A
política econômica de Milei se aplica ao Brasil?
A
experiência econômica do governo Javier Milei na Argentina reacendeu o debate
sobre a pertinência de adotar, no Brasil, políticas semelhantes, especialmente
no que se refere ao ajuste fiscal, à redução do papel do Estado e à
liberalização dos mercados.
Seus
defensores destacam a expressiva queda da inflação, enquanto seus críticos
apontam os custos sociais do programa e os riscos de comprometer a recuperação
econômica. A questão central, contudo, é se uma estratégia concebida para
enfrentar a profunda crise monetária, fiscal e externa argentina seria adequada
à realidade brasileira.
Afinal,
políticas econômicas não podem ser avaliadas isoladamente de suas condições
estruturais de implementação: as diferenças entre os dois países em termos de
inflação, desenvolvimento do sistema financeiro, disponibilidade de reservas
internacionais e capacidade de financiamento em moeda doméstica exigem cautela
diante de qualquer tentativa de reproduzir o modelo argentino no Brasil.
Embora
Brasil e Argentina tenham enfrentado profundas crises nos anos 1980, em grande
parte associadas à crise da dívida externa e ao esgotamento dos modelos de
desenvolvimento anteriores, suas trajetórias macroeconômicas foram bastante
distintas. Essas diferenças ajudam a compreender por que políticas semelhantes
podem produzir resultados muito diferentes em cada país.
A
Argentina experimentou um processo inflacionário particularmente agudo, que
culminou na hiperinflação de 1989-1990. A instabilidade monetária, combinada à
abertura financeira e à liberalização econômica, favoreceu a dolarização das
decisões de poupança financeira e dificultou o desenvolvimento de um mercado
financeiro doméstico sólido, capaz de oferecer financiamento de médio e longo
prazo em moeda nacional.
Para
enfrentar a hiperinflação, o governo de Carlos Menem implantou, em abril de
1991, o Plano de Convertibilidade, que estabeleceu legalmente a paridade de um
peso por dólar. A medida conseguiu reduzir rapidamente a inflação e recuperar a
confiança na moeda, mas impôs uma restrição severa às políticas monetária,
fiscal e cambial, limitando fortemente a adoção de políticas anticíclicas.
A
combinação de câmbio fixo, abertura comercial e financeira e valorização real
da moeda contribuiu para a perda de competitividade da produção doméstica e
para uma crescente dependência de capitais externos. Após sucessivos choques
internacionais, recessão e agravamento da crise da dívida, o regime de
conversibilidade entrou em colapso no final de 2001, culminando no abandono da
paridade em janeiro de 2002.
O
Brasil também enfrentou taxas de inflação elevadíssimas entre os anos 1980 e
1994, mas não passou pelo mesmo processo de dolarização. A existência de uma
moeda indexada permitiu preservar a poupança financeira em ativos denominados
na moeda doméstica, apesar da aceleração da inflação.
Essa
característica, somada a uma posição externa relativamente mais favorável no
momento da estabilização, contribuiu para que o país implementasse o Plano
Real, em 1994, com uma estratégia que combinou uma unidade de conta indexada, a
introdução de uma nova moeda e, inicialmente, uma âncora cambial mais flexível
do que a paridade com o peso argentino. Embora o Brasil também tenha enfrentado
vulnerabilidades externas e uma crise cambial em 1999, não precisou abandonar
sua moeda nem recorrer a uma ruptura institucional comparável à argentina.
As
diferenças entre os dois países permanecem evidentes. Entre 2017 e 2025, o
crescimento médio anual do PIB brasileiro foi de aproximadamente 2,0%, contra
0,7% na Argentina. Em 2025, a inflação acumulada foi de 4,3% no Brasil, ante
31,5% na Argentina. Em junho de 2026, as taxas de desemprego eram de 5,6% no
Brasil e 7,8% na Argentina. Os indicadores de pobreza também apontam para
dificuldades sociais significativas no país vizinho, embora a comparação exija
cautela, pois as estatísticas nacionais utilizam metodologias e linhas de
pobreza distintas.
