sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Luiz Marques: O Estado de exceção e a mídia

Para o filósofo Giorgio Agamben, em Estado de exceção, escrito sob o baque do ato terrorista que destrói as Torres Gêmeas do centro financeiro de Nova York, a própria normalidade do Estado de direito democrático no pós-guerra se esboroa. A ascensão da extrema direita pós-2010 agrava o problema. Hoje a democracia estampa uma crise sistêmica profunda. Haja coragem.

A suspensão da ordem jurídica e a triste deterioração das estruturas públicas ferem as instituições e assombram o presente, além do antropoceno. O colapso climático rima antipolítica com impolítica. O declínio do espírito público acompanha o neoliberalismo e sintomatiza a catástrofe que tocaia o planeta e a humanidade. Thanatos seduz culpados, inocentes, distraídos e indiferentes.

No Brasil, o bode expiatório das hierarquias é o organismo fiador das normas, o Supremo Tribunal Federal (STF), pelas parcas virtudes e não pelos enormes vícios. O clone, que nenhum condomínio aceita de síndico, tira proveito do caso. Cabe qualquer peça no mosaico de um mentiroso. O Duce Benito Mussolini orgulhava-se de os fasci beberem em várias concepções, com ecletismo.

O arrogante tiranete ao propor alteração na legislação do regime liberal-democrático manifesta o desejo de obstar o sonho de bem-estar do Zé povinho. Ampliar o entreato da escolha à presidência aumenta o tempo de mandato para garantir sossego a uma plutocracia, o governo dos ricos. Dificulta a intervenção para uma correção de rumos e de expectativas. Convém ao status quo.

A fratura está embutida no artigo primeiro da Constituição cidadã: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente”. Há duas imagens justapostas aí: (i) uma indica povo com um “p” minúsculo, os despossuídos e excluídos; (ii) outra indica povo com “P” maiúsculo, o corpo uno da representação. Emendas parlamentares impositivas e supersalários de castas estatais confirmam o viés elitista.

A guerra civil (Stasis) impregna a dialética “grandes vs. pequenos”. Um extremismo impulsiona a politização. O neologismo “antipetismo” exprime a aporofobia (áporos / pobre e phobos / medo, aversão). O preconceito tem raiz ariana, remete aos polos da “casa grande vs. senzala”, na versão de Gilberto Freyre. Com isso, a direita “dentro das quatro linhas” é canibalizada pelo bolsonarismo. Afinal, quem brinca com fogo pode se queimar.

O destino do povo compara-se ao de um Homo sacer, na Antiga Roma, em que os indivíduos sem proteção legal ou divina são exterminados legalmente. No Censo de 2022, estes perfazem 8,1% da população, 17 milhões de criaturas do subterrâneo em ocupações invisibilizadas, informais, terceirizadas e com baixa remuneração. Eis o produto dos 350 anos de escravidão e pesadelos.

Ao expor corpos no asfalto, a Polícia Militar mostra um domínio da vida e da morte nas comunidades periféricas e favelas, nas quais resistem os sem-direitos em bailes funks com letras do cotidiano. Na subclasse dos passíveis de chacinas, os anônimos não fazem jus sequer ao luto. São carnes sem biografias. O espetáculo substitui as medidas redistributivas contra as desigualdades.

As milícias no Rio de Janeiro proliferam com um apoio de influenciadores. O leitmotiv é uma confusão cultural que embaça as diferenças entre a claridade (justiça) e o escuro (justiçamento). O sequestro do Erário pelo parasitismo das finanças, acobertado por interesses da tropa de elite dos demagogos, torna a sobrevivência na “guerra de todos contra todos” uma aventura fantástica.

A desregulamentação das relações do capital e do trabalho enfatiza uma mais-valia absoluta. Para quebrar a espinha laboral do país e devolvê-lo ao passado, a linha que separa o fato jurídico do fato político é apagada. É preciso de um vazio legal na zona de anomia do livre mercado para que, no lugar de leis, a força bruta defina o certo e o errado. O modelo neoliberal imita um faroeste.

