Quilombolas
denunciam impactos da mineração de areia no sul da Bahia
Localizado
a cerca de 30 quilômetros do centro de Camamu, no sul da Bahia, o Quilombo do
Pratigi é acessado por uma estrada de terra que corta áreas de Mata Atlântica,
manguezais e roças tradicionais. É nesse espaço, inserido na Área de Proteção
Ambiental (APA) Baía de Camamu, que famílias quilombolas vivem há mais de um
século da pesca, da mariscagem e do extrativismo da piaçava.
Nos
últimos anos, no entanto, esse modo de vida passou a conviver com o tráfego
intenso de caminhões, o ruído constante de motores e os impactos associados à
extração de areia na região.
“Se
mexer aqui, não mexe só na terra. Mexe na vida inteira da comunidade.” A frase,
dita por um morador do Pratigi que não quis se identificar, ajuda a dimensionar
o que está em jogo. A economia local depende diretamente da integridade dos
rios, estuários e manguezais que cercam o quilombo. Qualquer alteração nesses
ecossistemas se reflete de forma imediata na segurança alimentar, na saúde e na
permanência das famílias no território. É nesse ponto que o conflito deixa de
ser abstrato e passa a se manifestar no cotidiano.
“Hoje a
gente vive aflito pelo agora. E com medo do que ainda pode vir”, resume outra
moradora, que lembra de outros projetos minerários ainda mais agressivos
previstos para o entorno da comunidade tradicional. Como o da multinacional
Knauf, que adquiriu uma mina de gipsita, matéria-prima do gesso, próxima ao
quilombo. E que, de acordo com o governo baiano, dará início aos trabalhos
ainda este ano.
Os
nomes dos entrevistados foram omitidos devido às ameaças que, em denúncia à
Mongabay, os quilombolas afirmam sofrer sempre que tentam buscar uma solução
viável para viver com dignidade em seu próprio território.
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Tradição em risco
A
história do Pratigi é marcada por deslocamentos forçados e resistência. No
final do século 19, a família Barros iniciou uma trajetória de fuga após a
destruição de um quilombo no município de Gandu (BA), em 1883. A caminhada
incluiu passagens por Itacaré e outras regiões do sul da Bahia, sempre sob
ameaça de jagunços a serviço de fazendeiros interessados na apropriação das
terras.
Somente
em 1908 o grupo conseguiu reunir recursos próprios para comprar legalmente a
área conhecida como Pratigi dos Cubículos. Esse dado ocupa lugar central na
identidade da comunidade: diferentemente de muitos territórios quilombolas, o
Pratigi não foi apenas ocupado, mas adquirido por seus próprios moradores.
Ainda assim, o reconhecimento institucional foi tardio. A certificação como
comunidade remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares só ocorreu
um século depois, em 2008.
No
centro da vida comunitária permanece a capela de taipa dedicada a Santo
Antônio. Mais do que um espaço religioso, ela funciona como referência
simbólica, política e territorial. É em torno dela que se organizam festas,
reuniões e alianças, reafirmando uma relação com a terra baseada no uso
cotidiano, na memória ancestral e na permanência.
Esse
equilíbrio, no entanto, começou a ser tensionado no início dos anos 2000, com a
instalação de empreendimentos minerários voltados à extração de areia e gesso
na região. A partir desse momento, o tráfego de caminhões pesados passou a
fazer parte da rotina do Pratigi, alterando não apenas a paisagem, mas também a
percepção de segurança e bem-estar da comunidade.
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Viver sob a poeira
A. C.,
de 35 anos, mãe de três filhos, relata que atividades simples do cotidiano
passaram a depender do movimento da estrada. “Tem hora que não adianta limpar a
casa. A poeira volta rápido”, conta. Segundo ela, o barulho começa ainda de
madrugada e, em alguns períodos, se estende até a noite. A frequência dos
caminhões também afetou a estrutura da sua casa, que, devido aos tremores,
apresenta várias rachaduras.
Os
moradores associam a intensificação do tráfego e da poeira ao aumento de
problemas respiratórios, dores de cabeça e náuseas. A. C. afirma que a situação
se agrava nos períodos mais secos. “Com a estrada seca, fica impossível
conviver com isso aqui. Às vezes é necessário sair de casa”, relata. “Eu e meus
filhos já tivemos problemas respiratórios, fortes dores de cabeça. Não é
fácil!”
Os
impactos não ficam só na saúde. Para os quilombolas do Pratigi, a mineração
mexe com o coração do território, especialmente com o manguezal. Não é só
paisagem: é dali que saem o peixe, o marisco, o sustento de gerações inteiras.
M. S., liderança nascida e criada na comunidade, explica que qualquer
intervenção nesse sistema atinge a vida de quem mora ali. “Tudo aqui depende do
mangue. O peixe, o marisco, [o caminho d]a canoa. Quando mexe ali, mexe com a
vida da gente”, afirma.
Segundo
os moradores, as atividades minerárias provocaram aterros, alterações nos
cursos d’água e dificuldades de acesso a áreas tradicionalmente utilizadas por
pescadores e marisqueiras. Além disso, as escavações destruíram nascentes que
abasteciam a comunidade. Essas violações motivaram os quilombolas a buscar
apoio institucional.
