quinta-feira, 2 de abril de 2026

A inteligência artificial já está deixando a guerra mais horrível

Os Estados Unidos estão utilizando inteligência artificial em sua guerra contra o Irã. Os militares afirmam que a “variedade” de sistemas de IA em uso se dedica à triagem de dados, sendo implementados como ferramentas sem autonomia. O chefe do Comando Central dos EUA, Brad Cooper, diz que os sistemas de IA auxiliam as forças armadas, permitindo que elas “analisem vastas quantidades de dados em segundos, para que nossos líderes possam filtrar o ruído e tomar decisões mais inteligentes e rápidas do que a reação do inimigo”.

A IA acelerará o ritmo de alvejamento de alvos e, consequentemente, o ritmo da guerra, da morte, da destruição e de tudo o que vier depois. Cooper insiste que são os humanos que tomam a decisão final. Isso é menos tranquilizador do que deveria ser. Um relatório recente observa que “os alvos da Operação Epic Fury foram identificados com o auxílio do Sistema Inteligente Maven da Agência Nacional de Inteligência Geoespacial, que incorpora dados de vigilância e inteligência, entre outros pontos de dados, e pode apresentar as informações em um painel para auxiliar as autoridades na tomada de decisões”.

No entanto, dizem-nos que as ferramentas de IA não “criam explicitamente” alvos; elas apenas “identificam potenciais pontos de interesse para a inteligência militar”. Isso é um pouco como dizer que a informação não influencia as decisões — como se as informações de inteligência apresentadas a um comandante não tivessem nada a ver com o local onde um ataque é ordenado.

Se o bombardeio de 28 de fevereiro à escola primária Shajarah Tayyebeh, no Irã, foi resultado de uma ferramenta de IA que “incorporou” informações militares antigas ao painel de controle do Maven, isso significa que a IA efetivamente moldou a decisão supostamente humana. Claro, a garantia tranquilizadora de Cooper de que ainda há militares humanos no comando pode muito bem ser verdadeira. No entanto, adicionar IA à matriz de sistemas de mira e agir de acordo com suas recomendações equivale à tomada de decisão militar por IA, por mais que os humanos ainda possam apertar o gatilho.

<><> Quando a guerra chegou às telinhas

Aimplantação de sistemas de IA na mais recente guerra estadunidense pode lembrar a alguns a Guerra do Golfo de 1990-91. Talvez esse conflito não seja considerado um evento importante nos livros de história, mas foi uma guerra que assistimos pela televisão em tempo real, com telas iluminadas de verde e pontuadas por súbitas explosões de luz. Ela teve destaque na cobertura ininterrupta da CNN. No início da década de 1990, novas tecnologias e formas de atuação, tanto na guerra quanto nas telecomunicações, indicavam que algo havia mudado.

A guerra havia se transformado em um assunto mais distante e desumanizado, tanto em sua execução, com mísseis de cruzeiro disparados a centenas de quilômetros de distância, quanto em seu consumo, com tudo sendo exibido ao público quase como se fosse um vídeo de videogame. Tinha-se a sensação de que não havia volta e que, fosse o que fosse, aquilo era uma jornada por uma estrada sem saída.

Em A Era dos Extremos, o historiador Eric Hobsbawm alertou que, no século XX, as tecnologias bélicas modernas e os sistemas burocráticos que sustentavam os conflitos em larga escala transformaram fundamentalmente a guerra, possibilitando uma guerra total e terrível que não poderia ter existido antes sem o poder da distância. Embora o propósito da distância na guerra seja alavancar um valor estratégico e tático que, na prática, se resume a cobertura — ou melhor posicionamento — e surpresa, o efeito final é a separação.

Se a violência, mesmo a violência em massa, pode ser uma ação empreendida à distância, com o agente alheio às consequências imediatas, viscerais e corporais de seus atos, então a violência se torna impessoal e irreal, até mesmo virtual — como jogar um videogame. Aperte o gatilho, incline o joystick para cima e siga com seu dia enquanto os pixels na tela desaparecem. Chegue em casa a tempo de jantar e jogar algumas partidas de Call of Duty.

Hoje, a IA é usada para analisar informações rapidamente e auxiliar humanos na aquisição de alvos na guerra. Amanhã, ela poderá ser usada de outras maneiras que atualmente não conseguimos imaginar ou que tendemos a descartar como uma ameaça secundária ou terciária — mais uma fantasia paranoica inspirada em O Exterminador do Futuro do que um perigo real e iminente. A ameaça imediata, de qualquer forma, se resume à mesma questão: a desumanização dos seres humanos.

