sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Manuel Domingos Neto: Estudantes mudam a cena

Participei de uma carreata em apoio à Lula. Não lembro de manifestação maior, mais espontânea, vibrante e alegre em minha cidade, Parnaíba, no litoral piauiense.

Convocado por jovens, um interminável cortejo de motos e carros percorreu bairros populares com pequenos aparelhos de som, poucas bandeiras, rarefeito material de propaganda. Não consegui adesivo para meu carro.

Nas calçadas, vi pessoas alegres, receptivas, gritando, acenando, pulando, dançando. Gente idosa, em cadeira de rodas, batia palmas. Difícil descrever o sentimento coletivo. Estive em todas as campanhas de Lula, mas nunca vi algo assim, que me remetesse à “Banda” de Chico Buarque.

No primeiro turno, prevaleceu a baixaria: cabos eleitorais de oligarquias sem escrúpulos compravam votos em larga escala e garantiam transporte até as urnas; pastores evangélicos amedrontavam fieis; funcionários públicos se continham com medo de perder posições; candidatos reclamavam votos em pagamento de pequenos benefícios garantidos por emendas parlamentares e apontavam malfeitos de seus concorrentes; estudantes e professores retraídos…

A modorra de cem anos de solidão abriu cancha à extrema direita.

Abertas as urnas, veio o choque e a depressão. Mas logo Parnaíba sintonizou o Brasil revirado pelo grito estudantil.

A cidade, cujo centro histórico é tombado como patrimônio nacional, acolhe milhares de jovens do interior do Piauí, do Ceará e do Maranhão, a maioria de famílias modestas.

Os jovens chegam sem saber escrever e sem entender o significado de nazismo, fascismo, colonialismo, imperialismo, nacionalismo…

Desconhecem Pixinguinha, Lima Barreto, Getúlio Vargas; não fazem ideia da importância da Amazônia e da Petrobrás. Ignoram o que foi a Ditadura Militar. Chegam em busca do diploma que promete garantir destino diferente do de seus pais, avós, bisavós…

O Brasil tem mais de 10.200.000 estudantes universitários. O ensino privado concentra quase 80% deste contingente. Mas, tanto a rede pública quanto a privada dependem de amparo governamental.

Os jovens, portanto, se arrepiam diante da possibilidade de inimigos da educação superior voltarem a governar o país.

O medo quebrou a pasmaceira de uma campanha eleitoral insípida. Como um raio, acendeu o confronto com a extrema-direita inspirada em Donald Trump.

Em poucos dias, os estudantes mudaram o quadro político-eleitoral brasileiro. Lotando ruas por todo o país, deixaram em apuros os delinquentes que querem voltar ao governo e ampliaram as chances de Lula.

Alguns consideram que os jovens não puxam novos votos para Lula. Essa é uma percepção de quem vê o Brasil a partir da avenida Paulista ou de Copacabana.

Estudantes lotando ruas disseminam emoções. Levantam o ânimo coletivo. Foram decisivos em episódios fundamentais da vida brasileira.

Dá para imaginar o abolicionismo sem o agitador Castro Alves, aos 17 anos, dizendo, no Recife, que a praça era do povo como o céu é do condor? Dá para imaginar o envio de expedicionários à Itália sem jovens se alistando espontaneamente e maldizendo o nazifascismo? De onde saíram os protagonistas do combate à Ditadura Militar?

A capilaridade do movimento estudantil é incalculável. Hoje, há cursos superiores em muitas cidades do interior. A maioria dos jovens mora em bairros populares e conhece a penúria. Constitui orgulho e esperança de suas famílias. Por mais que as redes de televisão escondam a amplitude de suas manifestações, suas proezas chegam aos celulares de todo o país.

Finalmente, ninguém passa impune pelo movimento estudantil, celeiro de novas percepções do processo histórico, novos valores, novas sensibilidades e, sobretudo, novas lideranças políticas.

Não há motivos para pensar que a rebeldia em curso seja contida após a abertura das urnas, dia 25. Em velocidade supersônica, formam-se novos protagonistas na cena política brasileira.

Meu renitente pessimismo pede trégua. Acho que Lula vai ganhar e governará contingenciado não apenas por oligarquias reacionárias: terá que ouvir estridente massa estudantil sedenta de perspectivas promissoras.

Se der ruim, se os bajuladores de Trump levarem a melhor, governarão assediados por estudantes enfurecidos. A repressão se encarregará de ampliar os protestos.

Os estudantes mudaram o ambiente político-eleitoral. Exprimem, agora, demandas longamente reprimidas pela calcificação do sistema partidário.

