Educação:
Um convite à autonomia dos jovens
Quero
conversar com você, jovem, que está experimentando pela primeira vez a
participação nas eleições nacionais. Talvez este seja o momento em que você
começa a perceber, de maneira mais concreta, que a política não é uma atividade
distante da sua vida. Ela está presente na escola que você frequenta, nas
oportunidades que encontra, nas condições de trabalho que terá e nos caminhos
que poderá escolher para construir seu futuro.
Há
muitas expectativas depositadas sobre as novas gerações. Esperamos que vocês
sejam autônomos, participativos, criativos e capazes de enfrentar os desafios
de um mundo em transformação. Mas existe uma pergunta que precisamos fazer:
quais condições estamos oferecendo para que os jovens possam construir essa
autonomia? Afinal, não basta dizer que o futuro está nas mãos de vocês se a
sociedade não assegurar condições para que possam participar da sua construção.
Estamos
em 2026 e completamos dez anos da reforma do Novo Ensino Médio, iniciada em
2016. Talvez você tenha vivenciado parte dessa experiência como estudante.
Naquele momento, difundiu-se a promessa de que cada jovem poderia escolher os
caminhos de sua formação, organizar seu projeto de vida e assumir o
protagonismo sobre o próprio futuro. Entretanto, a valorização das escolhas
individuais nem sempre foi acompanhada das condições necessárias para
realizá-las.
Em
muitos contextos, a promessa de autonomia acabou se aproximando de uma lógica
meritocrática, na qual os estudantes eram responsabilizados por seus
resultados, mesmo diante de profundas desigualdades sociais e educacionais. A
escola que deveria acompanhar, orientar e ampliar possibilidades corria o risco
de transferir aos próprios jovens a responsabilidade por enfrentar obstáculos
que não haviam sido produzidos por eles. Em determinadas circunstâncias, aquilo
que se anunciava como liberdade de escolha transformou-se em uma forma de
abandono pedagógico.
Na
última década, e especialmente nos anos mais recentes, as políticas
educacionais brasileiras passaram por mudanças, disputas e redirecionamentos.
Gostaria de compartilhar quatro questões que considero importantes para
compreendermos esse processo e pensarmos sobre o futuro. Existem políticas
recentes que mudaram essa história e você pode compreender a sua importância.
A
primeira questão diz respeito ao direito a uma formação humana integral. A
aprovação da Lei nº 14.945, em 2024, abriu uma nova etapa na reorganização do
ensino médio brasileiro. A Política Nacional de Ensino Médio passou a orientar
esforços de recomposição da formação geral básica, valorização das áreas do
conhecimento e revisão dos itinerários formativos. A preocupação fundamental é
assegurar que os estudantes tenham acesso a uma formação consistente, capaz de
ampliar seus repertórios culturais, científicos e sociais.
Isso
significa reconhecer que a escola não existe apenas para preparar você para uma
ocupação profissional ou para uma prova. Ela também deve oferecer conhecimentos
para compreender o mundo, participar da vida democrática, enfrentar
desigualdades e construir projetos pessoais e coletivos. Um currículo justo não
é aquele que simplesmente oferece escolhas, mas aquele que assegura condições
reais para que todos possam escolher.
A
segunda questão está relacionada à proteção das trajetórias escolares. Talvez
você não precise de apoio financeiro para continuar estudando, mas certamente
conhece jovens para os quais permanecer na escola exige enfrentar dificuldades
econômicas importantes. Programas como o Pé-de-Meia procuram responder a essa
realidade, oferecendo incentivos financeiros vinculados à permanência e à
conclusão do ensino médio público, conforme critérios de elegibilidade.
Uma
parcela mensal de R$ 200 pode parecer pouco para algumas famílias, mas pode
representar uma contribuição significativa para outras. Mais importante do que
o valor isoladamente é o princípio que orienta essa política: a permanência
escolar não deve depender exclusivamente dos recursos econômicos de cada
família.
A
autonomia dos jovens não nasce pronta. Ela é construída progressivamente,
mediante experiências, aprendizagens, vínculos e oportunidades. Por isso,
políticas de proteção social não são contrárias à autonomia. Ao contrário,
podem constituir uma de suas condições fundamentais. Uma sociedade que deseja
jovens livres precisa também assumir responsabilidades coletivas pela proteção
de suas trajetórias.
A
terceira questão envolve as oportunidades de ingresso na educação superior.