As ferramentas em questão são máquinas que usamos para nos tornarmos melhores em matar, o tipo de máquina que nos livra do incômodo que atormentou aqueles que lançaram mão da violência ao longo da história da humanidade: era preciso estar perto o suficiente para fazê-lo, perto o bastante para ver as luzes se apagarem. A IA, portanto, não é apenas uma ferramenta para triagem, mas também uma ferramenta para criar uma distância literal e figurativa entre o operador e o condenado.

Se o século passado nos trouxe a capacidade de apertar um botão para lançar uma bomba, este nos permitirá apertar um botão para que um computador nos diga onde lançá-la. Não há nada mais próximo da despersonalização da destruição do que isso.

A mudança é igualmente horrível e aterrorizante, mas não se trata tanto de uma nova forma de fazer as coisas, e sim do próximo passo lógico rumo à destruição totalmente digitalizada e desumanizada, do tipo que as mentes mais perspicazes previram décadas atrás. Hobsbawm observou a transformação da guerra no século XX como uma “nova impessoalidade” que “transformou o ato de matar e mutilar na consequência remota de apertar um botão ou mover uma alavanca” e “tornou suas vítimas invisíveis, na medida em que pessoas evisceradas por baionetas ou vistas através das miras de armas de fogo não poderiam ser”. A IA não altera a lógica ou o efeito da guerra impessoal, mas sim reforça a primeira e amplifica o segundo.

<><> Dr. IA Strangelove

As consequências de um novo nível de distanciamento serão inimaginavelmente terríveis. Ou talvez as imaginemos muito bem. Ao escrever sobre a Segunda Guerra Mundial, Hobsbawm destaca que, nas ações de aviões bombardeiros, aqueles que estavam em terra “não eram pessoas prestes a serem queimadas e evisceradas, mas sim alvos”. A natureza impessoal da distância significava que “jovens pacíficos, que certamente não desejariam cravar uma baioneta na barriga de uma aldeã grávida, podiam lançar com muito mais facilidade bombas de alto poder explosivo sobre Londres ou Berlim, ou bombas nucleares sobre Nagasaki”.

O fato de chatbots comerciais de IA terem sido considerados propensos à guerra nuclear em quase dez de dez “situações de crise” vira notícia porque nos faz pensar no que um robô dominador poderia fazer conosco — ou por nós — em situações extremas, na ausência do herói protagonista de Jogos de Guerra para dissuadir a máquina. No nível mais próximo, a ameaça imediata e crescente não são as máquinas, mas, como sempre, nós mesmos — e o que fazemos com as máquinas ou o que nos eximimos de fazer.

A distância que a IA cria entre a mente humana e a decisão de destruir deveria ser o que mais nos aterroriza. Talvez não haja limites para os horrores que daí decorrem. Seja como for, a história da humanidade é também a história do uso da tecnologia para destruir uns aos outros. Hoje, somos mestres nessa arte — não apenas na eficiência implacável da eliminação física, mas também nas maneiras como tornamos essa destruição mais fácil de direcionar, mais fácil de justificar e mais fácil de conviver antes, durante e depois do fato.

Como Hobsbawm alertou sobre o “breve” século que se estendeu de 1914 a 1991: “As maiores crueldades do nosso século foram as crueldades impessoais da decisão remota, do sistema e da rotina, especialmente quando podiam ser justificadas como lamentáveis ​​necessidades operacionais. Hobsbawm estava certo ao identificar a crueldade do massacre industrial do breve século. A questão para nós é como será esse massacre quando essa crueldade for ainda mais intensificada pelo novo distanciamento resultante da tomada de decisões mediada por IA.

¨      Como IA e big techs inauguram uma nova era em conflito no Oriente Médio. Por Andressa Michelotti

Com as atenções voltadas para o eixo Estados Unidos-Israel, Irã e Golfo Pérsico, a mídia internacional tem chamado o conflito de primeira guerra de inteligência artificial, a IA. Enquanto o Brasil observa com certa distância o que se desenrola no Oriente Médio,  a guerra não tem fronteiras quando se trata das infraestruturas de inteligência artificial.

