Assim
as cidades capitulam ao financismo
Lógica
empresarial penetra no planejamento urbano e consultorias privadas já dão as
cartas em gestões municipais. Como a comercialização da técnica virou outra
face da privatização e deteriora a esfera pública? Quais os caminhos para
desenhar cidades mais justas e democráticas?...
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A consolidação do empresariamento urbano
Há
décadas o debate público tem se debruçado sobre a insuficiência do orçamento
público e, consequentemente, sobre o estrangulamento de qualquer projeto de
país que ouse transformar e reduzir as desigualdades abissais de uma economia
periférica. Mas também é verdade que essa mesma constatação tem sido
acompanhada, quase sempre, de uma única saída: o investimento privado.
Não por
acaso. Desde a crise da dívida dos anos 1980 e, mais precisamente, com a
consolidação do receituário que ficaria conhecido como Consenso de Washington,
a redução do gasto público, a disciplina fiscal, as privatizações e a
liberalização dos mercados passaram a compor uma mesma promessa de
reorganização das economias periféricas. Enquanto se consolidava a ideia de que
o Estado já não teria recursos para conduzir diretamente os investimentos
necessários ao desenvolvimento, cidades e governos locais eram convocados a
disputar os capitais capazes de realizá-los. Era preciso atraí-los. Produzir
condições para sua chegada. Tornar territórios competitivos. O geógrafo David
Harvey havia percebido que alguma coisa importante estava mudando nessa
relação. Em 1989, chamou de passagem “do administrativismo ao empresariamento
urbano” uma transformação que vinha se desenhando desde a crise dos anos 1970.
Não é
difícil perceber por que, anos depois, aquele vocabulário encontraria terreno
fértil no Brasil. Em 2000, Otília Arantes, Carlos Vainer e Ermínia Maricato
reuniram alguns dos textos que se tornariam referência para pensar aquele
momento sob um título particularmente preciso: “A cidade do pensamento único”.
O termo, cunhado por Ignacio Ramonet em 1995, procurava justamente nomear esse
curioso momento em que mercado, competitividade, privatização, liberalização e
“menos Estado” deixavam de aparecer como escolhas políticas entre outras
possíveis para se apresentar como expressão do próprio real.
É nesse
movimento que o economista Carlos Vainer identifica as três figuras que se
tornaram conhecidas: a cidade como mercadoria, como empresa e como pátria.
Mercadoria porque oferecida a investidores e consumidores; empresa porque
submetida à lógica da competitividade e da eficiência empresarial; pátria
porque a competição exigia produzir, internamente, a imagem de um interesse
comum capaz de acomodar os conflitos em torno de um mesmo projeto de cidade.
Passados
mais de vinte e cinco anos, aquela racionalidade alcançou dimensões cada vez
mais ordinárias da reprodução da cidade. Saneamento, habitação, parques,
equipamentos, serviços e infraestruturas passam, por mecanismos distintos, a
depender da mobilização do capital privado. E se a cidade competitiva precisava
criar condições para atraí-lo, a extensão desse movimento exige agora produzir
continuamente as condições para que esses investimentos se realizem.
Depois
de mais de duas décadas, a cidade talvez já não precise ser anunciada como
mercadoria. A forma penetra a própria maneira como suas necessidades são
formuladas e respondidas. A propriedade pode permanecer pública, o contrato
pode se chamar pelo nome de concessão ou parceria; e o próprio Estado pode
conduzir a operação. O que interessa de fato é a lógica que passa a responder aquilo que é produzido.
Como Marx alertou, a mercadoria apaga as relações sociais que lhe dão forma e
avança pelas vias menos visíveis.
Recuperar
o interesse público exige, portanto, ir além da definição de quem deve ser o
proprietário ou o gestor de determinado serviço, terra ou infraestrutura. Exige
retirar a forma-mercadoria do lugar de medida das possibilidades da cidade.
Água precisa chegar porque é necessária. Moradia precisa existir porque é
necessária. Infraestrutura, saúde, parques e transporte respondem a
necessidades coletivas antes de constituírem oportunidades de investimento. Se
o pensamento único interditava a possibilidade de imaginar outros caminhos, o
desafio, depois dele, é voltar a imaginá-los.