As
diferenças são ainda mais expressivas quando se observam as estruturas
financeiras e as posições externas. As reservas internacionais brasileiras
correspondem a uma parcela significativamente maior do PIB, enquanto o sistema
financeiro nacional apresenta muito mais profundidade: o crédito doméstico ao
setor privado equivale a cerca de 75% do PIB, contra aproximadamente 17% na
Argentina.
O
Brasil dispõe, ademais, de um mercado amplo e relativamente desenvolvido de
títulos públicos denominados em moeda doméstica. Isso não significa ausência de
problemas – como o elevado custo do financiamento público e a persistência de
juros reais altos –, mas representa uma vantagem estrutural sem dúvida
relevante.
Na
Argentina, por sua vez, a recorrência de crises monetárias, desvalorizações
cambiais, defaults e reestruturações da dívida prejudicou a confiança
nos ativos denominados em pesos e limitou a capacidade de financiamento de
longo prazo em moeda nacional. A dependência de financiamento externo e a maior
exposição a obrigações em moeda estrangeira tornam o país particularmente
vulnerável a mudanças nas condições internacionais e à escassez de divisas.
Portanto,
não basta comparar os níveis de dívida pública dos dois países: é necessário
considerar a composição monetária, os prazos, os custos e a capacidade de
refinanciamento.
Foi
nesse contexto de profunda instabilidade que Javier Milei assumiu a
Presidência, em dezembro de 2023, quando a inflação acumulada no ano havia
atingido 211,4%.
Seu
governo adotou uma estratégia de choque, baseada em forte ajuste fiscal, corte
de subsídios (tarifas de energia, transportes e outros serviços públicos) e de
gastos públicos (redução dos investimentos públicos, das transferências aos
governos provinciais e dos gastos com pessoal), interrupção do financiamento
monetário do Tesouro pelo Banco Central e uma desvalorização inicial expressiva
do peso, seguida de um regime de ajustes cambiais graduais, conhecido como crawling
peg.
Também
promoveu a correção de preços administrados, a redução de controles cambiais e
de preços, a privatização de empresas públicas, além de ter restringido
reajustes de aposentadorias e reduzido despesas em áreas como educação
superior.
O
programa reduziu expressivamente a inflação, mas seus resultados precisam ser
avaliados para além desse indicador. A estabilização ocorreu em meio a uma
forte contração inicial da atividade econômica e a custos sociais relevantes,
incluindo o forte aumento da pobreza (32,3% da população no 1º semestre de
2026, segundo dados do INDEC), a queda acentuada do poder aquisitivo do salário
mínimo (39,7% de novembro de 2023 a março de 2026, segundo dados do IIPE/UBA) e
a deterioração do mercado de trabalho.
Por
outro lado, entre dezembro de 2023 e julho de 2026, o custo estimado de uma
cesta de serviços públicos aumentou em 966%, enquanto o nível geral de preços
subiu cerca de 241% no mesmo período (Idem). Além disso, a redução da inflação
não elimina automaticamente os problemas de financiamento externo, nem garante,
por si só, uma retomada sustentada do investimento e do crescimento. O desafio
argentino consiste em consolidar a estabilização sem comprometer a recuperação
produtiva e a inclusão social.
Nesse
contexto, a afirmação de Daniella Marques, coordenadora do programa econômico
do candidato Flávio Bolsonaro, de que a Argentina seria um ótimo exemplo a ser
seguido suscita uma questão importante: até que ponto seria desejável
transplantar para o Brasil as políticas adotadas por Javier Milei?[i]
A
resposta exige considerar as diferenças estruturais entre as duas economias. O
Brasil não enfrenta uma inflação de três dígitos, não apresenta o mesmo grau de
fragilidade financeira doméstica e dispõe de reservas internacionais e
instrumentos de financiamento em moeda nacional que lhe conferem maior margem
de manobra na condução da política econômica.
