Luiz
Marques: O Estado de exceção e a mídia
Para o
filósofo Giorgio Agamben, em Estado de exceção, escrito sob o baque do
ato terrorista que destrói as Torres Gêmeas do centro financeiro de Nova York,
a própria normalidade do Estado de direito democrático no pós-guerra se
esboroa. A ascensão da extrema direita pós-2010 agrava o problema. Hoje a democracia
estampa uma crise sistêmica profunda. Haja coragem.
A
suspensão da ordem jurídica e a triste deterioração das estruturas públicas
ferem as instituições e assombram o presente, além do antropoceno. O colapso
climático rima antipolítica com impolítica. O declínio do espírito público
acompanha o neoliberalismo e sintomatiza a catástrofe que tocaia o planeta e a
humanidade. Thanatos seduz culpados, inocentes, distraídos e indiferentes.
No
Brasil, o bode expiatório das hierarquias é o organismo fiador das normas, o
Supremo Tribunal Federal (STF), pelas parcas virtudes e não pelos enormes
vícios. O clone, que nenhum condomínio aceita de síndico, tira proveito do
caso. Cabe qualquer peça no mosaico de um mentiroso. O Duce Benito
Mussolini orgulhava-se de os fasci beberem em várias concepções, com
ecletismo.
O
arrogante tiranete ao propor alteração na legislação do regime
liberal-democrático manifesta o desejo de obstar o sonho de bem-estar do Zé
povinho. Ampliar o entreato da escolha à presidência aumenta o tempo de mandato
para garantir sossego a uma plutocracia, o governo dos ricos. Dificulta a
intervenção para uma correção de rumos e de expectativas. Convém ao status
quo.
A
fratura está embutida no artigo primeiro da Constituição cidadã: “Todo poder
emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente”.
Há duas imagens justapostas aí: (i) uma indica povo com um “p” minúsculo, os
despossuídos e excluídos; (ii) outra indica povo com “P” maiúsculo, o corpo uno
da representação. Emendas parlamentares impositivas e supersalários de castas
estatais confirmam o viés elitista.
A
guerra civil (Stasis) impregna a dialética “grandes vs. pequenos”. Um
extremismo impulsiona a politização. O neologismo “antipetismo” exprime a
aporofobia (áporos / pobre e phobos / medo, aversão). O
preconceito tem raiz ariana, remete aos polos da “casa grande vs. senzala”, na
versão de Gilberto Freyre. Com isso, a direita “dentro das quatro linhas” é
canibalizada pelo bolsonarismo. Afinal, quem brinca com fogo pode se queimar.
O
destino do povo compara-se ao de um Homo sacer, na Antiga Roma, em que
os indivíduos sem proteção legal ou divina são exterminados legalmente. No
Censo de 2022, estes perfazem 8,1% da população, 17 milhões de criaturas do
subterrâneo em ocupações invisibilizadas, informais, terceirizadas e com baixa
remuneração. Eis o produto dos 350 anos de escravidão e pesadelos.
Ao
expor corpos no asfalto, a Polícia Militar mostra um domínio da vida e da morte
nas comunidades periféricas e favelas, nas quais resistem os sem-direitos em
bailes funks com letras do cotidiano. Na subclasse dos passíveis de
chacinas, os anônimos não fazem jus sequer ao luto. São carnes sem biografias.
O espetáculo substitui as medidas redistributivas contra as desigualdades.
As
milícias no Rio de Janeiro proliferam com um apoio de influenciadores. O leitmotiv
é uma confusão cultural que embaça as diferenças entre a claridade (justiça) e
o escuro (justiçamento). O sequestro do Erário pelo parasitismo das finanças,
acobertado por interesses da tropa de elite dos demagogos, torna a
sobrevivência na “guerra de todos contra todos” uma aventura fantástica.
A
desregulamentação das relações do capital e do trabalho enfatiza uma mais-valia
absoluta. Para quebrar a espinha laboral do país e devolvê-lo ao passado, a
linha que separa o fato jurídico do fato político é apagada. É preciso de um
vazio legal na zona de anomia do livre mercado para que, no lugar de leis, a
força bruta defina o certo e o errado. O modelo neoliberal imita um faroeste.