•        Entidades educacionais lançam carta em defesa da escola pública e apoiam candidatura de Lula

Entidades científicas e organizações da área educacional divulgaram um manifesto nacional convidando a sociedade a refletir criticamente sobre as propostas para o ensino no país. Intitulado “Carta da Educação para o Povo Brasileiro”, o documento propõe uma reflexão profunda sobre o modelo de escola desejado pelas famílias e alerta para as consequências de escolhas políticas no setor, defendendo que o acesso a um ensino de qualidade e democrático é um compromisso central com o futuro da nação.

A iniciativa parte de entidades representativas da pesquisa e da gestão educacional, que disponibilizam evidências científicas para embasar a escolha dos eleitores. No trecho final do manifesto, as organizações declaram apoio político explícito ao afirmar que, “no segundo turno das Eleições de 2026 para a Presidência da República, há uma única candidatura que responde a esses anseios! Lula e Alckmin em defesa da Educação!”. O texto já contabiliza mais de seis mil adesões de apoiadores e profissionais do setor.

O manifesto questiona a eficácia e os riscos de soluções simplistas frequentemente apresentadas em períodos eleitorais. Entre os pontos criticados estão a vinculação do financiamento escolar a metas de notas dos alunos, a substituição da gestão pública por empresas privadas com fins lucrativos e o direcionamento exclusivo do ensino médio público para a formação técnica, o que poderia restringir o acesso dos jovens da periferia ao ensino superior.

Outro ponto central de reflexão trazido pelas entidades refere-se à expansão do modelo cívico-militar nas redes públicas. A carta pontua que esse formato consome recursos orçamentários da educação que são repassados a corporações militares, mantendo desempenho similar ao das instituições tradicionais. O texto defende que as prioridades do sistema educacional — responsável por quase 90% das matrículas do ensino fundamental e médio no Brasil — devem focar na valorização dos profissionais, na infraestrutura adequada e na permanência dos estudantes mais vulneráveis na escola.

•        Os atos de ruas não vieram para vida curta. Por Francisco Calmon

Estão presentes e continuados para virar e Lula ganhar.

Na hipótese trágica da vitória do playboy da extrema-direita, as ruas deverão continuar cheias. 

Se eles têm maioria no Congresso e virtual maioria no STF, a juventude está com a democracia. Embora não tenha vivido a ditadura, sabem o horror que foi.

Eu vivi, fui sequestrado, torturado e por poco não virei estatística, graças a luta incansável de minha mãe. 

As manifestações presenciais são como o atletismo, devem sempre ser exercitados para manter aquecidos os músculos, as mentes e os corações.

Da vitória do 5×2 à derrota do extremista e sabujo do Trump, Flávio, pois o risco é de retrocesso e podemos amanhecer como em 64.

Nossa geração 68, se envelheceu na idade, em torno dos oitenta, não envelheceu nos ideais e princípios revolucionários defendidos no ano internacional de 1968, o ano que foi ceifado e não terminou democrático.

O AI5 foi a “legalidade” da ditadura escarnada e extremada. 

<><> Flávio fascista será o novo AI5!

No mundo todo, em 68, repressão, no mundo todo resistência, e de novo antigos e jovens estão nas ruas e nas redes para manter o sonho de uma país soberano e democrático.

A democracia custou tanto, sobreviventes, mortos, feridos, e não será o clã de alucinados fascistas que irá enterrá-la.

Nosso nome é RESISTÊNCIA!

Resistir, Lutar, Enfrentar.

Resiliência, batalhar, encarar.

Esperançar, fazer, ousar, acontecer.

Fome, sede, justiça, avançar.

Dialética, contrários, síntese.

A história na cabeça, a justiça no coração.

Utopia, farol, vetor.

Práxis, unidade, coletivo, movimento.

Dinâmica, correlação, ruptura, recuo.

Estratégia, táticas.

Sentido da história, razão da vida.

•        Tarifa Zero para derrotar o bolsonarismo novamente. Por Movimento Passe Livre

emos, há duas décadas, uma opinião óbvia mas pouco ouvida. Acreditamos que a tarifa zero no transporte coletivo é ferramenta de combate à extrema-direita e de construção do poder popular. Neste segundo turno eleitoral e no horizonte das lutas, esta bandeira precisa de muito destaque. Ela pode reverter a catástrofe da eleição da extrema-direita. A Tarifa Zero precisa estar em todos programas eleitorais, pautas de greve, manifestações estudantis, cardápios de almoço e janta.

