quinta-feira, 2 de abril de 2026

Estudo brasileiro mostra vantagem do cateterismo sobre cirurgia torácica

Dois médicos brasileiros apresentaram no fim de março, em Nova Orleans, nos Estados Unidos, um estudo do instituto Dante Pazzanese de Cardiologia que compara valve in valve mitral por cateter com reoperação por cirurgia de peito aberto.

Em um ano, a taxa combinada de morte ou AVC incapacitante foi de 5,3% no grupo tratado por cateter e 20,8% no grupo cirúrgico. O procedimento por cateter também apresentou menos complicações imediatas, incluindo menor mortalidade precoce, menos sangramento e menor risco de lesão renal.

O estudo, coordenado pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia e liderado pelo médico Dimytri Siqueira, avaliou pacientes que já haviam sido submetidos a cirurgia valvar. Os pacientes tinham idade média de 58 anos e a maioria eram mulheres. Setenta por cento apresentavam hipertensão pulmonar. Em média, passaram-se cerca de 14 anos desde a operação anterior.

Siqueira explicou que o estudo avaliou pacientes já submetidos a troca da válvula mitral e comparou nova cirurgia com implante por cateter. “Em pacientes operados previamente, em um ano, o implante por cateter reduziu morte, AVC e complicações.”

Em um ano, a taxa de morte ou AVC incapacitante foi de 5,3% no grupo valve in valve mitral e 20,8% no grupo submetido à reoperação por cirurgia, segundo a pesquisa. No curto prazo, o tratamento por cateter mostrou menos complicações imediatas, com menor mortalidade precoce, menos eventos hemorrágicos e menor incidência de lesão renal.

O cardiologista e diretor do instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, Fausto Feres, explicou por que o valve in valve mitral apresentou menor mortalidade e AVC.

“O procedimento do válvula em válvula mitral teve menor mortalidade e AVC principalmente devido ao alto risco cirúrgico que esses pacientes apresentam. Eles têm pressão arterial pulmonar elevada. No pós operatório, passam por intubação prolongada, acabam tendo mais infecções pulmonares, mais disfunção renal e acabam tendo uma maior mortalidade.”

Feres explicou as diferenças técnicas entre as abordagens e ressaltou a consequência clínica da técnica por cateter. Ele afirmou que o procedimento não exige abertura do tórax e proporciona recuperação rápida. “O resultado é imediato e a melhora é significativa, com alta em um ou dois dias.”

Ele comentou sobre indicação e seleção dos pacientes. Segundo Feres, aqueles com hipertensão arterial pulmonar já instalada, por causa do longo curso da doença valvar mitral, devem ser preferencialmente tratados com válvula em válvula mitral.

“Quando se pega uma população como essa, a superioridade do válvula em válvula mitral, pelo menos com um ano de seguimento, é nítida”, disse ele. Feres acrescentou que pacientes mais jovens, com risco cirúrgico menor ou candidatos a prótese metálica, continuam podendo ser indicados para cirurgia.

<><> Distanciamento da última cirurgia

Sobre o tempo desde a última cirurgia, Feres afirmou que o intervalo médio de cerca de 14 anos contribui para degeneração da prótese e piora das condições cardíacas e pulmonares, o que favorece a indicação do procedimento por cateter.

Ele citou também a existência de filas de espera nos hospitais, com esperas de seis meses a um ano, que podem agravar o quadro dos pacientes e influenciar a decisão pelo método menos invasivo.

Na apresentação em Nova Orleans, a recepção do estudo foi favorável, segudo o médico, mas surgiram pedidos por dados de seguimento mais longo. Feres afirmou que a durabilidade da prótese implantada por cateter além de um ano ainda precisa ser avaliada.

Ele informou que os pacientes do estudo serão acompanhados anualmente com exames como ecocardiograma e tomografia para verificar se os resultados se mantêm ao longo do tempo.

Quanto à adoção mais ampla do valve in valve mitral no Brasil, Feres apontou barreiras: necessidade de treinamento e de centros especializados, capacitação por meio de proctors (supervisores de treinamento), custos e ausência de reembolso sistemático pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e por planos de saúde.

Ele disse que a disponibilidade de dispositivos não é o principal entrave. Feres concluíu que a técnica deve ser implementada em centros especializados e que o próximo passo é o acompanhamento de médio e longo prazo para avaliar a durabilidade do tratamento.

