De
Eduarda Campopiano a Ana Elisa: as estratégias das 18 jovens eleitas para o
Legislativo em 2026
No
último dia 4 de outubro, os brasileiros elegeram 1.532 representantes para o
legislativo, entre deputados federais, estaduais e distritais. Desse total, 59
têm menos de 29 anos, sendo 41 homens e 18 mulheres.
Entre
as eleitas, dois nomes chamaram atenção. À direita, Eduarda Campopiano (PL-SP),
de 23 anos, que se tornou a deputada estadual mais votada em São Paulo, com 1,9
milhão de votos. À esquerda, Ana Elisa (PT-MG), de 21 anos, que estreou na
política como a deputada federal mais votada de Minas Gerais, com 524 mil
votos.
Apesar
de estarem em campos políticos opostos, as duas candidatas têm algo em comum:
construíram suas campanhas nas redes sociais.
O mesmo
vale para as demais eleitas. Mais do que recursos financeiros, a internet foi
fundamental para dar visibilidade às candidaturas de mulheres jovens que
tiveram sucesso nesta eleição.
Essa é
uma das constatações da mais recente edição do Monitor Jovem DX, ao qual a BBC
News Brasil teve acesso com exclusividade.
O
projeto, que monitorou as campanhas digitais de candidaturas jovens ao
Legislativo em 2026, foi desenvolvido pelo Instituto Democracia em Xeque em
parceria com o Núcleo de Pesquisas em Psicologia Política e Movimentos Sociais
(NUPMOS – PUCSP) e apoio da Fundação Heinrich Böll Brasil.
O novo
relatório analisou especificamente a atuação de mulheres jovens (com idade de
até 29 anos na data da posse) e encontrou diferenças significativas nas
estratégias digitais das candidatas de esquerda e direita, algo que dialoga
diretamente com a disputa por eleitores no atual cenário de polarização
política no Brasil — e neste segundo turno.
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Quem são as jovens eleitas
Em
2026, 334 mulheres de até 29 anos se candidataram a cargos no legislativo,
quase metade das 576 que buscaram se eleger em 2022.
A queda
de 48,6% é maior do que a registrada entre homens jovens (24%) e maior do que a
retração global no número total de candidaturas observada neste ano (20,5 mil),
de cerca de 30% em relação à última eleição.
A taxa
de sucesso de candidaturas femininas jovens, contudo, foi maior. Do total, 5,4%
conseguiram se eleger, a maior proporção desde o início da série no Monitor
Jovem DX, em 2014, quando apenas 0,9% tiveram êxito.
Em
termos absolutos, o total de eleitas é semelhante ao de 2022. Foram 18, ante 19
na última eleição.
São
elas: Açucena (PT-ES), Amanda Gentil (PP-MA), Ana Elisa (PT-MG), Ana Júlia
(PT-PR), Bella Carmelo (PL-CE), Chiara Biondini (PL-MG), Cibele Moura (MDB-AL),
Duda Hidalgo (PT-SP), Eduarda Campopiano (PL-SP), Estefane Sampaio
(Republicanos-DF), Gabi Gonçalves (MDB-AL), Julia de Castro (PL-RJ), Maria
Clara Marra (PSDB-MG), Marília Amaral (PL-MG), Natália do Júnior Garimpeiro
(União-MA), Paloma Nunes (PSB-CE), Paula Prata (PSD-MA) e Teca Nelma (PT-AL).
Conforme
a categorização feita pelo levantamento, sete são de direita (dos partidos PP,
MDB, Republicanos, PSD e PSDB), cinco são de extrema-direita (PL) e seis são de
esquerda (PSB e PT).
Assim,
as eleitas são majoritariamente de direita — mas ocupam proporção menor dentro
de seus respectivos campos ideológicos. As jovens de direita e extrema-direita
eleitas são 25,9% e 27,8% do total de jovens eleitos de direita e
extrema-direita, enquanto as jovens de esquerda representam 42,9% dos jovens de
esquerda eleitos.
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Mesmas redes, estratégias diferentes
Entre
as 10 jovens que receberam maiores financiamentos de campanha, apenas duas se
elegeram, ambas como deputadas federais: Amanda Gentil (PP-MA), que chegou a R$
3,2 milhões em receita total, e Ana Júlia (PT-PR), que contou com R$ 3 milhões.
Ou
seja, ter mais acesso a recursos não necessariamente significa ter melhor
desempenho nas urnas.
Por
outro lado, todas as jovens eleitas usaram as redes sociais como ferramenta de
campanha, o que reforça a importância cada vez maior dessas plataformas para se
chegar aos eleitores.
As
estratégias, entretanto, variaram, como constatou o monitoramento digital feito
pelos pesquisadores das candidaturas de 251 mulheres jovens dos três campos
ideológicos entre 16 de agosto e 4 de outubro no Instagram, X, TikTok, Facebook
e YouTube.
Na
comparação das palavras e temas utilizados pelas campanhas, as jovens de
extrema-direita usaram com maior frequência uma retórica de confronto, focando,
por exemplo, em polêmicas em torno dos conflitos entre poderes em Brasília, da
segurança pública e de questões relacionadas a valores e costumes.
