Leila
Salim: Israel repete no Líbano a estratégia genocida adotada em Gaza
O carro
de Abu Mohammed estava quebrado, parado havia um ano na garagem de sua
casa no subúrbio sul de Beirute. Na madrugada do dia 2 de março, quando as
bombas israelenses começaram a ser lançadas contra seu bairro, a reação do
libanês de 85 anos foi pegar alguns pertences pessoais e correr para tentar
ligar o veículo – que funcionou. Contando com a sorte, conseguiu fugir junto a
vizinhos para a Praça dos Mártires, na região central da capital libanesa,
tornando-se um entre os mais de 1 milhão deslocados à
força por Israel desde a intensificação dos ataques ao Líbano.
Desde
aquele dia até 31 de março, já são ao menos 1.247 mortos (entre eles, 124
crianças) e 3.680 feridos pelos ataques de Israel ao Líbano, segundo os dados do Ministério
da Saúde Pública libanês
e do Fundo das Nações
Unidas para a Infância, o Unicef. Os deslocados – expulsos principalmente do
sul do Líbano, do subúrbio de Beirute e do Vale do Bekaa, a leste – hoje vivem
entre alojamentos improvisados, casas de familiares ou nas ruas de Beirute,
como Abu Mohammed. Além desses, há ainda mais de 150 mil pessoas
isoladas no sul,
depois que ataques israelenses destruíram pontes que ligavam a área ao restante
do país.
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Anexação e limpeza étnica
Além
dos bombardeios sistemáticos, do deslocamento forçado em massa e da destruição
de infraestrutura civil, Israel amplia a demolição
de casas nos
vilarejos libaneses mais próximos à fronteira (o que já vinha realizando antes da atual
escalada) e intensifica a invasão por terra também no sul
do Líbano. Como se não bastassem todas as evidências factuais, o governo do
primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, tem falado abertamente, nos
últimos dias, sobre o objetivo de invadir e anexar o sul do Líbano.
Netanyahu declarou a intenção de ampliar o que
chama de “zona tampão” na região. O ministro da Defesa de Israel, Israel
Katz, afirmou que realizará a
tarefa “usando o modelo de Beit Hanoun e Rafah”, em referência à destruição
completa das áreas residenciais feita por Israel nas fronteiras da Faixa de
Gaza. Para completar, Bezalel Smotrich, ministro das Finanças israelense, afirmou na sequência
que a “nova fronteira de Israel deveria ser o Rio Litani”, curso de água
localizado em território libanês a 30 quilômetros da atual fronteira.
Ainda
assim, a atual fase da agressão israelense ao Líbano vem sendo majoritariamente
tratada com recortes factuais, enquadrada como um “conflito” entre Israel e
Hezbollah, grupo paramilitar e partido político libanês aliado do Irã. Nesses
termos, o conflito teria sido
iniciado com
o lançamento de foguetes pelo Hezbollah em 2 de março
contra o norte de Israel, o que teria “arrastado” o Líbano para a guerra mais
ampla, iniciada em 28 de fevereiro, de Estados Unidos e Israel contra o país
persa.
Mesmo
do ponto de vista puramente factual, há um equívoco jornalístico elementar
nesse enquadramento. Ele deixa de fora elementos de interesse público que
contextualizam a informação: entre novembro de 2024 e fevereiro deste ano,
quando estava em vigor o cessar-fogo assinado entre Israel e Líbano, 370 pessoas foram
mortas por
ataques israelenses em território libanês. O acordo foi violado por
Israel mais de 10 mil vezes, segundo dados da missão de paz da Organização
das Nações Unidas, a ONU, e do governo libanês.
Não
havia, portanto, como “arrastar” o Líbano para uma guerra se o país não estava
em paz. Além disso, o enquadramento frequentemente omite que, em 28 de
fevereiro, Israel e Estados Unidos atacaram o Irã violando o direito
internacional,
de acordo com especialistas das próprias Nações Unidas, sem que houvesse ameaça
iminente e com as negociações sobre o
programa nuclear do Irã em andamento.