A
partir disso, este texto busca levantar um debate sobre a expansão da
forma-mercadoria sobre as mais diversas dimensões da produção e da reprodução
urbana. Trata-se de compreender como as mudanças no capitalismo alteraram as
formas pelas quais o chamado “urbano” é compreendido, produzido, governado e
disputado na luta de classes e, no sentido inverso, como a própria produção do
espaço participou dessas transformações. E, diante dos limites próprios a esse
tipo de texto, recortamos uma pequena fração das transformações acumuladas no
tempo e no espaço, organizada em quatro tempos. Tomados como marcos analíticos
que se sobrepõem, acompanhando desde a constituição das bases de uma orientação
administrativa e provedora, passando por sua centralização autoritária e por
sua crise, até a ascensão e a posterior consolidação do empresariamento
urbano.
E, para
nortear a hipótese da consolidação do empresariado, tomamos como estudo de caso
a presença cada vez mais comum de consultorias privadas no planejamento urbano.
Mais do que auxiliares contratadas para executar tarefas determinadas pelo
poder público, essas empresas privadas passam a participar da gestão pública,
formulação dos problemas, definição das soluções e construção dos critérios que
estabelecem aquilo que pode ou merece ser realizado. Interessa, assim,
compreender o que sua profusão revela sobre as transformações do planejamento,
da capacidade estatal e das relações entre técnica, política e acumulação.
Do
gerenciamento ao empresariamento: quatro tempos da urbanização brasileira
Já na
década de 1970, o “urbano” ocupava um lugar crescente no debate; as
contradições do processo de acumulação adquiriam expressão cada vez mais
visível no espaço, tornando incontornável a compreensão do que acontecia com o
ambiente construído. O Brasil se tornava predominantemente urbano como
resultado das determinações materiais da acumulação capitalista, mediadas pela
ação do Estado, pela industrialização, pela propriedade da terra, pelos
deslocamentos do trabalho e pelas lutas sociais. Tratava-se, portanto, de um
processo muito distante da espontaneidade ou da descrição da produção do espaço
brasileiro como simplesmente caótica e dispersa.
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A urbanização na formação do Estado desenvolvimentista
A crise
de 1929 atingiu diretamente as bases da economia agroexportadora brasileira e
abriu uma reorganização das condições internas da acumulação que ganharia forma
política a partir de 1930, quando a centralização do Estado, a regulamentação
das relações de trabalho e o avanço da industrialização passaram a compor um
mesmo movimento de transformação. A produção industrial, que já existia nas
décadas anteriores, adquiriu outra escala e passou progressivamente a conduzir
a dinâmica econômica nacional, ampliando o mercado interno e concentrando nas
cidades a força de trabalho, as infraestruturas e os meios necessários à
produção. O urbano ganhava, assim, uma nova determinação. Ainda que o Brasil
permanecesse majoritariamente rural, a urbanização já se constituía como
condição material da industrialização, tanto pela concentração dos
trabalhadores quanto pela necessidade de produzir sistemas de transporte,
energia, habitação e saneamento capazes de sustentar a expansão econômica e
administrar suas contradições.
Essa
transformação adquiriu maior intensidade depois da Segunda Guerra Mundial, em
um momento no qual o capitalismo dos países centrais se reorganizava sob o
regime fordista-keynesiano, sustentado pela produção em massa, pela ampliação
do consumo, pela incorporação de parcelas dos trabalhadores aos ganhos de
produtividade e pela provisão estatal das condições coletivas de reprodução
social. É nesse quadro histórico que Harvey situa o gerenciamento urbano, como
uma orientação segundo a qual os governos urbanos se ocupavam prioritariamente
da administração e da oferta de serviços, equipamentos e benefícios à
população, amparados pela atuação econômica e social dos Estados nacionais. No
Brasil, a industrialização avançou sob condições distintas, assentada em baixos
salários, forte concentração de renda e proteção social vinculada
principalmente ao trabalho formal, enquanto o Estado assumia a produção das
infraestruturas indispensáveis ao desenvolvimento.
O
sociólogo Francisco de Oliveira (2003) demonstrou que essa combinação entre
modernização econômica e precariedade social integrava o próprio movimento da
acumulação. Ao transferir para os trabalhadores parte expressiva dos custos da
moradia e da reprodução cotidiana, a expansão periférica contribuía para
sustentar os baixos salários sobre os quais se apoiava a industrialização.