"A
candidatura é apresentada menos por meio de uma biografia individual e mais
pela capacidade de tomar posição, identificar responsáveis e demarcar aliados e
adversários diante de uma audiência previamente mobilizada por essas
controvérsias", aponta o relatório.
Há
muito conteúdo produzido a partir de entrevistas de rua, montagens e reações a
declarações de adversários.
É o que
se verifica, por exemplo, nas redes de Eduarda Campopiano, que coleciona no
perfil diversos cortes de embates verbais com pessoas de esquerda e se define
na bio do Instagram como "a maior inimiga das feministas de SP".
Entre
os temas mobilizados por ela, além do antifeminismo, estão a defesa da
criminalização do aborto e críticas a pautas progressistas e ao Supremo
Tribunal Federal (STF).
As
jovens de direita, por outro lado, focaram mais em suas trajetórias pessoais,
religiosas e profissionaqis e deram preferência a um vocabulário mais
associadas ao cuidado, ao propósito e à proximidade.
"A
política é apresentada como desdobramento de uma história de vida e de vínculos
estabelecidos com públicos específicos, mais do que como ruptura com a atuação
que já desenvolviam nas plataformas", afirma o relatório.
Candidatas
de esquerda, por sua vez, utilizaram com mais frequência palavras mais
relacionadas a direitos, ao trabalho e à mobilização coletiva, com uma
abordagem também menos centrada no embate e mais em comunicar a ligação das
candidaturas com formas coletivas de representação ou com causas mais amplas.
Ana
Elisa, por exemplo, fez conteúdos criticando adversários, mas investiu
principalmente na produção de conteúdos explicativos sobre política e questões
jurídicas.
Entre
os principais temas que ela mobilizou na campanha estão a redução de
desigualdades, o trabalho digno, direitos das mulheres e o endosso à medida do
governo federal que baniu as empresas de apostas online.
Beatriz
Besen, coordenadora do projeto, chama atenção para o fato de que, apesar das
diferenças, as candidatas dos três campos políticos muitas vezes usaram as
mesmas palavras, inclusive as jovens de direita e esquerda.
Saúde,
escuta, acolhimento, comunidade, esperança e sonhos apareceram de maneira
relevante e em proporções semelhantes nos dois campos, ainda que tenham sido
menos disseminados na extrema-direita.
"Isso
sugere que, apesar das diferenças ideológicas, existe um repertório
compartilhado de atenção às necessidades das pessoas e de expectativas sobre o
futuro", ressalta ela, que é pós-doutoranda no Núcleo de Pesquisa em
Psicologia Política e Movimentos Sociais (NUPMOS-PUCSP).
Mulheres
de extrema-direita e esquerda compartilharam o uso de termos relacionados à
política nacional, como "Lula", "presidente" e
"partido", mas aí usados com sinais opostos - um lado para apoiar e o
outro, para atacar.
Já
entre as mulheres de direita e extrema-direita, a principal referência
compartilhada foi a Deus.
A
identidade religiosa foi expressada entre 8 das 12 jovens eleitas nas direitas,
com preponderância da fé católica, mencionada pelas candidatas Amanda Gentil
(PP-MA), Chiara Biondini (PL-MG), Eduarda Campopiano (PL-SP), Marília Amaral
(PL-MG) e Julia de Castro (PL-RJ).
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Das curtidas aos votos
Eduarda
Campopiano foi a que recebeu maior volume de interações nas redes sociais e de
votos, mas essa relação não é uma regra. O relatório deixa claro que
engajamento não é sinônimo de sucesso na urna.
Julia
de Castro, por exemplo, teve a segunda maior média de interações por
publicação, mas ocupou a oitava posição na votação, enquanto Ana Elisa alcançou
a segunda maior com uma média de repercussão mais baixa.
Comparando
Ana Elisa e Campopiano, o relatório aponta que a última postou menos e engajou
mais: olhando para o Instagram, foram 37 publicações durante a campanha com
3,25 milhões de interações contra 107 posts de Ana Elise com 1,02 milhões de
interações.
Olhando
para o crescimento do perfil, contudo, Ana Elisa cresceu mais. Foram 109,5 mil
novos seguidores durante a campanha, além de outros 273,8 mil nos dias 4 e 5 de
outubro; Campopiano, por sua vez, expandiu em 85,1 mil seus seguidores na
campanha, ganhando outros 138 mil logo após o primeiro turno.
Além
disso, as redes são importantes, mas elas não funcionam sozinhas, destaca
Beatriz Besen.
Em
paralelo, as forças mais tradicionais que influenciam no grau de acesso dos
jovens à política institucional continuam atuando.
Isso
fica claro quando se olha para as conexões políticas das jovens eleitas, também
detalhadas no relatório.
Das 18,
pelo menos 10 têm vínculos familiares com lideranças políticas.