Quando
se tenta falar em mortes, explosões e perdas “dos dois lados”, em tom de
equivalência, não é apenas a gritante desproporção numérica que é ignorada. É,
principalmente, o que ela revela. Se há no Líbano até agora mais de 1.200
mortes em menos de um mês, sendo mais de cem crianças, contra cerca de 20 em
Israel,
é porque o Líbano está sob ameaça de ocupação e anexação por meio de um
processo baseado em confinamento de civis e limpeza étnica, sobretudo das
populações libanesas xiitas que habitam as regiões que Israel pretende
usurpar.
‘É a
receita perfeita para que a expansão colonial de Israel, sempre justificada
como “defensiva”, possa avançar sem que seja percebida como tal’.
O
roteiro é exatamente o mesmo aplicado no genocídio em Gaza: deslocamento
forçado em massa de civis; demolição de casas; destruição de infraestrutura civil; privação de acesso à
água como
arma de guerra; ataques direcionados a profissionais de
saúde;
ataques direcionados à imprensa; justificativa de
“combate ao terrorismo” e punição coletiva à população, que é expulsa de seus
territórios ou fisicamente eliminada.
Mesmo
com tantas evidências, o principal debate público sobre o que acontece no
Líbano hoje está interditado – e escondido sob uma cortina de fumaça que tenta
cinicamente equiparar ocupação ilegal, anexação de território e limpeza étnica
com os sons de sirenes
soando e a corrida a bunkers em Israel. É a receita perfeita para
que a expansão colonial de Israel, sempre justificada
como “defensiva”,
possa avançar sem que seja percebida como tal.
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‘Desde 1948’
Abu
Mohammed falou ao Intercept Brasil entre centenas de barracas, agora
aglomeradas em um descampado de cimento próximo à Baía de Zaitunay, valorizada
área de Beirute. Depois de uma semana na Praça dos Mártires, foi para lá que os
desalojados foram removidos. Hoje, são cerca de 600 pessoas que passam os dias,
ainda frios e chuvosos, ao relento e sem acesso à água ou banheiros. A comida é
distribuída diariamente por ONGs cadastradas pelo governo libanês, que também
entregam cobertores e colchonetes às pessoas desalojadas.
Ele
contou que não é a primeira vez que é deslocado à força. Em setembro de 2024,
também precisou sair às pressas de casa sob bombardeios israelenses. Meses
depois, quando retornou, a encontrou destruída. Reparou a casa – “foi como
construir uma nova” – e agora, pouco mais de um ano depois, teve que deixá-la
novamente.
“É
assim desde 1948”, diz, em referência ao ano da criação do estado de Israel.
Abu Mohammed não fala apenas baseado em registros históricos, mas com a
propriedade de uma testemunha ocular. Nascido em 1941, viu ainda criança as
ondas de refugiados palestinos chegarem ao Líbano após a Nakba –
catástrofe, em árabe, termo utilizado pelos palestinos para denominar o
conjunto de massacres, expulsões e deslocamentos forçados que deram origem a
Israel –, depois a chegada dos refugiados de 1967, quando Israel ampliou a ocupação ilegal no território
palestino, além das invasões de Israel ao Líbano em 1978, em 1982 (que resultou
em uma ocupação que durou até os anos 2000) e em 2006, entre outras.
O
bairro onde vive, Burj al-Barajneh, abriga um dos
maiores campos de refugiados do Líbano, criado precisamente em 1948 para
abrigar palestinos expulsos na fundação de Israel, e atacado em 1982, durante a
invasão israelense ao Líbano no contexto da guerra civil. É um dos bairros que
compõem a região do Dahieh, o subúrbio sul da capital libanesa, que
registra uma média de seis
bombardeios diários por Israel desde a intensificação dos ataques em 2
de março, e para o qual uma ordem de evacuação em massa foi emitida por Israel.
A região, com cerca de 700 mil habitantes, é uma das mais densamente povoadas
do Líbano.
Há um
nome para isso: a “doutrina Dahieh”, descrita por Gadi
Eisenkot, ex-oficial das forças armadas de Israel. Punição coletiva por
definição, o método consiste em destruir em larga escala casas e todo tipo de
infraestrutura civil nas áreas que concentram as bases sociais de governos ou
lideranças “hostis” a Israel. Espera-se que, com o máximo de sofrimento
infligido, a população se rebele contra os grupos políticos visados e os
pressione por rendição.
