Por
que Kassio Nunes Marques virou alvo de críticas por suas decisões à frente do
TSE
O
presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes
Marques, se tornou alvo de questionamentos sobre sua atuação na
condução das eleições de 2026 após tomar decisões controversas que impactaram a
campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT).
Na
visão de críticos, ele estaria atuando para beneficiar a campanha do senador Flávio
Bolsonaro (PL).
Nunes
Marques se tornou ministro do Superior Tribunal Federal (STF) em 2022, por
indicação do ex-presidente Jair Bolsonaro. No momento, ele acumula a função com
a presidência do TSE, que é sempre ocupada por integrantes do Supremo, em um
rodízio.
A
última polêmica envolveu duas decisões do ministro para suspender o canal de
WhatsApp "Exército de Lula", administrado pelo deputado
federal André Janones (Rede-MG). Nunes Marques protagonizou uma guerra de
decisões sobre o canal com o corregedor do TSE, Ricardo Villas-Boas Cueva,
ministro que integra o Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Na
segunda decisão do presidente do TSE, o canal ficou fora do ar por cerca de 24
horas na quarta-feira (14/10), dia em que o campo lulista estava mobilizado em
torno da votação para aprovar o fim da escala 6x1 no Senado.
Essa
suspensão aconteceu mesmo após uma investigação preliminar conduzida pela
Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação (AEED) do TSE apontar que não foram
encontradas publicações com supostas notícias falsas denunciadas
pela campanha de Flávio Bolsonaro entre o conteúdo divulgado pelo canal de
Janones.
Em sua
decisão, o ministro argumentou que o canal não estava registrado como meio
oficial de campanha de Lula, justificativa contestada por especialistas em
direito eleitoral ouvidos pela BBC News Brasil.
Segundo
os entrevistados, apoiadores dos candidatos podem criar meios digitais de
divulgação das candidaturas, sem que isso exija o cadastro como veículo oficial
de campanha.
O canal
"Tropa do Flávio", em apoio ao candidato do PL, também não estava
registrado no TSE, mas não sofreu punição da Justiça Eleitoral. Após a decisão
de Nunes contra o "Exército do Lula", a campanha de Flávio Bolsonaro
decidiu registrar o canal oficialmente.
Segundo
o jornal Folha de S.Paulo, o canal Tropa do Flávio divulgou uma foto falsa de
uma mulher cheirando cocaína como se fosse uma manifestante em ato a favor de
Lula em São Paulo — a imagem foi
considerada fake news em decisão de outro ministro do TSE, Marco Aurélio
Bellizze. No entanto, isso também não provocou punições ao canal.
A BBC
News Brasil consultou especialistas em direito eleitoral para analisar as
decisões de Kassio Nunes Marques — e explicar se há fundamento nas críticas ao
ministro e na comparação feita entre a atuação dele e a de Alexandre de Moraes,
ministro do Supremo que estava à frente do TSE nas eleições presidenciais de
2022.
"Tenho
muitas ressalvas para levar adiante teorias da conspiração ou perspectivas que,
de alguma forma, busquem incutir o medo institucional na sociedade, mas, diante
deste episódio, não é possível não se questionar se os argumentos utilizados
não estão sendo instrumentalizados para derrubar o canal de apoiadores do
candidato que é oposto ao movimento político responsável pela indicação do
Kassio Nunes", afirma a advogada eleitoral Ingrid Dantas, pesquisadora do
Centro de Estudos Constitucionais Comparados da Universidade de Brasília (UnB).
Devido
às decisões do canal de Janones, a Associação Brasileira de Juristas pela
Democracia (ABJD) protocolou no TSE um pedido de suspeição de Marques por
parcialidade nesta quinta-feira (15/10).
"Para
a ABJD, a sequência de decisões do Ministro apresenta indícios de medidas
abusivas e incompatíveis com os parâmetros legais, com potencial de favorecer
uma candidatura em detrimento de outra", disse a associação em nota.
A
entidade aponta ainda "uma aparente disparidade de tratamento" em
relação aos canais de apoio a Flávio e a Lula.
"A
eventual ausência de fiscalização do TSE sobre esse canal deverá ser
esclarecida e confrontada com os critérios aplicados ao canal de André Janones,
a fim de verificar se houve tratamento isonômico entre as iniciativas".
Outras
decisões de Nunes Marques são citadas pelo campo petista para questionar a
imparcialidade do presidente do TSE.
Uma
delas foi tomada em junho, quando Nunes Marques suspendeu uma pesquisa do
instituto Atlas Intel que, ao final do questionário, reproduzia um áudio de
Flávio Bolsonaro para o banqueiro Daniel Vorcaro.
