Por
que WhatsApp virou arma poderosa na campanha eleitoral
Você
abre o WhatsApp para responder uma mensagem da família e encontra um vídeo
sobre um candidato. No grupo do condomínio, alguém compartilha uma suposta
pesquisa eleitoral. Já no grupo de amigos aparece um meme político acompanhado
da frase "olha isso". Você encaminha para outra pessoa porque achou
engraçado, curioso, concordou com a mensagem ou simplesmente pensou que ela
poderia interessar a alguém.
Sem
perceber, você acabou fazendo parte da campanha eleitoral.
Nas
últimas eleições, a disputa por votos deixou de estar concentrada na televisão,
no rádio, nas ruas e nos perfis oficiais dos candidatos. Ela também passou a
acontecer em espaços aparentemente privados e cotidianos, como no WhatsApp em
grupos de família, amigos, colegas de trabalho, igreja, condomínio e faculdade.
Nesses ambientes, eleitores comuns podem assumir, ainda que informalmente, o
papel de distribuidores de conteúdo político.
A
diferença é que, quando uma mensagem chega de alguém conhecido, ela não chega
apenas como informação, ela vem acompanhada de uma relação de confiança, e é
justamente aí que está uma das forças da comunicação política pelo WhatsApp.
"Quando
o comercial ou a propaganda oficial do candidato aparece, o eleitor liga na
hora o alerta de desconfiança porque sabe que existe um interesse eleitoral
ali. Mas quando essa mesma mensagem chega por um amigo, um parente ou um
vizinho, o processo de avaliação muda totalmente. O eleitor não analisa apenas
o texto ou o vídeo, ele leva em conta a confiança que já tem na pessoa que
enviou", explica o especialista em ciências políticas e comunicação
digital João Paulo Borges.
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A política entrou na conversa
Essa
lógica ajuda a explicar por que o WhatsApp é diferente das redes sociais
abertas.
No
Instagram ou no TikTok, por exemplo, o usuário normalmente sabe que está
consumindo conteúdo publicado por um perfil, influenciador, candidato ou
veículo de comunicação. No WhatsApp, a política aparece misturada à rotina.
O
fenômeno também não depende necessariamente de ser intencional ou organizado.
Uma pessoa pode encaminhar uma informação porque acredita sinceramente que ela
é verdadeira, ou que está ajudando familiares e amigos a "entender o que
está acontecendo", ou porque ela confirma algo que já pensava.
Neste
caso, quando uma mensagem confirma uma opinião prévia, a tendência de
compartilhá-la tende a aumentar. E quanto mais um grupo passa a receber
conteúdos semelhantes, mais difícil pode ser perceber que existe uma seleção da
realidade acontecendo.
O grupo
começa a funcionar como uma bolha, onde as pessoas passam a consumir, receber e
interagir apenas com conteúdos que confirmam suas opiniões, gostos e crenças.
No contexto político, isso pode intensificar a polarização, fortalecer a
percepção de que todos pensam da mesma forma e dificultar o diálogo entre
pessoas com opiniões diferentes.
"Os
grupos de WhatsApp são um dos ambientes digitais em que isso acontece, e talvez
de forma mais radical porque é fechado, mas é parte do que chamamos da
microssegmentação das redes. As bolhas e microbolhas são uma das
características principais dessa forma de comunicação", diz a cientista
política Daniela Costanzo, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento
(Cebrap).
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A confiança pode ser um problema
A
relação pessoal que torna o WhatsApp tão eficiente para a circulação de
informações também pode dificultar a identificação de conteúdos falsos.
Se uma
pessoa desconhecida publica uma informação duvidosa, é mais fácil desconfiar –
isso não acontece quando quem envia é alguém em quem você confia há anos.
Pesquisas
sobre grupos políticos no WhatsApp durante as eleições de 2022 identificaram
uma intensa circulação de notícias, links e conteúdos eleitorais. Um
monitoramento realizado pelo NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
analisou 115,9 mil mensagens publicadas em grupos públicos do WhatsApp durante
o primeiro turno daquele ano, além de 180,3 mil mensagens em grupos e canais
públicos do Telegram.
"Nessa
pesquisa, 42% dos eleitores viram grupos grandes de amigos se dividirem em
subgrupos menores só para poderem falar de política com quem pensa exatamente
da mesma forma. Além disso, metade dos usuários notou o surgimento de regras
implícitas ou explícitas de convivência que desencorajam debates acalorados
para conter atritos familiares ou profissionais. Quando alguém tenta trazer uma
perspectiva diferente para esses espaços, o custo social do conflito é muito
alto. A pessoa prefere silenciar ou sair do grupo para não estragar a relação
pessoal com conhecidos", explica Borges.
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A desinformação mudou de forma
O
problema das fake news que circulam nos grupos de conversas também ficou mais
sofisticado. Em vez de uma mentira completamente inventada, pode ser uma frase
verdadeira atribuída à pessoa errada, uma declaração antiga apresentada como
atual ou um vídeo real acompanhado de uma legenda falsa, ou até mesmo uma
pesquisa verdadeira pode ser interpretada e repassada de maneira incorreta. A
distorção pode variar, mas existe uma característica comum: o conteúdo é
produzido para ser compartilhado.
Em
grupos de WhatsApp, mensagens políticas que provocam surpresa, raiva, medo ou
indignação encontram terreno fértil. E isso ajuda a explicar por que
informações falsas podem circular rapidamente mesmo quando parecem absurdas
depois de verificadas.