Mas Abu
Mohammed, um filho de Dahieh, tem outra teoria. Sentado em uma cadeira de
plástico ao lado do carro que salvou sua vida, aponta para um grupo de pombos
que sobrevoam o acampamento. “A gente pode espantá-los quantas vezes quiser.
Eles voam e voltam para cá, porque essa é a casa deles. É o mesmo conosco, no
Líbano. Não importa quantas vezes nos expulsem, nós voltaremos. Essa é a nossa
terra”, compara.
¨
Impune, Israel repete no Líbano mesmo massacre contra
jornalistas operado em Gaza
Em
tempos de guerra, espera-se que os jornalistas sejam testemunhas da verdade,
não alvos dela. Mas o que está acontecendo hoje revela uma realidade
perturbadora, onde a câmera se torna uma acusação e o jornalismo uma ameaça que
justifica a eliminação.
Os
crimes cometidos pela ocupação israelense contra
jornalistas não são mais meros incidentes isolados no contexto da guerra, mas
se tornaram uma política sistemática que visa a própria verdade. O crime
hediondo que tirou a vida dos jornalistas Ali Shuaib, Fatima
Fatouni e seu irmão, o fotógrafo Muhammad Fatouni, na estrada de
Jezzine, no sul do Líbano, não é um incidente
isolado, mas um novo elo em uma corrente sangrenta cujo objetivo é silenciar a
voz livre.
O que
aconteceu no Líbano confirma claramente que os jornalistas não são mais apenas
transmissores de notícias, mas se tornaram alvos militares por si só. Este
ataque deliberado mina todas as alegações relacionadas à “ética da guerra” e
revela a tentativa da ocupação de obliterar a verdadeira narrativa, eliminando
suas testemunhas.
Talvez
o aspecto mais alarmante seja que este crime é uma continuação direta do que
está acontecendo na Faixa de Gaza, onde cerca de
260 jornalistas já foram mortos durante a guerra de extermínio iniciada em 7
de outubro, em uma das campanhas mais sangrentas contra a mídia na história
moderna. Este número chocante não apenas reflete a escala da perda humana,
mas também revela uma estratégia clara: eliminar aqueles que relatam a verdade,
para que o crime possa ser cometido em silêncio.
A
impunidade de que goza a potência ocupante há muitos anos não foi apenas uma
falha no sistema de justiça internacional, mas tornou-se
um sinal verde para a prática de novos crimes. Quando o assassino não
é responsabilizado, ele se sente encorajado, e quando a justiça está ausente, a
verdade é violada. O que testemunhamos hoje é um resultado direto dessa impunidade
crônica, com crimes sendo repetidos da mesma maneira, na ausência de qualquer
dissuasão internacional real.
Apesar
dessa triste realidade, a mensagem que a ocupação tenta impor por meio de
assassinatos não será alcançada. A experiência comprovou que assassinar
jornalistas não silencia a verdade; pelo contrário, amplifica sua
presença. Cada jornalista que cai deixa para trás dezenas de vozes que
continuam a jornada, acreditando que a câmera e a palavra são armas contra a
opressão.
Atacar
jornalistas é um ataque direto ao direito do povo de saber, uma tentativa
desesperada de remodelar a realidade de acordo com a narrativa do perpetrador.
No entanto, a verdade, por mais que seja suprimida, permanece indomável.
De
acordo com o direito internacional humanitário, atacar jornalistas constitui um
crime de guerra em sua forma mais grave, que não está sujeito a prazo de
prescrição e justifica processo perante os tribunais internacionais
competentes. Jornalistas são classificados como civis que devem ser protegidos
em tempos de conflito, e qualquer ataque deliberado contra eles constitui uma
violação flagrante das Convenções de Genebra e das normas do direito
internacional.
A
perpetuação desse padrão de crimes sem responsabilização não só ameaça a vida
de jornalistas, como também mina todo o sistema de justiça internacional e abre
caminho para a legitimação da ocultação da verdade em todos os conflitos ao
redor do mundo. Portanto, a responsabilidade não é mais meramente moral, mas
também legal, recaindo sobre os ombros da comunidade internacional e suas
instituições judiciais para pôr fim a essa impunidade crônica.