Em
2017, os moradores do Pratigi formalizaram denúncias junto à Procuradoria da
República em Ilhéus. Nos relatos encaminhados ao Ministério Público Federal, a
comunidade apontou supressão de vegetação nativa, deposição de areia nos
estuários, poluição sonora persistente, poeira excessiva e episódios de
intimidação. Entre as acusações mais graves estavam ameaças armadas e o
bloqueio de caminhos tradicionais que garantiam o acesso ao manguezal.
As
denúncias deram origem a um inquérito civil que passou a apurar a atuação da
empresa Alfa Materiais para Construção de Camamu (conhecida como Areal Alfa),
que atua com a extração de areia na região do Pratigi. Em 2021, a empresa teve
a licença ambiental negada. Apesar disso, segundo os moradores, os impactos
associados à atividade minerária não cessaram.
“Mesmo
sem licença, a gente continua sentindo os efeitos. O caminhão continua
passando, a poeira continua aqui, a areia segue sendo retirada e o mangue tá lá
assoreando”, afirma um morador da comunidade. Prática também flagrada pela
reportagem da Mongabay.
O
Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia, o Inema, confirmou que
a empresa atua sem licenciamento. Contudo, não se pronunciou sobre quais
medidas o órgão adotou para coibir a atividade irregular, se houve aplicação de
autos de infração, embargos ou apreensão de equipamentos, nem sobre a
realização de novas fiscalizações no território após a negativa da licença.
A
Mongabay fez contato com a Alfa, mas até a publicação da reportagem não obteve
retorno.
Segundo
os moradores, a frequência de caminhões circulando pelo território tem causado
danos às estruturas das casas. Foto: Leandro Barbosa.
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Acácias no manguezal
Em
2022, o Ministério Público Federal (MPF) realizou uma vistoria técnica na área
indicada nas denúncias. O parecer concluiu que, no momento da inspeção, a lavra
estava desativada e que a área anteriormente explorada passava por um processo
de recuperação ambiental.
O
próprio relatório, no entanto, trouxe ressalvas importantes. A recomposição da
área, feita pela Areal Alfa, ocorreu por meio do plantio de Acacia mangium, uma
espécie exótica frequentemente utilizada em projetos de recuperação por seu
crescimento rápido. Os peritos alertaram que, por não ser nativa, essa espécie
de acácia pode alterar relações ecológicas pré-existentes e representar riscos
à fauna e à flora locais.
Essa
avaliação técnica encontra eco nas falas da comunidade. Para C. F., o conceito
de recuperação adotado nos autos é insuficiente. “Recuperar não é só plantar
qualquer árvore. Espécies introduzidas não cumprem o mesmo papel ambiental das
plantas nativas, nem garantem o uso tradicional da terra”, afirma.
Como
suas sementes são leves e se espalham facilmente, os quilombolas afirmam que a
árvore tem tomado o lugar de outras espécies da região. E que, inclusive, já
encontram mudas dessa acácia nascendo até mesmo dentro dos manguezais. Embora o
MPF tenha ressaltado “que o processo de substituição da espécie exótica deva
ocorrer paulatinamente, evitando a retirada simultânea de todos os indivíduos”,
de acordo com os quilombolas, isso não tem sido feito. O Inema não respondeu
como e se tem acompanhado esse processo.
Apesar
dessas observações, em fevereiro de 2024, a 6ª Câmara de Coordenação e Revisão
do Ministério Público Federal homologou o arquivamento do inquérito ambiental,
sob o entendimento de que não foram comprovadas infrações ambientais no recorte
temporal analisado A decisão, contudo, reconheceu que as denúncias de
intimidação e violação de direitos extrapolavam a esfera ambiental e deveriam
seguir sob análise de ofícios especializados em comunidades tradicionais.
Em
nota, o Ministério Público Federal informou que todos os casos envolvendo
comunidades tradicionais são acompanhados por procuradores específicos, de
acordo com o local e a natureza dos fatos. O órgão acrescentou que, embora
reconheça a importância do trabalho jornalístico, opta por não conceder
entrevistas ou fornecer informações detalhadas em alguns casos, por entender
que a exposição pública pode agravar tensões e colocar comunidades em risco.
A
Defensoria Pública da União, por sua vez, informou que a Defensoria Regional de
Direitos Humanos na Bahia entrou em contato recentemente com a comunidade do
Pratigi e que está reunindo documentos para analisar que tipo de assistência
poderá ser prestada.
Apesar
da pressão, o quilombo segue em movimento. A casa de farinha comunitária, o
trabalho artesanal com a piaçava e a organização política por meio da
associação local mantêm a vida cotidiana ativa. A festa de Santo Antônio
continua sendo um espaço central de articulação política e afirmação
territorial.
Para o
povo do Pratigi, a terra não é um recurso a ser explorado até o esgotamento. É
um patrimônio construído pela permanência, pela memória e pela resistência.
Entre decisões administrativas que encerram processos e impactos que seguem
sendo sentidos no território, a comunidade reafirma que o direito à terra, à
saúde e ao modo de vida permanece em disputa – e não está encerrado nos autos.
Fonte:Mongabay

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