sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Por que latino-americanos (incluindo brasileiros) preferem a influência da China à dos EUA

A pesquisa Latinobarómetro 2026, realizada em 17 países da América Latina, revelou que, pela primeira vez, a China superou os Estados Unidos em termos de “influência positiva” na região na visão dos latino-americanos. De acordo com o levantamento, nos últimos seis anos, a percepção em relação à influência positiva de Pequim passou de 48% para 65%. No mesmo período, essa influência de Washington encolheu de 60% para 57%. Outros números da pesquisa Latinobarómetro, que tem sede em Santiago, no Chile, mostram ainda que a opinião negativa em relação aos Estados Unidos na América Latina passou de 28% para 37% entre 2020 e 2026. Já a da China caiu de 37% para 26% no mesmo período.

<><> Motivos

Em entrevista ao Brasil 247, a diretora da Latinobarómetro, Marta Lagos, disse que o retorno de Donald Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, com o olhar (e intervenções) na América Latina, tem forte impacto nesta visão dos latino-americanos. Ou seja, apesar das recentes associações dos governos da América Latina de extrema-direita e da direita tradicional com Trump e da união deles no chamado ‘Escudo das Américas’, a percepção da população é outra. “Uma coisa são as decisões dos governos em relação a Trump e a outra a percepção das pessoas, das populações”, disse Lagos, falando de Santiago. Desde o retorno de Trump à Presidência dos Estados Unidos, em 2025, vários países latino-americanos elegeram presidentes conservadores. Foram os casos do Equador, da Bolívia, do Peru, do Chile, da Colômbia, da Costa Rica e de Honduras, além da Argentina, que elegeu Milei em 2023.

<><> “Escudo limitado”

Marta Lagos não acredita que a união de presidentes da direita e da extrema-direita no chamado ‘Escudo das Américas’ resultará numa “união” regional. Para ela, o diálogo e os acordos não são simples entre líderes da nossa região. E existe ainda a dúvida sobre o que acontecerá nesta relação dos países da América Latina com o governo Trump, caso seu partido, o Partido Republicano, perca as eleições legislativas de novembro, como apontam pesquisas de opinião. A iniciativa de Trump ‘Escudo das Américas’ prevê, segundo analistas, o uso militar no combate ao crime, além da exploração de recursos naturais que podem beneficiar os Estados Unidos.

<><> China

Na opinião de Marta Lagos, os Estados Unidos deixaram um “vazio” na América Latina a partir do atentado às Torres Gêmeas, em 2001, quando os governos norte-americanos colocaram o foco no Oriente Médio.

“Desde então, a China cresceu muito nos países latino-americanos. Seus produtos, que antes eram vistos como de má qualidade, já não são mais. Há investimentos importantíssimos como o Porto de Chancay, no Peru, carros chineses, tecnologia de ponta. Enfim, a China é hoje muito importante na região e as populações percebem, sabem disso”, afirmou. Entre os 17 países onde a pesquisa foi realizada, somente a Costa Rica e a República Dominicana mantêm Washington à frente de Pequim em termos de “influência positiva”.

<><> Principal parceiro comercial

O país asiático é hoje o principal parceiro comercial da grande maioria dos países latino-americanos. Uma das poucas exceções é o Paraguai, vizinho do Brasil, que tem relação tradicional com Taiwan. Os investimentos chineses na região incluem automóveis, infraestrutura, mineração, como lítio e cobre, transição energética, entre outros. O Porto de Chancay é uma verdadeira cidade, com tecnologia avançadíssima, com objetivo de ligar as exportações da América do Sul ao território chinês, através do Oceano Pacífico.

<><> “Escudo das Américas não caiu bem”

A trajetória dos Estados Unidos de interferências na América Latina durante os períodos de ditaduras militares e agora, com a iniciativa do Escudo das Américas, “ficam na memória e não caem bem” nas populações da nossa região, disse Lagos. No levantamento da Latinobarómetro, observa-se que os Estados Unidos continuam ‘populares’, mas com a menor opinião positiva de tempos atrás, especialmente depois do retorno de Trump ao poder.

<><> “Trump chegou tarde”

Na visão da especialista, Trump pode ter chegado “tarde” com suas ações intensas na região porque a China já é fortemente presente na América Latina. “As políticas chinesas são feitas com paciência e no longo prazo. Essa é a realidade”, disse. “Além disso, é muito difícil competir com os produtos chineses. Não só na América Latina, mas na Europa e em outras partes do planeta”.

<><> Sul Global

A economia chinesa é a segunda maior do mundo, depois da dos Estados Unidos, e o país asiático é fundamental na articulação do Sul Global, que reúne os países em desenvolvimento, como os que formam o BRICS (em tempo: não deixem de assistir à entrevista da ex-presidenta Dilma Rousseff, presidente do ‘Banco do BRICS’). A América Latina sozinha tem 600 milhões de habitantes e é um ator importante no tabuleiro global. Parte do Sul Global, junto com a Ásia e a África, indica, atualmente, uma nova percepção sobre a China em termos gerais, como indica Latinobarómetro. “Estamos como no fim da Segunda Guerra Mundial, com o mundo se reorganizando. Esta reorganização surgiu depois da pandemia, do retorno de Trump e das mudanças tecnológicas. Estamos num período de reagrupamento”, observou nossa entrevistada.

