao perdemos o suspense da batida dele! Guardaria essa parte do texto sobre o renato pra materia dele!”. O pedido foi cumprido.

Dias depois, Tahan submeteu o perfil “Técnico ou político? Quem é Renato Gomes”. Vorcaro pediu ajustes: “eu retiraria a parte de falência do banco”. Ele também sugeriu incluir “que há um racha no Bacen e Renato estaria contra” e adicionar “especulações de que, após seu mandato, estaria de malas prontas pra um dos bancões”. Tahan respondeu: “vamos publicar, ok??” e acatou todas as solicitações. No dia seguinte, ao receber um texto sobre um projeto que permitiria ao Congresso demitir diretores do Banco Central, Vorcaro indicou: “tiraria a última frase”.

A respeito de Renato Gomes, Tahan argumentou que ele “tornou-se personagem relevante por ter se posicionado de forma contrária à aquisição do Master pelo BRB, valendo lembrar que o BRB é o banco estatal de Brasília e o assunto sempre foi de grande interesse para um veículo que, prioritariamente, cobre os assuntos da capital federal”.

Ainda em agosto de 2025, Vorcaro pediu interferência na cobertura sobre Ricardo Cappelli, pré-candidato de oposição ao governo do Distrito Federal e crítico da transação Master-BRB: “esse Cappelli, você não consegue dar uma freada essa semana? Depois ele volta!”. Tahan respondeu: “deixa comigo”.

Sobre esse trecho, Tahan disse que Luiz Estevão “sempre foi um crítico ferrenho da compra do Master pelo BRB e, inclusive, forneceu a Cappelli várias análises sobre problemas detectados em balanços do BRB que demonstravam a inviabilidade da operação”.

A troca de mensagens seguiu até o dia da prisão de Vorcaro, em 17 de novembro de 2025. Na data, Tahan enviou reportagens sobre a venda do Master à Fictor antes de irem ao ar e escreveu ao ex-banqueiro após fazer as edições solicitadas: “publicada hahahaha”.

 

Fonte: Jornal GGN/Brasil 247

 

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