O congelamento de pensões joga os idosos à mendicância. A dignidade vai para o ralo. No desgoverno do “Pai total” faltavam remédios, com o filho herdeiro é pior. A menção à Farmácia Popular sai da plataforma. Na era da inovação tecnológica e austeridade, o etarismo elimina aposentados. E comemora com champagne. Por vergonha, os hipócritas tergiversam o voto no estrume que estraga o solo onde pisa, ladeado de sociopatas e canalhas.

A estratégia geral visa privatizar a Petrobras, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Pix para atender as empresas norte-americanas. O Sistema Único de Saúde (SUS) e a Educação Pública correm um perigo iminente. Na ótica de vagabundos, o que exige suor e competência deve ser privatizado.

Os valores da Idade Moderna padecem de uma derrisão conceitual. A “liberdade” se põe a serviço do projeto de dominação que não ousa dizer seu nome. A “igualdade” é descartada pelos ajustes fiscais – o centro do programa para redução de R$ 250 bilhões no orçamento da União. A “fraternidade” vira caridade privada, o Estado abdica dos encargos sociais. Porém, a hostilidade esbarra no apelo: “Humanistas de todo o mundo, uni-vos”.

A mídia corporativa tem uma história prenha de golpes e heróis sujos qual paus de galinheiro. Pratica um lawfare antes do termo aparecer. O programete Timeline da RBS, no Rio Grande do Sul, é um panfleto negacionista. Uma âncora de auditório pondera então: “Como diz minha mãe, depois da eleição, a gente levanta e vai trabalhar. Está tudo normal”. Como dois e dois são cinco.

O lapso desvaloriza o voto e a participação no pleito. A pergunta é: o eleito vai defender a autodeterminação nacional, ou prostrar-se. Investir no mercado interno, ou render-se ao extrativismo que suprime biomas. Apoiar o concerto federativo de combate ao crime organizado, ou prevaricar. Promover direitos de pretos, mulheres, grupos LGBTQIA+ e indígenas, ou lavar as mãos feito Pilatos. “To be, or not to be: that is the question”.

Na Rede Globo, o apresentador na apuração das urnas faz piadas, e ri. No papel do tio-clown toca feliz a cobertura circense sem medir as consequências. A forma naturaliza o conteúdo trágico à democracia. O jornalismo se converte em pantomima para mascarar a realidade.

Em vez de alertar o risco civilizacional, a imprensa elide a corrupção da família. Retira os escândalos das manchetes e empurra-os para o canto. Prevalece o entreguismo lesa-pátria nos editoriais. A moralidade pública seletiva ecoa as calúnias contra Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, João Goulart, Lula da Silva, e enaltece a barbárie colonialista vinda de longe para trocar elogios por terras raras, com nativos. O filme medíocre é um déjà-vu.

A nau dos insensatos traz o epitáfio do liberalismo à beira do abismo, com a promessa de dias melhores no inferno. Não engana os estudantes que denunciam a manipulação da opinião pública. As suas ações cortam o nexo entre a violência e o direito, ao acordar a consciência do futuro. O movimento faz o coração da nação bater.

Como na novela de Albert Camus, O estrangeiro, muitos vagam de costas para as razões do mundo. Sem jamais demonstrar revolta. Vestem o figurino do conformismo social. Creem em Deus, mas não na utopia. Imersos no absurdo da existência, estão esquecidos da data de ensaio da emancipação humana. Há que lembrar a importância do acontecimento nas ruas e redes sociais.

Os progressistas dialogamos com o desespero para salvar a esperança das garras cruéis do fascismo. São 24,63% (39,4 milhões) entre abstenções, votos nulos e brancos. É hora de despertar as almas adormecidas. O saldo político da perseverança é a vitória da democracia. “Fale a verdade cada um com o seu próximo, porque somos membros uns dos outros” (Efésios, 4:25). Bora, bora.

¨      O enterro da conciliação. Por Victor Ribeiro

No dia 4 de outubro de 2026, o Brasil acordou na mesma berlinda de 2022. Flávio Bolsonaro, o herdeiro ungido pelo presidiário-golpista, encerrou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula, e os 33 milhões de abstencionistas viraram o objeto de cortejo mais disputado do país.

