Emir
Sader: Por que a próxima eleição do Lula é mais fácil que a anterior?
Na
eleição anterior, o Lula havia saído da prisão enquanto enfrentava o Bolsonaro,
que havia sido eleito presidente do Brasil na eleição anterior.
Lula
não podia contar com a imagem dos seus governos, que tinham ficado mais longe
no tempo, longe da memória das pessoas, ainda mais sob o efeito do trabalho da
grande mídia de criminalizá-lo, de destacar esse lado da imagem do Lula e não a
do governante de sucesso.
Era um
enfrentamento mais difícil do que o da próxima eleição. Nesta, o Lula conta com
o sucesso do seu governo, com todos os índices positivos do seu governo, com os
efeitos reais da distribuição de renda promovida pelo seu governo, pelo pleno
emprego e por outros efeitos do seu governo.
Enquanto
isso, o Bolsonaro está preso, condenado por tentativa clara de golpe de Estado.
Seu filho, designado por ele como seu candidato, não tem o que apresentar, nem
de si mesmo nem de seu pai. A que herança ele pode apelar?
Basta
ver a última manifestação dos bolsonaristas na Avenida Paulista. Não havia
nenhuma proposta sobre o que fazer com o Brasil, apenas o Fora Lula, sem nem
mesmo argumentos que se contrapusessem ao país resultado do governo Lula.
O
próprio candidato adversário do Lula desmaiou e sujou as calças em debate com a
Jandira Feghali. Imagine com o Lula! Ele vai comparecer ou vai alegar alguma
indisposição para não comparecer aos debates?
As
condições em que se deram as eleições anteriores eram claramente menos
favoráveis às desta eleição. Mesmo com as "pesquisas" tentando animar
o candidato da oposição, a mídia, como partido da direita, joga pesado contra a
imagem de um Lula forte, o que a incomoda profundamente.
A
própria mídia, invocando suas pesquisas, joga com a cartada de uma disputa
equilibrada nestas eleições. A esquerda não pode cair nessa esparrela. Temos
que reafirmar a força do Lula e as razões com que ele conta para enfrentar o
filho do Bolsonaro.
Não
para afrouxar, considerando que o favoritismo do Lula não exige grandes pelejas
pela frente. Mas, desde então, o Lula conquistou novos aliados, como o Alckmin,
a Tebet, entre outros. Até setores do Centrão, que, dando-se conta do
favoritismo do Lula e sem condições de ficar muito tempo fora do governo, se
aproximam dele.
O Lula
conta agora também não só com o sucesso do seu novo governo, mas com o fracasso
do neoliberalismo. O caso da Argentina é muito claro, contraposto ao sucesso do
antineoliberalismo no Brasil.
Donald
Trump também debilitou a hegemonia norte-americana na América Latina e no
mundo. Um cenário claramente favorável ao Lula.
Assim,
o cenário das próximas eleições é mais favorável ao Lula, por todos esses
argumentos, do que foi o cenário das eleições anteriores.
• Marco Castelo Branco: Por que o PIB cresce, a renda aumenta e a
aprovação de Lula derrete?
O
Brasil de 2026 vive um paradoxo que desafia os manuais de campanha eleitoral:
indicadores macroeconômicos reluzentes — PIB em alta, desemprego em mínimas
históricas e inflação sob controle — colidindo frontalmente com uma percepção
social de empobrecimento e insegurança econômica. O otimismo dos gabinetes em
Brasília não atravessa a porta das casas brasileiras. O motivo? Uma armadilha
financeira silenciosa que transformou o aumento da renda em lucro bancário e
evasão via apostas, corroendo o capital político do presidente Lula e ameaçando
sua reeleição.
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A Ilusão do Fluxo e a Prisão do Estoque
A
hipótese central para essa desconexão é a falta de consistência na política
econômica. Para controlar a inflação, o governo e o Banco Central mantiveram
taxas reais de juros nas alturas. Simultaneamente, o governo apostou no
crescimento do consumo através do aumento do salário-mínimo, da recomposição
das políticas de assistência social, da expansão do crédito consignado e da
antecipação do saqueaniversário do FGTS.
O erro
de cálculo foi fatal: injetar crédito caro em uma população que no início do
governo já estava endividada não gera consumo sustentável, gera serviço da
dívida. Entre 2023 e 2025, o volume de crédito consignado saltou de R$ 621
bilhões para projetados R$ 742 bilhões. No papel, injetou-se liquidez; na
prática, o comprometimento da renda das famílias com juros e amortizações subiu
de 26,1% para 28,2%. Quase um terço do que o trabalhador ganha morre no banco
antes de chegar ao supermercado ou na loja da esquina.
