Paulo
Kliass: Lula, as dívidas e os juros
As
tendências apresentadas pela maioria das pesquisas de opinião divulgadas nas
últimas semanas apontam para uma aproximação das intenções de voto entre Lula e
Flávio Bolsonaro. Considerando a margem de erro dos levantamentos, o fato é
que, se a eleição fosse hoje, haveria um empate técnico entre ambos. A
polarização está na ordem do dia e na boca dos eleitores, sugerindo que o
Brasil atravessará um período de campanha bastante acirrada, com algumas tintas
que remetem ao pleito de quatro anos atrás.
O
presidente insiste em não reconhecer as indicações das pesquisas que também
apuram a aprovação ou a desaprovação de seu governo. Mas também neste quesito
os números são inquietantes. Apesar dos indicadores positivos relativos a
desemprego, emprego e PIB, por exemplo, o fato é que a população não parece
nada satisfeita com a sua situação. Boa parte dos empregos gerados é precária e
informal, com remuneração bastante frágil e jornadas de trabalho extenuantes. O
crescimento do PIB é pouco expressivo em quesitos como o consumo das famílias,
retratando uma priorização dos recursos destinados ao agronegócio. A inflação
de alimentos, energia e transporte cresce acima da média e compromete ainda
mais a qualidade de vida da grande maioria dos setores que compõem a base de
nossa pirâmide da desigualdade social e econômica.
Esse
quadro de incerteza termina por acirrar os ânimos daqueles que estão mais
diretamente envolvidos na disputa de outubro próximo. E pode inclusive levar a
estratégias equivocadas, em termos políticos e eleitorais. Lula tem evitado
promover mudanças na orientação da política econômica de seu terceiro mandato.
Tal opção está cobrando a fatura pela austeridade fiscal implícita no Arcabouço
Fiscal, pela política monetária de SELIC nas estratosferas, pela cara de
paisagem do Banco Central (BC) quanto às tarifas e spreads cobrados
pela banca, pela falta de recursos para levar à frente políticas públicas
voltadas à maioria da população.
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A crise atual e as explicações equivocadas
A
combinação perversa de tais opções equivocadas de políticas públicas se
concretiza em fenômenos que se revelam muito desgastantes para quem está à
frente do Poder Executivo. Esse parece ser o caso de eventos como a fila
recorde de tempo de espera para se conseguir atendimento no INSS ou os níveis
dramáticos de inadimplência e de endividamento que afetam a grande maioria da
população. Ao evitar o reconhecimento de que a política econômica está na base
de tais acontecimentos, Lula e seus principais assessores partem para a busca
de desculpas e explicações que não param de pé.
A
questão dos juros elevados e do comprometimento da renda familiar para pagar as
dívidas crescentes são exemplos típicos de tal recusa em encarar o fenômeno,
reconhecer os equívocos e propor soluções efetivas. Lula chegou perto de
responsabilizar o povo pela situação de elevado endividamento. Em visita a uma empresa automobilística
no final de março,
ele se dedicou a comentar o tema:
(…)
“Tudo a gente vai comprando. É R$ 50 ali, R$ 30, R$ 40. Parece que não é nada.
Mas quando chega no final do mês, a somatória dessa quantidade de
pouquinhos vira grande. E a gente começa a ficar zangado. ‘Trabalhei o mês
inteiro, recebi meu salário e não sobrou nada’. Aí quem vocês xingam? O
governo” (…) [GN]
Ora, o
próprio presidente é que sempre estimulou o aumento dos níveis de consumo, com
a ilusão de que a maioria da população estaria ingressando na classe média. No
entanto, como praticamente nada foi feito para oferecer crédito em condições
minimamente civilizadas para os indivíduos e as famílias, o que se verificou
foi o crescimento quase explosivo dos compromissos financeiros no orçamento
doméstico. O governo assistiu a tudo de forma absolutamente passiva, contando
provavelmente com a varinha mágica do “mercado” para solucionar essa equação
dramática. Mas a crise se mantém e Lula aponta uma leitura muito
simplista do
quadro:
(…)
“Aí, a gente fica zangado e culpa quem? Culpa o governo. O mundo é
assim. A gente culpa o governo por tudo que dá errado. Eu sei que, na
cabeça das pessoas, funciona assim” (…)
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O povo não é culpado da situação grave
A
reação do presidente guarda alguma semelhança com a forma como ele se
manifestou a respeito do tema de juros elevados ainda em seu primeiro mandato.
Estávamos em abril de 2005 e o COPOM acabara de elevar a SELIC para 19,5%. Os
juros cobrados pelos bancos seguiam bastante elevados, inclusive pela recusa do
BC em atuar sobre os spreads escandalosos que já eram cobrados
nas operações de crédito e empréstimo. O diagnóstico de Lula jogava sobre o
colo do povo a
responsabilidade pelos juros muito altos, como se as pessoas fossem preguiçosas
para conversar com o gerente do outro banco na calçada em frente.