O bolsonarismo, que há quatro anos podia ter sido enterrado de vez, disputa agora a presidência em vantagem, com o pai na prisão e a prole instalada no Congresso. E a esquerda radical, que passou quatro anos avisando, com textos, atos, formações e a teimosia de quem lê a história sem anestesia, vê-se agora convocada a salvar, mais uma vez, o governo que fez ouvidos moucos a todos os avisos.

A análise aqui é conhecida. O receituário neoliberal do “superávit primário”, administrado com sorriso e carisma, resultou no que resulta sempre e em toda parte: chocou o ovo da serpente fascista. Não era profecia; era aritmética política. Como disse Bertold Brecht uma vez: “A cadela do fascismo está sempre no cio”. Alimentá-la, no entanto, é uma escolha política.

Uma grande parcela da esquerda institucional vive, desde 2023, em um mundo da fantasia onde “os números estão ótimos”. O desemprego, dizem, é o menor da série histórica, 5,3% no trimestre até agosto, é verdade. O que a manchete esconde é a composição desse pleno emprego de faz de conta: perto de 40% da força de trabalho na informalidade, com uberização e pejotização galopantes, quatro milhões de subocupados e um rendimento médio de R$ 3.700 que não sobrevive ao supermercado, ao aluguel e ao ônibus no mesmo mês.

É o “desemprego mínimo” de um exército de motoboys de aplicativo. “Mais oportunidade, menos burocracia e mais acesso ao trabalho”, disse Guilherme Boulos após Lula anunciar o fim da exigência de idade mínima de 21 anos para trabalhadores de delivery.

Se o “pleno emprego” é de faz de conta, o preço do dinheiro é escandalosamente real. Mesmo depois de cinco cortes consecutivos, a Selic segue extorsiva em 13,75% ao ano (uma das maiores taxas reais do planeta), operando como uma colossal máquina de transferência de renda do trabalho para o rentismo. “Mas o Banco Central é autônomo”, alguém pode dizer. Autônomo para perseguir a meta que o próprio governo lhe fixa. A régua da inflação é definida pelo Conselho Monetário Nacional – Fazenda, Planejamento e o próprio Banco Central –, mantida rígida e inexequível desde janeiro de 2023, o que entrega ao Copom, de bandeja, a justificativa (pífia) para cada aperto.

O biombo institucional não esconde a escolha política, ela vem direto do Planalto. Os números do saque são obscenos. No terceiro mandato, os juros da dívida já engoliram R$ 2,4 trilhões até novembro de 2025, média de R$ 68 bilhões por mês, duas vezes e meia o ritmo dos dois primeiros governos Lula. Num único mês de 2025, R$ 75 bilhões, duas vezes e meia aquilo que o mesmo governo pretendia cortar de gastos sociais ao longo de um ano inteiro.

E registre-se, de uma vez por todas que dívida pública não é problema em si, nunca foi. Todo país que se desenvolveu o fez se endividando, e o Estado brasileiro, que emite dívida na própria moeda, dispõe de soberania monetária para isso. Déficits fiscais são a normalidade da esmagadora maioria das economias do mundo, sem que nenhuma delas esteja “à beira da falência”. A comparação entre as contas de um Estado e o orçamento de uma família é falácia liberal para enganar desavisado.

A obsessão pelo superávit primário tem como único objetivo assegurar, antes de qualquer real para saúde, educação ou investimento, o pagamento integral e intocável dos juros. Este é o altar sobre o qual o governo imolou a própria base social.

E quando a conta dessa política chega nas urnas, qual é o diagnóstico do palácio? “É a comunicação”. O problema, vejam só, não é a vida material do povo, é o marketing. Daí a resposta para o maior aperto eleitoral da história recente do petismo: uma força-tarefa digital com jovens parlamentares e influenciadores na sede da campanha, selfies sorridentes na quarta-feira seguinte à derrota parcial, um “Exército do Lula” de 1,8 milhão num canal de WhatsApp e a redescoberta miraculosa da pauta da escala 6×1, agora sim lembrada como munição eleitoral.

“Mais calçada e menos helicóptero”, recomendou um dos consultores da hora. Traduzindo, três anos de helicóptero para o mercado financeiro, três semanas de calçada para o eleitor. Não é vídeo em rede social que paga o aluguel, camaradas. Nunca foi.

