sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Educação: Um convite à autonomia dos jovens

Quero conversar com você, jovem, que está experimentando pela primeira vez a participação nas eleições nacionais. Talvez este seja o momento em que você começa a perceber, de maneira mais concreta, que a política não é uma atividade distante da sua vida. Ela está presente na escola que você frequenta, nas oportunidades que encontra, nas condições de trabalho que terá e nos caminhos que poderá escolher para construir seu futuro.

Há muitas expectativas depositadas sobre as novas gerações. Esperamos que vocês sejam autônomos, participativos, criativos e capazes de enfrentar os desafios de um mundo em transformação. Mas existe uma pergunta que precisamos fazer: quais condições estamos oferecendo para que os jovens possam construir essa autonomia? Afinal, não basta dizer que o futuro está nas mãos de vocês se a sociedade não assegurar condições para que possam participar da sua construção.

Estamos em 2026 e completamos dez anos da reforma do Novo Ensino Médio, iniciada em 2016. Talvez você tenha vivenciado parte dessa experiência como estudante. Naquele momento, difundiu-se a promessa de que cada jovem poderia escolher os caminhos de sua formação, organizar seu projeto de vida e assumir o protagonismo sobre o próprio futuro. Entretanto, a valorização das escolhas individuais nem sempre foi acompanhada das condições necessárias para realizá-las.

Em muitos contextos, a promessa de autonomia acabou se aproximando de uma lógica meritocrática, na qual os estudantes eram responsabilizados por seus resultados, mesmo diante de profundas desigualdades sociais e educacionais. A escola que deveria acompanhar, orientar e ampliar possibilidades corria o risco de transferir aos próprios jovens a responsabilidade por enfrentar obstáculos que não haviam sido produzidos por eles. Em determinadas circunstâncias, aquilo que se anunciava como liberdade de escolha transformou-se em uma forma de abandono pedagógico.

Na última década, e especialmente nos anos mais recentes, as políticas educacionais brasileiras passaram por mudanças, disputas e redirecionamentos. Gostaria de compartilhar quatro questões que considero importantes para compreendermos esse processo e pensarmos sobre o futuro. Existem políticas recentes que mudaram essa história e você pode compreender a sua importância.

A primeira questão diz respeito ao direito a uma formação humana integral. A aprovação da Lei nº 14.945, em 2024, abriu uma nova etapa na reorganização do ensino médio brasileiro. A Política Nacional de Ensino Médio passou a orientar esforços de recomposição da formação geral básica, valorização das áreas do conhecimento e revisão dos itinerários formativos. A preocupação fundamental é assegurar que os estudantes tenham acesso a uma formação consistente, capaz de ampliar seus repertórios culturais, científicos e sociais.

Isso significa reconhecer que a escola não existe apenas para preparar você para uma ocupação profissional ou para uma prova. Ela também deve oferecer conhecimentos para compreender o mundo, participar da vida democrática, enfrentar desigualdades e construir projetos pessoais e coletivos. Um currículo justo não é aquele que simplesmente oferece escolhas, mas aquele que assegura condições reais para que todos possam escolher.

A segunda questão está relacionada à proteção das trajetórias escolares. Talvez você não precise de apoio financeiro para continuar estudando, mas certamente conhece jovens para os quais permanecer na escola exige enfrentar dificuldades econômicas importantes. Programas como o Pé-de-Meia procuram responder a essa realidade, oferecendo incentivos financeiros vinculados à permanência e à conclusão do ensino médio público, conforme critérios de elegibilidade.

Uma parcela mensal de R$ 200 pode parecer pouco para algumas famílias, mas pode representar uma contribuição significativa para outras. Mais importante do que o valor isoladamente é o princípio que orienta essa política: a permanência escolar não deve depender exclusivamente dos recursos econômicos de cada família.

A autonomia dos jovens não nasce pronta. Ela é construída progressivamente, mediante experiências, aprendizagens, vínculos e oportunidades. Por isso, políticas de proteção social não são contrárias à autonomia. Ao contrário, podem constituir uma de suas condições fundamentais. Uma sociedade que deseja jovens livres precisa também assumir responsabilidades coletivas pela proteção de suas trajetórias.