Isso
não significa que a economia brasileira esteja isenta de desequilíbrios
fiscais, em boa parte decorrentes dos efeitos dos juros elevados sobre a dívida
pública. Significa, antes, que a natureza dos problemas e o conjunto de
instrumentos disponíveis são diferentes, o que exige um diagnóstico específico.
Diante
do elevado endividamento de empresas e famílias no Brasil, um ajuste fiscal
excessivamente abrupto em 2027 poderia provocar uma contração significativa da
demanda, reduzir o investimento e agravar as dificuldades financeiras do setor
privado.
Em uma
economia em que a inflação se encontra em patamar muito inferior ao da
Argentina, um choque dessa magnitude não se justifica como estratégia de
estabilização. Dependendo de sua composição e intensidade, o resultado do
ajuste fiscal poderá ser uma recessão profunda, potencialmente comparável à
observada em 2015-2016 ou até mais severa.
O
debate relevante, portanto, não é sobre escolher entre copiar a Argentina e
ignorar os problemas brasileiros. É discutir como conciliar sustentabilidade
fiscal, estabilidade de preços, crescimento econômico e inclusão social,
considerando as condições concretas da economia nacional. O ajuste das contas
públicas, quando necessário, deve considerar seus efeitos sobre a demanda, o
emprego, o investimento e a capacidade produtiva, além de distinguir despesas
com impactos econômicos e sociais distintos.
No
debate sobre política econômica, mais importante do que procurar modelos a
serem simplesmente copiados é compreender as especificidades de cada economia.
A experiência argentina oferece lições importantes sobre os riscos da rigidez
cambial, da vulnerabilidade externa e dos custos sociais de ajustes abruptos.
Não constitui, porém, uma receita a ser seguida pelo Brasil.
Em vez
de anunciar que iremos copiar o ajuste econômico feito por Javier Milei na
Argentina, seria mais conveniente reconhecer que os problemas brasileiros
exigem soluções próprias – e que a qualidade de uma política econômica depende
menos de sua fidelidade a um modelo externo inadequado a realidade brasileira
do que de sua capacidade de enfrentar efetivamente os desafios nacionais.
¨
Unidos e ungidos por Trump: o que liga Flávio Bolsonaro a
Javier Milei. Por Rafael Rezende
Na
sexta-feira, 2 de outubro, o presidente Lula participou de um de seus últimos
atos de campanha antes do primeiro turno das eleições presidenciais, no centro
do Rio de Janeiro. Em meio ao mar de gente que acompanhava o candidato, a
primeira-dama e políticos aliados, alguém atirou para Lula uma camisa com os
dizeres “Las Malvinas Son Argentinas”, na mesma grafia da faixa exibida pelos
jogadores da seleção argentina na semifinal da última Copa do Mundo, após a
vitória sobre a Inglaterra. Lula pegou a camisa, abriu-a e a mostrou para as
câmeras. A imagem rapidamente viralizou no país vizinho, e Axel Kicillof,
governador da província de Buenos Aires e um dos prováveis nomes do peronismo
para a próxima eleição presidencial, a compartilhou em suas redes.
Por
mais que a defesa da soberania argentina sobre as Malvinas seja uma posição do
Estado brasileiro desde 1833, atravessando distintos governos e regimes, o
gesto de Lula teve peso simbólico: reafirmou a importância da soberania dos
países sul-americanos, ameaçada pela política externa dos EUA sob o comando de
Trump, e expôs o posicionamento vacilante ou subordinado das extremas direitas
que estão no poder na região diante dessa ameaça. Não por acaso, os opositores
de Milei receberam o resultado do primeiro turno brasileiro com a mesma
apreensão que as forças democráticas do Brasil. Todos sabem que o desfecho da
eleição brasileira de 2026 influenciará a eleição argentina de 2027 e toda a
geopolítica regional.
É
importante recordar que, nos últimos dois anos, Bolívia, Chile, Colômbia,
Equador e Peru elegeram presidentes de direita e extrema direita, e a Venezuela
teve seu presidente sequestrado e preso pelos EUA. Uma eventual eleição de
Flávio Bolsonaro, em um contexto global de crise do multilateralismo, acabaria
com qualquer obstáculo real ao aumento quantitativo e qualitativo da influência
estadunidense na América do Sul.