No
áudio, Flávio cobrava o repasse de dinheiro para supostamente financiar o filme
Dark Horse, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. O objetivo do
instituto era medir a opinião do eleitor sobre a relação
entre Flávio e Vorcaro.
A
conexão entre os dois para financiamento foi revelada em 13 de maio pelo portal
The Intercept Brasil. O acordo, dizia a reportagem, previa o repasse de US$ 24
milhões (na época equivalentes a cerca de R$ 134 milhões), dos quais cerca de
metade foi pago.
A BBC
News Brasil entrou em contato com o TSE perguntando a posição do ministro Nunes
Marques sobre as críticas, mas ainda não obteve resposta.
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A controversa estratégia usada para direcionar pedidos a Nunes Marques e Dino
As
decisões controversas de Nunes Marques que atingiram o canal de Janones foram
tomadas com base em uma resolução sobre propaganda eleitoral do TSE de 2019,
que vem sofrendo atualizações nos últimos anos, e uma portaria de julho do
próprio ministro que ampliou os poderes da presidência do TSE na fiscalização
das plataformas digitais durante as eleições de 2026.
Com
base nessas normas administrativas, a campanha de Flávio Bolsonaro recorreu
diretamente ao presidente do TSE contra o canal de Janones, após outro ministro
da Corte já ter rejeitado um pedido imediato de remoção do canal.
A
batalha judicial tem origem em uma ação de investigação judicial eleitoral
(AIJE) ajuizada pela campanha de Flávio em 7 de outubro, uma quarta-feira. A
candidatura argumentou que o canal disseminava informações falsas.
No
sábado (10/10), o relator dessa ação, ministro Ricardo Cueva, deu 72 horas para
que a equipe de Flávio desse maiores esclarecimentos sobre as medidas
solicitadas e apresentasse provas das acusações de que o material compartilhado
no canal era falso. Ele também decidiu que analisaria possíveis medidas contra
o canal passado esse período.
Na
manhã de domingo, contudo, uma decisão de Nunes Marques acatou o pedido da
campanha de Flávio, dando três horas para que a Meta suspendesse o canal e o
mantivesse desativado até a homologação do resultado das eleições de 2026,
entre outras deliberações.
Horas
depois, uma nova manifestação de Cueva determinou o restabelecimento provisório
do canal, criticando Nunes por dar uma decisão administrativa quando já havia
uma ação sobre o caso na Corte.
O
ministro afirmou também que a decisão de suspender o canal se trataria "de
restrição direta ao funcionamento de um meio de comunicação eleitoral, com
efeitos imediatos sobre o exercício da liberdade de expressão".
Além
disso, Cueva pediu que o caso fosse submetido ao plenário do TSE, para uma
decisão colegiada. Nunes Marques, porém, não pautou o caso para julgamento e
deu nova decisão individual, suspendendo o canal por 48 horas na terça-feira
(13/10). O "Exército do Lula", porém, acabou sendo liberado após 24
horas.
A
campanha petista fez o registro do canal, mas enfatizou que estava apenas
obedecendo a determinação de Marques e que não o reconhece o canal como veículo
oficial da candidatura lulista. A defesa de Lula também reforçou o pedido para
que o caso seja submetido ao plenário do TSE, mas Marques ainda não pautou o
julgamento.
Os três
especialistas em direito eleitoral ouvidos pela reportagem consideram a decisão
de Marques inadequada.
Para o
advogado eleitoral Horacio Neiva, doutor pela Universidade de São Paulo, o
caminho usado pela campanha de Flávio para questionar o canal de Janones por
meio de um procedimento administrativo é incomum.
Segundo
ele, o meio natural, além da ação de investigação relatada por Cueva, seria uma
outra ação sobre propaganda eleitoral, que teria que ser sorteada entre os
ministros da Corte, em vez de ser direcionada ao presidente do TSE.
A
leitura é a mesma do advogado Raimundo Augusto Fernandes Neto, presidente da
Comissão de Direito Eleitoral da Ordem dos Advogados do Brasil do Ceará.
Segundo
ele, a atuação administrativa do presidente do TSE tem objetivo de analisar a
conformidade das plataformas às normas eleitorais, ou seja, verificar se as big
techs estão obedecendo as decisões da Corte, e não derrubar canais.
Na sua
leitura, a campanha de Flávio usou esse caminho para direcionar o caso a Nunes
Marques indevidamente.
"Com
certeza, porque o pedido foi feito 41 minutos depois da negativa do
Cuevas", ressalta.
