Dialética
da barganha acadêmica
É
sobremodo conhecida a diferença entre intelectuais orgânicos e tradicionais.
Grosso modo, os primeiros são produzidos organicamente pelas classes sociais
fundamentais ao modo de produção capitalista. Assim, os operários têm os seus
líderes sindicais, por exemplo; os capitalistas têm os seus gerentes,
administradores, engenheiros de produção, contadores etc.
Foi
Antonio Gramsci quem propôs essas categorias. O intelectual moderno seria um
organizador da cultura, das relações econômicas, políticas etc. Ele age de
maneira diferente em relação ao intelectual tradicional que, via de regra, é um
ideólogo produzido por instituições anteriores ao capitalismo, como a
universidade e a igreja.
A
primeira questão é que, tratorada pela ideologia da livre concorrência, a
universidade também se mercantilizou: ela passou a dispor de um “quadripé”
constituído por ensino, pesquisa, extensão e empreendedorismo. E a igreja… bem,
muitas são as redes de franquias orientadas por metas de arrecadação, como bem
sabemos: basta ligar o rádio e a televisão para comprovar esse diagnóstico.
Ora,
quem diz “universidade” não ignora que são as relações de trabalho, pesquisa e
ensino que se deterioram, supostamente em nome da inovação (compulsória) e da
competição (disfarçada em formas de bonificação). O segundo fator é que o
ideário concorrencial, embuçado pelo discurso empreendedor, foi introjetado
pelas autoridades universitárias de modo acrítico. Bastaria consultar algumas
pesquisas feitas nas próprias instituições para se questionar o ritmo com que a
ilusão neoliberal se espraia em colegiados, comissões, corredores e salas de
aula.
Uma das
consequências deletérias dessa concepção utilitária está subsumida na lógica da
barganha. É ela que leva alunos e professores não a propor outros métodos em
busca do conhecimento; mas a recortar, deformar, anular o potencial de seu
projeto de pesquisa, em acordo com o teor dos editais. A questão, o impasse, o
dissenso foram substituídos por projetos que substituíram o repertório
cultural, a curiosidade intelectual e a reflexão do pesquisador pela
hipervalorização das micro-especialidades:
o valor do prêmio ou da bolsa precede o tema de pesquisa e a relevância
do projeto.
Não se
ignora que a preparação para o mercado de trabalho é, há muito tempo, uma das
dimensões do ensino. Mas quando a sala de aula é convertida exclusivamente em
incubadora de negócios, é sinal de que a visão problematizadora perdeu terreno
para a resignação pragmática; é indício de que os amplos saberes cederam lugar
às fórmulas que orbitam a (anti)ética do lucro. Ademais, estamos no reino da
falácia, pois se não houver crescimento econômico, trabalho formal e massa
salarial suficiente ninguém poderá “empreender” coisa alguma, pois não disporá
de clientela. É no pleno emprego que os serviços se tornam mais caros.
Desse
modo, uma universidade incapaz de valorizar a discussão de seus clássicos (como
Caio Prado Junior), que desvendaram a persistência do colonialismo e da
dependência – quadro que caracteriza a primeira República, o Estado Novo, as
ditaduras, a redemocratização e o reformismo neoliberal – estará restrita a ser
vitrine.
A
instituição passa a ser provedora de camadas de verniz úteis à propaganda
ideológica que finge trazer soluções para um mercado de trabalho constituído
por consumistas e precarizados, disputado por seres egoicos, superficiais e
dispersos; pródigos entre os seus, mas refratários a qualquer mudança efetiva
nas estruturas.
Engana-se
quem não detecta o papel da universidade como: (i) repositora de ideologias;
(ii) como reprodutora de valores infensos ao conhecimento autônomo e de viés
humanista, quer dizer, solidário e não-dogmático.
Como
observa Marilena Chaui, “a ciência a tecnologia contemporâneas, submetidas à
lógica neoliberal e à ideologia pós-moderna, parecem haver-se tornado o
contrário do que delas se esperava: em lugar de fonte de conhecimento contra as
superstições, criaram a ciência e a tecnologia como novos mitos e magia; em
lugar de fonte libertadora das carências naturais e cerceamento de guerras,
tornaram-se, por meio do complexo industrial militar, causas de carências e
genocídios”.
Esse
estado de coisas está inserido num cenário histórico e social mais amplo, em
marcha desde 1964: neste país, a desvalorização do professor caminha de mãos
dadas com o embrutecimento, a esterilização das sensibilidades e o
deslumbramento tecnológico. Como mostrou Evaldo Vieira em Estado e miséria
social no Brasil, as formas de aniquilação da escola básica, em curso desde a
década de 1960, foram transferidas para a universidade pública no decênio
seguinte.
Há mais
de cinquenta anos assistimos ao incremento de manobras que visam a quebrar os
vínculos entre os profissionais e os demais atores da educação. Florestan
Fernandes percebeu que “é preciso pensar nisto: desde esse professor até
aqueles outros, como Mario Schenberg, que são considerados como grandes cabeças
teóricas. Todos somos professores. Todos somos, fomos e seremos brutalizados.
Esse é um tópico importante. O segundo tópico diz respeito à própria correlação
entre a atividade do professor, numa sociedade subdesenvolvida, e o caráter
político do que ele faz e do que deixa de fazer. E dentre as sociedades
subdesenvolvidas, o Brasil se apresenta com características peculiares, por ser
uma sociedade com desenvolvimento desigual muito forte e, portanto, por
apresentar contrastes e contradições muito violentos”.
Palco
adjacente à incubadora, a sala de aula se transformou em arena onde se alimenta
diariamente o “espírito competitivo”, submetido à modernização compulsória e a
todo custo, quase sempre avessa à historicidade dos costumes e das práticas.
Consequentemente, o professor deixou de ser referência intelectual; passou a
ser visto como um prestador de serviços e potencial captador de recursos –
percepção que aparta os colegas de ofício e é reforçada pela postura
clientelista de uma parte expressiva do alunado.
Fonte:
Por Lincoln Secco e Jean Pierre Chauvin, em A Terra é Redonda

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