Marabá:
como a Amazônia virou palco do capitalismo imobiliário
Em
Marabá, no sudeste do Pará, a expansão imobiliária revela como a integração da
Amazônia aos circuitos de extração e exportação de riquezas também transforma a
cidade em fonte de acumulação. Na região de Carajás, o avanço da mineração e da
fronteira agropecuária criou condições para a multiplicação de loteamentos,
condomínios e conjuntos habitacionais. A terra urbana passou a atrair capitais
e expectativas de valorização associados à economia regional. Essa
transformação foi construída pela articulação entre grandes proprietários
fundiários, empresas imobiliárias e poder público, com consequências profundas
para as condições de moradia.
A
exploração de recursos naturais e a implantação de infraestrutura de transporte
marcaram historicamente a ocupação da Amazônia, em especial no século XX.
Durante a ditadura militar, grandes projetos intensificaram sua integração
subordinada à economia nacional e aos mercados internacionais. A Estrada de
Ferro Carajás, inaugurada em 1985, expressa essa orientação: integrada ao
sistema mina-ferrovia-porto do Projeto Ferro Carajás, conectou as áreas de
extração mineral no Pará ao escoamento portuário no Maranhão. A organização do
território privilegiou a circulação de mercadorias, enquanto as necessidades
das populações locais permaneceram subordinadas às prioridades dos grandes
investimentos.
Essa
lógica extrativa ajuda a compreender a expansão imobiliária já que as
infraestruturas que viabilizam a exploração econômica também alteram a
acessibilidade e as expectativas de uso das terras. Os anúncios de
investimentos alimentam projeções de crescimento e a expectativa de retorno e,
consequentemente, as oportunidades de negócio. Na cidade, a propriedade
fundiária permite capturar parte desses efeitos sob a forma de renda da terra.
O capitalismo imobiliário se fortalece nessa conexão entre a economia regional,
a concentração da propriedade e as decisões públicas que permitem transformar
glebas rurais em produtos urbanos.
Marabá,
hoje com 266.536 habitantes, segundo o Censo 2022 (IBGE), oferece uma expressão
concreta desse processo. Sua configuração reúne núcleos descontínuos formados
em diferentes momentos: a Marabá Pioneira, na confluência dos rios Tocantins e
Itacaiúnas; a Nova Marabá, concebida como projeto de cidade planejada moderna;
e a Cidade Nova, organizada a partir de vilas agrícolas, todos dependentes da
Rodovia Transamazônica que se tornou o eixo de articulação desses espaços e de
organização da dinâmica da cidade. Sobre essa estrutura dispersa, os
empreendimentos replicaram tal configuração e ampliaram a ocupação de áreas
afastadas, reordenando centralidades, aprofundando a fragmentação urbana, como
mostra a obra “Amazônia: a região de Carajás” (2023).
A
partir de 2008, dois processos impulsionaram essa expansão. O primeiro foi o
anúncio de investimentos bilionários destinados à verticalização siderúrgica,
entre eles o projeto Aços Laminados do Pará (ALPA), acompanhado de expectativas
de implantação de infraestrutura no âmbito do Programa de Aceleração do
Crescimento (PAC). A promessa de industrialização ampliou as perspectivas de
valorização das terras. O segundo foi a expansão do crédito à construção e à
aquisição de moradias, com destaque para o Programa Minha Casa, Minha Vida
(PMCMV), que abriu novas possibilidades de atuação para o setor imobiliário.
As
obras da ALPA começaram em 2010, mas o projeto foi suspenso em 2013, em um
contexto de redução dos investimentos em diversificação industrial e de
entraves à implantação de infraestrutura logística e energética. A expansão
imobiliária, contudo, prosseguiu. O contraste é revelador: a expectativa de
industrialização alimentou negócios com a terra, enquanto a cidade continuou a
receber empreendimentos mesmo depois da interrupção do investimento que ajudara
a impulsioná-los. A promessa de desenvolvimento industrial teve desdobramentos
urbanos que ultrapassaram sua própria realização.
O poder
público participou ativamente dessa transformação. A alteração do perímetro
urbano e das regras urbanísticas criou condições para incorporar novas terras
ao mercado. Em 2009, o perímetro urbano atravessou o rio Tocantins e incorporou
as áreas, outrora rurais das, outrora vilas, São Félix e Morada Nova, que
concentraram parcela expressiva dos empreendimentos, muitos vinculados ao
PMCMV. As decisões sobre onde a cidade poderia crescer favoreceram negócios em
terras periféricas e reforçaram alianças entre proprietários, agentes
imobiliários e elites políticas. O planejamento municipal tornou-se parte das
condições de valorização fundiária, conforme estudo sobre a apropriação da
renda fundiária urbana na região de Carajás.