Para
Fernandes Neto, o caso se assemelha à decisão de Flavio Dino, no STF, que
derrubou uma decisão do ministro André Mendonça no TSE, proibindo amplamente
conteúdos que relacionavam
Flávio Bolsonaro a Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil.
Depois, a decisão de Mendonça foi revogada pelo
plenário da Corte Eleitoral.
O
advogado considera que a decisão de Mendonça era errada, mas diz que a decisão
de Dino não era o procedimento correto para derrubá-la. Naquele caso, o
humorista Antonio Tabet recorreu da decisão de Mendonça, direcionando seu
pedido a Dino por meio de uma ação sobre liberdade de expressão que já
tramitava no seu gabinete.
Juristas
têm apontado problemas nesses procedimentos, pois driblam o livre sorteio de
ações entre os ministros, regra que evita que as partes escolham o juiz que vai
julgar suas causas. Diante da recorrência disso, no início de outubro, o
presidente do STF, Edson Fachin, editou uma norma reforçando as regras de
sorteio na Corte.
"Essa
é uma preocupação de todos nós do direito: a utilização desses processos
paralelos para atingir uma finalidade diversa do processo original. Então, não
posso dizer que ele [Kassio Nunes] está apoiando um candidato ou outro, mas,
nesse caso específico, há esse modus operandi de utilização de processos
avulsos e não vinculados, revogando decisões de juízes naturais",
criticou.
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Faz sentido comparar atuação de Kassio e Moraes?
Se hoje
Marques enfrenta questionamentos do lado petista, há quatro anos era o lado
bolsonarista que se queixava da presidência do TSE, na época ocupada por Alexandre de
Moraes. Na visão desse campo, o ministro perseguia o então
presidente Jair Bolsonaro e seus aliados, atuando para favorecer a eleição de
Lula em 2022.
A BBC
News Brasil também questionou os especialistas em direito eleitoral sobre a
atuação dos dois ministros à frente do TSE.
Na
visão dos entrevistados, embora ambos sofram questionamentos sobre o formato e
o teor de decisões individuais que adotaram ao comandar a realização das
eleições nacionais, a motivação das decisões é diferente.
No caso
de Moraes, ressaltam, as decisões alvo de controvérsia em 2022 não eram
direcionadas objetivamente à campanha de Lula ou de Jair Bolsonaro, mas focavam
em coibir ataques à Justiça Eleitoral e ao sistema eletrônico de votação, alvo
de ataques de Jair Bolsonaro e de parte de seus apoiadores.
"Eu
não concordo com a visão de que, em 2022, o Alexandre de Moraes estava pró-Lula
e contra o Bolsonaro. O resultado desse combate à desinformação foi esse, mas
eu acho que o fator decisivo era muito mais aquela preocupação que a Justiça
Eleitoral tinha com qualquer conteúdo que pudesse colocar em discussão o
funcionamento do processo eleitoral brasileiro", avalia o advogado Horacio
Neiva.
Ingrid
Dantas lembra que, durante a gestão de Alexandre de Moraes, o TSE adotou uma
resolução que dava ao presidente da Corte amplos poderes para combater a
desinformação. A resolução foi adotada em 20 de outubro de 2022, a dez dias do
segundo turno das eleições.
Com
base nessa resolução, Moraes determinou a remoção imediata de 153 postagens que
disseminavam fake news sobre as urnas e o processo eletrônico de votação de
diversas plataformas digitais (Facebook, Instagram, Kwai, Telegram, TikTok,
Twitter e YouTube).
Em
outra decisão, Moraes mandou excluir conteúdos que já haviam sido considerados
falsos pelo plenário do TSE contra os dois candidatos presidenciais — as
mensagens coibidas relacionavam Jair Bolsonaro ao canibalismo e Lula ao
narcotráfico.
A
resolução previa ainda multa de R$ 100 mil por hora a plataformas, em caso de
descumprimento das decisões.
Na
época, o então procurador-geral da República, Augusto Aras, tentou derrubar a
resolução no STF, sem sucesso. Na ação, ele argumentou que as regras
questionadas estabeleciam vedação e sanções não previstas em lei e ampliavam o
poder de polícia do presidente do TSE, em prejuízo da colegialidade.
Para
Ingrid Dantas, a atuação de Moraes ocorreu em um momento excepcional de
preocupação com ataques ao sistema democrático, em que se buscava "coibir
uma prática muito nefasta de disseminação em massa de desinformação".
Ainda assim, ela diz que isso não o isenta de questionamentos sobre os métodos
usados e possíveis abusos.