Entre 1930 e 1964, constituíram-se, portanto, as condições materiais e
institucionais de uma gestão estatal da urbanização, ainda seletiva e
fragmentada; o golpe de 1964 reorganizaria essas condições em bases
autoritárias, centralizando e ampliando os instrumentos de intervenção sobre o
urbano sem interromper o desenvolvimento industrial, mas aprofundando seu
caráter dependente e concentrador.
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Início dos anos 80: a consolidação autoritária do gerenciamento urbano
Foi sob
esse padrão de acumulação que a intervenção estatal sobre a urbanização ganhou
escala nacional e uma organização institucional até então inexistente. O Banco
Nacional da Habitação e o Sistema Financeiro da Habitação estruturaram um
sistema permanente de financiamento, alimentado principalmente pelos recursos
do FGTS e da poupança; as Cohabs assumiram a produção habitacional nos estados
e municípios; o Serfhau difundiu planos e instrumentos técnicos de
planejamento; e o Planasa vinculou o financiamento federal 8 dos sistemas de
saneamento à expansão das companhias estaduais.
O
gerenciamento urbano consolidado durante a ditadura carregava, portanto, a
mesma contradição que atravessava o desenvolvimento econômico: enquanto o
Estado ampliava sua capacidade de planejamento e investimento, a política
salarial e os critérios de financiamento restringiam o acesso de grande parte
dos trabalhadores aos bens e serviços produzidos. O sistema habitacional
contribuiu para estruturar a indústria da construção e o mercado imobiliário,
favorecendo sobretudo os segmentos formalizados e de renda média, ao passo que
a população de menores rendimentos, sobretudo a população negra, continuava a
resolver sua moradia pela autoconstrução, pelos loteamentos periféricos e pelas
ocupações.
A
expansão da ação pública e a produção da precariedade compunham, assim, um
mesmo processo de urbanização, no qual os investimentos estatais sustentavam a
industrialização, valorizavam determinadas parcelas do território e organizavam
mercados, enquanto parte considerável dos custos da reprodução permanecia sob
responsabilidade dos trabalhadores. Quando o aumento internacional dos juros, o
endividamento externo e a desaceleração econômica atingiram as bases desse
sistema, a crise do financiamento urbano apareceu como parte da crise mais
ampla do padrão de acumulação, abrindo o período em que o gerenciamento seria
progressivamente desestruturado e o empresariamento urbano ganharia
centralidade.
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Anos 80 e 90: a crise do gerenciamento e a passagem ao empresariamento
A crise
do aparato centralizado de gerenciamento urbano coincidiu, assim, com a
construção de uma agenda democrática de direitos, produzindo uma contradição
que atravessaria as décadas seguintes: os governos locais recebiam novas
responsabilidades justamente quando as bases financeiras da provisão pública
estavam sendo restringidas
Embora
o Consenso de Washington não apresentasse uma política urbana propriamente
dita, seus fundamentos reorganizaram as condições sob as quais as cidades
passaram a ser administradas. Os municípios receberam novas atribuições com a
descentralização constitucional, ao mesmo tempo que o ajuste fiscal restringia
a capacidade de investimento público e apresentava a atração de capitais
privados como saída para o financiamento do desenvolvimento urbano. Foi nesse
terreno que o planejamento estratégico, as parcerias público-privadas, os
grandes projetos e a produção de imagens competitivas das cidades passaram a
ocupar o centro das agendas municipais.
O
urbano, encerrado nos limites da cidade, ganhava a aparência de uma coisa capaz
de planejar, competir e escolher seu futuro. Sob essa imagem desapareciam as
relações entre propriedade, trabalho, Estado e acumulação, enquanto conflitos
sociais passavam a ser apresentados como problemas de gestão, fiscalização ou
capacidade técnica. Era assim que se fazia a cama, não pelas conquistas em si,
mas pela forma histórica assumida por sua realização. O mercado já não
precisava derrotar o planejamento. Poderia operar através dele.
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De 1990 a hoje: a concretização do empresariamento urbano na gestão
terceirizada
Ao
examinar as especificidades do capitalismo contemporâneo, a economista Leda
Paulani (2016) destaca que, no modelo industrial clássico, o saber não gerava
valor diretamente, encontrando-se inserido nas forças produtivas e objetivado
no capital fixo (máquinas) e na qualificação da força de trabalho. Assim, para
a autora, uma das principais novidades da acumulação contemporânea seria o
surgimento de mercadorias feitas unicamente de conhecimento, externas ao
processo produtivo e desvinculadas da produção direta de valor. É nesse
contexto que a atuação dos ditos especialistas (experts) e da indústria da
consultoria assume um papel fundamental na concretização e difusão da
mercantilização do conhecimento. A partir da década de 1980, e sobretudo nos
anos 1990, à medida que governos passaram a adotar agendas de enxugamento da
máquina pública, privatização de empresas estatais e abertura de mercados antes
reservados ao setor público, abriu-se um espaço econômico inteiramente novo
para empresas que vendiam não apenas conhecimento técnico, mas sobretudo
legitimidade.