O confronto que vemos hoje no Oriente Médio não é só entre estados. No cerne da violência que se desencadeia na região estão as empresas que detêm dados, informação, conhecimento e infraestruturas cruciais para a guerra contemporânea. Na linha de frente estão as big techs — aqui incluem-se também empresas de inteligência artificial — fornecendo tecnologias e infraestruturas e fazendo da guerra um palco de demonstração de eficiência, produtividade e acuracidade. 

Por muito tempo, alguns especialistas de relações internacionais ignoraram o papel das grandes corporações na política internacional. Para estes, o mundo digital não caberia na dinâmica geopolítica, já que o Estado é o principal ator na disputa de poderes. Tal visão é um tanto conservadora e desatualizada.

Estados e tecnologia sempre andaram juntos — sendo codependentes e compartilhando interesses mútuos. Basta lembrar do papel da IBM na Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Já nos anos 1950, a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada, Arpa, na sigla em inglês, do Departamento de Defesa dos Estados Unidos desempenhou um papel crucial no financiamento de pesquisas e altos investimentos em empresas privadas de tecnologia para o desenvolvimento da precursora da internet (Arpanet) durante a Guerra Fria. 

<><> Big techs e governos: relação de longa data

A relação entre Vale do Silício, Pentágono e o Departamento de Segurança dos Estados Unidos vem de longa data. Os EUA têm mantido contratos bilionários desde 2004 com as big techs. As big techs fornecem armazenamento em nuvem, planos de serviços como Google Workspace, visores de realidade aumentada e drones como a parceria Anduril e Microsoft, além de sistemas de operações em tanques.

Só em 2024, Anthropic, Google, OpenAI e xAI receberam 200 milhões de dólares do Departamento de Defesa para projetos de IA. Até o meio de 2025 mais de 20 mil militares já utilizavam ferramentas de IA como o Maven Smart System da Palantir para auxiliar com alvos, rastrear logística e fornecer resumos de inteligência militar em conflitos. Em junho de 2025, executivos de Meta, Palantir, OpenAI e Thinking Machines Lab foram promovidos a tenentes-coronéis da reserva do Exército dos Estados Unidos, fazendo parte de uma unidade militar chamada Destacamento 201, também conhecida como Corpo Executivo de Inovação. Embora a medida tenha sido subestimada por muitos, ela demonstra não só um simbolismo digno de propaganda de guerra, mas também uma conexão direta entre governo e o setor privado de tecnologia. 

<><> Protagonismo das big techs

No ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã, observamos o campo de batalha algorítmico, no qual as big techs assumem um protagonismo como nunca visto antes. O modelo Claude, de propriedade da Anthropic, tornou-se crucial para a identificação de alvos e prioridades, simular cenários de batalha, analisar imagens de satélite e detectar ameaças cibernéticas. Porém o Claude não opera sozinho. 

Desde 2017, a Palantir é a principal empresa por trás do Projeto Maven, uma iniciativa do Departamento de Defesa dos Estados Unidos voltada para o uso de IA em contextos de guerra, conduzida pelo Time Multifuncional de Guerra Algorítmica [Algorithmic Warfare Cross-Functional Team, ou AWCFT, na sigla em inglês]. 

Nesse contexto, o Sistema Inteligente Maven (Maven Smart System), alimentado pelo Claude, gera análise a partir de dados classificados de satélites, sistemas de vigilância e outras fontes de inteligência como também sugere alvos, emite coordenadas e fornece direcionamento e priorização de alvos em tempo real. Por fim, os dados rodam na Amazon Web Services, aAWS.

Com a ajuda dessas ferramentas, os Estados Unidos dizem ter atingido mil alvos no Irã nas primeiras 24 horas da guerra. Em 100 horas de guerra, mais alvos foram atingidos do que nos primeiros seis meses do conflitocontra o Estado Islâmico. 

Em busca por rapidez, escala e economia humana, a guerra alimentada por dados e algoritmos não é isenta de erros, alucinações, falta de transparência e vácuos regulatórios — e, como sempre, civis são “danos colaterais” nessa batalha.

No dia 28 de fevereiro ao menos 175 pessoas, muitas delas crianças, foram mortas quando uma escola feminina iraniana foi bombardeada. Enquanto os Estados Unidos nega participação nesse ataque, existem indícios de que Oficiais do Comando Central dos Estados Unidos usaram dados desatualizados para definir as coordenadas do alvo. 

