Luís
Nassif: Mercado e Master - O dia em que o dominó cair
Como
uma crise no crédito privado americano atravessa o Atlântico, quais são os
canais de transmissão e quem paga a conta
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Peça 1. A ilusão da distância
Existe
uma crença recorrente nos mercados emergentes, de que as crises dos países
desenvolvidos são problemas deles. Que o Brasil, com seu mercado doméstico
robusto, sua base de consumo interno e seu histórico de sobrevivência a
turbulências externas, tem anticorpos suficientes para suportar o que quer que
aconteça em Nova York ou Londres.
Não é
bem assim.
Em
2008, o Brasil entrou em recessão técnica no quarto trimestre, meses depois da
falência do Lehman Brothers. Em 2013, o simples anúncio de que o Federal
Reserve considerava reduzir as compras de ativos — o chamado “taper tantrum” —
gerou uma fuga de capitais de mercados emergentes que derrubou o real em mais
de 20% em semanas. Em 2020, a crise do Covid desencadeou a maior saída de
capital estrangeiro da história da bolsa brasileira em questão de dias.
A
distância geográfica não protege. O que protege — ou não — é a estrutura dos
canais de transmissão. E esses canais, hoje, estão mais abertos do que em
qualquer momento anterior.
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Peça 2. Os quatro canais de contágio
Uma
crise no crédito privado americano chegaria ao Brasil por quatro canais
principais, operando simultaneamente e se reforçando mutuamente.
O
primeiro é o canal financeiro direto. Os fundos de pensão brasileiros de maior
porte têm alocações em ativos internacionais que incluem, em graus variados,
exposição a fundos alternativos americanos. PREVI, PETROS, FUNCEF e FUNCESP
gerenciam juntos mais de 500 bilhões de reais em ativos. Uma fração desse total
— pequena em percentual, significativa em valor absoluto — está em veículos que
têm exposição, direta ou indireta, ao crédito privado americano. Uma
reprecificação violenta desses ativos geraria perdas que pressionariam os
balanços das maiores previdências do país.
O
segundo é o canal de aversão ao risco global. Quando mercados desenvolvidos
entram em estresse, o capital institucional global faz o mesmo movimento
invariavelmente: vende ativos de maior risco e compra ativos considerados
seguros — principalmente títulos do Tesouro americano. Esse movimento é
automático, algorítmico e indiferente aos fundamentos específicos de cada
mercado. O Brasil, classificado como mercado emergente, é vendido não porque
seus fundamentos pioraram, mas porque é percebido como risco quando o apetite
global por risco recua.
O
terceiro é o canal do câmbio e das condições financeiras domésticas. A saída de
capital estrangeiro pressiona o real. A depreciação do real aumenta a inflação
importada. O Banco Central responde com alta de juros. O crédito doméstico fica
mais caro. As empresas e famílias que tomaram dívida ficam mais pressionadas. O
ciclo de crédito doméstico — que, como vimos, já tem suas próprias fragilidades
— encontra um ambiente externo adverso exatamente no momento em que está mais
vulnerável.
O
quarto é o canal psicológico — o menos modelável e potencialmente o mais
poderoso. Crises de crédito geram desconfiança generalizada. Investidores que
perderam dinheiro em ativos que “pareciam seguros” passam a questionar todos os
ativos que pensavam conhecer. No contexto brasileiro, isso significa resgates
em FIDCs, saída de plataformas digitais, fuga para títulos do Tesouro direto e
poupança. Os ativos que dependem de confiança contínua para funcionar — que é
praticamente todo o mercado de crédito privado — entram em espiral.
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Peça 3 – A velocidade do contágio moderno
Há um
elemento que distingue as crises contemporâneas de todas as anteriores: a
velocidade.
Em
1929, as notícias viajavam por telégrafo.
Em
2008, o contágio era medido em horas.
Hoje, o
contágio é medido em segundos. Algoritmos de gestão de risco em fundos ao redor
do mundo recalibram portfólios automaticamente quando determinados thresholds
são atingidos. A venda de ativos de risco em Nova York desencadeia, em
milissegundos, a venda de ativos correlatos em Londres, Tóquio, São Paulo. Não
há humano no circuito. Não há deliberação. Não há tempo para avaliar se o
contagiado merece ser contagiado.
Essa
velocidade tem uma consequência direta para a gestão de crises: as janelas de
intervenção são muito menores do que eram. Em 2008, o Fed e o Tesouro americano
tiveram semanas para montar o TARP — o programa de compra de ativos tóxicos que
estabilizou o sistema. Uma crise de velocidade comparável hoje deixaria muito
menos tempo para resposta.
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Peça 4. Os mais vulneráveis
Nem
todos os agentes econômicos são igualmente expostos. Há uma hierarquia de
vulnerabilidade que, em qualquer cenário de crise, determina quem absorve o
choque primeiro — e com mais profundidade.