A
consolidação das consultorias na gestão pública tem se desdobrado em uma
marcante contradição, impulsionada cada vez mais pelas políticas de austeridade
fiscal. À medida que cortes orçamentários e os limites do gasto público com
serviços essenciais passaram a pressionar as gestões públicas, principalmente
as municipais, resultando em um estrangulamento da capacidade administrativa
autônoma, a contratação de consultorias converteu-se em um mecanismo paliativo
e rotineiro. Dessa forma, o escopo de atuação dessas firmas expandiu-se
continuamente, evoluindo de assessorias pontuais e limitadas a um recurso
permanente para substituição de cargos técnicos estatais, criando uma nova
categoria de quadro técnico, que seria os “gestores terceirizados”.
É fato
que a política urbana é responsabilidade constitucional do município e que este
é um ponto de conquista do movimento da reforma urbana, diante de intensa
centralização e autocracia promovidas principalmente pela ditadura militar.
Entretanto, observa-se que raramente os municípios dispõem de um corpo técnico
especializado, abrindo a porta para uma certa dependência de consultorias
externas, que vendem um conhecimento técnico dito superior e legitimidade.
Dessa forma, as consultorias vêm, silenciosamente, moldando os diagnósticos,
instrumentos e categorias da gestão pública, impactando diretamente o pensar
(ou o deixar de pensar) sobre o território.
Ao
deixar de praticar as ações diretamente, a gestão pública vai perdendo a
memória institucional e as capacidades internas. Principalmente porque o
conhecimento produzido por essas empresas normalmente não é construído nem
mantido internamente. A gestão fica assim “infantilizada” (Mazzucato &
Collington, 2023) e dependente das próprias consultorias para tomar decisões
básicas de curto e longo prazo. Ao mesmo tempo, as consultorias não possuem um
conhecimento local nem garantem a participação social, reduzindo os espaços de
decisões a elites empresariais e a soluções muitas vezes genéricas, consensos
artificiais que mascaram os conflitos de classe presentes na cidade. As
questões estruturais permanecem.
Em
2022, a consultoria Ernst & Young (atual EY) foi a vencedora de um edital
para subsidiar os trabalhos de revisão do Plano Diretor de Porto Alegre,
mediante um contrato de mais de R$ 6.500 milhões, anunciado na reunião
ordinária do Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano Ambiental (CMDUA).
Sob a justificativa municipal de que a complexidade dos temas urbanos exigiria
uma “equipe multidisciplinar” de “renome internacional”, a gestão informou que
a consultoria assumiu a elaboração de diagnósticos, estudos territoriais,
simulações de cenários e a disponibilização de consultores em planejamento
urbano, mobilidade, direito urbanístico e meio ambiente. Esse episódio ilustra
empiricamente o processo de “infantilização” da gestão pública, no qual a
burocracia estatal, desprovida de investimentos pelas políticas de austeridade,
abdica do saber acumulado e do aprendizado prático. Legitimada pelo discurso da
superioridade da “expertise empresarial”, a administração converte problemas
estruturais do planejamento em demandas por 11 pareceres corporativos. Ademais,
evidencia-se como a indústria da consultoria aufere rendas colossais,
constituindo uma autêntica “renda do saber” (Paulani, 2016; Mazzucato &
Collington, 2023), extraindo recursos do fundo público sem que esses custos
correspondam ao valor real entregue ou à assunção dos riscos do projeto. Vale
destacar que a empresa Ernest & Young compõe as quatro maiores empresas de
consultoria e auditoria, conhecidas mundialmente como “Big Four”. Essas empresas
são consideradas líderes no mercado de serviço de auditoria, consultoria e
assessoria empresarial — e têm expandido sua atuação principalmente para países
periféricos com receituários neoliberais. De modo análogo, a expansão das
consultorias e agências externas na gestão urbana manifestou-se também na
cidade de São Paulo. Em 2025, para elaborar os Planos Municipais de Saneamento
Ambiental Integrado (PMSAI) e de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (PGIRS),
a Prefeitura Municipal de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Meio
Ambiente e a Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento, firmou um
acordo de cooperação técnica internacional com a ONU-Habitat. O escopo do
trabalho contou com elaboração de diagnósticos, mapeamentos e estruturação de
dados, criação de diretrizes e mediação técnica nas etapas de participação
popular. Conforme assinala o sociólogo Carlos Vainer (2000), a atuação
articulada entre organismos multilaterais e firmas de consultoria tem sido
historicamente o principal vetor de difusão da lógica do empresariamento no
espaço urbano. Sob a promessa de eficiência técnica, essa terceirização
institucional esvazia o debate político local e desloca a mediação dos
conflitos sociais para arenas gerenciais controladas por especialistas
externos, relegando a cidadania a uma participação meramente consultiva. Esse
quadro é agravado pelo fato de a crise climática ter se tornado a mais recente
e lucrativa fronteira de expansão da indústria da consultoria (Mazzucato &
Collington, 2023). Sob a premissa da urgência ecológica e da mitigação de
riscos ambientais, grandes corporações passam a ofertar a empresas e governos
pacotes técnicos padronizados, diagnósticos de resiliência e métricas de
sustentabilidade sem exigir transformações estruturais reais.
