quinta-feira, 2 de abril de 2026

Indulto a genocidas: Milei mina protagonismo da Argentina em matéria de memória e justiça

Especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU) em direitos humanos expressaram preocupação com medidas regressivas adotadas na Argentina que comprometem avanços em memória, verdade e justiça, em meio ao marco do 50º aniversário da instalação da última ditadura militar no país.

“Ainda que com idas e vindas e lacunas, durante décadas o país avançou enormemente na luta contra a impunidade e na garantia dos direitos à verdade e à memória”, afirmaram os especialistas. No entanto, “lamentavelmente, hoje observamos uma rápida deterioração da liderança mundial da Argentina nesse campo.”

Os especialistas independentes, que atuam por mandato do Conselho de Direitos Humanos da ONU em Genebra, se referiram ao possível indulto que o presidente ultradireitista Javier Milei prometeu a militares condenados por crimes internacionais. A medida, apontam os membros da ONU, representaria um grave retrocesso na responsabilização.

“Os indultos por graves violações de direitos humanos são estritamente proibidos pelas normas imperativas do direito internacional”, ressaltaram.

Segundo a imprensa argentina, Milei estuda conceder um indulto a militares condenados por crimes de lesa-humanidade. A medida seria realizada no último 24 de março, quando se completaram 50 anos do golpe de Estado que instaurou a ditadura entre 1976 e 1983. O mandatário recuou, mas o tema segue em pauta.

Atualmente, há 539 condenados detidos, dos quais 454 cumprem prisão domiciliar, segundo a atualização trimestral das estatísticas produzidas pela Procuradoria de Crimes contra a Humanidade, vinculada ao Ministério Público.

“A Argentina não pode cometer o mesmo erro novamente. Pelo contrário, deve consolidar e aprofundar seu exitoso legado de justiça transicional para garantir uma reconciliação efetiva e a não repetição”, afirmaram os especialistas em Genebra.

Eles destacaram que, “desde o retorno à democracia em 1983, a Argentina se consolidou como uma referência mundial em justiça transicional”.

Entre os marcos citados estão a criação e os trabalhos da Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas, o julgamento das Juntas militares e o processamento e condenação de mais de 1 mil responsáveis por crimes de lesa-humanidade.

Também foram mencionados o Banco Nacional de Dados Genéticos, a Comissão Nacional pelo Direito à Identidade, a restituição da identidade de crianças desaparecidas forçadamente, além da criação de dezenas de espaços e políticas de memória.

Os especialistas informaram que já manifestaram preocupação ao governo em seis ocasiões em relação às medidas regressivas adotadas desde 2024.

Entre essas medidas estão a redução do papel do Estado na promoção de investigações penais por crimes contra a humanidade, a obstrução do acesso aos arquivos da ditadura e o enfraquecimento de mecanismos de reparação e apoio às vítimas.

Nos últimos anos, o governo argentino também tem desmantelado instituições dedicadas à memória, à busca de pessoas desaparecidas, à preservação de arquivos e à promoção dos direitos humanos, apontaram.

“Essas medidas comprometem os alicerces da justiça transicional, da democracia e do Estado de Direito, ao mesmo tempo em que enfraquecem as garantias de não repetição”, afirmaram.

Os especialistas também expressaram preocupação com manifestações públicas de negacionismo e glorificação das graves violações de direitos humanos cometidas durante a ditadura, com discursos estigmatizantes contra vítimas e organizações de direitos humanos e com a desqualificação das políticas de justiça transicional.

“As autoridades devem se abster de recorrer à desinformação e ao discurso de ódio em relação a esses crimes e suas vítimas. Tentar reescrever o passado com narrativas negacionistas ou revisionistas constitui outro retrocesso alarmante e uma violação dos direitos humanos”, enfatizaram.

Assinaram a declaração os especialistas Bernard Duhaime, relator sobre a promoção da verdade, justiça, reparação e garantias de não repetição; Morris Tidball-Binz, relator sobre execuções extrajudiciais, sumárias ou arbitrárias; e Alice Jill Edwards, relatora sobre tortura e outros tratamentos ou penas cruéis, desumanos ou degradantes.

Também assinaram o Grupo de Trabalho sobre Desaparecimentos Forçados ou Involuntários — composto por Gabriella Citroni (presidenta-relatora), Grażyna Baranowska, Aua Baldé, Ana Lorena Delgadillo Pérez e Mohammed Al-Obaidi —, além da relatora especial na área de direitos culturais, Alexandra Xanthaki.

¨      Bases dos EUA na América Latina são dupla ameaça aos povos da região. Por Elaine Tavares

Os Estados Unidos seguem trabalhando fortemente na sua estratégia de dominar completamente a América Latina, mantendo-a sob seu tacão. No início de março, o presidente Donald Trump reuniu presidentes “amigos” em um encontro para constituir o que ele chamou de Escudo das Américas, mas que, na verdade, é a busca por um escudo para “a” América – no caso, eles.