(…)”Ele
[o brasileiro] não levanta o traseiro do banco, ou da cadeira, para buscar
um banco mais barato. Reclama toda noite dos juros pagos e no dia seguinte não
faz nada para mudar” (…)
Parece
evidente que o governo exerce um papel fundamental nesse xadrez de juros e
endividamento elevados. A definição da taxa referencial de juros é atribuição
do Comitê de Política Monetária (COPOM), que vem a ser integrado pelos
integrantes da diretoria do BC — todos indicados pelo governo. Os juros
escorchantes cobrados pela banca também só são possíveis de serem praticados em
função da cara de paisagem e cumplicidade do mesmo órgão. Afinal, ele tem por
função exercer seu papel de órgão regulador e fiscalizador do sistema bancário
e financeiro. Além disso, o governo deveria utilizar os bancos estatais
federais para reduzirem seus spreads e obrigarem o oligopólio
da banca privada a acompanhar tal tendência.
No
entanto, desde 2003, os sucessivos governos dirigidos pelo Partido dos
Trabalhadores (PT) nada fizeram a esse respeito. Com exceção de uma tentativa
logo abandonada por Dilma Rousseff em 2012, o Banco do Brasil (BB), a Caixa
Econômica Federal (CEF), o Banco do Nordeste (BNB) e o Banco da Amazônia (BASA)
sempre orientaram suas ações seguindo o padrão dos conglomerados financeiros
privados. Uma das principais consequências de tal adesismo à lógica financista
é a incapacidade de o Estado intervir nessa seara para defender os menos
favorecidos e impedir os abusos por parte do cartel da banca e de suas
ramificações no mundo do financismo.
Outro
aspecto relevante na mira equivocada de Lula é o aparente desconhecimento de
uma novidade no domínio dos fatores que mais impulsionam os índices de
endividamento e da inadimplência. Refiro-me ao impressionante avanço das
apostas no cotidiano da população e no universo da economia de uma forma geral.
Em primeiro lugar, em mais uma demonstração da imposição de parte de nossas
elites a uma postura submissa ao imperialismo, “resolvemos” importar o vocábulo
do inglês: parece que fica mais chique dizer e escrever “bet”.
E a
força da grana vem se impondo de maneira catastrófica a cada dia, a cada
semana, a cada mês que passa. A legislação autorizando as apostas foi aprovada
em 2018 por meio da Lei 13.756, mas de forma mais
efetiva somente em 2023, por meio da Lei 14.790, já no começo do
terceiro mandato de Lula. A partir de então, o elevado faturamento desse tipo
de atividade e a dominação de grandes empresas do ramo fizeram com que ramos
importantes de atividades econômicas, culturais e esportivas dependam cada vez
mais dos recursos de publicidade e patrocínio dos grupos de apostas.
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Governo nada faz para conter as apostas
A
fragilidade de regulamentação, por outro lado, estimula a aplicação
descontrolada de dinheiro por parte da população, em especial os setores de
mais baixa renda. Assim, o que ocorre atualmente é que os gastos com apostas no
orçamento da população da base de nossa pirâmide da desigualdade são o fator
que mais pesa no endividamento e na inadimplência. Isso significa que a fala de
Lula está um pouco deslocada da realidade. O problema não é mais apenas comprar
muito sem pensar ou assumir dívidas junto a instituições financeiras. De acordo com pesquisa recente, as apostas são o
fator que mais pesa no comprometimento da já diminuta renda dos setores mais
pobres.
(…) “O
avanço das apostas online passou a ter peso maior no endividamento
das famílias brasileiras do que fatores tradicionais, como juros e
crédito” (…) [GN]
Por
outro lado, Lula precisa compreender que um dos fatores que também contribuem
de forma efetiva para o elevado endividamento e inadimplência dos indivíduos e
famílias reside na elevadíssima taxa de juros dos bancos. Por exemplo, durante
o terceiro mandato de Lula, a média da taxa cobrada nas operações do cartão de
crédito rotativo foi de 438% ao mês. Ela chegou a atingir 456% em maio do ano
passado. Uma loucura! Esse é o segmento de maior spread observado,
uma vez que a SELIC está no patamar de 15%. Ora, os bancos só podem cobrar
essas taxas estratosféricas porque contam com a complacência do BC, que nada
faz senão atender aos interesses das empresas do sistema financeiro.