"Quando
a gente cria, ainda que por razões pautadas em interesses democráticos, meios
que não estão previstos dentro da legalidade ou que vão além daquilo que se
espera de uma instituição, esses mesmos poderes ampliados podem ser utilizados
para finalidades diferentes depois", afirma a advogada.
"Por
que se o Alexandre de Moraes, que é muito associado a um lado da polarização,
podia [em 2022], por que agora o Kassio Nunes não pode? E a gente tem uma
dificuldade, inclusive, argumentativa de explicar para a população que não é
sobre uma escolha de quem pode ou quem não pode, mas sobre uma conduta que não
poderia, independentemente de quem seja a pessoa por trás", ressalta.
Na sua
leitura, Nunes Marques não é o único indicado por Bolsonaro que estaria atuando
para impactar o rumo das eleições. Para Dantas, André Mendonça também fez isso
quando "divulgou de forma seletiva" parte da investigação sobre o
Banco Master.
O
ministro encaminhou para análise do plenário do STF supostas conversas
comprometedoras entre Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, mas não tomou o
mesmo procedimento sobre menções a Nunes Marques.
Conteúdos
depois vazados à imprensa indicam que o ministro teria participado de festas
promovidas por Vorcaro e que o banqueiro teria bancado encontros com garotas de
programa para o presidente do TSE.
Moraes
e Marques negam qualquer ilegalidade envolvendo Vorcaro e o Banco Master.
"Kássio
e Mendonça são dois ministros ligados ao bolsonarismo que, por meio de suas
decisões e exercícios excepcionais de poderes individuais, vêm afetando o
regular transcurso das eleições", critica Dantas.
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Moraes no TSE x Moraes no STF
Apesar
de também considerar a decisão de Nunes Marques sobre o canal de Janones
atípica, Horácio Neiva considera que a via administrativa acionada pela
campanha do PL é uma possibilidade criada pela resolução do TSE.
Na sua
visão, o modo de atuação de Alexandre Moraes é ainda mais questionável porque o
ministro, com frequência, atuava de ofício, tanto no STF como no TSE, ou seja,
sem ser acionado por algum lado ou pelo Ministério Público.
Um dos
procedimentos mais polêmicos adotados por Moraes quando presidia a Justiça
Eleitoral foi uma espécie de dobradinha entre seus gabinetes de presidente do
TSE e de ministro do STF.
Segundo
reportagem de 2024 do jornal Folha de S.Paulo, seu gabinete no STF ordenou, por
mensagens e de forma não oficial, a produção de relatórios pela Justiça
Eleitoral para embasar decisões do próprio ministro contra bolsonaristas no inquérito das
Fake News durante e após as eleições de 2022.
De
acordo com o jornal, a Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação do
TSE, órgão criado quando Edson Fachin presidiu a Justiça Eleitoral, foi
acionada para produzir relatórios depois usados para embasar decisões de Moraes
no STF.
"Tinha
uma inovação evidente [com Moraes], muita atuação mais proativa e de ofício,
muita atuação junto às plataformas para fazer valer aquela posição que o
presidente tinha na época em relação à derrubada de conteúdos que eram
falsos", lembra Neiva.
Para
Fernandes Neto, ambos os ministros assumem uma postura "ativista",
mas ainda está cedo para uma comparação entre as atuações de ambos no TSE.
"É
difícil comparar fatos distintos. E, como a atuação do ministro Kassio Nunes é
muito recente e a do ministro Moraes foi mais duradoura durante o processo
eleitoral de 2022, é difícil fazer a comparação. Mas eu posso dizer que ambos
tiveram posições ativistas, além dos procedimentos [habituais]".
Quando
a Moraes, ele ressalta que o ministro ocupou duas funções de muito
"influxo político", conciliando a presidência do TSE e a relatoria do
inquérito das Fake News no STF. Na sua visão, é necessário distinguir as duas
coisas.
"Como
presidente do Tribunal Superior Eleitoral, quando presidia as eleições de 2022,
ele fez o papel que tinha que fazer, de defesa do processo democrático, da
integridade das urnas eletrônicas. Foi importantíssimo pra garantia do próprio
Estado Democrático de Direito".
"As
decisões dele no inquérito das Fake News são outras questões. Eu considero
aquele inquérito aberto sem tempo de extinguir indevido".
No
início de setembro, em meio à crise do STF devido ao escândalo do Banco Master,
Fachin retirou de Moraes a relatoria do inquérito das Fake News, preservando os
atos praticados até então.
Fonte: BBC
News Brasil

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