A proposta do governo dos EUA é garantir a instalação de mais bases militares no continente. Também  neste mês de março, o congresso do Paraguai reativou um acordo que permite a entrada de militares estadunidenses no país para trabalhos de “cooperação”. Os militares terão imunidades semelhantes às concedidas a diplomatas, o que, na prática, constitui a instalação de uma base militar dentro do Paraguai.

No Equador, o presidente Noboa tentou empurrar goela abaixo a retomada pelos gringos da Base de Manta, mas foi impedido pela vontade popular que, numa consulta nacional, rejeitou a presença militar estrangeira no país. Ainda assim, o mandatário segue buscando atuar em conjunto com os Estados Unidos, agora sob o pretexto de atacar o narcotráfico.

Na Argentina — cujo presidente, Javier Milei, já até ofereceu os jovens argentinos para lutar contra o Irã — também está sendo discutida a instalação de bases estadunidenses na região de Ushuaia e Terra do Fogo. Em outubro do ano passado, foi autorizada a presença de militares dos EUA no território para a realização de exercícios conjuntos.

Não se sabe ao certo quantas bases militares estadunidenses existem na América Latina, mas o número deve se aproximar dos 80. A Base Naval de Guantánamo em Cuba é a mais antiga e bastante simbólica por estar incrustada na ilha socialista. No Caribe estão espalhadas várias bases, com especial atenção para as de Aruba, Curaçao e Porto Rico.

Honduras registra a Base Aérea de Soto Cano, um ponto bastante estratégico para o controle de toda a região da América Central. Panamá, apesar de ter recuperado o controle do canal, ainda cede espaços para militares estadunidenses.

Na Colômbia são mais de nove bases militares, com a desculpa de atuar contra o narcotráfico. O Peru, ainda que não tenha bases, cede diversos pontos do território para operações de inteligência estadunidense. No Uruguai não há bases militares, mas em 2023 o Senado fortaleceu a cooperação em segurança e defesa, incluindo o retorno ao Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR).

O Chile oficialmente não tem base, mas há denúncias de que o Forte Aguayo, inaugurado em 2012, recebeu financiamento estadunidense para abrigar o centro de treinamento para os soldados da Organização das Nações Unidas (ONU), chamados de capacetes azuis. Esse fato levantou várias denúncias de que o Forte seria, sim, uma base militar estadunidense, visto que Washington detém o controle.

A Bolívia não tem mais nenhuma base estadunidense desde que Evo Morales fechou a instalação de Chimoré como medida de soberania. Agora, com o novo presidente, não se sabe o que vai acontecer. Já no México, não há, pois a Constituição do país proíbe qualquer base estrangeira.

Resta o Brasil, que em tese também não tem base estadunidense em seu território. Inclusive, esse tema sempre foi motivo de rechaço por parte da população. Ainda assim, o país mantém boas relações com os militares estadunidenses, consolidando acordos de cooperação focados em intercâmbio de tecnologias e lançamentos espaciais na Base de Alcântara. Em vários mapas sobre bases na América Latina, Alcântara aparece como sendo uma delas.

Como dá para perceber, o continente latino-americano está praticamente tomado por bases dos EUA, o que deveria deixar o povo com as barbas de molho. Basta ver o que acontece hoje na região do Oriente Médio. Com os Estados Unidos deflagrando ataques sobre o Irã, o Irã tem revidado, destruindo bases militares estadunidenses nos países vizinhos.

Entregando o território nacional para bases estadunidenses, os governos dos países da América Latina oferecem um risco duplo à região: ao mesmo tempo em que se submetem a serem serviçais do imperialismo, colocam suas populações em perigo. Afinal, numa eventual guerra, todos estes espaços estarão sujeitos a ataques.

¨      Entre bilhões e bloqueios: o caso Maduro e a lógica de controle dos EUA sobre a Venezuela. Por Vanessa Martina-Silva

Após a audiência realizada na quinta-feira (26), em Nova York, o mundo comprovou que o julgamento do presidente constitucional da Venezuela, Nicolás Maduro, e da deputada Cilia Flores, ambos sequestrados nos Estados Unidos, é ilegal.

A audiência não se concentrou em provar se os réus cometeram ou não os crimes, mas em um ponto anterior: a possibilidade real de defesa.

Com os recursos bloqueados por sanções do governo estadunidense, os advogados escolhidos pelos acusados ficam sem financiamento, num impasse em que o Estado acusador controla, ainda que indiretamente, os meios de defesa. Assim, o debate sai do mérito das acusações e passa a atingir a legitimidade do próprio processo.

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O juiz Alvin Hellerstein, responsável por conduzir o processo criminal, explicitou a gravidade do impasse ao afirmar:

O direito à assistência de advogado é primordial. Os réus estão aqui e não representam nenhuma ameaça adicional à segurança nacional. Não vejo nenhum interesse permanente de segurança que se sobreponha ao direito de alguém se defender.Alvin Hellerstein

<><> Sanções e Constituição no núcleo da crise jurídica

A promotoria, por sua vez, sustenta que o bloqueio se justifica dentro da política de segurança nacional dos EUA. Na audiência, o promotor Kyle Wirshba apresentou uma interpretação restritiva das garantias constitucionais: “O direito a advogado previsto na Sexta Emenda é flexível, não é absoluto.”