E se alguém ingenuamente esperava que o susto de 4 de outubro produzisse uma inflexão programática, enganou-se. No discurso da “prorrogação”, como o próprio presidente batizou o segundo turno, o que se ouviu foi a promessa de “desenvolvimento tecnológico, científico, exploração de terras raras e minerais críticos” e de uma “nova indústria no Brasil”. O discurso nacionalista-desenvolvimentista de sempre, o mesmo que conviveu pacificamente, por três anos, com o leilão do petróleo equatorial e com a omissão diante da espoliação das terras raras. Discurso sem prática foi exatamente a contradição que nos trouxe até aqui, e não falta de filtro bom no Instagram.

Lembremos do diagnóstico otimista que imperava até outro dia, onde, com Jair Bolsonaro preso, a direita estaria fragmentada e o segundo turno seria um passeio. Ou pior que isso, a sustentação de uma ilusão onde era possível determinar o resultado das eleições logo no primeiro turno, um feito quase que inédito na história da República. A fragmentação durou menos que lua de mel de casamento arranjado.

A famiglia saiu das urnas maior do que entrou, com Michelle Bolsonaro e Bia Kicis senadoras pelo Distrito Federal, Carlos Bolsonaro senador por Santa Catarina, Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato como os deputados federais mais votados da história do país, com mais de três milhões de votos cada e Tarcísio reeleito com folga e já ungido para 2030. Em 2022, havia a oportunidade histórica de enterrar o bolsonarismo como projeto político. O que se fez com essa oportunidade? Conciliação, gabinete, “governabilidade” e a adubação generosa do cemitério onde o monstro descansava.

Mas se há um saldo positivo nessas eleições, é justamente ele que aponta a saída. O discurso radicalizado venceu onde foi sustentado com trabalho de base e sem rebaixamento. Jones Manoel foi eleito deputado federal por Pernambuco com 249.077 votos, segundo mais votado do estado e primeiro no Recife, superando as máquinas do PSB e do PSD. “Depois de mais de 50 anos, voltamos a ter um comunista no Congresso Nacional, alguém eleito falando de socialismo, Revolução Brasileira e poder popular”, como disse o próprio camarada.

Humberto Matos foi eleito deputado estadual no Rio Grande do Sul com 40.122 votos, devolvendo o PCdoB à Assembleia gaúcha. A capilaridade existe. O eleitorado para a palavra sem rodeios existe. O que não existe é desculpa para sustentar a ideia de que transformar a palavra “revolução” em tabu e viver de acenos às elites é o que garante “governabilidade”.

Acerca do que fazer em 25 de outubro, evidentemente que não há equidistância. Um governo do clã Bolsonaro, com o pai golpista esperando anistia, os filhos instalados no Congresso e Washington de fiador, significaria a consolidação do projeto neofascista no maior país da América do Sul, com tudo o que isso representa para a classe trabalhadora e para a soberania do continente. Derrotar esse projeto é tarefa imediata, inclusive nas urnas.

Mas que fique escrito com clareza que derrotar o fascismo no dia 25 não pode significar alimentar ilusões no dia 26. Nenhum voto crítico transfere ao projeto conciliador um único grama de confiança política. Vota-se contra o clã e se segue a luta, porque foi justamente a conciliação que nos trouxe até esta berlinda, e é só a organização independente da classe trabalhadora que nos tira dela.

Que se enterre, portanto, a traição travestida de “pragmatismo” enquanto horizonte estratégico e a conciliação de classes enquanto método. Que isso fique para trás mesmo com a necessária vitória de Lula, que seria, em realidade, a compra de tempo para a construção de uma esquerda verdadeiramente combativa.

O próximo ciclo não pode nos encontrar de novo na condição de bombeiros. É preciso que amanheça pronta a alternativa radical, organizada, enraizada nos sindicatos, nas periferias, nas escolas públicas e nos quartéis de urna onde os camaradas eleitos provaram que se pode vencer. O enterro da conciliação é a única herança útil que este ciclo pode deixar, e cavar essa cova é tarefa nossa, de mais ninguém.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

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