No topo
da lista de vulneráveis está o investidor de varejo nas plataformas digitais. É
quem entrou por último no ciclo de expansão do crédito privado brasileiro. É
quem tem menor capacidade de avaliar o risco que assumiu. Diante dos primeiros
sinais de problemas, vai tentar sair primeiro — e descobrir que a saída pode
não estar disponível.
O
segundo grupo mais vulnerável são as empresas de médio porte que dependem de
refinanciamento contínuo. O crédito privado — tanto no Brasil quanto nos EUA —
é majoritariamente de curto e médio prazo. Empresas que cresceram usando
crédito privado como combustível dependem de refinanciar esse crédito quando
ele vence. Em ambiente de estresse, o refinanciamento fica mais caro ou
simplesmente desaparece. Empresas sólidas podem ser forçadas à reestruturação
não porque seus negócios pioraram, mas porque o mercado que as financiava
fechou.
O
terceiro grupo são as próprias plataformas de distribuição. Seu modelo de
negócios depende de fluxo contínuo de produtos para distribuir e de confiança
dos investidores para comprar. Em ambiente de crise, ambos desaparecem
simultaneamente. E como muitas plataformas construíram sua valorização sobre
métricas de crescimento de ativos sob custódia, uma reversão brusca pode
transformar unicórnios em problemas.
Os
fundos de pensão são um caso especial. São vulneráveis, mas com amortecedores.
A maioria tem regulação que exige diversificação e limites de concentração em
ativos alternativos. Os mais bem geridos têm ALM — gestão de ativos e passivos
— que os protege de descasamentos graves. Mas os mais agressivos, que buscaram
retornos mais altos para cobrir déficits atuariais acumulados, podem ter
exposição que os regulamentos não capturam adequadamente.
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Peça 5. O que o Brasil tem que os EUA não têm — e vice-versa
A
comparação entre o mercado americano e o brasileiro de crédito privado revela
assimetrias importantes — tanto em vulnerabilidades quanto em capacidade de
resposta.
O
Brasil tem, em seu favor, um Banco Central que construiu, nas últimas décadas,
uma das reputações mais sólidas entre os bancos centrais de mercados
emergentes. O BCB tem demonstrado disposição e capacidade de agir com rapidez
quando necessário.
O
Brasil tem também um mercado de títulos públicos doméstico robusto, denominado
em moeda local. Numa crise de crédito privado, o capital que sai de ativos de
risco precisa ir para algum lugar — e os títulos do Tesouro brasileiro são um
destino natural. Isso pode criar uma âncora de estabilidade que países com
mercados de dívida pública menos desenvolvidos não têm.
Por
outro lado, o Brasil tem vulnerabilidades específicas que amplificam o risco. A
concentração da distribuição de crédito privado em poucas plataformas digitais
cria pontos únicos de falha. A dependência do FGC como argumento de venda criou
uma percepção de segurança que supera a realidade da cobertura. E a opacidade
das carteiras de crédito estruturado é, se possível, ainda maior do que nos EUA
— porque a regulação é mais recente e os mecanismos de enforcement menos
consolidados.
Há
também uma diferença macroeconômica relevante: o Brasil chega a esse momento
com uma dívida pública elevada e uma taxa de juros estruturalmente alta. Isso
significa que o espaço fiscal para resposta a uma crise é mais limitado do que
nos países desenvolvidos, onde os bancos centrais podem comprar ativos em
escala e os tesouros podem injetar capital em instituições em dificuldade sem
desencadear crises de confiança na dívida soberana.
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Peça 6. Os cenários possíveis
Há três
trajetórias plausíveis a partir do momento atual.
O
primeiro é o cenário de aterrissagem suave. A deterioração do crédito privado
americano é gradual o suficiente para permitir ajustes ordenados. As primeiras
perdas são absorvidas pelos cotistas institucionais, que têm capacidade de
suportar variações. O mercado reprecia os ativos de forma progressiva, em vez
de catastrófica. Os bancos centrais fornecem liquidez preventiva. O ciclo
termina com uma recessão moderada e perdas distribuídas — dolorosas para
alguns, mas sem colapso sistêmico.
O
segundo é o cenário de crise contida. Um evento gatilho — a falência de um
grande fundo, a inadimplência de um devedor sistemicamente relevante, a
exposição de uma fraude de avaliação em escala — desencadeia um pânico que os
reguladores conseguem conter depois de alguns meses turbulentos. O sistema
sobrevive, mas com cicatrizes: consolidação de players, regulação mais rígida,
destruição de valor para quem estava posicionado errado.
O
terceiro é o cenário de crise sistêmica. A velocidade do contágio supera a
capacidade de resposta. A desconfiança se generaliza antes que os reguladores
consigam circunscrever o problema. O canal cambial amplifica o choque nos
mercados emergentes. O crédito privado brasileiro entra em estresse simultâneo
ao americano. Os mecanismos de proteção — FGC, Banco Central, Tesouro — são
testados além do que foram desenhados para suportar.