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O Triângulo das Bermudas da Renda: Juros, FGTS e BETs
A
política de antecipação do FGTS, que deveria ser um socorro pontual, tornou-se
uma drenagem permanente. Em 2024, o volume de antecipações atingiu R$ 42
bilhões. O trabalhador “vende” seu patrimônio futuro para pagar juros
presentes, com taxas que, embora menores que as do rotativo, são aplicadas
sobre um saldo bloqueado, garantindo risco zero e lucro máximo às instituições
financeiras.
Enquanto
isso, as BETs, o “ralo” devorador dos salários criado no governo Temer só foi
(mal)regulado em dezembro de 2023 – com regras que passaram a valer apenas a
partir de janeiro de 2025 – terminou de esvaziar de vez o bolso do povão. O
gasto das famílias com apostas online explodiu de R$ 80 bilhões em 2023 para
estarrecedores R$ 270 bilhões previstos para o fechamento de 2025. Estima-se
que 2,5% da massa salarial nacional esteja sendo drenada por plataformas de
jogos, muitas vezes utilizando recursos de programas sociais e do crédito
consignado. O varejo, que deveria ser o motor do PIB de Lula, perdeu cerca de
R$ 140 bilhões em faturamento para o setor de apostas apenas em 2025.
Note
que a despesa com juros cresceu 16,4% em três anos, 40% acima dos 11,7% que foi
aumento da renda no mesmo período. O aumento do salário-mínimo e a isenção do
IRPF para quem ganha até R$ 5 mil tornaram-se meros repasses para o sistema
financeiro.
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Conclusão: O Lucro do Banco e o Preço do Voto
A
ironia política é trágica. Um governo eleito com a bandeira de “colocar o pobre
no orçamento” entregou, na prática, um cenário onde o setor bancário registrou
lucros recordes (saltando de R$ 104 bilhões em 2023 para R$ 128 bilhões em
2025). O setor financeiro e as BETs foram os verdadeiros beneficiários do “Lula
III”.
O
problema eleitoral é que banqueiro e dono de BET não votam em Lula, e mesmo que
votassem somam poucos votos. Para o povão, o que resta é a ansiedade e a
sensação de estar correndo, e correndo muito, sem sair do lugar. Se a economia
de “fluxo” vai bem nos gráficos de Brasília, a economia de “estoque” (a dívida
e os juros escorchantes) destruiu o que deveria ser um bem-estar percebido das
pessoas.
Dificilmente
haverá tempo até as eleições para o governo corrigir a trapalhada em que se
enfiou. Para desestimular o voto numa segunda aventura bolsonarista e evitar
uma derrota deprimente após completar 81 anos de idade, Lula vai precisar agir
rápido: assumir que errou e prometer que vai corrigir a trajetória no próximo
mandato: o pobre vai continuar no orçamento, mas ele vai jurar que dessa vez o
dinheiro ficará no bolso do eleitor ao invés de ir parar na carteira dos
banqueiros e no caixa das apostas online.
• Juros estrangulam o país e alimentam a
máquina da dívida. Por Paulo Cannabrava Filho
O
Brasil segue prisioneiro de uma política econômica que prioriza o sistema
financeiro em detrimento da produção e do bem-estar da população. Com a taxa de
juros mantida em 14,75%, o custo da dívida pública já ultrapassa a marca de um
trilhão de reais, consumindo parcela crescente das riquezas nacionais.
Em
2025, o país destinou 7,9% do PIB ao pagamento de juros, percentual que deve
alcançar 8% em 2026, muito acima da média histórica de 6%. Trata-se de uma
trajetória insustentável, que não apenas estoura qualquer meta fiscal, como
também não apresenta horizonte de reversão. Em apenas dez anos, a dívida
pública saltou de 5 trilhões para 10 trilhões de reais, atingindo 78,7% do PIB
— um crescimento que reflete diretamente a submissão da política econômica aos
interesses do capital financeiro.
Essa
lógica impõe um duplo estrangulamento: o Estado se endivida para sustentar a
engrenagem financeira, enquanto a população é empurrada para o endividamento.