<><> China exporta US$ 216 bi em chips em 7 meses e supera carros como principal venda externa

A China exportou US$ 216 bilhões em circuitos integrados nos primeiros sete meses de 2026, alta de 99,5% sobre o mesmo período de 2025, segundo dados oficiais chineses. O valor já supera os US$ 201,9 bilhões exportados em todo o ano passado e fez dos chips a maior categoria de venda externa do país.

Somente em julho, as exportações de semicondutores atingiram US$ 38,74 bilhões, com crescimento anual de 116,6%. A comparação com os carros mede a dimensão da virada: no primeiro semestre, a China vendeu ao exterior cerca de 5,3 milhões de veículos, no valor de US$ 91,8 bilhões, menos da metade do faturamento dos circuitos integrados no período.

A produção interna acompanhou o salto. Entre janeiro e junho, as fábricas chinesas produziram 279,8 bilhões de circuitos integrados, 23,1% mais que um ano antes, o equivalente a mais de 1,5 bilhão de unidades por dia. Em valor em yuanes, as exportações de chips cresceram 88,7% no primeiro semestre, contra 13,4% do conjunto das exportações chinesas.

Os números tributários mais recentes apontam aceleração ligada à inteligência artificial: entre janeiro e agosto, a receita da fabricação de circuitos integrados relacionados à IA cresceu 67,7%, frente a 7,3% da indústria chinesa como um todo. Centros de dados, servidores, veículos inteligentes e o treinamento de modelos puxam a demanda mundial por capacidade de processamento e memória.

A indústria mudou de postura, saindo da substituição de chips importados para a venda ao mercado internacional. O mercado doméstico gigante permite ganhar escala, reduzir custos e financiar novas gerações de tecnologia, a mesma dinâmica que transformou a China em potência mundial em baterias, painéis solares e veículos elétricos.

Desde 2022, o governo dos EUA mantém um sistema de restrições para impedir que a China adquira ou fabrique os semicondutores mais avançados. Os controles alcançam processadores para inteligência artificial, equipamentos de fabricação, software especializado, memórias de alto ancho de banda e transferências de tecnologia, e foram endurecidos sucessivamente à medida que as medidas anteriores perdiam efeito.

Os dados mostram que o cerco continua de pé no segmento de ponta, com os chips mais avançados ainda fora do alcance da indústria chinesa. No entanto, o volume exportador já evidencia que as restrições americanas não impediram a construção de uma cadeia própria de semicondutores de grande escala.

O próximo teste do modelo virá com os dados de exportação do segundo semestre, que indicarão se o ritmo de quase dobragem anual se sustenta diante do endurecimento adicional das regras americanas.

¨      Jamil Chade: Governo Trump envia centenas de soldados para a América Latina

Com o argumento de supostamente lutar contra o narcotráfico, o governo de Donald Trump está enviando para a América Latina centenas de soldados. Oficialmente, os militares vão participar de exercícios com outros governos da região. Mas o gesto ocorre num momento em que o Pentágono fala abertamente na militarização de sua presença no continente e no envio de drones para a região.

As informações estão sendo reveladas pelo jornal The New York Times e confirmam a tendência já mostrada pelo ICL Notícias de uma proliferação de ações militares dos EUA em locais como Equador, Peru e Colômbia, além de pactos militares com a Argentina de Javier Milei, Bolívia e Chile.

Uma das bandeiras da política externa de Trump é o Escudo das Américas, aliança militar com governos de extrema direita da região e que abre a possibilidade de um controle efetivo dos EUA sobre porções dos territórios do continente, além de garantir o acesso americano à inteligência militar da região. Flávio Bolsonaro já anunciou que, se vencer a eleição, pedirá a adesão do Brasil ao bloco criado pela Casa Branca, um gesto aplaudido por Marco Rubio, o chefe da diplomacia de Trump.

Desta vez, os 600 soldados terão sua base no Panamá e a perspectiva é de que essa unidade possa ser mobilizada e transferida para a Colômbia, Honduras e outros países da região nos próximos meses. Não se descarta que o grupo formado a partir da 10ª Divisão de Fort Drum seja destacado para operações específicas no continente ou para dar apoio a helicópteros americanos em missões no continente.

Enquanto isso, outros centenas de militares irão reforça, nos próximos meses, o Comando do Hemisfério Ocidental, com base em Miami.

A militarização da América Latina passou a ser uma das prioridades da política de defesa dos EUA. O governo Trump já realizou operações em diferentes países e fechou um acordo para o estabelecimento de uma base militar no Paraguai. Acordos bilaterais para dar maior acesso aos americanos foram fechados com pelo menos 18 países da região.

Em agosto, o principal comandante militar dos EUA para a maior parte da América Latina, o general Francis L. Donovan, afirmou que os Estados Unidos planejam expandir suas operações, passando de ataques a embarcações para ataques em terra.