Para muitos jovens brasileiros, chegar à universidade continua sendo um sonho
importante. Programas como o ProUni, criado em 2005, e as políticas de acesso
às instituições públicas de ensino superior integram uma trajetória de
ampliação de oportunidades, embora persistam desigualdades e desafios
relacionados à permanência e à conclusão dos cursos.
O
acesso à universidade não pode ser compreendido apenas como uma conquista
individual. Ele também expressa escolhas coletivas sobre o tipo de sociedade
que desejamos construir. Ampliar oportunidades de formação superior significa
permitir que jovens de diferentes origens sociais possam participar da produção
do conhecimento, desenvolver suas capacidades e encontrar novos caminhos
profissionais.
A
quarta questão diz respeito à educação profissional e tecnológica. A expansão e
o fortalecimento das instituições federais e das oportunidades de formação
técnica representam caminhos relevantes para a juventude brasileira. Nem todos
os jovens desejam seguir imediatamente para a universidade, e isso não diminui
a importância de seus projetos. Uma formação técnica de qualidade pode ampliar
possibilidades de inserção profissional, empreendedorismo, continuidade dos
estudos e participação na vida econômica e social. O desafio está em assegurar
que essas alternativas não se transformem em destinos previamente determinados
pela origem social de cada estudante. A educação profissional precisa ampliar
horizontes, e não restringi-los.
Aliás,
caso o seu caminho seja o empreendedorismo, precisamos assegurar condições para
que essa escolha não se converta em novas formas de precarização do trabalho e
exploração. Empreender também é um direito seu, e considero legítima e justa
essa reivindicação das juventudes. Entretanto, é fundamental que essa
possibilidade esteja acompanhada de condições de proteção social, acesso à
formação e oportunidades concretas de desenvolvimento. Afinal, o
empreendedorismo precisa representar uma possibilidade de realização pessoal e
profissional, e não uma alternativa imposta pela ausência de outras
oportunidades. A liberdade de empreender, assim como qualquer outra escolha,
somente adquire sentido quando sustentada por condições efetivas de autonomia.
Essas
quatro questões nos conduzem a uma reflexão mais ampla: não existe autonomia
verdadeira quando as oportunidades são profundamente desiguais. Escolher o
próprio futuro pressupõe ter acesso a conhecimentos, proteção social,
instituições educacionais de qualidade e condições concretas para desenvolver
um projeto de vida.
É
justamente por isso que a participação política dos jovens é tão importante. As
políticas públicas não são naturais nem permanentes por definição. Elas
resultam de decisões, disputas, prioridades e compromissos assumidos pela
sociedade. Podem ser ampliadas, modificadas, aperfeiçoadas ou interrompidas.
Conhecer sua história, seus resultados e seus limites é parte fundamental do
exercício da cidadania.
Não
escrevo estas palavras para dizer em quem você deve votar. Escrevo para
convidá-lo a pensar sobre as relações entre suas escolhas pessoais e as
decisões coletivas que organizam a sociedade. Informe-se, compare propostas,
examine resultados, questione promessas e procure compreender quais
compromissos concretos estão sendo apresentados para a educação e para as
juventudes brasileiras.
O
futuro não depende apenas da capacidade individual de cada jovem. Depende
também da qualidade das instituições, da vitalidade da democracia e das
responsabilidades que assumimos uns com os outros. Talvez esta seja uma das
aprendizagens mais importantes da vida política: a liberdade de construir o
próprio futuro também depende de uma sociedade comprometida com o direito de
todos a terem um futuro digno.
• Em que Brasil e em que mundo queremos
viver. Por Silvio Cavuscens
“Em que
Brasil e em que mundo queremos viver?” Essa pergunta traduz o desafio colocado
pelo segundo turno da eleição presidencial, no próximo dia 25 de outubro de
2026. Hoje, não se trata somente da disputa entre esquerda e direita, entre a
velha e a nova guarda ou, finalmente, entre Lula e Flávio Bolsonaro ou entre o
PT e o PL. O que está em jogo vai muito além do que vem sendo apresentado de
modo absurdamente limitado.
Tenho
71 anos. Há mais de cinco décadas vivo na Amazônia, acompanhando a luta dos
povos indígenas e dos movimentos sociais. Uma região onde foram implantados
grandes projetos de desenvolvimento, onde vive uma população historicamente
esquecida pelo país e onde se tentou, e ainda se tenta, fazer tábua rasa de
culturas milenares, ameaçando também a maior floresta tropical do mundo.