Cibele
Moura (MDB-AL) é filha de lideranças políticas municipais em Alagoas e bisneta
do ex-deputado federal Abrahão Moura.
Gabi
Gonçalves (MDB-AL) é filha do ex-prefeito de Rio Largo Gilberto Gonçalves e da
ex-vice-prefeita Cristina Gonçalves.
Teca
Nelma (PT-AL) é filha da ex-deputada federal Tereza Nelma e Amanda Gentil
(PP-MA) é filha de Fábio Gentil, ex-prefeito de Caxias.
Chiara
Biondini (PL-MG) é filha do deputado federal Eros Biondini (PL-MG) e Maria
Clara Marra (PSDB-MG) é filha de Deiró Marra, ex-deputado estadual e
ex-prefeito de Patrocínio.
Já
Bella Carmelo (PL-CE) é esposa de Carmelo Neto (PL-CE), eleito deputado federal
depois de exercer mandato na Assembleia Legislativa do Ceará.
Paloma
Nunes (PSB-CE) era primeira-dama de Tianguá e é esposa do prefeito Alex Nunes
(Republicanos-CE).
Marília
Amaral (PL-MG) é esposa do deputado federal Junio Amaral (PL-MG).
Natália
do Júnior Garimpeiro (União-MA), por sua vez, mantém relação conjugal com
Júnior Garimpeiro (União-MA), prefeito de Centro Novo do Maranhão.
E 11 já
exerciam mandato, o que significa que já haviam construído experiência,
visibilidade e bases eleitorais em outros cargos.
Cinco
foram reeleitas - Cibele Moura (MDB-AL), Gabi Gonçalves (MDB-AL), Amanda Gentil
(PP-MA), Chiara Biondini (PL-MG) e Maria Clara Marra (PSDB-MG) - e outras seis
foram eleitas para um cargo diferente - Teca Nelma (PT-AL), Bella Carmelo
(PL-CE), Açucena (PT-ES), Ana Júlia (PT-PR), Duda Hidalgo (PT-SP) e Eduarda
Campopiano (PL-SP).
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A batalha das redes
A
análise das campanhas digitais de mulheres jovens evoca uma reflexão mais ampla
sobre o uso das redes sociais pelos diferentes campos ideológicos.
No
decorrer da última década se consolidou a avaliação de que a direita foi a
primeira a usar as ferramentas digitais como alavanca eleitoral, no Brasil e
internacionalmente.
Desde a
eleição de Jair Bolsonaro em 2018 com uma campanha construída com memes e
cortes que se encaixam na lógica do algoritmo, que privilegia conteúdos que
despertam emoções fortes, há um debate sobre o desempenho modesto da esquerda
nessa nova arena da disputa política.
Olhando
para as eleições de 2026, Beatriz Besen avalia que a direita segue à frente.
Ela
aponta que, enquanto a extrema-direita testou nomes com potencial de
crescimento digital nas últimas eleições municipais, aprendeu com os resultados
e conseguiu amplificá-los neste ano, a esquerda apostou pouco em nomes
estreantes e segue buscando uma fórmula para navegar nesse universo.
Em um
vídeo publicado após o primeiro turno, Ana Elisa tocou nesse assunto.
Compartilhando a lista dos 10 deputados e deputadas federais mais bem votados
nesta eleição, ela ressaltou que o ponto em comum entre todas elas era
justamente a rede social
"Essas
pessoas aqui não são analógicas", afirmou, emendando que chegou a ser
boicotada por setores da própria esquerda durante a campanha, que, na sua
experiência, tratou a rede social como "demérito".
"Eu
poderia ter feito muito mais, se eu não tivesse que estar perdendo tempo
provando que rede social elege, porque eu tinha que ao mesmo tempo que fazer
campanha e ficar provando pro próprio campo que rede social é importante",
disse Ana Elisa.
Besen
acrescenta que, apesar das dificuldades, a esquerda teve experiências digitais
interessantes nesta eleição, considerando também uma faixa expandida de
candidatas jovens até os 34 anos, "que mostraram que mesmo não adotando o
vocabulário e a retórica da extrema-direita, ainda assim é possível usar
estratégias de engajamento e formatos que aproximam [os eleitores] para
fortalecer as campanhas".
A
pesquisadora ressalta que, apesar do caminho menos focado no embate traçado por
algumas candidaturas, o algoritmo segue privilegiando temas polêmicos e a
mobilização de afetos — e a estratégia de confronto foi usada em algumas
campanhas jovens da esquerda, principalmente de homens, a exemplo de Pedro
Rousseff (PT-MG), de 26 anos, eleito deputado federal, e Leonardo Grandini
(PT-SP), de 24 anos, e Guilherme Cortez (PSOL-SP), de 28 anos, ambos eleitos
deputados estaduais.
Rousseff
e Cortez estão entre os jovens políticos eleitos com forte presença digital que
foram a Brasília logo após o primeiro turno se reunir com o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva para tentar fortalecer sua campanha nas redes. Entre as
jovens eleitas estiveram Ana Elisa e Ana Júlia.
Fonte:
BBC News Brasil

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