A
inteligência artificial já está deixando a guerra mais horrível
Os
Estados Unidos estão utilizando inteligência
artificial em sua guerra contra o Irã. Os militares afirmam que a “variedade”
de sistemas de IA em uso se dedica à triagem de dados, sendo implementados como
ferramentas sem autonomia. O chefe do Comando Central dos EUA, Brad Cooper, diz
que os sistemas de IA auxiliam as forças armadas, permitindo que elas “analisem
vastas quantidades de dados em segundos, para que nossos líderes possam filtrar
o ruído e tomar decisões mais inteligentes e rápidas do que a reação do
inimigo”.
A IA
acelerará o ritmo de alvejamento de alvos e, consequentemente, o ritmo da
guerra, da morte, da destruição e de tudo o que vier depois. Cooper insiste que
são os humanos que tomam a decisão final. Isso é menos tranquilizador do que
deveria ser. Um relatório recente observa que “os alvos
da Operação Epic Fury foram identificados com o auxílio do Sistema Inteligente
Maven da Agência Nacional de Inteligência Geoespacial, que incorpora dados de
vigilância e inteligência, entre outros pontos de dados, e pode apresentar as
informações em um painel para auxiliar as autoridades na tomada de decisões”.
No
entanto, dizem-nos que as ferramentas de IA não “criam explicitamente” alvos;
elas apenas “identificam potenciais pontos de interesse para a inteligência
militar”. Isso é um pouco como dizer que a informação não influencia as
decisões — como se as informações de inteligência apresentadas a um comandante
não tivessem nada a ver com o local onde um ataque é ordenado.
Se o
bombardeio de 28 de fevereiro à escola primária Shajarah Tayyebeh, no Irã, foi
resultado de uma ferramenta de IA que “incorporou” informações militares
antigas ao painel de controle do Maven, isso significa que a IA efetivamente
moldou a decisão supostamente humana. Claro, a garantia tranquilizadora de
Cooper de que ainda há militares humanos no comando pode muito bem ser
verdadeira. No entanto, adicionar IA à matriz de sistemas de mira e agir de
acordo com suas recomendações equivale à tomada de decisão militar
por IA, por mais que os humanos ainda possam apertar o gatilho.
<><>
Quando a guerra chegou às telinhas
Aimplantação
de sistemas de IA na mais recente guerra estadunidense pode lembrar a alguns a
Guerra do Golfo de 1990-91. Talvez esse conflito não seja considerado um evento
importante nos livros de história, mas foi uma guerra que assistimos pela
televisão em tempo real, com telas iluminadas de verde e pontuadas por súbitas
explosões de luz. Ela teve destaque na cobertura ininterrupta da CNN. No início
da década de 1990, novas tecnologias e formas de atuação, tanto na guerra
quanto nas telecomunicações, indicavam que algo havia mudado.
A
guerra havia se transformado em um assunto mais distante e desumanizado, tanto
em sua execução, com mísseis de cruzeiro disparados a centenas de quilômetros
de distância, quanto em seu consumo, com tudo sendo exibido ao público quase
como se fosse um vídeo de videogame. Tinha-se a sensação de que não havia volta
e que, fosse o que fosse, aquilo era uma jornada por uma estrada sem saída.
Em A
Era dos Extremos, o historiador Eric Hobsbawm alertou que, no século XX, as
tecnologias bélicas modernas e os sistemas burocráticos que sustentavam os
conflitos em larga escala transformaram fundamentalmente a guerra,
possibilitando uma guerra total e terrível que não poderia ter existido antes
sem o poder da distância. Embora o propósito da distância na guerra
seja alavancar um valor estratégico e tático que, na prática, se resume a
cobertura — ou melhor posicionamento — e surpresa, o efeito final é a
separação.
Se a
violência, mesmo a violência em massa, pode ser uma ação empreendida à
distância, com o agente alheio às consequências imediatas, viscerais e
corporais de seus atos, então a violência se torna impessoal e irreal, até
mesmo virtual — como jogar um videogame. Aperte o gatilho, incline o joystick
para cima e siga com seu dia enquanto os pixels na tela desaparecem. Chegue em
casa a tempo de jantar e jogar algumas partidas de Call of Duty.
Hoje, a
IA é usada para analisar informações rapidamente e auxiliar humanos na
aquisição de alvos na guerra. Amanhã, ela poderá ser usada de outras maneiras
que atualmente não conseguimos imaginar ou que tendemos a descartar como uma
ameaça secundária ou terciária — mais uma fantasia paranoica inspirada em O
Exterminador do Futuro do que um perigo real e iminente. A ameaça
imediata, de qualquer forma, se resume à mesma questão: a desumanização dos
seres humanos.