O que
está em jogo é o próprio destino da nossa humanidade, diante das grandes
contradições e dos graves problemas provocados por um modelo econômico e
político que concentra seus benefícios entre os mais ricos, grandes grupos
empresariais e setores que lucram até mesmo com a ilegalidade.
As
mudanças climáticas e as catástrofes que atingem populações inteiras; as
permanentes guerras promovidas contra nações pobres ou indefesas; o domínio
exercido por potências como os Estados Unidos sobre outras nações; e as
pressões sobre as riquezas brasileiras, entre elas as terras raras, fazem parte
desse cenário. A ele se somam a usurpação e a redução sistemática dos direitos
e do bem-estar da população trabalhadora mais pobre, das minorias e daqueles
que possuem outras culturas e modos de viver.
“Minhas
referências permanecem sendo a defesa da dignidade humana, o cumprimento da
nossa legislação, a construção de perspectivas mais sustentáveis e a busca de
caminhos mais democráticos e participativos”
Na
minha compreensão, o projeto político representado por Flávio Bolsonaro reforça
esse modelo e ameaça aprofundar suas consequências no Brasil. Nesse jogo de
poder, Lula representa a possibilidade de o Brasil garantir sua soberania,
promover maior igualdade de direitos e fortalecer seu papel mediador nas
relações internacionais. Representa também a possibilidade de contribuir para o
fortalecimento das Nações Unidas e para a busca da paz, assim como de ampliar
seu protagonismo na construção de um país e de um mundo mais sustentáveis,
justos e humanos.
É
preciso, contudo, reconhecer que o governo Lula também carrega contradições
profundas. Os avanços na proteção ambiental convivem com a aposta na abertura
de novas fronteiras petrolíferas, como na Margem Equatorial. Na Amazônia, cabe
também questionar até que ponto suas políticas enfrentam ou reproduzem um
modelo que subordina os territórios e os rios às demandas da mineração, do
agronegócio e do escoamento de mercadorias, em detrimento da vida e dos modos
próprios de existência dos povos da região.
Vejo
nessa escolha a persistência de uma concepção de desenvolvimento que promete
superar a dependência econômica ampliando a exploração dos recursos naturais.
Como conciliar essa aposta com a responsabilidade de enfrentar a crise
climática e assegurar um futuro às próximas gerações? Para quem acompanha há
mais de cinco décadas as consequências dos grandes projetos na Amazônia, essa
contradição exige uma posição crítica.
Por
essa razão, deixo claro que a minha posição diante destas eleições não
representa um cheque em branco a Lula. Reconhecer diferenças entre os projetos
políticos exige também cobrar coerência de quem afirma defender a democracia, a
justiça social e o equilíbrio ambiental. Esses compromissos precisam orientar
as decisões de governo, inclusive quando contrariam interesses econômicos e
alianças políticas. Minhas referências, nesse contexto complexo e emaranhado,
permanecem sendo a defesa da dignidade humana, o cumprimento da nossa
legislação, a construção de perspectivas mais sustentáveis e a busca de
caminhos mais democráticos e participativos.
“A
dignidade dos povos e os limites da natureza não podem ser tratados como moeda
de troca”
Entendo
que governar é uma arte e um ofício que Lula aprendeu a dominar e que exige
capacidade de diálogo, negociação e responsabilidade. Todavia, a dignidade dos
povos e os limites da natureza não podem ser tratados como moeda de troca. É
também por esses critérios que teremos que cobrar coerência de seu governo. O
exercício de governar não pode ser reduzido à politicagem, às notícias falsas
ou ao uso político de questões tão sérias quanto a religião e a
espiritualidade, como tenho observado, de modo extremamente imaturo e
irresponsável, no campo bolsonarista.
Neste
momento tão importante de nossas vidas, não podemos ficar em cima do muro, nem
agir com egoísmo. Cada um de nós tem uma responsabilidade como cidadão do
Brasil e do mundo: contribuir para que nosso país possa ser grande, mas
humilde; para que sua população, diversa e heterogênea, seja respeitada; e para
que o meio ambiente seja preservado por meio de um desenvolvimento coerente,
que respeite os limites da própria natureza.
A
decisão de cada um definirá não apenas o resultado desta eleição, mas os rumos
do país e as condições de vida das próximas gerações, de nossos filhos e netos.
Nossa responsabilidade não termina nas urnas: ela continua na organização da
sociedade, na defesa dos direitos e na cobrança permanente de quem governa.
Pensem com responsabilidade.
Fonte:
Por Roberto Rafael Dias da Silva, em Outras Palavras/Cimi

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