Na
verdade, o que se faz necessário é uma mudança significativa na orientação da
política econômica, com a adoção urgente de medidas para reverter o quadro de
dificuldades sociais e econômicas pelo qual passa a grande maioria da
população. Caso contrário, o governo vai continuar enfrentando sérias
dificuldades para reverter o quadro de desaprovação, tal como apontado nas
pesquisas. Estamos a seis meses das eleições e Lula precisa mostrar ao povo
brasileiro que seu governo merece a confiança nas urnas para exercer mais um
mandato à frente do Palácio do Planalto. Afinal, a alternativa seria um
retrocesso ainda maior, com o retorno da extrema direita ao governo federal.
¨
Entre o Estado e o mercado, a sociedade civil. Por
Fernando Nogueira da Costa
O
dualismo nos modelos institucionais brasileiros, segundo Carlos Henrique Vieira
Santana e Marcela Nogueira Ferrario, ambos professores da UNILA, na pesquisa
“Superando o Colonialismo Interno?”, refere-se, primordialmente, ao debate
sobre as relações entre o Estado e a sociedade na formação das instituições e
das mudanças políticas no país. Eles fazem uma análise espacial dos desembolsos
do BNDES sobre a renda e o emprego nos municípios brasileiros entre 2002 e
2023.
Uma
vertente clássica das Ciências Sociais interpreta o Estado brasileiro como uma
instância dotada de autonomia relativa. Ela se sobrepõe a uma sociedade civil
vista como “invertebrada” ou desorganizada.
Esse
dualismo é analisado sob o conceito de modernização conservadora, no qual o
Estado soluciona crises de legitimidade ao neutralizar elites reacionárias e
construir um aparato burocrático hegemônico, sem as classes sociais conseguirem
exercer hegemonia própria. A ferramenta para gerir esse dualismo teria sido o
corporativismo, um sistema onde o Estado coordena verticalmente a representação
de interesses.
Por
meio dele, o Estado incorporou diversos atores (industriais, trabalhadores
urbanos e classes médias) para garantir estabilidade política, enquanto as
elites agrárias mantinham o controle sobre o campo, excluindo os trabalhadores
rurais.
Para
superar essa visão dualista de “Estado forte versus sociedade fraca”, parte da
literatura propõe uma abordagem integrada. Essa visão identifica o formato
institucional brasileiro como o resultado da articulação direta entre segmentos
organizados da sociedade e o funcionamento das máquinas estatais.
Além do
aspecto institucional, o relatório de pesquisa também menciona a “razão
dualista” no campo econômico. Descreve a suposta separação entre um setor
industrial “moderno” e um setor agrícola “atrasado”. No entanto, para críticos
como Francisco de Oliveira, essa dualidade é aparente, existindo, na verdade,
uma integração dialética onde o setor “atrasado” ajuda a financiar e manter o
crescimento do setor “moderno”.
Para o
desenvolvimento municipal, entre o reducionismo binário entre o Estado e o
mercado como os agentes responsáveis, o terceiro incluído deve ser a comunidade
de cada cidade do interior. Cabe pesquisar quais são as atividades atraentes do
desenvolvimento e em quais setores se deve colocar o foco para multiplicar
empregos e renda, além de levantar qual é a infraestrutura necessária. É
responsabilidade exclusiva do governo federal e seus órgãos como o BNDES?
A
oposição binária Estado vs. mercado costuma ocultar um terceiro polo decisivo
no desenvolvimento local: a comunidade organizada do território. Em cidades do
interior, o desenvolvimento costuma emergir de sistemas locais de produção,
onde interagem três vetores: (i) Estado provê infraestrutura, financiamento e
regulação; (ii) mercado/empresas organizam investimento e inovação produtiva;
(iii) comunidade local cria redes sociais, cooperativas, associações,
identidade territorial e capacidade de coordenação.
Esse
terceiro incluído (a comunidade) é crucial, porque o desenvolvimento municipal
depende de capital social, conhecimento local e governança territorial. Sem
isso, investimentos externos se tornam enclaves sem efeitos multiplicadores.
Para
planejar quais atividades são mais atraentes para o desenvolvimento municipal,
o critério central não deve ser apenas crescimento do PIB local, mas capacidade
de gerar efeitos multiplicadores de emprego, renda e encadeamentos produtivos.
Por exemplo, a agroindústria regional transforma a produção primária em
produtos processados como laticínios, processamento de carnes, café especial,
frutas processadas bioenergia. Apresenta as vantagens de ter alto impacto
em cidades pequenas, conectar agricultura familiar e indústria, além de criar
cadeias logísticas e serviços.
Também
é possível criar indústrias leves e manufatura regional, especialmente aquelas
com cadeias curtas e mercado interno: móveis, alimentos, têxtil, calçados,
equipamentos agrícolas e materiais de construção. Esse tipo de indústria foi a
base de vários polos regionais brasileiros como os exemplos históricos de
Franca-SP e Nova Serrana-MG em calçados e Bento Gonçalves-RS em móveis.