A
probabilidade de cada cenário é genuinamente incerta. O que não é incerto é que
a estrutura atual do sistema — opaca, interconectada, mal incentivada e baseada
em expectativas de resgate — favorece a transição do segundo para o terceiro
quando o estresse começa.
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Peça 7. O que pode ser feito
Do lado
regulatório, a prioridade deveria ser a transparência compulsória de carteiras.
Gestores de FIDCs e fundos de crédito privado deveriam ser obrigados a
publicar, em formato padronizado e auditável, a composição detalhada de suas
carteiras — não as metodologias de avaliação internas, mas os próprios ativos.
A CVM já avançou nessa direção com a Resolução 175, mas a implementação precisa
ser mais rigorosa e a fiscalização mais ativa.
A
segunda prioridade regulatória é a separação mais clara entre produto garantido
pelo FGC e produto de risco. O uso da garantia do FGC como argumento de venda
para produtos de crédito estruturado complexo deveria ser regulado mais
estritamente — não proibido, mas contextualizado com disclosure obrigatório
sobre o que a garantia cobre e, igualmente importante, o que ela não cobre.
Do lado
das plataformas de distribuição, o problema central é o conflito de incentivos.
Comissões de distribuição pagas pelos emissores criam pressão para vender o
produto de maior retorno independentemente do risco. O modelo de assessoria
fiduciária — em que a plataforma é remunerada pelo investidor, não pelo emissor
— alinha melhor os incentivos. A CVM tem caminhado nessa direção com a
regulação de assessores de investimento, mas o processo é lento e a resistência
do setor é considerável.
Do lado
dos investidores institucionais, a questão é de governança interna. Fundos de
pensão que alocam em crédito privado precisam ter equipes técnicas capazes de
avaliar o que estão comprando — não apenas confiar nas notas dos gestores e nos
ratings de agências que, como em 2008, podem estar sistematicamente
equivocadas. A Previc — superintendência de previdência complementar — tem
papel relevante aqui, tanto na exigência de adequação técnica quanto no
monitoramento das alocações.
Do lado
dos tomadores de crédito, a lição é mais simples e mais difícil ao mesmo tempo:
diversificação das fontes de financiamento. Empresas que dependem
exclusivamente de crédito privado para se financiar estão apostando que esse
mercado sempre estará disponível. A história financeira não apoia essa aposta.
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Peça 8. O que a história ensina
A crise
das poupanças americanas nos anos 1980, a crise asiática de 1997, o colapso das
pontocom em 2000, a crise dos subprime em 2008, o colapso das criptomoedas em
2022 — todos seguiram o mesmo padrão: inovação financeira genuína, expansão
acelerada, opacidade crescente, entrada do varejo, deterioração silenciosa,
evento gatilho, pânico, colapso, regulação posterior.
O
crédito privado global não é idêntico a nenhum desses episódios. É seu próprio
animal — com características específicas que o tornam em alguns aspectos mais
resiliente e em outros mais frágil do que seus predecessores. A escala é maior.
A opacidade é maior. A interconexão é maior. Os instrumentos de proteção são
mais sofisticados, mas foram desenhados para crises de estrutura diferente.
O que a
história ensina não é que a crise é certa. É que a estrutura atual do sistema —
opaca, interconectada, baseada em expectativas de resgate e com incentivos
assimétricos — é precisamente o tipo de estrutura que, quando encontra um
gatilho suficiente, produz consequências desproporcionais ao tamanho do gatilho
inicial.
A
barata sob a calmaria não precisa ser enorme para causar o barulho.
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Peça 9. Uma nota final sobre o Brasil
O
Brasil tem uma relação peculiar com crises financeiras. Sobrevivemos a
hiperinflação, a múltiplos planos econômicos fracassados, a moratórias, a
desvalorizações abruptas. Desenvolvemos, nesse processo, uma resiliência
institucional que não deve ser subestimada.
O Banco
Central brasileiro é, por qualquer métrica razoável, uma instituição de alta
competência. A CVM tem avançado consistentemente na modernização regulatória. O
sistema bancário tradicional — Itaú, Bradesco, Santander Brasil, BB, Caixa — é
altamente capitalizado e bem supervisionado.
Mas
resiliência não é imunidade. E o crescimento do crédito privado brasileiro
criou um segmento do mercado financeiro que está parcialmente fora do perímetro
de proteção mais robusto. Os FIDCs, as plataformas digitais, os bancos de nicho
que captam via FGC — esse é o segmento onde as fragilidades se concentram, onde
a supervisão é mais desafiante e onde o impacto sobre o investidor de varejo
seria mais severo em caso de estresse.
A
pergunta relevante não é se o Brasil vai colapsar. É se o sistema de crédito
privado brasileiro está sendo construído de forma a minimizar o risco para quem
tem menos capacidade de suportá-lo — o poupador que colocou suas economias numa
plataforma digital porque a taxa parecia boa e o produto parecia garantido.
A
resposta honesta, hoje, é: ainda não.
Fonte:
Jornal GGN

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