Entre
2009 e 2025, o levantamento que fundamenta esta análise identificou a produção
de 28.959 unidades imobiliárias em Marabá, abrangendo lotes e moradias. Esse
volume expressa a escala da transformação do território em mercadoria. Parte
importante da expansão resultou de arranjos entre incorporadoras nacionais e
regionais, grandes proprietários de terras e poder público. A conversão de solo
rural em urbano tornou-se uma oportunidade de apropriação de renda fundiária,
viabilizada por mudanças nas condições de uso e parcelamento da terra.
Os
vínculos econômicos dos agentes envolvidos ajudam a explicar essa dinâmica.
Capitais associados à exploração madeireira, ao agronegócio e ao comércio
regional passaram a atuar na incorporação imobiliária, articulando-se a grupos
com presença em diferentes estados. Grandes proprietários disponibilizaram
glebas para empreendimentos, enquanto incorporadoras organizaram o
parcelamento, a comercialização e, em alguns casos, o financiamento direto dos
lotes. A articulação entre propriedade, produção imobiliária e crédito permitiu
transformar extensas áreas em milhares de unidades comercializáveis. Um único
loteamento chegou a reunir 9.605 lotes, estruturando um novo bairro, que hoje
padece sem um sistema de abastecimento de água capaz de atender minimamente os
moradores.
Nesse
contexto, o financiamento habitacional também contribuiu para reproduzir a
fragmentação. A ampliação do acesso à casa própria coexistiu com a implantação
de conjuntos afastados da mancha urbana consolidada e com deficiências na
oferta de infraestrutura. A localização das moradias impôs demandas adicionais
de transporte e de acesso a serviços, ampliando a dependência que a cidade tem
das rodovias de fluxo regional para suas interações intraurbanas. Assim, a
quantidade de unidades produzidas precisa ser confrontada com as condições de
inserção urbana: receber uma habitação não assegura, por si só, acesso adequado
à cidade.
Os
efeitos dessa expansão são distribuídos de maneira desigual. Condomínios
fechados direcionados às classes média e alta convivem com conjuntos populares
cuja integração urbana permanece precária. Novas áreas ocupadas pressionam o
município pela extensão de redes, equipamentos e serviços. Parte dos custos de
tornar esses espaços efetivamente habitáveis recai sobre o poder público e
sobre os moradores, enquanto proprietários e incorporadores se apropriam dos
ganhos da comercialização e da valorização das terras. A expansão territorial
reforça, desse modo, desigualdades de acesso à infraestrutura e às
centralidades urbanas.
É nesse
sentido que Marabá permite compreender como a Amazônia se tornou palco do
capitalismo imobiliário. A riqueza associada à exploração regional, as
expectativas geradas pelos grandes projetos e os mecanismos de crédito
encontram na terra uma possibilidade de acumulação. Instituições e alianças
locais dão forma a esse processo, definindo quais áreas podem ser parceladas,
quem captura a valorização e quem suporta os custos da expansão. A trajetória
de Marabá mostra como a integração econômica da região pode reproduzir, dentro
da cidade, a concentração de benefícios e a distribuição desigual de seus
encargos.
Enfrentar
esse padrão exige colocar a localização da moradia e o acesso à infraestrutura
no centro da política urbana. As decisões sobre perímetro urbano e uso do solo
precisam ser orientadas pelas necessidades coletivas, com controle social sobre
os compromissos assumidos pelos empreendimentos e sobre o destino dos
investimentos públicos. Em Marabá, disputar os rumos da urbanização significa
disputar a destinação da riqueza produzida na região e impedir que a promessa
de desenvolvimento continue a se converter em valorização privada da terra
acompanhada de desigualdade urbana.
Este
texto integra uma série de artigos, escritos por integrantes do INCT Produção
da Casa e da Cidade (sediado na FAU-USP), com base nos capítulos do livro
recém-lançado A produção da casa e da cidade no Brasil contemporâneo: novos
estudos sobre autoconstrução, Estado e imobiliário.
Fonte:
Por José Júlio Lima e Lucas França Rolim, no Le Monde

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