<><>
A internacional reacionária
Há
muitos pontos em comum entre as agendas antipovo de Javier Milei e Flávio
Bolsonaro, mas há algo que perpassa todos eles: a subserviência aos interesses
estadunidenses na região. Tal circunstância não se deve ao acaso. O sociólogo
argentino Ariel Goldstein adotou o termo “internacional reacionária” para se
referir à rede de partidos, movimentos, lideranças e financiadores da extrema
direita global. Dentro dessa rede, capitaneada por Trump, articulam-se e
alinham-se estratégias políticas e eleitorais, produzem-se discursos e teorias
conspiratórias compartilhados e acessam-se fontes de financiamento para
atividades diversas, que vão da propaganda a ações de sabotagem. Um exemplo
conhecido da ação dessa rede foi o tarifaço que Trump impôs à importação de produtos
brasileiros, a pedido da família Bolsonaro, com o objetivo tácito de minar o
crescimento da economia brasileira e debilitar o governo Lula.
A
internacional reacionária conta com o apoio de um ator de peso na política
contemporânea: o oligopólio dos grandes conglomerados de tecnologia. As big
techs, como são chamadas, controlam o fluxo de informações nas redes
sociais e, por isso, detêm um enorme volume de dados sobre os cidadãos. Podem
utilizá-los para beneficiar campanhas eleitorais, manipular a opinião pública e
impulsionar narrativas, com pouco ou nenhum controle dos Estados sobre suas
atividades.
Não se
trata de afirmar que a vitória de Milei, na Argentina, e o bom desempenho
eleitoral de Flávio, no Brasil, sejam fruto direto de interferência
estadunidense. O crescimento do extremismo de direita tem causas múltiplas e
complexas, com características particulares em cada país. No entanto, ao
observarmos a ação coordenada de atores nacionais e transnacionais em prol
dessa agenda, é possível compreender que a relação entre Milei e a família
Bolsonaro vai muito além de um discurso de solidariedade entre atores que
compartilham uma ideologia. Trata-se de uma articulação de projetos políticos
para uma região, promovida e chancelada por uma potência interessada em manter
sua hegemonia global, hoje desafiada pela China.
<><>
Eu sou você amanhã?
Tendo
em vista o que já foi dito sobre as agendas conjuntas da extrema direita, cabe
um alerta: se alguém tem dúvida sobre como seria um governo encabeçado por
Flávio Bolsonaro, caso ele vença as eleições, basta olhar para a Argentina de
Milei. No plano interno, ataque frontal aos direitos sociais; descontinuidade
de políticas públicas, especialmente as voltadas às mulheres, à população negra
e à população LGBTQIA+; repressão aos movimentos sociais; afrouxamento da
legislação ambiental; desindustrialização acelerada; e estagnação econômica. No
plano regional, conivência ou colaboração com golpes e ações de
desestabilização contra governos de esquerda. No plano internacional,
alinhamento total aos EUA e, por conseguinte, a Israel; abandono de organismos
multilaterais ou menor participação neles; e perda de autonomia para negociar
com outros mercados, como China e Rússia.
Por
outro lado, uma vitória eleitoral de Lula não apenas evitaria a argentinização
do Brasil (recordemos que, segundo o INDEC, no primeiro semestre de 2026, 32,3%
da população argentina vivia na pobreza e 7,5% em situação de indigência), como
também serviria de contrapeso à crescente influência dos EUA na América do Sul.
Mais do que isso, a permanência de um governo de centro-esquerda no maior país
da região mostraria aos nossos vizinhos que outro presente é possível. Seria um
contraste com suas próprias experiências de governo, fracassadas do ponto de
vista econômico e social, que se sustentam pela coerção e por moderníssimos
aparelhos ideológicos que colonizam o imaginário social contemporâneo.
Fonte:
Por Luiz Fernando de Paula, em A Terra é Redonda/Blog da Boitempo

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