Não ao
encobrimento da verdade,
Não à
impunidade dos assassinos,
A imprensa permanecerá,
apesar do derramamento de sangue, testemunha do crime… até que seus
perpetradores sejam responsabilizados.
¨ Como a Inteligência
Artificial virou arma de guerra?
Na
guerra contra o Irã, a Inteligência Artificial (IA) se consolidou como um fator
decisivo no campo de batalha. Integrada a tecnologias já estabelecidas, como
drones e ciberataques, ela deixou de ser apenas mais uma ferramenta para se
tornar o elemento estruturante das operações militares. Seu uso redefiniu a
forma como ações foram planejadas, executadas e comunicadas.
Um dos
principais impactos dessa mudança é a aceleração do ritmo da guerra. Decisões e
ataques que antes levavam dias ou semanas agora são realizados em questão de
horas, com a mediação de sistemas automatizados. O uso da IA se desdobra em
diferentes frentes: no processamento e análise de grandes volumes de dados
militares, no apoio à avaliação de riscos e definição de estratégias, em
monitoramento e vigilância, e na identificação e priorização de alvos em larga
escala. Além das operações militares, a IA também tem sido aplicada para a
produção e disseminação de conteúdos falsos, como deepfakes, e de materiais
propagandísticos, com o objetivo de influenciar a opinião pública.
Na
guerra contra o Irã, Estados Unidos e Israel se destacam pelo uso mais avançado
da IA, contando com alguns dos sistemas mais sofisticados do mundo. O sistema
Maven, dos Estados Unidos, combinado com o Claude, é utilizado para cruzar
imagens de satélite, sinais e dados de vigilância e gerar listas com
coordenadas e sugestões de ataque. Já o sistema Lavender, de Israel, identifica
e classifica indivíduos como alvos potenciais, com alto grau de precisão. Outro
exemplo é o sistema Gospel, também israelense, que gera listas de alvos de
infraestrutura. No caso do Irã, o uso da IA aparece de forma mais concentrada
na produção de conteúdo e na disputa por narrativa do que em sistemas militares
diretamente aplicados ao campo de batalha.
Os
resultados são expressivos. Nas primeiras 12 horas, Estados Unidos e Israel
realizaram quase 900 ataques no Irã, o que antes demandaria dias ou semanas de
planejamento humano. Sistemas de IA permitiram gerar cerca de 1.000 alvos
priorizados em um único dia, tornando possível planejar operações da magnitude
da Guerra do Iraque (2003–2011) com apenas um décimo da mão de obra necessária
anteriormente.
Já na
guerra da informação, imagens falsas de ataques circulam amplamente, incluindo
fotos manipuladas e até cenas de videogame apresentadas como reais. Estados
Unidos e Irã utilizaram a tecnologia para criar animações que reforçam suas
narrativas. Ao mesmo tempo, deepfakes e contas falsas passam a integrar
operações coordenadas para influenciar a opinião pública, sem que seja possível
atribuir sua autoria.
Esse
cenário traz riscos significativos. Um deles é a chamada automação por
consentimento, em que operadores humanos têm poucos segundos para decidir e
acabam apenas validando decisões sugeridas por sistemas. Há também o risco de
erros de identificação, com algoritmos confundindo padrões e classificando
civis como ameaças. Além disso, vieses nos dados e possíveis interferências
externas podem distorcer decisões. Em contextos letais, esses problemas
deixam de ser apenas falhas técnicas e tornam-se tragédias humanas.
¨ Guerra do Irã e os
impactos da IA nas estratégias militares
A
crescente utilização da inteligência artificial nas estratégias
militares, tem redefinido a dinâmica dos conflitos contemporâneos,
incluindo cenários envolvendo a atual guerra no Irã. Mais do que um avanço
tecnológico, a adoção de sistemas algorítmicos no campo de batalha, altera
profundamente a forma como decisões são tomadas, acelerando processos e
ampliando a capacidade de análise em tempo real. De acordo com o
jornalista Ricardo Dias de Oliveira Filho, a IA atua como mediadora entre
dado e ação, analisando grandes volumes de informações como imagens de
drones, sensores e comunicações, transformando informações em
recomendações operacionais e tornando a guerra mais eficiente.
