Chefe
da campanha de Flávio Bolsonaro esteve no Senado mas não votou na 6×1
Enquanto
governistas discursavam a favor do projeto que estabelecia o fim da escala de
trabalho 6×1, parlamentares da oposição se reuniam para debater estratégias e
discursos da campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da
República. A reunião durou mais de três horas e aconteceu no gabinete do líder
do PL no Senado Federal e chefe da campanha de Flávio, Rogério Marinho (RN),
que não compareceu ao plenário nem participou da votação da proposta — aprovada
na noite de quarta-feira (14), como mostrou a Agência Pública. Procurado pela
reportagem, Marinho não retornou até a publicação.
Outros
dois aliados de Flávio também não votaram: os senadores Sérgio Moro (PL-PR) e
Marcio Bittar (PL-AC). O presidente do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre
(União-AP), que presidiu a sessão, não votou. Pelas regras do regimento interno
do Senado, o presidente não vota. Entretanto, a norma permite que o parlamentar
entregue o comando da Casa a outro senador para que este participe da votação.
O texto foi aprovado em dois turnos por 75 votos a favor e um voto contrário: o
do ex-vice-presidente da República, Hamilton Mourão (Republicanos-RS).
Rogério
Marinho é autor da Proposta de Emenda à Constituição (PEC), apresentada em maio
deste ano, que prevê uma jornada por regime de horas trabalhadas — alternativa
da oposição à PEC que estabeleceu o fim da escala 6×1. Flávio Bolsonaro e seus
aliados sempre se posicionaram contra a redução da jornada de trabalho sem
impacto nos salários, por considerarem que isso representaria prejuízos
econômicos à indústria. No entanto, diante da campanha governista e da
mobilização popular em favor da proposta, Flávio recuou e afirmou que votaria a
favor da aprovação do texto. A mudança foi anunciada na terça-feira (13), após
ele visitar o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar
por tentativa de golpe de Estado.
O novo
discurso foi reforçado durante a reunião no gabinete de Rogério Marinho. Além
dele, três correligionários do PL estavam no encontro: os senadores Magno Malta
(ES), Carlos Portinho (RJ) e o eleito José Medeiros (MT). Também estavam
presentes três congressistas do PP: a senadora e ex-ministra da Agricultura de
Jair Bolsonaro, Tereza Cristina (MS); o senador eleito e ex-presidente da
Câmara dos Deputados, Arthur Lira (AL); e o deputado federal Ricardo Barros
(PR), ministro da Saúde na gestão de Michel Temer.
“A
gente não pode deixar a narrativa nas mãos do adversário”, declarou à Pública,
sob reserva, um dos membros da reunião a respeito da mudança no discurso da
campanha a menos de duas semanas para o segundo turno das eleições. “Foi uma
decisão do presidente [Flávio] e o Lira também concordou”, completou o
parlamentar.
Questionado
pela Pública após sair da reunião, Lira afirmou que não foi ao gabinete para
tratar da PEC em votação.
Flávio
Bolsonaro votou à distância enquanto participava de um ato político em Porto
Alegre, no Rio Grande do Sul. Ele subiu ao palanque ao lado dos governadores
eleitos Luciano Zucco (PL-RS) e Sérgio Moro (PL-PR); e dos governadores
reeleitos Jorginho Mello (PL-SC) e Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP). Na
ocasião, afirmou aos apoiadores que o governo terá que “pagar a conta” do novo
modelo de trabalho para compensar empresários que, segundo ele, estariam
“quebrados”.
Aliados
de Flávio confirmaram à Pública que a campanha se reuniu, ao longo do último
mês, com empresários para discutir as possíveis consequências da implantação da
nova jornada de trabalho. A transição de 44 para 40 horas semanais será gradual
e começará a valer dois meses após a promulgação da PEC — função do presidente do Congresso. Durante o
primeiro ano da nova regra, a jornada terá um limite de 42 horas. Após esse
período, o limite passará a ser oficialmente de 40 horas.
Diante
disso, Flávio sinalizou ao setor empresarial que, caso eleito, pretende aplicar
medidas “compensatórias”; entre elas, propostas legislativas que revertam os
efeitos do fim da escala 6×1. As ações seriam possíveis com o apoio dos
parlamentares do PL no Congresso Nacional. Em 2027, a legenda terá a maior
bancada das duas casas: 28 senadores e 121 deputados. “Com um Senado
conservador, não teremos medo de realizar todas as mudanças necessárias”, disse
uma parlamentar da extrema-direita à reportagem, sob condição de anonimato.
Após a
imprensa revelar a articulação com representantes da indústria, contudo, o
discurso da campanha tornou-se mais cauteloso. O senador Carlos Portinho
(PL-RJ) declarou que a medida estudada por uma possível nova gestão
bolsonarista é a desoneração da folha de pagamento. O benefício já é garantido
a 17 setores da economia. Com ele, há uma diminuição expressiva no percentual
de impostos pagos pelas empresas, decorrente de uma tributação baseada na
receita bruta total, em vez de uma taxa fixa sobre o salário dos funcionários.
“Como a
gente não tem os dados [de possíveis prejuízos com a aprovação], não pode
avaliar, a gente entende que a proposta para o trabalhador é um benefício. Para
o setor produtivo, a gente terá instrumentos no futuro para tentar mitigar, o
que só empiricamente a gente vai poder comprovar se houve dano ou não. A única
coisa que falei aqui é que isso vai ser avaliado durante a execução da lei e
vai ter impactos, é lógico. E, para mitigar o setor produtivo, pode voltar a
desoneração da folha para tentar equilibrar essa relação”, declarou Portinho.
Na
Câmara dos Deputados, a oposição se manifestou de forma mais incisiva contra o
novo modelo de trabalho. Durante a discussão do texto no Senado, o líder do PL
na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), frisou que o partido defende a aprovação,
no ano que vem, de uma PEC sobre jornada de trabalho por horas trabalhadas.
Conforme o parlamentar, a proposta dará a opção de escolha entre a contratação
baseada na Consolidação das Leis de Trabalho (CLT) ou por meio do modelo de
Microempreendedor Individual (MEI).
Mesmo
com os votos favoráveis da oposição em meio a pressão eleitoral, o plenário do
Senado foi tomado pela base governista. Uma semana antes da votação,
parlamentares do PL ainda acreditavam que a pauta poderia ser adiada com uma
possível reavaliação por parte de Davi Alcolumbre, em meio a negociações para
se reeleger presidente do Congresso.
A
proposta estava parada no Senado desde maio de 2026, quando foi aprovada na
Câmara dos Deputados. Desde então, Alcolumbre fez várias declarações afirmando
que não se renderia às “pressões” para votar em pleno ano eleitoral. A postura
mudou após negociações com a campanha de Lula, sobretudo com a intensificação
da disputa pelo Planalto e os resultados desfavoráveis a Alcolumbre no primeiro
turno das eleições. Os dois candidatos apoiados por ele no Amapá foram
derrotados: o governador Clécio Luís (União) e o senador Randolfe Rodrigues
(PT).
Um dia
antes da sessão, parlamentares do PT discutiam nos bastidores a possibilidade
de o presidente Lula comparecer ao Congresso para comemorar o resultado. O
presidente, por sua vez, comemorou por meio de um vídeo publicado nas redes
sociais. “Quero parabenizar o povo que foi para a rua, quero parabenizar os
senadores e senadoras que votaram favorável porque o povo merece respeito e
conquistou esse respeito”.
Fonte:
Por Dyepeson Martins, da Agencia Pública

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