As
ferramentas em questão são máquinas que usamos para nos tornarmos melhores em
matar, o tipo de máquina que nos livra do incômodo que atormentou aqueles que
lançaram mão da violência ao longo da história da humanidade: era preciso estar
perto o suficiente para fazê-lo, perto o bastante para ver as luzes se
apagarem. A IA, portanto, não é apenas uma ferramenta para triagem, mas também
uma ferramenta para criar uma distância literal e figurativa entre o operador e
o condenado.
Se o
século passado nos trouxe a capacidade de apertar um botão para lançar uma
bomba, este nos permitirá apertar um botão para que um computador nos diga onde
lançá-la. Não há nada mais próximo da despersonalização da destruição do que
isso.
A
mudança é igualmente horrível e aterrorizante, mas não se trata tanto de uma
nova forma de fazer as coisas, e sim do próximo passo lógico rumo à destruição
totalmente digitalizada e desumanizada, do tipo que as mentes mais perspicazes
previram décadas atrás. Hobsbawm observou a transformação da guerra no século
XX como uma “nova impessoalidade” que “transformou o ato de matar e mutilar na
consequência remota de apertar um botão ou mover uma alavanca” e “tornou suas
vítimas invisíveis, na medida em que pessoas evisceradas por baionetas ou
vistas através das miras de armas de fogo não poderiam ser”. A IA não altera a
lógica ou o efeito da guerra impessoal, mas sim reforça a primeira e amplifica
o segundo.
<><>
Dr. IA Strangelove
As
consequências de um novo nível de distanciamento serão inimaginavelmente
terríveis. Ou talvez as imaginemos muito bem. Ao escrever sobre a Segunda
Guerra Mundial, Hobsbawm destaca que, nas ações de aviões bombardeiros, aqueles
que estavam em terra “não eram pessoas prestes a serem queimadas e evisceradas,
mas sim alvos”. A natureza impessoal da distância significava que “jovens
pacíficos, que certamente não desejariam cravar uma baioneta na barriga de uma
aldeã grávida, podiam lançar com muito mais facilidade bombas de alto poder
explosivo sobre Londres ou Berlim, ou bombas nucleares sobre Nagasaki”.
O fato
de chatbots comerciais de IA terem sido considerados propensos à guerra nuclear em quase dez de
dez “situações de crise” vira notícia porque nos faz pensar no que um robô
dominador poderia fazer conosco — ou por nós — em situações extremas, na
ausência do herói protagonista de Jogos de Guerra para
dissuadir a máquina. No nível mais próximo, a ameaça imediata e crescente não
são as máquinas, mas, como sempre, nós mesmos — e o que fazemos com as máquinas
ou o que nos eximimos de fazer.
A
distância que a IA cria entre a mente humana e a decisão de destruir deveria
ser o que mais nos aterroriza. Talvez não haja limites para os horrores que daí
decorrem. Seja como for, a história da humanidade é também a história do uso da
tecnologia para destruir uns aos outros. Hoje, somos mestres nessa arte — não
apenas na eficiência implacável da eliminação física, mas também nas maneiras
como tornamos essa destruição mais fácil de direcionar, mais fácil de
justificar e mais fácil de conviver antes, durante e depois do fato.
Como
Hobsbawm alertou sobre o “breve” século que se estendeu de 1914 a 1991: “As
maiores crueldades do nosso século foram as crueldades impessoais da decisão
remota, do sistema e da rotina, especialmente quando podiam ser justificadas
como lamentáveis necessidades
operacionais”. Hobsbawm estava certo ao identificar a crueldade do
massacre industrial do breve século. A questão
para nós é como será esse massacre quando
essa crueldade for ainda mais intensificada pelo novo distanciamento resultante
da tomada de decisões mediada por IA.
¨
Como IA e big techs inauguram uma nova era em conflito no
Oriente Médio. Por Andressa Michelotti
Com as
atenções voltadas para o eixo Estados Unidos-Israel, Irã e Golfo Pérsico, a
mídia internacional tem chamado o conflito de primeira guerra de inteligência
artificial, a IA. Enquanto o Brasil observa com certa distância o que se
desenrola no Oriente Médio, a guerra não tem fronteiras quando se trata
das infraestruturas de inteligência artificial.