Surgida das ruas e temida por quem se quer dono das cidades: 81% da população brasileira aprova a Tarifa Zero no Transporte Público. A luta que construímos e o martírio que vivemos cotidianamente no transporte coletivo não nos deixa esquecer: é a melhora da vidas das pessoas que se desdobra em vitórias políticas. Assim como sua pauta irmã, o fim da Escala 6 x 1, não há dúvida de que a gratuidade universal no transporte tem um poder enorme de mudar a realidade. Nas eleições e, ainda mais importante, além delas.

A urgência da Tarifa Zero se faz presente em cada ônibus e vagão lotado, em cada luta contra aumentos no preço de passagens,nas horas perdidas longe da família na condução ou a espera dela, em veículos sucateados, no dinheiro que sai da mesa de casa para o bolso do empresário de ônibus. Mas essa mesma urgência saiu de cena nos programas eleitorais dos candidatos à presidência.

Que uma pauta tão importante para a nossa dignidade tenha sido mais uma vez ignorada impressiona ainda mais depois do efeito que sua implementação no processo eleitoral passado. A nossa luta garantiu transporte grátis em 152 municípios brasileiros. No primeiro e segundo turno de 2022, em outras centenas de cidades, contribuiu para reduzir a abstenção eleitoral.

A luta eleitoral não é e nunca foi o caminho que o Movimento Passe Livre trilha. Mas a Tarifa Zero, pauta que surge da necessidade concreta de quem faz as cidades funcionarem, foi capaz de entrar nas instituições e contribuir inclusive para assegurar uma vitória eleitoral, em um momento no qual os bloqueios da Polícia Rodoviária Federal tentavam impedir que eleitores chegassem às urnas. Se em 2022 o Estado reconheceu que o direito ao voto é negado pela existência de tarifa, quantos outros direitos não são negados no dia a dia pela catraca? Quantas consultas médicas foram perdidas por conta do preço da passagem? Quantos estudantes abandonaram os estudos? Quantas famílias deixaram de se ver?

A Tarifa Zero é um direito meio: garante que estudantes sigam frenquentando as escolas; que mulheres não gastem ainda mais dinheiro entre os múltiplos deslocamentos entre jornadas; que o povo preto não esteja impedido por uma catraca para chegar ao Posto de Saúde; que a cultura produzida na cidade possa de fato ser vivida; que o dinheiro que ia enriquecer empresário passe para a vendinha da esquina. Tem mais de 20 anos que dizemos isso. Quem sabe agora, ainda que talvez pelos motivos errados, vocês tenham coragem de escutar?

Se ainda não ficou claro, dizemos mais uma vez: a Tarifa Zero, que foi relegada a segundo plano na construção das propostas eleitorais da esquerda, deve ser assumida de peito aberto. Isso ajudará a derrotar a extrema-direita nesta última seara de urnas e a fortalecer as lutas nas ruas. Este segundo elemento é ainda mais relevante.

Por uma vida sem catracas!

•        Lula pode virar na próxima semana. Por Leopoldo Vieira

Com o acirramento da polarização no segundo turno, a disputa entre o incumbente Luiz Inácio Lula da Silva e o desafiante senador Flávio Bolsonaro chegou ao empate técnico, segundo pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira: 51,1% a 48,9%, respectivamente, para o bolsonarista e o petista.

Com a iminente aprovação do fim da escala 6×1 no Senado, que dificilmente entregará bônus eleitoral à oposição, apesar de esta ter capitulado diante da popularidade da medida, o anúncio do pacote em benefício dos microempreendedores individuais (MEIs) e o debate na Band no próximo domingo, crescem consideravelmente as chances de Lula virar o jogo na semana que vem, mesmo que nas fronteiras da margem de erro das pesquisas.

Ainda que as notícias positivas ou negativas tenham seus efeitos limitados pela divisão do país, medidas de alto apelo popular colaboram para a disputa das estreitas margens da corrida pelo Palácio do Planalto. Para o presidente da República, o risco, que faz parte do processo democrático, é um desempenho favorável do senador Bolsonaro nos debates.

O inverso, somado à manutenção da mobilização lulista nas ruas e nas redes digitais, além de uma operação de alta intensidade na antessala do segundo turno, poderá neutralizar o breve favoritismo experimentado pelo senador Bolsonaro, atualmente calculado em 80% de chances de vitória, conforme consultorias do mercado financeiro.

O freio no “rali Flávio”, nesta semana, na bolsa de valores brasileira, acompanhado de pressão de alta sobre o dólar e sinais mistos dos juros futuros, sugere que a Faria Lima compreendeu que a eleição não está ganha para o clã Bolsonaro.

 

Fonte: Brasil 247/Jacobin Brasil

 

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