Naquele mês, a Casa Branca anunciou a criação de uma central de inteligência que, sob o comando dos EUA, poderia atuar em toda a região.

Os países ainda seriam submetidos a entregar inteligência de pessoas e organizações, numa espécie de ofensiva regional contra qualquer ator que possa ser considerado como uma “ameaça” aos interesses dos EUA.

Hoje, o discurso é de que a ameaça vem dos cartéis. Mas há quem tema que a estrutura montada permitirá que os EUA se dêem todos os meios para frear qualquer tipo de ator que possa representar algum desafio para seus interesses.

<><> Recuperar terreno da China

O acesso aos recursos naturais, por exemplo, seria um desses cenários futuros, principalmente com a concorrência da China. Num documento que circulou em setembro entre os países do Escudo das Américas, o governo norte-americana fala abertamente na “salvaguarda do acesso a minerais críticos da região” como parte da missão.

Segundo o New York Times, no início desta semana, o general Joseph A. Ryan, que chefia o Comando do Hemisfério Ocidental do Exército, descreveu os desafios complexos que as forças armadas dos EUA enfrentam ao retornar a uma região que, por décadas, não foi seu foco principal.

“Trata-se de uma parte do mundo onde a China exerce uma influência econômica crescente e onde cartéis de drogas estabeleceram redes globais sofisticadas para a venda de seus produtos ilícitos, disse ele.

“Cedemos o domínio econômico na região a um adversário; isso é um fato”, declarou o general Ryan na segunda-feira, durante a conferência anual da Associação do Exército dos EUA, em Washington. “Estamos lutando agora para recuperar terreno — marítimo e terrestre, terreno humano, terreno cognitivo — que, em muitos casos, havíamos abandonado anteriormente.”

<><> Plano Condor 2.0

O ICL Notícias apurou que membros de forças de oposição em países latino-americanos que optaram por entrar no projeto falam da repetição da lógica do Plano Condor, criado nos anos 70 para coordenar ações contra atores subversivos na região. A diferença é que, naquele momento, a operação era sigilosa.

Dias antes do anúncio da construção concreta da aliança, o Comando Sul dos EUA ativou a Força-Tarefa Conjunta do Hemisfério Ocidental (JTF-WHEM). A estrutura, segundo nota do Pentágono, foi “criada especificamente para sincronizar as operações militares dos EUA com aliados e parceiros, a fim de combater ameaças, fortalecer a segurança regional e responder rapidamente a crises em todo o Hemisfério Ocidental”.

“O Comandante do SOUTHCOM, General Francis L. Donovan, ordenou a ativação da JTF-WHEM, que fornece comando e controle unificados nos níveis tático e operacional, integrando capacidades militares com as 18 nações parceiras da Coalizão Anticartel das Américas (A3C) para aumentar a eficácia operacional contra ameaças que prejudicam a segurança regional e impactam os Estados Unidos e as nações parceiras”, explicou.

De acordo com a nota, o órgão também fortalece a capacidade do SOUTHCOM de responder rapidamente a “contingências e crises humanitárias em toda a região”.

“A JTF-WHEM fortalece nossa capacidade de trabalhar ao lado de aliados e parceiros confiáveis, sincronizar capacidades militares e aplicar pressão sustentada contra as redes que ameaçam nossa segurança coletiva”, disse Donovan. “Juntos, estamos aumentando a segurança em todo o hemisfério e protegendo nossa pátria.”

Donovan selecionou o major-general do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, Kevin Jarrard, para comandar a nova força-tarefa. Jarrard foi quem liderou recentemente o apoio militar dos EUA às operações de socorro após os terremotos de junho de 2026 na Venezuela.

<><> Troca de inteligência

O que chamou a atenção de diplomatas estrangeiros e brasileiros é que a nova força-tarefa afirma que integra inteligência, vigilância e reconhecimento, planejamento operacional e coordenação multinacional para “aumentar a pressão sobre organizações nefastas que operam em todo o Hemisfério Ocidental”.

Um dos pontos centrais é o o fato de que “força-tarefa fortalecerá o compartilhamento de informações, expandirá o treinamento combinado, aprimorará a interoperabilidade, apoiará os esforços de interdição marítima, desenvolverá a capacidade dos parceiros e permanecerá preparada para fornecer assistência humanitária e resposta a desastres quando solicitada”.

“A Força-Tarefa Conjunta do Hemisfério Ocidental é o braço de ação do SOUTHCOM para enfrentar ameaças em todo o hemisfério”, disse Donovan. “Construído especificamente para esse fim e organizado para tarefas específicas, este quartel-general reúne capacidades militares personalizadas e parcerias de confiança para aumentar a fricção sistêmica total, o ritmo operacional, impor pressão sustentada sobre organizações criminosas e fortalecer a segurança dos Estados Unidos e de nossos parceiros. Juntamente com as 18 nações, estamos mudando a forma como enfrentamos essas ameaças”, completou.

 

Fonte: Por Marcia Carmo, em Brasil 247/O Cafezinho/Viomundo

 

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