O
confronto que vemos hoje no Oriente Médio não é só entre estados. No cerne da
violência que se desencadeia na região estão as empresas que detêm dados,
informação, conhecimento e infraestruturas cruciais para a guerra
contemporânea. Na linha de frente estão as big techs — aqui incluem-se também
empresas de inteligência artificial — fornecendo
tecnologias e infraestruturas e fazendo da guerra um palco de demonstração de
eficiência, produtividade e acuracidade.
Por
muito tempo, alguns especialistas de relações internacionais ignoraram o papel
das grandes corporações na política internacional. Para estes, o mundo digital
não caberia na dinâmica geopolítica, já que o Estado é o principal ator na
disputa de poderes. Tal visão é um tanto conservadora e desatualizada.
Estados
e tecnologia sempre andaram juntos — sendo codependentes e compartilhando
interesses mútuos. Basta lembrar do papel da IBM na Alemanha nazista durante a
Segunda Guerra Mundial. Já nos anos 1950, a Agência de Projetos de Pesquisa
Avançada, Arpa, na sigla em inglês, do Departamento de Defesa dos Estados
Unidos desempenhou um papel crucial no financiamento de pesquisas e altos
investimentos em empresas privadas de tecnologia para o desenvolvimento da
precursora da internet (Arpanet) durante a Guerra Fria.
<><>
Big techs e governos: relação de longa data
A
relação entre Vale do Silício, Pentágono e o Departamento de Segurança dos
Estados Unidos vem de longa data. Os EUA têm mantido contratos bilionários desde
2004 com as big techs.
As big techs fornecem armazenamento em nuvem, planos de serviços como Google Workspace, visores de
realidade aumentada e drones como a parceria Anduril e
Microsoft, além de sistemas de operações em tanques.
Só em 2024, Anthropic, Google, OpenAI e
xAI receberam 200 milhões de dólares do Departamento de Defesa para projetos de
IA. Até
o meio de 2025 mais de 20 mil militares já utilizavam
ferramentas de IA como o Maven Smart System da Palantir para auxiliar com
alvos, rastrear logística e fornecer resumos de inteligência militar em
conflitos. Em junho de 2025, executivos de Meta, Palantir, OpenAI e Thinking
Machines Lab foram promovidos a tenentes-coronéis da
reserva do Exército dos Estados Unidos, fazendo parte de uma unidade militar
chamada Destacamento 201, também conhecida como Corpo Executivo de Inovação.
Embora a medida tenha sido subestimada por muitos, ela demonstra não só um
simbolismo digno de propaganda de guerra, mas também uma conexão direta entre
governo e o setor privado de tecnologia.
<><>
Protagonismo das big techs
No
ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã, observamos o campo de batalha
algorítmico, no qual as big techs assumem um protagonismo como nunca visto
antes. O modelo Claude, de propriedade da Anthropic, tornou-se crucial para a
identificação de alvos e prioridades, simular cenários de batalha, analisar
imagens de satélite e detectar ameaças cibernéticas. Porém o Claude não opera
sozinho.
Desde
2017, a Palantir é a principal empresa por trás do Projeto Maven, uma
iniciativa do Departamento de Defesa dos Estados Unidos voltada para o uso de
IA em contextos de guerra, conduzida pelo Time Multifuncional de Guerra
Algorítmica [Algorithmic
Warfare Cross-Functional Team, ou AWCFT, na sigla em inglês].
Nesse
contexto, o Sistema Inteligente Maven (Maven Smart System), alimentado
pelo Claude, gera análise a partir de dados classificados de satélites,
sistemas de vigilância e outras fontes de inteligência como também sugere
alvos, emite coordenadas e fornece direcionamento e priorização de alvos em
tempo real. Por fim, os dados rodam na Amazon Web Services, aAWS.
Com a
ajuda dessas ferramentas, os Estados Unidos dizem ter atingido mil alvos no Irã nas primeiras
24 horas da guerra.
Em 100 horas de guerra, mais alvos foram atingidos do que nos
primeiros seis meses do conflitocontra o Estado Islâmico.
Em
busca por rapidez, escala e economia humana, a guerra alimentada por dados e
algoritmos não é isenta de erros, alucinações, falta de transparência e vácuos
regulatórios — e, como sempre, civis são “danos colaterais” nessa batalha.
No dia
28 de fevereiro ao menos 175 pessoas, muitas delas crianças, foram mortas
quando uma escola feminina iraniana foi bombardeada. Enquanto os Estados Unidos
nega participação nesse ataque, existem indícios de que Oficiais
do Comando Central dos Estados Unidos usaram dados desatualizados para definir
as coordenadas do alvo.
<><>
Irã tem como alvo as infraestruturas de IAs
Se de
um lado os Estados Unidos e Israel utilizam uma estratégia público-privada de
ataque, de outro o Irã faz da infraestrutura de IA o seu alvo
prioritário.
