sexta-feira, 16 de outubro de 2026

A política econômica de Milei se aplica ao Brasil?

A experiência econômica do governo Javier Milei na Argentina reacendeu o debate sobre a pertinência de adotar, no Brasil, políticas semelhantes, especialmente no que se refere ao ajuste fiscal, à redução do papel do Estado e à liberalização dos mercados.

Seus defensores destacam a expressiva queda da inflação, enquanto seus críticos apontam os custos sociais do programa e os riscos de comprometer a recuperação econômica. A questão central, contudo, é se uma estratégia concebida para enfrentar a profunda crise monetária, fiscal e externa argentina seria adequada à realidade brasileira.

Afinal, políticas econômicas não podem ser avaliadas isoladamente de suas condições estruturais de implementação: as diferenças entre os dois países em termos de inflação, desenvolvimento do sistema financeiro, disponibilidade de reservas internacionais e capacidade de financiamento em moeda doméstica exigem cautela diante de qualquer tentativa de reproduzir o modelo argentino no Brasil.

Embora Brasil e Argentina tenham enfrentado profundas crises nos anos 1980, em grande parte associadas à crise da dívida externa e ao esgotamento dos modelos de desenvolvimento anteriores, suas trajetórias macroeconômicas foram bastante distintas. Essas diferenças ajudam a compreender por que políticas semelhantes podem produzir resultados muito diferentes em cada país.

A Argentina experimentou um processo inflacionário particularmente agudo, que culminou na hiperinflação de 1989-1990. A instabilidade monetária, combinada à abertura financeira e à liberalização econômica, favoreceu a dolarização das decisões de poupança financeira e dificultou o desenvolvimento de um mercado financeiro doméstico sólido, capaz de oferecer financiamento de médio e longo prazo em moeda nacional.

Para enfrentar a hiperinflação, o governo de Carlos Menem implantou, em abril de 1991, o Plano de Convertibilidade, que estabeleceu legalmente a paridade de um peso por dólar. A medida conseguiu reduzir rapidamente a inflação e recuperar a confiança na moeda, mas impôs uma restrição severa às políticas monetária, fiscal e cambial, limitando fortemente a adoção de políticas anticíclicas.

A combinação de câmbio fixo, abertura comercial e financeira e valorização real da moeda contribuiu para a perda de competitividade da produção doméstica e para uma crescente dependência de capitais externos. Após sucessivos choques internacionais, recessão e agravamento da crise da dívida, o regime de conversibilidade entrou em colapso no final de 2001, culminando no abandono da paridade em janeiro de 2002.

O Brasil também enfrentou taxas de inflação elevadíssimas entre os anos 1980 e 1994, mas não passou pelo mesmo processo de dolarização. A existência de uma moeda indexada permitiu preservar a poupança financeira em ativos denominados na moeda doméstica, apesar da aceleração da inflação.

Essa característica, somada a uma posição externa relativamente mais favorável no momento da estabilização, contribuiu para que o país implementasse o Plano Real, em 1994, com uma estratégia que combinou uma unidade de conta indexada, a introdução de uma nova moeda e, inicialmente, uma âncora cambial mais flexível do que a paridade com o peso argentino. Embora o Brasil também tenha enfrentado vulnerabilidades externas e uma crise cambial em 1999, não precisou abandonar sua moeda nem recorrer a uma ruptura institucional comparável à argentina.

As diferenças entre os dois países permanecem evidentes. Entre 2017 e 2025, o crescimento médio anual do PIB brasileiro foi de aproximadamente 2,0%, contra 0,7% na Argentina. Em 2025, a inflação acumulada foi de 4,3% no Brasil, ante 31,5% na Argentina. Em junho de 2026, as taxas de desemprego eram de 5,6% no Brasil e 7,8% na Argentina. Os indicadores de pobreza também apontam para dificuldades sociais significativas no país vizinho, embora a comparação exija cautela, pois as estatísticas nacionais utilizam metodologias e linhas de pobreza distintas.