A
incorporação da inteligência artificial nas estratégias militares vai além dos
campos de batalha. Se expande para dimensões informacionais e
simbólicas que redefinem desde as logísticas até a tomada de decisões
em combate, focando no desenvolvimento de sistemas autônomos e algoritmos de
defesa. Segundo Dias, o projeto Maven, um programa de IA das
forças armadas dos EUA, evidenciou lógicas sobre a leitura do campo
de batalha feita de forma automatizada, identificando padrões, localizando
alvos e antecipando movimentações. Porém, essa aceleração do processo decisório
também produz um completo deslocamento ético, passando as medidas de
identificação e seleção de alvos serem mediadas por sistemas algorítmicos,
reduzindo o tempo de reflexão e ampliando a distância entre a ação e
a responsabilidade.
No caso
da atual guerra no Irã, Dias avalia que a ausência de
transparência em relação ao uso de inteligência artificial já revela um
elemento central da guerra contemporânea: sua completa opacidade. “Já existem
indícios da utilização de sistemas automatizados em drones, mísseis e,
sobretudo, em operações cibernéticas. Inclusive, o presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump acusou o Irã de usar IA para difundir notícias falsas
sobre a guerra”, diz Dias. Países como Estados Unidos e Israel já
incorporaram a inteligência artificial (IA) como elemento estratégico em suas
operações militares, reestruturando todo o ambiente geopolítico ao
redor. Além do campo militar tradicional, a IA exerce um papel
decisivo na espionagem, como uma vigilância que permite o
processamento contínuo de dados em larga escala, transformando informações nas
redes e em padrões de comportamento.
Nos
ataques cibernéticos, a potencialização desse cenário automatiza a
identificação de vulnerabilidades e adapta estratégias em tempo real, fazendo
com que o campo de batalha deixe de ser apenas físico e passe a
se consolidar no plano informacional. Com o avanço tecnológico dos algoritmos,
Dias destaca que o que se projeta para as próximas décadas é a
intensificação das tendências já em curso, ou seja, a integração entre
sistemas de dados, algoritmos e dispositivos militares. A tendência
é se aprofundar, com o avanço de armas autônomas, mais enxames de drones e
sistemas preditivos capazes de antecipar conflitos a partir da análise de
padrões.
Outro
ponto relevante é a crescente integração entre Estados e grandes corporações
tecnológicas. Ricardo cita empresas como Google, Amazon, Microsoft e Palantir Technologies que
desempenham um papel estratégico no desenvolvimento de infraestrutura,
algoritmos e sistemas utilizados em operações militares, revelando a
concentração de articulação entre poder estatal e poder corporativo. Essa
articulação evidencia a vantagem tecnológica que não está concentrada
exclusivamente nos Estados, mas em uma rede de interesses conectada com
o poder público e a iniciativa privada.
A
inteligência artificial intensifica o que já foi caracterizado como
desordem informacional, com a produção de imagens, vídeos e
narrativas altamente realistas (deepfakes), mas desvinculadas de acontecimentos
concretos, contribuindo para a fabricação de realidades artificiais que
disputam legitimidade com o real. De acordo com o livro “Crise do humano”, com download
gratuito, no capítulo 6, escrito pelo entrevistado Dias mostra a
circulação de imagens geradas pela IA (o caso das cenas falsas
de Tel Aviv, em Israel) e evidencia o que a
imagem deixa de representar: o acontecimento, para
então, substituí-lo. Nesse cenário, a desinformação não opera apenas pela
mentira, mas pela multiplicação de versões plausíveis, que fragmentam a
percepção e dificultam a construção de um consenso.
Diante
desse cenário, Ricardo aponta a questão entre limitar ou proibir o
desenvolvimento da IA nas estratégias de guerra, pois esbarra no
impasse estrutural e se insere amplamente em questões políticas e
humanas. “A proibição de sistemas dessa natureza seria o caminho mais
coerente diante dos tamanhos riscos envolvidos”,
disse Dias. Porém, a realidade aponta um cenário em que
haverá um longo e complexo processo de disputa por formas mínimas de regulação.
Fonte: The
Intercept/Diálogos do Sul Global/Iree.org/Agemt.pusc.sp

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