O
congelamento de pensões joga os idosos à mendicância. A dignidade vai para o
ralo. No desgoverno do “Pai total” faltavam remédios, com o filho herdeiro é
pior. A menção à Farmácia Popular sai da plataforma. Na era da inovação
tecnológica e austeridade, o etarismo elimina aposentados. E comemora com
champagne. Por vergonha, os hipócritas tergiversam o voto no estrume que
estraga o solo onde pisa, ladeado de sociopatas e canalhas.
A
estratégia geral visa privatizar a Petrobras, o Banco do Brasil, a Caixa
Econômica Federal, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
(BNDES) e o Pix para atender as empresas norte-americanas. O Sistema Único de
Saúde (SUS) e a Educação Pública correm um perigo iminente. Na ótica de
vagabundos, o que exige suor e competência deve ser privatizado.
Os
valores da Idade Moderna padecem de uma derrisão conceitual. A “liberdade” se
põe a serviço do projeto de dominação que não ousa dizer seu nome. A
“igualdade” é descartada pelos ajustes fiscais – o centro do programa para
redução de R$ 250 bilhões no orçamento da União. A “fraternidade” vira caridade
privada, o Estado abdica dos encargos sociais. Porém, a hostilidade esbarra no
apelo: “Humanistas de todo o mundo, uni-vos”.
A mídia
corporativa tem uma história prenha de golpes e heróis sujos qual paus de
galinheiro. Pratica um lawfare antes do termo aparecer. O programete Timeline
da RBS, no Rio Grande do Sul, é um panfleto negacionista. Uma âncora de
auditório pondera então: “Como diz minha mãe, depois da eleição, a gente
levanta e vai trabalhar. Está tudo normal”. Como dois e dois são cinco.
O lapso
desvaloriza o voto e a participação no pleito. A pergunta é: o eleito vai
defender a autodeterminação nacional, ou prostrar-se. Investir no mercado
interno, ou render-se ao extrativismo que suprime biomas. Apoiar o concerto
federativo de combate ao crime organizado, ou prevaricar. Promover direitos de
pretos, mulheres, grupos LGBTQIA+ e indígenas, ou lavar as mãos feito Pilatos. “To be, or not to be: that is the question”.
Na Rede
Globo, o apresentador na apuração das urnas faz piadas, e ri. No papel do
tio-clown toca feliz a cobertura circense sem medir as consequências. A
forma naturaliza o conteúdo trágico à democracia. O jornalismo se converte em
pantomima para mascarar a realidade.
Em vez
de alertar o risco civilizacional, a imprensa elide a corrupção da família.
Retira os escândalos das manchetes e empurra-os para o canto. Prevalece o
entreguismo lesa-pátria nos editoriais. A moralidade pública seletiva ecoa as
calúnias contra Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, João Goulart, Lula da
Silva, e enaltece a barbárie colonialista vinda de longe para trocar elogios
por terras raras, com nativos. O filme medíocre é um déjà-vu.
A nau
dos insensatos traz o epitáfio do liberalismo à beira do abismo, com a promessa
de dias melhores no inferno. Não engana os estudantes que denunciam a
manipulação da opinião pública. As suas ações cortam o nexo entre a violência e
o direito, ao acordar a consciência do futuro. O movimento faz o coração da
nação bater.
Como na
novela de Albert Camus, O estrangeiro, muitos vagam de costas para as
razões do mundo. Sem jamais demonstrar revolta. Vestem o figurino do
conformismo social. Creem em Deus, mas não na utopia. Imersos no absurdo da
existência, estão esquecidos da data de ensaio da emancipação humana. Há que
lembrar a importância do acontecimento nas ruas e redes sociais.
Os
progressistas dialogamos com o desespero para salvar a esperança das garras
cruéis do fascismo. São 24,63% (39,4 milhões) entre abstenções, votos nulos e
brancos. É hora de despertar as almas adormecidas. O saldo político da
perseverança é a vitória da democracia. “Fale a verdade cada um com o seu
próximo, porque somos membros uns dos outros” (Efésios, 4:25). Bora,
bora.
¨ O enterro da
conciliação. Por Victor Ribeiro
No dia
4 de outubro de 2026, o Brasil acordou na mesma berlinda de 2022. Flávio Bolsonaro, o
herdeiro ungido pelo presidiário-golpista, encerrou o primeiro turno com 47,03%
dos votos válidos
contra 45,16% de Lula, e os 33 milhões de abstencionistas viraram o objeto de
cortejo mais disputado do país.