As diferenças são ainda mais expressivas quando se observam as estruturas financeiras e as posições externas. As reservas internacionais brasileiras correspondem a uma parcela significativamente maior do PIB, enquanto o sistema financeiro nacional apresenta muito mais profundidade: o crédito doméstico ao setor privado equivale a cerca de 75% do PIB, contra aproximadamente 17% na Argentina.

O Brasil dispõe, ademais, de um mercado amplo e relativamente desenvolvido de títulos públicos denominados em moeda doméstica. Isso não significa ausência de problemas – como o elevado custo do financiamento público e a persistência de juros reais altos –, mas representa uma vantagem estrutural sem dúvida relevante.

Na Argentina, por sua vez, a recorrência de crises monetárias, desvalorizações cambiais, defaults e reestruturações da dívida prejudicou a confiança nos ativos denominados em pesos e limitou a capacidade de financiamento de longo prazo em moeda nacional. A dependência de financiamento externo e a maior exposição a obrigações em moeda estrangeira tornam o país particularmente vulnerável a mudanças nas condições internacionais e à escassez de divisas.

Portanto, não basta comparar os níveis de dívida pública dos dois países: é necessário considerar a composição monetária, os prazos, os custos e a capacidade de refinanciamento.

Foi nesse contexto de profunda instabilidade que Javier Milei assumiu a Presidência, em dezembro de 2023, quando a inflação acumulada no ano havia atingido 211,4%.

Seu governo adotou uma estratégia de choque, baseada em forte ajuste fiscal, corte de subsídios (tarifas de energia, transportes e outros serviços públicos) e de gastos públicos (redução dos investimentos públicos, das transferências aos governos provinciais e dos gastos com pessoal), interrupção do financiamento monetário do Tesouro pelo Banco Central e uma desvalorização inicial expressiva do peso, seguida de um regime de ajustes cambiais graduais, conhecido como crawling peg.

Também promoveu a correção de preços administrados, a redução de controles cambiais e de preços, a privatização de empresas públicas, além de ter restringido reajustes de aposentadorias e reduzido despesas em áreas como educação superior.

O programa reduziu expressivamente a inflação, mas seus resultados precisam ser avaliados para além desse indicador. A estabilização ocorreu em meio a uma forte contração inicial da atividade econômica e a custos sociais relevantes, incluindo o forte aumento da pobreza (32,3% da população no 1º semestre de 2026, segundo dados do INDEC), a queda acentuada do poder aquisitivo do salário mínimo (39,7% de novembro de 2023 a março de 2026, segundo dados do IIPE/UBA) e a deterioração do mercado de trabalho.

Por outro lado, entre dezembro de 2023 e julho de 2026, o custo estimado de uma cesta de serviços públicos aumentou em 966%, enquanto o nível geral de preços subiu cerca de 241% no mesmo período (Idem). Além disso, a redução da inflação não elimina automaticamente os problemas de financiamento externo, nem garante, por si só, uma retomada sustentada do investimento e do crescimento. O desafio argentino consiste em consolidar a estabilização sem comprometer a recuperação produtiva e a inclusão social.

Nesse contexto, a afirmação de Daniella Marques, coordenadora do programa econômico do candidato Flávio Bolsonaro, de que a Argentina seria um ótimo exemplo a ser seguido suscita uma questão importante: até que ponto seria desejável transplantar para o Brasil as políticas adotadas por Javier Milei?[i]

A resposta exige considerar as diferenças estruturais entre as duas economias. O Brasil não enfrenta uma inflação de três dígitos, não apresenta o mesmo grau de fragilidade financeira doméstica e dispõe de reservas internacionais e instrumentos de financiamento em moeda nacional que lhe conferem maior margem de manobra na condução da política econômica.

