quinta-feira, 2 de abril de 2026

Dialética da barganha acadêmica

É sobremodo conhecida a diferença entre intelectuais orgânicos e tradicionais. Grosso modo, os primeiros são produzidos organicamente pelas classes sociais fundamentais ao modo de produção capitalista. Assim, os operários têm os seus líderes sindicais, por exemplo; os capitalistas têm os seus gerentes, administradores, engenheiros de produção, contadores etc.

Foi Antonio Gramsci quem propôs essas categorias. O intelectual moderno seria um organizador da cultura, das relações econômicas, políticas etc. Ele age de maneira diferente em relação ao intelectual tradicional que, via de regra, é um ideólogo produzido por instituições anteriores ao capitalismo, como a universidade e a igreja.

A primeira questão é que, tratorada pela ideologia da livre concorrência, a universidade também se mercantilizou: ela passou a dispor de um “quadripé” constituído por ensino, pesquisa, extensão e empreendedorismo. E a igreja… bem, muitas são as redes de franquias orientadas por metas de arrecadação, como bem sabemos: basta ligar o rádio e a televisão para comprovar esse diagnóstico.

Ora, quem diz “universidade” não ignora que são as relações de trabalho, pesquisa e ensino que se deterioram, supostamente em nome da inovação (compulsória) e da competição (disfarçada em formas de bonificação). O segundo fator é que o ideário concorrencial, embuçado pelo discurso empreendedor, foi introjetado pelas autoridades universitárias de modo acrítico. Bastaria consultar algumas pesquisas feitas nas próprias instituições para se questionar o ritmo com que a ilusão neoliberal se espraia em colegiados, comissões, corredores e salas de aula.

Uma das consequências deletérias dessa concepção utilitária está subsumida na lógica da barganha. É ela que leva alunos e professores não a propor outros métodos em busca do conhecimento; mas a recortar, deformar, anular o potencial de seu projeto de pesquisa, em acordo com o teor dos editais. A questão, o impasse, o dissenso foram substituídos por projetos que substituíram o repertório cultural, a curiosidade intelectual e a reflexão do pesquisador pela hipervalorização das micro-especialidades:  o valor do prêmio ou da bolsa precede o tema de pesquisa e a relevância do projeto.

Não se ignora que a preparação para o mercado de trabalho é, há muito tempo, uma das dimensões do ensino. Mas quando a sala de aula é convertida exclusivamente em incubadora de negócios, é sinal de que a visão problematizadora perdeu terreno para a resignação pragmática; é indício de que os amplos saberes cederam lugar às fórmulas que orbitam a (anti)ética do lucro. Ademais, estamos no reino da falácia, pois se não houver crescimento econômico, trabalho formal e massa salarial suficiente ninguém poderá “empreender” coisa alguma, pois não disporá de clientela. É no pleno emprego que os serviços se tornam mais caros.

Desse modo, uma universidade incapaz de valorizar a discussão de seus clássicos (como Caio Prado Junior), que desvendaram a persistência do colonialismo e da dependência – quadro que caracteriza a primeira República, o Estado Novo, as ditaduras, a redemocratização e o reformismo neoliberal – estará restrita a ser vitrine.

A instituição passa a ser provedora de camadas de verniz úteis à propaganda ideológica que finge trazer soluções para um mercado de trabalho constituído por consumistas e precarizados, disputado por seres egoicos, superficiais e dispersos; pródigos entre os seus, mas refratários a qualquer mudança efetiva nas estruturas.

Engana-se quem não detecta o papel da universidade como: (i) repositora de ideologias; (ii) como reprodutora de valores infensos ao conhecimento autônomo e de viés humanista, quer dizer, solidário e não-dogmático.

Como observa Marilena Chaui, “a ciência a tecnologia contemporâneas, submetidas à lógica neoliberal e à ideologia pós-moderna, parecem haver-se tornado o contrário do que delas se esperava: em lugar de fonte de conhecimento contra as superstições, criaram a ciência e a tecnologia como novos mitos e magia; em lugar de fonte libertadora das carências naturais e cerceamento de guerras, tornaram-se, por meio do complexo industrial militar, causas de carências e genocídios”.

Esse estado de coisas está inserido num cenário histórico e social mais amplo, em marcha desde 1964: neste país, a desvalorização do professor caminha de mãos dadas com o embrutecimento, a esterilização das sensibilidades e o deslumbramento tecnológico. Como mostrou Evaldo Vieira em Estado e miséria social no Brasil, as formas de aniquilação da escola básica, em curso desde a década de 1960, foram transferidas para a universidade pública no decênio seguinte.

Há mais de cinquenta anos assistimos ao incremento de manobras que visam a quebrar os vínculos entre os profissionais e os demais atores da educação. Florestan Fernandes percebeu que “é preciso pensar nisto: desde esse professor até aqueles outros, como Mario Schenberg, que são considerados como grandes cabeças teóricas. Todos somos professores. Todos somos, fomos e seremos brutalizados. Esse é um tópico importante. O segundo tópico diz respeito à própria correlação entre a atividade do professor, numa sociedade subdesenvolvida, e o caráter político do que ele faz e do que deixa de fazer. E dentre as sociedades subdesenvolvidas, o Brasil se apresenta com características peculiares, por ser uma sociedade com desenvolvimento desigual muito forte e, portanto, por apresentar contrastes e contradições muito violentos”.

Palco adjacente à incubadora, a sala de aula se transformou em arena onde se alimenta diariamente o “espírito competitivo”, submetido à modernização compulsória e a todo custo, quase sempre avessa à historicidade dos costumes e das práticas. Consequentemente, o professor deixou de ser referência intelectual; passou a ser visto como um prestador de serviços e potencial captador de recursos – percepção que aparta os colegas de ofício e é reforçada pela postura clientelista de uma parte expressiva do alunado.

 

Fonte: Por Lincoln Secco e Jean Pierre Chauvin, em A Terra é Redonda


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