O
bolsonarismo, que há quatro anos podia ter sido enterrado de vez, disputa agora
a presidência em vantagem, com o pai na prisão e a prole instalada no
Congresso. E a esquerda radical, que passou quatro anos avisando, com textos,
atos, formações e a teimosia de quem lê a história sem anestesia, vê-se agora
convocada a salvar, mais uma vez, o governo que fez ouvidos moucos a todos os
avisos.
A
análise aqui é conhecida. O receituário neoliberal do “superávit primário”,
administrado com sorriso e carisma, resultou no que resulta sempre e em toda
parte: chocou o ovo da serpente fascista. Não era profecia; era aritmética
política. Como disse Bertold Brecht uma vez: “A cadela do fascismo está sempre
no cio”. Alimentá-la, no entanto, é uma escolha política.
Uma
grande parcela da esquerda institucional vive, desde 2023, em um mundo da
fantasia onde “os números estão ótimos”. O desemprego, dizem, é o menor da
série histórica, 5,3% no trimestre
até agosto,
é verdade. O que a manchete esconde é a composição desse pleno emprego de faz
de conta: perto de 40% da
força de trabalho na informalidade, com uberização e pejotização galopantes, quatro milhões de
subocupados e um rendimento médio de R$ 3.700 que não sobrevive ao
supermercado, ao aluguel e ao ônibus no mesmo mês.
É o
“desemprego mínimo” de um exército de motoboys de aplicativo. “Mais oportunidade,
menos burocracia e mais acesso ao trabalho”, disse Guilherme Boulos após Lula
anunciar o fim da exigência de idade mínima de 21 anos para trabalhadores de
delivery.
Se o
“pleno emprego” é de faz de conta, o preço do dinheiro é escandalosamente real.
Mesmo depois de cinco cortes consecutivos, a Selic segue extorsiva em 13,75% ao
ano (uma das maiores taxas reais do planeta), operando como uma colossal
máquina de transferência de renda do trabalho para o rentismo. “Mas o Banco
Central é autônomo”, alguém pode dizer. Autônomo para perseguir a meta que o
próprio governo lhe fixa. A régua da inflação é definida pelo Conselho
Monetário Nacional – Fazenda, Planejamento e o próprio Banco Central –, mantida
rígida e inexequível desde janeiro de 2023, o que entrega ao Copom, de bandeja,
a justificativa (pífia) para cada aperto.
O
biombo institucional não esconde a escolha política, ela vem direto do
Planalto. Os números do saque são obscenos. No terceiro mandato, os juros da
dívida já engoliram R$ 2,4 trilhões até novembro de 2025, média de R$ 68
bilhões por mês, duas vezes e meia o ritmo dos dois primeiros governos Lula.
Num único mês de 2025, R$ 75 bilhões, duas vezes e meia aquilo que o mesmo
governo pretendia cortar de gastos sociais ao longo de um ano inteiro.
E
registre-se, de uma vez por todas que dívida pública não é problema em si,
nunca foi. Todo país que se desenvolveu o fez se endividando, e o Estado
brasileiro, que emite dívida na própria moeda, dispõe de soberania monetária
para isso. Déficits fiscais são a normalidade da esmagadora maioria das
economias do mundo, sem que nenhuma delas esteja “à beira da falência”. A
comparação entre as contas de um Estado e o orçamento de uma família é falácia
liberal para enganar desavisado.
A
obsessão pelo superávit primário tem como único objetivo assegurar, antes de
qualquer real para saúde, educação ou investimento, o pagamento integral e
intocável dos juros. Este é o altar sobre o qual o governo imolou a própria
base social.
E
quando a conta dessa política chega nas urnas, qual é o diagnóstico do palácio?
“É a comunicação”. O problema, vejam só, não é a vida material do povo, é o marketing.
Daí a resposta para o maior aperto eleitoral da história recente do petismo:
uma força-tarefa digital
com jovens parlamentares e influenciadores na sede da campanha, selfies sorridentes
na quarta-feira seguinte à derrota parcial, um “Exército do Lula”
de 1,8 milhão num canal de WhatsApp e a redescoberta miraculosa da pauta da
escala 6×1, agora sim lembrada como munição eleitoral.
“Mais
calçada e menos helicóptero”, recomendou um dos consultores da hora.