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Essa leitura introduz um elemento decisivo: a relativização de um direito fundamental com base em critérios políticos. Isso se expressa em três dimensões centrais:

  • Primeiro, na erosão de garantias constitucionais, ao admitir que um direito básico possa ser flexibilizado por razões de Estado, o que fragiliza pilares do próprio sistema jurídico estadunidense.
  • Em seguida, na instrumentalização do sistema judicial, uma vez que sanções de política externa passam a interferir diretamente no funcionamento do processo, aproximando-o de uma lógica de exceção.
  • Por fim, na violação concreta do direito de defesa: ao bloquear os recursos que financiariam os advogados escolhidos pelos réus, o Estado acusador limita, na prática, as condições de defesa.

 Finalmente, o caso expõe um paradoxo. As sanções — instrumento típico de política externa — passam a interferir diretamente no devido processo legal, o que alguns analistas consideram que pode levar à anulação do processo, caso se confirme o cerceamento do direito à defesa.

<><> Operação militar e disputa de narrativas

O pano de fundo do julgamento permanece sendo a forma como Maduro foi levado aos Estados Unidos. O sequestro do casal presidencial, em 3 de janeiro de 2026, resultou na captura do presidente venezuelano e deixou dezenas de mortos — ao menos 24 militares venezuelanos e 32 cubanos, segundo os dados disponíveis.

Para críticos, trata-se de violação direta do direito internacional. O analista haitiano Camille Chalmers sintetizou essa posição ao afirmar: “A operação realizada em 3 de janeiro não responde a nenhum procedimento judicial reconhecido, mas se parece com um sequestro ilegal.”

O governo dos EUA enquadra a ação como parte do combate ao narcoterrorismo. Sem provas, o presidente Donald Trump afirmou: “ele esvaziou as prisões da Venezuela para dentro do nosso país. É um homem muito, muito perigoso, que matou muita gente”.

<><> Situação dos sequestrados

Durante a audiência, também vieram à tona detalhes das condições de detenção. Maduro permanece sob Medidas Administrativas Especiais (SAMs), regime que impõe isolamento de 23 horas diárias e controle rigoroso de comunicação.

Relatos indicam mudanças físicas visíveis: perda de peso, cabelos mais grisalhos e dificuldade de locomoção decorrente de ferimentos sofridos na perna durante o sequestro. Ele compareceu ao tribunal com algemas nos pés, apesar de estar com as mãos livres.

No caso de Cilia Flores, a defesa alertou para uma condição cardíaca que exige exames mais detalhados, e denunciou que ela não está recebendo a devida atenção médica no cativeiro.

<><> Dimensão geopolítica do caso

A audiência também reforçou que o processo não se limita aos dois réus. A promotoria solicitou restrições ao compartilhamento de provas, alegando risco de que informações cheguem a coacusados foragidos e possam comprometer testemunhas.

Paralelamente, o governo dos EUA sinaliza expansão da investigação. A procuradora-geral Pamela Bondi afirmou: “Estamos observando outras jurisdições para ir atrás das pessoas envolvidas. Temos identificados muitos cúmplices e conspiradores”.

Essa estratégia amplia o alcance do caso para além do tribunal, transformando-o em instrumento de pressão sobre redes políticas e institucionais vinculadas ao governo venezuelano.

A audiência de 26 de março, porém, não resolve um dos principais impasses do processo: os limites da jurisdição estadunidense. A possibilidade de julgar crimes ocorridos fora de seu território — especialmente quando envolve chefes de Estado estrangeiros — levanta uma questão de seletividade. Se esse alcance é legítimo, por que não é mobilizado em casos semelhantes envolvendo líderes como Vladimir Putin, Benjamin Netanyahu ou Kim Jong-un?

Maduro expôs bem a problemática ao dizer, na primeira audiência: “Sou um homem decente. Não sou culpado. Continuo sendo presidente do meu país.”

Há outra contradição evidente. Enquanto o governo dos EUA bloqueia recursos venezuelanos para impedir o pagamento da defesa, mantém — e inclusive amplia — relações econômicas estratégicas com o país, especialmente no setor energético. Planos recentes indicam a abertura para investimentos que podem alcançar até US$ 100 bilhões na reconstrução da indústria petrolífera venezuelana.

Nesse contexto, o julgamento deixa de ser apenas um processo penal e passa a operar como engrenagem de um sistema mais amplo de controle. A questão não é apenas se Maduro será condenado ou absolvido, mas se um país inteiro pode ser mantido, simultaneamente, sob bloqueio e sob dependência, convertido em refém de uma lógica na qual o poder imperial sanciona, asfixia e, ao mesmo tempo, se arroga o direito de julgar seus líderes.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global

 

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