O caso
da contratação da Ernst & Young (EY), em 2016, pela Fundação Renova
(entidade instituída pelas mineradoras responsáveis pelo rompimento da barragem
de rejeitos em Mariana, em Minas Gerais, para gerenciar a reconstrução e as
indenizações), exemplifica empiricamente a instrumentalização das firmas de
consultoria na gestão de crises socioambientais. Contratada para estruturar o
plano de auditoria das ações de recuperação ambiental e socioespacial na Bacia
do Rio Doce, a atuação da EY insere-se na dinâmica de transferência da mediação
dos conflitos ambientais para o setor privado. A posterior extinção da Fundação
Renova, motivada pelo descumprimento sistemático das metas reparatórias e pelo
descrédito institucional perante os atingidos e o Judiciário, evidencia os
limites desse modelo. Revela-se como a intervenção de consultorias atua, em
muitos casos, como um “selo de aprovação” que confere aparente legitimidade
técnica. Do ponto de vista teórico, esse episódio ratifica a tese de Mazzucato
e Collington (2023), segundo a qual os conflitos de interesses não constituem
falhas acidentais ou anomalias pontuais, mas representam uma característica
estrutural e recorrente do modelo de negócios da indústria da consultoria, ao
servir a interesses públicos e privados simultaneamente. Ademais, consolida-se
uma distribuição assimétrica dos riscos: enquanto as consultorias auferem
rendas expressivas e mantêm a responsabilidade limitada, a sociedade e as
comunidades atingidas arcam integralmente com os custos sociais, econômicos e
ambientais do fracasso das medidas adotadas.
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Como reverter a despolitização do planejamento?
A
cidade já não é apenas a base do processo de acumulação, mas parte do próprio
modelo. A concretização do empresariamento, com o avanço do capital sobre a
gestão pública por meio da indústria da consultoria, é uma realidade que já não
se pode negar. Mesmo diante da crise climática, que se materializa nas grandes
metrópoles e cidades brasileiras, o capital mostra-se capaz de se reinventar e
de encontrar novas frentes de atuação. Talvez a prova mais eloquente dessa
concretização seja o fato de governos de orientações distintas adotarem a mesma
solução.
Contudo,
o aprofundamento constante da lógica de mercado traz consigo o esvaziamento das
capacidades técnicas do setor público. Esse cenário promove a despolitização do
planejamento territorial, afastando a sociedade do debate democrático sobre o
futuro da cidade. Isso recoloca, por fim, o desafio apontado na introdução: a
cidade já não precisa ser anunciada como mercadoria, pois a forma-mercadoria
penetrou todas as esferas de sua produção, do planejamento à gestão, apagando
as relações sociais que lhe dão forma.
Em uma
visão de conjunto, a concretização do empresariamento urbano reforça o
argumento de Paulani (2016) de que vivemos sob o domínio do rentismo. A
produção da cidade participa, ela própria, do processo de acumulação,
tornando-se uma verdadeira mina de extração de renda, da renda da terra à renda
do saber.
Fonte:
Por Carina Serra e Isabella Walter, em Outras Palavras

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