Traduzindo, três anos de helicóptero para o mercado financeiro, três semanas de
calçada para o eleitor. Não é vídeo em rede social que paga o aluguel,
camaradas. Nunca foi.
E se
alguém ingenuamente esperava que o susto de 4 de outubro produzisse uma
inflexão programática, enganou-se. No discurso da “prorrogação”, como
o próprio presidente batizou o segundo turno, o que se ouviu foi a promessa de
“desenvolvimento tecnológico, científico, exploração de terras raras e minerais
críticos” e de uma “nova indústria no Brasil”. O discurso
nacionalista-desenvolvimentista de sempre, o mesmo que conviveu pacificamente,
por três anos, com o leilão do petróleo equatorial e com a omissão diante da
espoliação das terras raras. Discurso sem prática foi exatamente a contradição
que nos trouxe até aqui, e não falta de filtro bom no Instagram.
Lembremos
do diagnóstico otimista que imperava até outro dia, onde, com Jair Bolsonaro
preso, a direita estaria fragmentada e o segundo turno seria um passeio. Ou
pior que isso, a sustentação de uma ilusão onde era possível determinar o
resultado das eleições logo no primeiro turno, um feito quase que inédito na
história da República. A fragmentação durou menos que lua de mel de casamento
arranjado.
A famiglia
saiu das urnas maior do que entrou, com Michelle Bolsonaro e Bia Kicis
senadoras pelo Distrito Federal, Carlos Bolsonaro senador por Santa Catarina,
Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato como os deputados federais mais votados da
história do país, com mais de três milhões de votos cada e Tarcísio reeleito
com folga e já ungido para 2030. Em 2022, havia a oportunidade histórica de
enterrar o bolsonarismo como projeto político. O que se fez com essa
oportunidade? Conciliação, gabinete, “governabilidade” e a adubação generosa do
cemitério onde o monstro descansava.
Mas se
há um saldo positivo nessas eleições, é justamente ele que aponta a saída. O
discurso radicalizado venceu onde foi sustentado com trabalho de base e sem
rebaixamento. Jones Manoel foi
eleito deputado federal por Pernambuco com 249.077 votos, segundo mais votado
do estado e primeiro no Recife, superando as máquinas do PSB e do PSD. “Depois de mais de
50 anos, voltamos a ter um comunista no Congresso Nacional, alguém eleito
falando de socialismo, Revolução Brasileira e poder popular”, como disse o
próprio camarada.
Humberto Matos foi eleito deputado
estadual no Rio Grande do Sul com 40.122 votos, devolvendo o PCdoB
à Assembleia gaúcha. A capilaridade existe. O eleitorado para a palavra sem
rodeios existe. O que não existe é desculpa para sustentar a ideia de que
transformar a palavra “revolução” em tabu e viver de acenos às elites é o que
garante “governabilidade”.
Acerca
do que fazer em 25 de outubro, evidentemente que não há equidistância. Um
governo do clã Bolsonaro, com o pai golpista esperando anistia, os filhos
instalados no Congresso e Washington de fiador, significaria a consolidação do
projeto neofascista no maior país da América do Sul, com tudo o que isso
representa para a classe trabalhadora e para a soberania do continente.
Derrotar esse projeto é tarefa imediata, inclusive nas urnas.
Mas que
fique escrito com clareza que derrotar o fascismo no dia 25 não pode significar
alimentar ilusões no dia 26. Nenhum voto crítico transfere ao projeto
conciliador um único grama de confiança política. Vota-se contra o clã e se
segue a luta, porque foi justamente a conciliação que nos trouxe até esta
berlinda, e é só a organização independente da classe trabalhadora que nos tira
dela.
Que se
enterre, portanto, a traição travestida de “pragmatismo” enquanto horizonte
estratégico e a conciliação de classes enquanto método. Que isso fique para
trás mesmo com a necessária vitória de Lula, que seria, em realidade, a compra
de tempo para a construção de uma esquerda verdadeiramente combativa.
O
próximo ciclo não pode nos encontrar de novo na condição de bombeiros. É
preciso que amanheça pronta a alternativa radical, organizada, enraizada nos
sindicatos, nas periferias, nas escolas públicas e nos quartéis de urna onde os
camaradas eleitos provaram que se pode vencer. O enterro da conciliação é a
única herança útil que este ciclo pode deixar, e cavar essa cova é tarefa
nossa, de mais ninguém.
Fonte:
A Terra é Redonda

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