quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Estudo revela práticas antiéticas na saúde brasileira

Um estudo do IES (Instituto Ética Saúde) em parceria com o Grupo de Pesquisa Contratações Públicas da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) identificou 49 práticas antiéticas na rede de saúde brasileira.

Entre as práticas reconhecidas estão fraudes em licitações, direcionamento de editais, pagamento de vantagens indevidas, conflitos de interesse, glosas abusivas, negativas de cobertura por planos de saúde, desvio de recursos públicos, reprocessamento irregular de materiais descartáveis, comercialização de produtos sem registro sanitário e uso inadequado de dados e inteligência artificial.

Para a análise, os pesquisadores reuniram registros institucionais, casos concretos, denúncias recebidas, informações obtidas em acordos de cooperação e análises técnicas produzidas ao longo de dez anos.

Com os materiais, criaram um sistema de classificação que identifica padrões de comportamento, estabelece critérios para avaliação de riscos e apoiar estratégias de prevenção em diferentes segmentos da cadeia da saúde.

A partir desse sistema, foi possível calcular a frequência em que as práticas antiéticas ocorrem e classificá-las em dez categorias temáticas.

O Poder Público e a Saúde Suplementar lideram o ranking, com nove práticas antiéticas identificadas. Logo abaixo, aparecem Conflito de Interesses, com oito práticas; Regulatório/Sanitário, com quatro; Faturamento/Tributário, Ética Profissional, Fraudes Administrativas e Organizações Sociais (OSS), com três cada; e Segurança Assistencial e Dados/Inteligência Artificial, com duas práticas cada.

Os pesquisadores entendem a partir dos dados que comportamentos antiéticos raramente surgem de maneira isolada. Na maioria das vezes, esse tipo de comportamento está associado a fragilidades de governança, falhas de controle, conflitos de interesse e incentivos econômicos inadequados.

Além disso, destacam que as práticas antiéticas e seus impactos vão além das organizações diretamente envolvidas, pois as práticas provocam desperdício de recursos, comprometem a eficiência das compras públicas e privadas, distorcem a concorrência entre empresas, fragilizam a confiança nas instituições e podem limitar o acesso da população a produtos, tecnologias e serviços de saúde.

O presidente executivo do IES, Sérgio Rocha, explica que "O enfrentamento das práticas antiéticas exige mais do que mecanismos de punição. É preciso compreender como esses comportamentos se manifestam, em quais ambientes ocorrem e quais fatores favorecem sua repetição. Ao organizar essas condutas em um sistema estruturado de classificação, o estudo oferece uma base técnica para fortalecer programas de integridade, aperfeiçoar controles internos e estimular uma cultura de prevenção em toda a cadeia da saúde."

Além de apoiar organizações na identificação de riscos, os autores defendem que a sistematização das práticas pode contribuir para o desenvolvimento de indicadores setoriais, subsidiar pesquisas acadêmicas, aperfeiçoar mecanismos de controle e fomentar políticas públicas voltadas ao fortalecimento da integridade na saúde.

•        Quando informação demais começa a fazer mal à saúde

Nunca tivemos tanto acesso à informação sobre saúde. Em poucos segundos, qualquer pessoa pode encontrar vídeos sobre colesterol, hormônios, alimentação, câncer, vitaminas, medicamentos e praticamente qualquer doença. No Dia Nacional da Saúde, nesta quarta-feira (5), o clínico geral Dr. Alfredo Salim Helito alerta: o problema das redes sociais não é apenas a mentira, mas a informação médica verdadeira usada fora de contexto.

Seria razoável imaginar que uma sociedade mais informada se tornaria necessariamente mais saudável. O que vejo no consultório, porém, mostra que essa relação não é tão simples.

Cada vez mais pacientes chegam não apenas com sintomas, mas com um diagnóstico pronto, uma lista de exames que desejam fazer e, algumas vezes, até com o tratamento escolhido. O médico passa parte da consulta explicando por que aquilo que pareceu tão convincente em um vídeo de 60 segundos não necessariamente se aplica àquela pessoa.