<><> Irã tem como alvo as infraestruturas de IAs

Se de um lado os Estados Unidos e Israel utilizam uma estratégia público-privada de ataque, de outro o Irã faz da infraestrutura de IA o seu alvo prioritário. 

No dia 1º de março, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã atacou três instalações da Amazon Web Services nos Emirados Árabes Unidos e no Bahrein. De acordo com pronunciamento oficial, o ataque ocorreu “para identificar o papel dessas instalações no apoio às atividades militares e de inteligência do inimigo”.
O ataque resultou na interrupção de serviços na região, com milhões de pessoas sem poder fazer pagamentos e acessar suas contas bancárias. Em 11 de março, a Guarda Revolucionária emitiu um comunicado ampliando o escopo das ameaças. Na 
lista de alvos estão centros econômicos e bancos ligados aos Estados Unidos e a Israel na região, além de escritórios e infraestruturas de empresas como Google, Microsoft, Palantir, IBM, Nvidia e Oracle em Israel e nos países do Golfo.

Há algum tempo, os países do Golfo e os Estados Unidos vivem uma aliança na fronteira de IA. Na corrida tecnológica entre China e Estados Unidos, países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Qatar não apenas fornecem energia abundante e barata necessária para alimentar data centers de inteligência artificial — instalações que abrigam servidores interconectados e formam a base das operações de IA — como também têm a capacidade de fornecer talentos para o desenvolvimento dessas tecnologias. 

Em maio de 2025, Donald Trump anunciou mais de 200 bilhões de dólares em acordos comerciais com os Emirados Árabes Unidos, elevando o total de investimentos na região do Golfo para mais de 2 trilhões de dólares, incluindo acordos anteriores. No centro dessas negociações estão OpenAI, Oracle, Nvidia e Cisco Systems. Intitulado Stargate UAE, o acordo entre Emirados Árabes Unidos e os Estados Unidos tem como objetivo construir o maior campus de inteligência artificial fora dos Estados Unidos. De acordo com a OpenAI, o projeto pretende criar um polo de 5 gigawatts capaz de fornecer capacidades de IA em tempo real para metade da população mundial. Até o  final de 2026 a previsão é que chegue a 200 megawatts.

<><> Impacto global

Ataques à infraestrutura não são novidade. Em um mundo interligado e regrado por algoritmos e dados, os data centers tornaram-se alvos prioritários de guerra. Isso se deve tanto ao baixo custo dessas operações como ao efeito em cascata que pode causar.  Um ataque a esses sistemas pode rapidamente desestabilizar operações civis e militares em larga escala e ter um impacto global.

Não é possível dizer que estes data centers da Amazon estavam sendo utilizados para a ação militar no Irã. Assim, é preciso avaliar a licitude de ataques nesses alvos. Objetos civis, como é o caso de muitos data centers, não poderiam estar sujeitos a tais ataques. Porém, a política de Donald Trump tem seguido a Armadilha de Tucídides: “Os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem.” Ou seja, se os Estados Unidos e Israel não seguem as regras internacionais, não é de se esperar que outros também seguirão.

O desenrolar da guerra tem gerado incertezas para o capital estrangeiro quanto aos seus investimentos em IA na região. Existem de fato elementos de preocupação. Para quem está longe da região é preciso perguntar: qual o efeito dominó que isso pode desencadear? 

Primeiro, há uma dependência tecnológica e regional dessas empresas em uma região vulnerável a conflitos. Ou seja, se metade da população mundial que utiliza uma tecnologia estadunidense tem seus dados em data centers na região, quais são os riscos econômicos, sociais e políticos em caso de ataque a uma dessas infraestruturas? Em um mundo tão interconectado, a dependência tecnológica se torna ainda mais crítica — especialmente em meio à guerra.

Segundo, no caso do Brasil, se a estratégia de data centers muda na região, como o país é afetado? A abundância de energia limpa e renovável torna o Brasil um polo estratégico para empresas de tecnologia que buscam expandir suas infraestruturas. O país desponta como referência regional e tem uma posição relevante. Porém, a instalação de data centers é uma política pública sem foco na soberania digital e nacional. A guerra atual deixa claro que os riscos dessa expansão não são apenas ambientais. Com ela vêm também conflitos geopolíticos, múltiplos interesses políticos e econômicos e as tensões que inevitavelmente emergem com esses eventos. 

 

Fonte: Por David Moscrop - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil/The Intercept

 

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