A terceira questão envolve as oportunidades de ingresso na educação superior. Para muitos jovens brasileiros, chegar à universidade continua sendo um sonho importante. Programas como o ProUni, criado em 2005, e as políticas de acesso às instituições públicas de ensino superior integram uma trajetória de ampliação de oportunidades, embora persistam desigualdades e desafios relacionados à permanência e à conclusão dos cursos.

O acesso à universidade não pode ser compreendido apenas como uma conquista individual. Ele também expressa escolhas coletivas sobre o tipo de sociedade que desejamos construir. Ampliar oportunidades de formação superior significa permitir que jovens de diferentes origens sociais possam participar da produção do conhecimento, desenvolver suas capacidades e encontrar novos caminhos profissionais.

A quarta questão diz respeito à educação profissional e tecnológica. A expansão e o fortalecimento das instituições federais e das oportunidades de formação técnica representam caminhos relevantes para a juventude brasileira. Nem todos os jovens desejam seguir imediatamente para a universidade, e isso não diminui a importância de seus projetos. Uma formação técnica de qualidade pode ampliar possibilidades de inserção profissional, empreendedorismo, continuidade dos estudos e participação na vida econômica e social. O desafio está em assegurar que essas alternativas não se transformem em destinos previamente determinados pela origem social de cada estudante. A educação profissional precisa ampliar horizontes, e não restringi-los.

Aliás, caso o seu caminho seja o empreendedorismo, precisamos assegurar condições para que essa escolha não se converta em novas formas de precarização do trabalho e exploração. Empreender também é um direito seu, e considero legítima e justa essa reivindicação das juventudes. Entretanto, é fundamental que essa possibilidade esteja acompanhada de condições de proteção social, acesso à formação e oportunidades concretas de desenvolvimento. Afinal, o empreendedorismo precisa representar uma possibilidade de realização pessoal e profissional, e não uma alternativa imposta pela ausência de outras oportunidades. A liberdade de empreender, assim como qualquer outra escolha, somente adquire sentido quando sustentada por condições efetivas de autonomia.

Essas quatro questões nos conduzem a uma reflexão mais ampla: não existe autonomia verdadeira quando as oportunidades são profundamente desiguais. Escolher o próprio futuro pressupõe ter acesso a conhecimentos, proteção social, instituições educacionais de qualidade e condições concretas para desenvolver um projeto de vida.

É justamente por isso que a participação política dos jovens é tão importante. As políticas públicas não são naturais nem permanentes por definição. Elas resultam de decisões, disputas, prioridades e compromissos assumidos pela sociedade. Podem ser ampliadas, modificadas, aperfeiçoadas ou interrompidas. Conhecer sua história, seus resultados e seus limites é parte fundamental do exercício da cidadania.

Não escrevo estas palavras para dizer em quem você deve votar. Escrevo para convidá-lo a pensar sobre as relações entre suas escolhas pessoais e as decisões coletivas que organizam a sociedade. Informe-se, compare propostas, examine resultados, questione promessas e procure compreender quais compromissos concretos estão sendo apresentados para a educação e para as juventudes brasileiras.

O futuro não depende apenas da capacidade individual de cada jovem. Depende também da qualidade das instituições, da vitalidade da democracia e das responsabilidades que assumimos uns com os outros. Talvez esta seja uma das aprendizagens mais importantes da vida política: a liberdade de construir o próprio futuro também depende de uma sociedade comprometida com o direito de todos a terem um futuro digno.

•        Em que Brasil e em que mundo queremos viver. Por Silvio Cavuscens

“Em que Brasil e em que mundo queremos viver?” Essa pergunta traduz o desafio colocado pelo segundo turno da eleição presidencial, no próximo dia 25 de outubro de 2026. Hoje, não se trata somente da disputa entre esquerda e direita, entre a velha e a nova guarda ou, finalmente, entre Lula e Flávio Bolsonaro ou entre o PT e o PL. O que está em jogo vai muito além do que vem sendo apresentado de modo absurdamente limitado.

Tenho 71 anos. Há mais de cinco décadas vivo na Amazônia, acompanhando a luta dos povos indígenas e dos movimentos sociais. Uma região onde foram implantados grandes projetos de desenvolvimento, onde vive uma população historicamente esquecida pelo país e onde se tentou, e ainda se tenta, fazer tábua rasa de culturas milenares, ameaçando também a maior floresta tropical do mundo.