Serviços
intensivos em mão de obra são muito importantes para multiplicação rápida de
emprego: saúde regional, educação superior, turismo, logística e construção
civil. Hospitais regionais, universidades e centros técnicos têm grande efeito
dinamizador.
Hoje,
por meio de economia do conhecimento descentralizada, cidades médias podem
desenvolver tecnologia agrícola, software, serviços digitais,
centros de dados. Santa Rita do Sapucaí, localizada no sul de Minas Gerais (a
405 km de Belo Horizonte), é mundialmente conhecida como o “Vale da
eletrônica”. Sua principal atividade econômica é a produção de eletrônicos,
telecomunicações e informática, destacando-se como polo de tecnologia e
inovação, com mais de 180 empresas e a primeira escola técnica de eletrônica da
América Latina.
É
possível também desenvolver o turismo territorial quando
existe patrimônio natural ou cultural. Por exemplo, o ecoturismo, o turismo
histórico, o turismo gastronômico e o turismo religioso geram empregos em
muitos setores.
O
desenvolvimento local ocorre quando existem cadeias produtivas territoriais,
não atividades isoladas. Como exemplos de setores estratégicos, para cidades do
interior focar e multiplicar emprego e renda, em agroindústria e agricultura
familiar, a cadeia típica é agricultura → processamento → logística → comércio
→ exportação.
Construção
civil de habitações é um dos maiores multiplicadores econômicos porque emprega
mão de obra local, ativa indústria de materiais e gera renda rapidamente.
Serviços regionais estruturantes são oferecidos por hospitais, universidades,
centros técnicos e comércio regional. Cidades concentradoras desses serviços,
como Campinas, se tornam polos regionais.
Quanto
à pequena indústria regional, clusters locais são decisivos.
Eles dependem de Escolas Técnicas, fornecedores locais, crédito produtivo e
cooperação empresarial.
O
desenvolvimento territorial exige infraestrutura básica e logística. No caso de
infraestrutura física: estradas e ferrovias, energia elétrica confiável,
saneamento, habitação, internet de alta velocidade e centros logísticos. No
caso de infraestrutura social: escolas técnicas, universidades regionais,
hospitais e centros de pesquisa. Isso cria capital humano local. No caso de
infraestrutura financeira: crédito produtivo, cooperativas de crédito e bancos
regionais. Por isso, os bancos públicos federais – BNDES, BB, Caixa, BNB, Basa
– por meio de crédito direcionado são fundamentais para o desenvolvimento
regional.
Porém,
o BNDES e o governo federal, em especial a Financiadora de Estudos e Projetos
(FINEP), não são suficientes, porque o desenvolvimento territorial exige
arquitetura multinível. O governo federal tem papel-chave em grandes
investimentos, crédito de longo prazo, política industrial e infraestrutura
nacional.
Os
estados, isto é, as unidades federativas, têm funções desenvolvimentistas por
meio de Universidades estaduais, agências de desenvolvimento e infraestrutura
regional. As prefeituras dos Municípios, embora muitas não tenham capacidade
técnica para tanto, têm papel essencial no planejamento urbano, na política de
solo, na criação de parques industriais e na capacitação profissional.
Como
dito, entre o binarismo Estado versus mercado, o terceiro incluído é a
comunidade ou a sociedade civil, entre outras instituições, cooperativas,
associações empresariais, sindicatos e universidades locais. Sem esse capital
social, o investimento público não gera desenvolvimento endógeno.
O
verdadeiro “motor desse mecanismo” socioeconômico e político são os
ecossistemas territoriais. O desenvolvimento municipal bem-sucedido geralmente
envolve cinco elementos simultâneos: (a) base produtiva local; (b) instituições
educacionais; (c) infraestrutura logística; (d) crédito produtivo; (e)
governança comunitária. Esse conjunto forma o chamado de sistema produtivo
local.
A
lógica sistêmica do desenvolvimento local é representada pelo seguinte
processo: comunidade organizada → identificação de vocações
locais → arranjos produtivos
locais → infraestrutura + crédito
→ cadeias produtivas → emprego + renda +
arrecadação → reinvestimento local. Logo, desenvolvimento
territorial é um fenômeno emergente de
redes sociais, produtivas e institucionais.
O
desenvolvimento municipal não resulta nem do mercado sozinho nem do Estado
isoladamente. Ele surge da interação entre três polos: Estado (infraestrutura e
financiamento), Empresas (produção e inovação) e Comunidade (coordenação
territorial e capital social). Cidades bem-sucedidas em articular esses três
elementos tendem a formar ecossistemas produtivos duráveis.
Fonte:
Outras Palavras/A Terra é Redonda

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