•        Parar de tomar aspirina após infarto não é seguro, diz estudo brasileiro

Um estudo brasileiro mostrou que parar de usar aspirina nos primeiros meses após um infarto não é seguro, podendo aumentar o risco de um segundo infarto, derrame e trombose. A pesquisa foi liderada pelo Einstein Hospital Israelita e é um dos destaques do congresso anual da European Society of Cardiology (ESC), que acontece em Madri, na Espanha, e termina nesta segunda-feira (1º).

A pesquisa NEO-MINDSET acompanhou por 12 meses mais de 3.400 pacientes com síndromes coronarianas agudas e avaliou se seria seguro suspender o uso da aspirina após a angioplastia com stent -- um procedimento minimamente invasivo usado para desobstruir artérias --, mantendo apenas um medicamento antiplaquetário (usado para evitar a formação de coágulos sanguíneos).

"Quando acontece um infarto, há a formação de placas de gordura nas artérias e, por vezes, a formação de coágulos, obstruindo a passagem de sangue para o coração. Por isso, existe a necessidade de desobstruir imediatamente a artéria para restabelecer o fluxo de sangue para aquela região", explica Pedro Lemos, diretor da Cardiologia do Einstein Hospital Israelita e autor sênior da pesquisa à CNN.

"Isso pode ser feito de maneira medicamentosa, com uma medicação que solva o coágulo, mas o tratamento mais eficiente é fazer a desobstrução com o implante de stent para permitir a passagem plena do sangue", completa.

Após a desobstrução da artéria com stent, é preciso evitar que um novo coágulo se forme na região do coração. Para isso, são usadas medicações que afinam o sangue, de acordo com o especialista. Atualmente, o tratamento padrão após um infarto combina aspirina com outro antiplaquetário, um método chamado dupla anti-agregação plaquetária. Porém, como a aspirina pode aumentar o risco de sangramentos, havia dúvidas sobre sua continuidade.

Estudos prévios indicavam que é possível retirar a aspirina após alguns meses, mantendo-se um período inicial de dupla anti-agregação. Mas permanecia incerto se a retirada poderia ser realizada logo após o infarto. Agora, os resultados da pesquisa do Einstein demonstram que, geralmente, manter a dupla medicação desde o início é mais seguro, reforçando o protocolo tradicional e influenciando práticas médicas ao redor do mundo.

<><> O que o estudo mostrou?

Os pesquisadores observaram que a retirada precoce da aspirina -- ou seja, logo após o infarto -- resultou em uma redução significativa de sangramentos, com uma incidência de 2% no grupo que não utilizou o medicamento, em comparação com 4,9% no grupo que manteve a terapia dupla.

Por outro lado, a alteração no protocolo padrão não manteve a proteção contra eventos cardiovasculares graves, como infarto, derrame ou necessidade urgente de nova revascularização. Segundo o estudo, o grupo que usou sem aspirina teve um risco 7% maior de ter esses eventos, em comparação com 5,5% no grupo que manteve o uso.

Além disso, o número de casos de trombose de stent -- uma complicação séria desse tipo de procedimento, caracterizada pela formação de um coágulo sanguíneo em um stent coronário -- pareceu maior entre os pacientes que não receberam aspirina: 12 casos entre os que não usaram o medicamento, contra 4 no grupo que manteve o uso.

"O que vimos é que, de modo geral, a retirada da aspirina precocemente, logo depois do infarto, não é tão benéfica quanto deixar os dois remédios ao longo dos 12 meses", afirma Lemos. "Um dos tipos de reinfarto é a trombose de stent. Então, resumindo: quando nós retiramos a aspirina, não ficamos tão protegidos quanto quando damos as duas medicações", completa.

O trabalho foi realizado em parceria com o Ministério da Saúde, via Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS) e envolveu 50 centros hospitalares de diversas regiões do Brasil, com a maioria dos pacientes participantes sendo do Sistema Único de Saúde (SUS).

"A publicação no New England Journal of Medicine e a seleção como destaque no principal congresso de cardiologia do mundo reforçam a maturidade da pesquisa clínica conduzida no Brasil. Trata-se de uma contribuição relevante para a prática médica global, que projeta a cardiologia e a ciência médica brasileira no geral em um cenário de excelência científica internacional", afirma Luiz Vicente Rizzo, diretor-executivo de Pesquisa do Einstein.

 

Fonte: CNN Brasil

 

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