O que está em jogo é o próprio destino da nossa humanidade, diante das grandes contradições e dos graves problemas provocados por um modelo econômico e político que concentra seus benefícios entre os mais ricos, grandes grupos empresariais e setores que lucram até mesmo com a ilegalidade.

As mudanças climáticas e as catástrofes que atingem populações inteiras; as permanentes guerras promovidas contra nações pobres ou indefesas; o domínio exercido por potências como os Estados Unidos sobre outras nações; e as pressões sobre as riquezas brasileiras, entre elas as terras raras, fazem parte desse cenário. A ele se somam a usurpação e a redução sistemática dos direitos e do bem-estar da população trabalhadora mais pobre, das minorias e daqueles que possuem outras culturas e modos de viver.

“Minhas referências permanecem sendo a defesa da dignidade humana, o cumprimento da nossa legislação, a construção de perspectivas mais sustentáveis e a busca de caminhos mais democráticos e participativos”

Na minha compreensão, o projeto político representado por Flávio Bolsonaro reforça esse modelo e ameaça aprofundar suas consequências no Brasil. Nesse jogo de poder, Lula representa a possibilidade de o Brasil garantir sua soberania, promover maior igualdade de direitos e fortalecer seu papel mediador nas relações internacionais. Representa também a possibilidade de contribuir para o fortalecimento das Nações Unidas e para a busca da paz, assim como de ampliar seu protagonismo na construção de um país e de um mundo mais sustentáveis, justos e humanos.

É preciso, contudo, reconhecer que o governo Lula também carrega contradições profundas. Os avanços na proteção ambiental convivem com a aposta na abertura de novas fronteiras petrolíferas, como na Margem Equatorial. Na Amazônia, cabe também questionar até que ponto suas políticas enfrentam ou reproduzem um modelo que subordina os territórios e os rios às demandas da mineração, do agronegócio e do escoamento de mercadorias, em detrimento da vida e dos modos próprios de existência dos povos da região.

Vejo nessa escolha a persistência de uma concepção de desenvolvimento que promete superar a dependência econômica ampliando a exploração dos recursos naturais. Como conciliar essa aposta com a responsabilidade de enfrentar a crise climática e assegurar um futuro às próximas gerações? Para quem acompanha há mais de cinco décadas as consequências dos grandes projetos na Amazônia, essa contradição exige uma posição crítica.

Por essa razão, deixo claro que a minha posição diante destas eleições não representa um cheque em branco a Lula. Reconhecer diferenças entre os projetos políticos exige também cobrar coerência de quem afirma defender a democracia, a justiça social e o equilíbrio ambiental. Esses compromissos precisam orientar as decisões de governo, inclusive quando contrariam interesses econômicos e alianças políticas. Minhas referências, nesse contexto complexo e emaranhado, permanecem sendo a defesa da dignidade humana, o cumprimento da nossa legislação, a construção de perspectivas mais sustentáveis e a busca de caminhos mais democráticos e participativos.

“A dignidade dos povos e os limites da natureza não podem ser tratados como moeda de troca”

Entendo que governar é uma arte e um ofício que Lula aprendeu a dominar e que exige capacidade de diálogo, negociação e responsabilidade. Todavia, a dignidade dos povos e os limites da natureza não podem ser tratados como moeda de troca. É também por esses critérios que teremos que cobrar coerência de seu governo. O exercício de governar não pode ser reduzido à politicagem, às notícias falsas ou ao uso político de questões tão sérias quanto a religião e a espiritualidade, como tenho observado, de modo extremamente imaturo e irresponsável, no campo bolsonarista.

Neste momento tão importante de nossas vidas, não podemos ficar em cima do muro, nem agir com egoísmo. Cada um de nós tem uma responsabilidade como cidadão do Brasil e do mundo: contribuir para que nosso país possa ser grande, mas humilde; para que sua população, diversa e heterogênea, seja respeitada; e para que o meio ambiente seja preservado por meio de um desenvolvimento coerente, que respeite os limites da própria natureza.

A decisão de cada um definirá não apenas o resultado desta eleição, mas os rumos do país e as condições de vida das próximas gerações, de nossos filhos e netos. Nossa responsabilidade não termina nas urnas: ela continua na organização da sociedade, na defesa dos direitos e na cobrança permanente de quem governa. Pensem com responsabilidade.

 

Fonte: Por Roberto Rafael Dias da Silva, em Outras Palavras/Cimi

 

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