No dia
1º de março, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã atacou três
instalações da Amazon Web Services nos Emirados Árabes Unidos e no Bahrein. De
acordo com pronunciamento oficial, o ataque ocorreu “para identificar o papel dessas instalações no apoio às
atividades militares e de inteligência do inimigo”.
O ataque resultou na interrupção de serviços na região, com milhões de pessoas
sem poder fazer pagamentos e acessar suas contas bancárias. Em 11 de março, a
Guarda Revolucionária emitiu um comunicado ampliando o escopo das ameaças.
Na lista de alvos estão centros
econômicos e bancos ligados aos Estados Unidos e a Israel na região, além de
escritórios e infraestruturas de empresas como Google, Microsoft, Palantir,
IBM, Nvidia e Oracle em Israel e nos países do Golfo.
Há
algum tempo, os países do Golfo e os Estados Unidos vivem uma aliança na fronteira de IA. Na corrida
tecnológica entre China e Estados Unidos, países como Arábia Saudita, Emirados
Árabes Unidos e Qatar não apenas fornecem energia abundante e barata necessária
para alimentar data centers de inteligência
artificial — instalações que abrigam servidores interconectados e formam a base
das operações de IA — como também têm a capacidade de fornecer talentos para o
desenvolvimento dessas tecnologias.
Em maio
de 2025, Donald Trump anunciou mais de 200 bilhões de dólares em acordos
comerciais com os Emirados Árabes Unidos, elevando o total de investimentos na
região do Golfo para mais de 2 trilhões de dólares, incluindo acordos
anteriores. No centro dessas negociações estão OpenAI, Oracle, Nvidia e Cisco
Systems. Intitulado Stargate UAE, o acordo entre Emirados Árabes Unidos e os
Estados Unidos tem como objetivo construir o maior campus de inteligência
artificial fora dos Estados Unidos. De acordo com a OpenAI, o projeto pretende
criar um polo de 5 gigawatts capaz de
fornecer capacidades de IA em tempo real para metade da população mundial. Até
o final de 2026 a previsão é que chegue a 200 megawatts.
<><>
Impacto global
Ataques
à infraestrutura não são novidade. Em um mundo interligado e regrado por
algoritmos e dados, os data centers tornaram-se alvos prioritários de guerra.
Isso se deve tanto ao baixo custo dessas operações como ao efeito em cascata
que pode causar. Um ataque a esses sistemas pode rapidamente
desestabilizar operações civis e militares em larga escala e ter um impacto
global.
Não é
possível dizer que estes data centers da Amazon estavam sendo utilizados para a
ação militar no Irã. Assim, é preciso avaliar a licitude de ataques nesses
alvos. Objetos civis, como é o caso de
muitos data centers, não poderiam estar sujeitos a tais ataques. Porém, a
política de Donald Trump tem seguido a Armadilha de Tucídides: “Os fortes fazem
o que podem, e os fracos sofrem o que devem.” Ou seja, se os Estados Unidos e
Israel não seguem as regras internacionais, não é de se esperar que outros
também seguirão.
O
desenrolar da guerra tem gerado incertezas para o capital estrangeiro quanto
aos seus investimentos em IA na região. Existem de fato
elementos de preocupação. Para quem está longe da região é preciso perguntar:
qual o efeito dominó que isso pode desencadear?
Primeiro,
há uma dependência tecnológica e regional dessas empresas em uma região
vulnerável a conflitos. Ou seja, se metade da população mundial que utiliza
uma tecnologia estadunidense tem seus dados em data centers na região, quais
são os riscos econômicos, sociais e políticos em caso de ataque a uma dessas
infraestruturas? Em um mundo tão interconectado, a dependência tecnológica se
torna ainda mais crítica — especialmente em meio à guerra.
Segundo,
no caso do Brasil, se a estratégia de data centers muda na região, como o país
é afetado? A abundância de energia limpa e renovável torna o Brasil um polo
estratégico para empresas de tecnologia que buscam expandir suas
infraestruturas. O país desponta como referência regional e tem uma posição
relevante. Porém, a instalação de data centers é uma política pública sem foco na
soberania digital e nacional. A guerra atual deixa claro que os riscos dessa
expansão não são apenas ambientais. Com ela vêm também
conflitos geopolíticos, múltiplos interesses políticos e econômicos e as
tensões que inevitavelmente emergem com esses eventos.
Fonte: Por David
Moscrop - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil/The Intercept

Nenhum comentário:
Postar um comentário