Durante
as eleições de 2026, conteúdos falsos sobre candidatos, pesquisas, urnas e até
sobre o calendário da votação circularam antes do primeiro turno. Num dos
casos, um áudio dizia que eleitores de candidatos diferentes votariam em dias
distintos. Apesar do óbvio absurdo, o TSE precisou desmentir a informação.
"É
bastante difícil desmentir essas informações porque os veículos oficiais
começam a ser vistos com antipatia porque alguém deles está falando algo que
aquele grupo não quer ouvir. E cada vez vai ficando mais difícil, porque as
pessoas vão se fechando e bloqueando essas informações. E, por isso, não por
coincidência, vemos esse movimento de redução da percepção de credibilidade,
porque isso tem a ver com o olhar sobre o mensageiro. Ele começa a se tornar
desconfortável e passa a ser evitado", acrescenta o especialista em
tecnologia e inovação Arthur Igreja.
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A mudança começou em 2018
Embora
a comunicação política por aplicativos já existisse antes, as eleições
presidenciais de 2018 marcaram uma mudança importante na forma como o WhatsApp
passou a ser usado politicamente no Brasil, segundo especialistas.
Naquele
ano, redes sociais e aplicativos de mensagens tiveram papel relevante na
campanha presidencial. Jair Bolsonaro, que tinha pouco tempo de propaganda
eleitoral na televisão, construiu parte importante de sua comunicação política
no ambiente digital e foi eleito.
Pesquisa
do Instituto DataSenado apontou que quase metade dos entrevistados (45%)
afirmaram ter decidido o voto levando em consideração informações vistas em
alguma rede social. E a principal fonte de informação do brasileiro foi o
aplicativo de troca de mensagens WhatsApp, segundo o levantamento. Das 2,4 mil
pessoas entrevistadas, 79% disseram sempre utilizá-lo para se informar.
"O
Brasil é um país com estruturas de confiança bastante diferenciadas. Em geral
as pessoas não confiam em instituições políticas, em partidos e no Congresso.
Mas os brasileiros são conhecidos em diferentes pesquisas internacionais por
confiar muito nos amigos e na família. Então, quando você circula uma mensagem
política através de um grupo de família ou de amigos, a mensagem tende a ter
mais confiança", acrescenta o cientista político Leonardo Avritzer.
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Onde entra o TSE?
O
crescimento desse tipo de comunicação fez a Justiça Eleitoral ampliar a atenção
sobre os aplicativos de mensagens.
O TSE e
o WhatsApp passaram a manter um diálogo institucional para enfrentar a
desinformação ainda antes das eleições de 2022. Naquele ano, ambos firmaram um
acordo para desenvolver ações contra a disseminação de informações falsas
durante o processo eleitoral.
A
Justiça Eleitoral também criou ferramentas para levar informação diretamente
aos usuários. Durante as eleições de 2022, por exemplo, o TSE disponibilizou no
WhatsApp um assistente capaz de encaminhar conteúdos para checagem e informar o
eleitor quando uma verificação estivesse disponível.
As
regras eleitorais permitem determinadas formas de manifestação política na
internet, inclusive por aplicativos de mensagens, mas impõem limites. A
legislação proíbe, por exemplo, determinadas formas de disparo em massa e
estabelece regras para a propaganda eleitoral.
Para
2026, o TSE manteve a previsão de que mensagens enviadas consensualmente por
pessoas físicas, de forma privada ou em grupos restritos, não ficam submetidas
às mesmas regras de propaganda eleitoral aplicáveis a outras formas de
comunicação.
Isso
não significa, porém, que um grupo de WhatsApp seja uma espécie de território
sem lei. A depender do conteúdo, do alcance, da forma de divulgação e do
impacto causado, uma mensagem pode gerar consequências eleitorais.
Em
decisão de 2026, o TSE reforçou que a divulgação, em grupos com número
expressivo de participantes e relevante potencial de difusão, de conteúdo
ofensivo, inverídico ou descontextualizado capaz de atingir a honra e a imagem
de um candidato pode caracterizar propaganda eleitoral irregular.
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Eleitor precisa aprender a desconfiar
No
entanto, a resposta para o problema não está apenas em remover conteúdos falsos
ou punir quem os produz.
É
necessário que o próprio usuário aja. Antes de encaminhar uma mensagem, vale
fazer três perguntas simples: quem produziu isso? De onde veio? Existe outra
fonte confiável confirmando a informação?
Se a
mensagem começa com "urgente", "compartilhe antes que
apaguem" ou "a imprensa não quer que você saiba", o alerta deve
ser ainda maior.
Também
vale procurar a data. Muitas mensagens políticas reaparecem em novas eleições,
às vezes anos depois, apresentadas como se fossem acontecimentos recentes.
"O
grande desafio é a mistura da conversa privada com o afeto. Normalmente há a
barreira emocional de se corrigir alguém próximo. Apontar que uma notícia é
falsa para um amigo ou familiar cria uma situação chata, porque exige que a
pessoa aceite que caiu numa armadilha ou que a pessoa em quem ela confiava
errou. Por isso, mandar apenas um link frio de checagem quase não funciona se
não houver uma conversa humana e ágil ao mesmo tempo", acrescenta Borges.
Fonte:
DW Brasil

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