Hoje, cerca de 80% dos brasileiros convivem com dívidas, e o nível de
inadimplência alcança patamares alarmantes. A economia real sente o impacto
imediato dessa política, com retração do consumo, queda nos investimentos e
aumento da insegurança econômica.
No
setor produtivo, especialmente no agronegócio, os sinais de desaceleração são
evidentes. O aumento expressivo do diesel — que chega a registrar alta próxima
de 50% em algumas regiões —, somado ao encarecimento dos fertilizantes e ao
custo elevado do frete, compromete a rentabilidade e inibe novos investimentos.
Diante de um cenário em que a conta não fecha, a tendência é pisar no freio.
A
conjuntura internacional agrava ainda mais esse quadro. O fechamento do
estreito de Ormuz pelo Irã, por onde transita cerca de um quinto do petróleo
mundial, e os ataques a países do Golfo, aliados dos Estados Unidos, impactam
diretamente a oferta global de energia e pressionam os preços. O resultado é a
elevação dos custos internos em países dependentes de derivados, como o Brasil.
Embora
seja exportador de petróleo bruto, o Brasil segue dependente da importação de
gasolina, diesel e querosene. A venda de refinarias nos últimos anos aprofundou
essa vulnerabilidade, obrigando o país a importar derivados em volume muito
superior ao que seria necessário caso mantivesse sua capacidade de refino.
Trata-se de uma escolha política que compromete a soberania energética e agrava
os efeitos das crises externas.
O
quadro que se desenha é o de uma economia travada, submetida aos interesses do
sistema financeiro, vulnerável às oscilações internacionais e incapaz de
sustentar um projeto consistente de desenvolvimento. Sem enfrentar a lógica dos
juros elevados e sem recuperar instrumentos estratégicos como o refino de
petróleo, o país seguirá refém de uma dinâmica que concentra renda, amplia
desigualdades e bloqueia o futuro.
Diante
desse cenário, impõe-se a urgência de um projeto de salvação nacional. Em ano
eleitoral, abre-se uma janela decisiva para renovar a representação política e
recolocar o país nos trilhos do desenvolvimento. É hora de eleger dirigentes
comprometidos com a soberania, com a produção e com o interesse nacional —
capazes de romper com a lógica rentista e reconstruir as bases de um projeto
que devolva ao Brasil a capacidade de decidir seu próprio destino.
• Treta na direita: promessa de anistia
feita por Caiado a Bolsonaro mexe com brios de ala do PL ligada a Flávio
A
promessa de anistia a Jair Bolsonaro (PL) feita por Ronaldo Caiado (PSD)
durante o lançamento de sua pré-candidatura ao Planalto, nesta segunda-feira
(30), gerou tensão na campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O movimento
é visto como uma tentativa direta de conquistar o eleitorado conservador, base
estratégica da direita brasileira.
Segundo
o jornal O Globo, aliados interpretaram a declaração como um gesto calculado de
Caiado para dialogar com apoiadores de Bolsonaro, em um momento em que Flávio
busca ampliar sua pré-campanha para além do núcleo ideológico.
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Disputa pelo eleitorado conservador
Nos
bastidores, interlocutores avaliam que a defesa da anistia desloca o debate
para um terreno de forte mobilização política. A leitura dentro do partido é
que o governador de Goiás tenta se posicionar como alternativa competitiva
dentro do campo conservador, sem abrir mão de pautas centrais do bolsonarismo.
Dirigentes
do PL entendem que o impacto da entrada de Caiado deve ocorrer principalmente
dentro da própria direita, com pouca influência sobre eleitores do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ao combinar críticas ao governo com acenos a
pautas conservadoras, o pré-candidato passa a disputar espaço diretamente com
Flávio Bolsonaro.
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Efeitos no primeiro turno
Apesar
do incômodo, a avaliação predominante é que o movimento não altera de forma
estrutural o cenário eleitoral. Ainda assim, há expectativa de efeitos no
primeiro turno, com possível migração de parte do eleitorado conservador.
Aliados defendem que a estratégia de Flávio Bolsonaro seja mantida, priorizando
a construção de alianças e o fortalecimento de uma agenda econômica, evitando
confronto direto neste momento.
Uma ala
da campanha, porém, avalia que Caiado pode assumir uma postura mais agressiva
contra o governo federal ao longo da pré-campanha, ocupando a linha de frente
no embate ideológico dentro da direita.
Fonte:
Brasil 247/Jornal GGN/Diálogos do Sul Global

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