Isso não significa que a economia brasileira esteja isenta de desequilíbrios fiscais, em boa parte decorrentes dos efeitos dos juros elevados sobre a dívida pública. Significa, antes, que a natureza dos problemas e o conjunto de instrumentos disponíveis são diferentes, o que exige um diagnóstico específico.

Diante do elevado endividamento de empresas e famílias no Brasil, um ajuste fiscal excessivamente abrupto em 2027 poderia provocar uma contração significativa da demanda, reduzir o investimento e agravar as dificuldades financeiras do setor privado.

Em uma economia em que a inflação se encontra em patamar muito inferior ao da Argentina, um choque dessa magnitude não se justifica como estratégia de estabilização. Dependendo de sua composição e intensidade, o resultado do ajuste fiscal poderá ser uma recessão profunda, potencialmente comparável à observada em 2015-2016 ou até mais severa.

O debate relevante, portanto, não é sobre escolher entre copiar a Argentina e ignorar os problemas brasileiros. É discutir como conciliar sustentabilidade fiscal, estabilidade de preços, crescimento econômico e inclusão social, considerando as condições concretas da economia nacional. O ajuste das contas públicas, quando necessário, deve considerar seus efeitos sobre a demanda, o emprego, o investimento e a capacidade produtiva, além de distinguir despesas com impactos econômicos e sociais distintos.

No debate sobre política econômica, mais importante do que procurar modelos a serem simplesmente copiados é compreender as especificidades de cada economia. A experiência argentina oferece lições importantes sobre os riscos da rigidez cambial, da vulnerabilidade externa e dos custos sociais de ajustes abruptos. Não constitui, porém, uma receita a ser seguida pelo Brasil.

Em vez de anunciar que iremos copiar o ajuste econômico feito por Javier Milei na Argentina, seria mais conveniente reconhecer que os problemas brasileiros exigem soluções próprias – e que a qualidade de uma política econômica depende menos de sua fidelidade a um modelo externo inadequado a realidade brasileira do que de sua capacidade de enfrentar efetivamente os desafios nacionais.

¨      Unidos e ungidos por Trump: o que liga Flávio Bolsonaro a Javier Milei. Por Rafael Rezende

Na sexta-feira, 2 de outubro, o presidente Lula participou de um de seus últimos atos de campanha antes do primeiro turno das eleições presidenciais, no centro do Rio de Janeiro. Em meio ao mar de gente que acompanhava o candidato, a primeira-dama e políticos aliados, alguém atirou para Lula uma camisa com os dizeres “Las Malvinas Son Argentinas”, na mesma grafia da faixa exibida pelos jogadores da seleção argentina na semifinal da última Copa do Mundo, após a vitória sobre a Inglaterra. Lula pegou a camisa, abriu-a e a mostrou para as câmeras. A imagem rapidamente viralizou no país vizinho, e Axel Kicillof, governador da província de Buenos Aires e um dos prováveis nomes do peronismo para a próxima eleição presidencial, a compartilhou em suas redes.

Por mais que a defesa da soberania argentina sobre as Malvinas seja uma posição do Estado brasileiro desde 1833, atravessando distintos governos e regimes, o gesto de Lula teve peso simbólico: reafirmou a importância da soberania dos países sul-americanos, ameaçada pela política externa dos EUA sob o comando de Trump, e expôs o posicionamento vacilante ou subordinado das extremas direitas que estão no poder na região diante dessa ameaça. Não por acaso, os opositores de Milei receberam o resultado do primeiro turno brasileiro com a mesma apreensão que as forças democráticas do Brasil. Todos sabem que o desfecho da eleição brasileira de 2026 influenciará a eleição argentina de 2027 e toda a geopolítica regional.

É importante recordar que, nos últimos dois anos, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru elegeram presidentes de direita e extrema direita, e a Venezuela teve seu presidente sequestrado e preso pelos EUA. Uma eventual eleição de Flávio Bolsonaro, em um contexto global de crise do multilateralismo, acabaria com qualquer obstáculo real ao aumento quantitativo e qualitativo da influência estadunidense na América do Sul.