Esse talvez seja um dos grandes desafios atuais da medicina: nunca tivemos tanta informação disponível e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade para separar conhecimento de ruído.

<><> O problema não é apenas a fake news

É relativamente fácil combater uma mentira evidente. Mais difícil é lidar com uma informação verdadeira transformada em regra universal.

A creatina é um bom exemplo. É uma substância amplamente estudada, com benefícios bem estabelecidos em determinadas situações e um perfil de segurança conhecido quando utilizada adequadamente. Isso é muito diferente de concluir que todo mundo precisa tomar creatina.

O mesmo acontece com vitaminas e suplementos. Uma deficiência de vitamina D deve ser corrigida. Isso não significa que doses elevadas sejam benéficas para qualquer pessoa. Ferro é essencial para quem apresenta deficiência, mas não deve ser usado indiscriminadamente.

Nas redes sociais, porém, frequentemente desaparecem as palavras que são fundamentais para a medicina: “depende”, “em alguns pacientes”, “quando indicado”.

E surgem recomendações ainda mais preocupantes.

Há quem defenda gotas de iodo como estratégia para melhorar metabolismo, disposição ou funcionamento da tireoide sem que exista deficiência comprovada. O excesso de iodo, entretanto, pode provocar alterações justamente na glândula que se pretende “proteger”.

Também aparecem versões supostamente mais saudáveis do sal, como sal rosa, marinho ou “integral”, acompanhadas da ideia de que poderiam ser consumidas com maior liberdade. Independentemente da origem ou dos minerais presentes em pequenas quantidades, o principal componente continua sendo cloreto de sódio. Para pressão arterial e risco cardiovascular, a quantidade consumida continua sendo o que mais importa.

Poderíamos acrescentar à lista a retirada indiscriminada do glúten por pessoas sem doença celíaca ou indicação clínica, hormônios vendidos como caminho para rejuvenescimento e suplementos prometendo melhorar imunidade, memória, sono, músculos e longevidade.

O padrão é quase sempre o mesmo: existe uma pequena verdade científica, mas ela é ampliada até se transformar em uma promessa que a ciência nunca fez.

<><> Quando o algoritmo entra no consultório

As redes sociais ainda acrescentaram um componente novo a esse fenômeno: o algoritmo.

Quem assiste a um vídeo dizendo que determinado sintoma pode ser causado por falta de uma vitamina provavelmente receberá outros vídeos semelhantes. Depois de algum tempo, aquela hipótese começa a parecer uma certeza.

E existe outra diferença fundamental. Ciência trabalha com dúvida, probabilidade e revisão permanente do conhecimento. As redes sociais premiam certezas, frases categóricas e soluções simples.

“Pode funcionar em determinadas situações” dificilmente terá a mesma força de “faça isso todos os dias”.

Só que medicina não funciona dessa maneira.

Uma mesma queixa de cansaço pode ter dezenas de explicações. Uma alteração em um exame pode ser relevante para uma pessoa e praticamente irrelevante para outra. Um medicamento excelente para determinado paciente pode ser inadequado para seu vizinho.

<><> Precisamos recuperar o valor do contexto

Isso não significa que as pessoas devam deixar de pesquisar sobre saúde. Pelo contrário. Um paciente bem informado participa melhor das decisões sobre seu tratamento e consegue fazer perguntas mais qualificadas.

O que precisamos recuperar é a capacidade de avaliar a informação.

Quem está fazendo aquela afirmação? Existe evidência científica? Há consenso entre especialistas? Estão vendendo alguma coisa? A recomendação serve para todos ou depende de diagnóstico? Existem riscos que não estão sendo mencionados?

E talvez a pergunta mais importante seja: isso faz sentido para mim?

No Dia Nacional da Saúde, essa reflexão se tornou necessária. Durante décadas, nossa preocupação foi ampliar o acesso da população à informação médica. Agora temos um desafio adicional: ensinar a navegar por uma quantidade quase infinita de informações.

A ciência raramente oferece respostas milagrosas ou universais. Ela trabalha com evidências, contexto e individualidade. Na saúde, informação é fundamental. Mas informação sem contexto também pode se transformar em desinformação.

 

Fonte: Brazil Health

 

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