<><> A internacional reacionária

Há muitos pontos em comum entre as agendas antipovo de Javier Milei e Flávio Bolsonaro, mas há algo que perpassa todos eles: a subserviência aos interesses estadunidenses na região. Tal circunstância não se deve ao acaso. O sociólogo argentino Ariel Goldstein adotou o termo “internacional reacionária” para se referir à rede de partidos, movimentos, lideranças e financiadores da extrema direita global. Dentro dessa rede, capitaneada por Trump, articulam-se e alinham-se estratégias políticas e eleitorais, produzem-se discursos e teorias conspiratórias compartilhados e acessam-se fontes de financiamento para atividades diversas, que vão da propaganda a ações de sabotagem. Um exemplo conhecido da ação dessa rede foi o tarifaço que Trump impôs à importação de produtos brasileiros, a pedido da família Bolsonaro, com o objetivo tácito de minar o crescimento da economia brasileira e debilitar o governo Lula.

A internacional reacionária conta com o apoio de um ator de peso na política contemporânea: o oligopólio dos grandes conglomerados de tecnologia. As big techs, como são chamadas, controlam o fluxo de informações nas redes sociais e, por isso, detêm um enorme volume de dados sobre os cidadãos. Podem utilizá-los para beneficiar campanhas eleitorais, manipular a opinião pública e impulsionar narrativas, com pouco ou nenhum controle dos Estados sobre suas atividades.

Não se trata de afirmar que a vitória de Milei, na Argentina, e o bom desempenho eleitoral de Flávio, no Brasil, sejam fruto direto de interferência estadunidense. O crescimento do extremismo de direita tem causas múltiplas e complexas, com características particulares em cada país. No entanto, ao observarmos a ação coordenada de atores nacionais e transnacionais em prol dessa agenda, é possível compreender que a relação entre Milei e a família Bolsonaro vai muito além de um discurso de solidariedade entre atores que compartilham uma ideologia. Trata-se de uma articulação de projetos políticos para uma região, promovida e chancelada por uma potência interessada em manter sua hegemonia global, hoje desafiada pela China.

<><> Eu sou você amanhã?

Tendo em vista o que já foi dito sobre as agendas conjuntas da extrema direita, cabe um alerta: se alguém tem dúvida sobre como seria um governo encabeçado por Flávio Bolsonaro, caso ele vença as eleições, basta olhar para a Argentina de Milei. No plano interno, ataque frontal aos direitos sociais; descontinuidade de políticas públicas, especialmente as voltadas às mulheres, à população negra e à população LGBTQIA+; repressão aos movimentos sociais; afrouxamento da legislação ambiental; desindustrialização acelerada; e estagnação econômica. No plano regional, conivência ou colaboração com golpes e ações de desestabilização contra governos de esquerda. No plano internacional, alinhamento total aos EUA e, por conseguinte, a Israel; abandono de organismos multilaterais ou menor participação neles; e perda de autonomia para negociar com outros mercados, como China e Rússia.

Por outro lado, uma vitória eleitoral de Lula não apenas evitaria a argentinização do Brasil (recordemos que, segundo o INDEC, no primeiro semestre de 2026, 32,3% da população argentina vivia na pobreza e 7,5% em situação de indigência), como também serviria de contrapeso à crescente influência dos EUA na América do Sul. Mais do que isso, a permanência de um governo de centro-esquerda no maior país da região mostraria aos nossos vizinhos que outro presente é possível. Seria um contraste com suas próprias experiências de governo, fracassadas do ponto de vista econômico e social, que se sustentam pela coerção e por moderníssimos aparelhos ideológicos que colonizam o imaginário social contemporâneo.

 

Fonte: Por Luiz Fernando de Paula, em A Terra é Redonda/Blog da Boitempo

 

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