quinta-feira, 2 de abril de 2026

Leila Salim: Israel repete no Líbano a estratégia genocida adotada em Gaza

O carro de Abu Mohammed estava quebrado, parado havia um ano na garagem de sua casa no subúrbio sul de Beirute. Na madrugada do dia 2 de março, quando as bombas israelenses começaram a ser lançadas contra seu bairro, a reação do libanês de 85 anos foi pegar alguns pertences pessoais e correr para tentar ligar o veículo – que funcionou. Contando com a sorte, conseguiu fugir junto a vizinhos para a Praça dos Mártires, na região central da capital libanesa, tornando-se um entre os mais de 1 milhão deslocados à força por Israel desde a intensificação dos ataques ao Líbano. 

Desde aquele dia até 31 de março, já são ao menos 1.247 mortos (entre eles, 124 crianças) e 3.680 feridos pelos ataques de Israel ao Líbano, segundo os dados do Ministério da Saúde Pública libanês e do Fundo das Nações Unidas para a Infância, o Unicef. Os deslocados – expulsos principalmente do sul do Líbano, do subúrbio de Beirute e do Vale do Bekaa, a leste – hoje vivem entre alojamentos improvisados, casas de familiares ou nas ruas de Beirute, como Abu Mohammed. Além desses, há ainda mais de 150 mil pessoas isoladas no sul, depois que ataques israelenses destruíram pontes que ligavam a área ao restante do país. 

<><> Anexação e limpeza étnica

Além dos bombardeios sistemáticos, do deslocamento forçado em massa e da destruição de infraestrutura civil, Israel amplia a demolição de casas nos vilarejos libaneses mais próximos à fronteira (o que já vinha realizando antes da atual escalada) e intensifica a invasão por terra também no sul do Líbano. Como se não bastassem todas as evidências factuais, o governo do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, tem falado abertamente, nos últimos dias, sobre o objetivo de invadir e anexar o sul do Líbano. 

Netanyahu declarou a intenção de ampliar o que chama de “zona tampão” na região. O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, afirmou que realizará a tarefa “usando o modelo de Beit Hanoun e Rafah”, em referência à destruição completa das áreas residenciais feita por Israel nas fronteiras da Faixa de Gaza. Para completar, Bezalel Smotrich, ministro das Finanças israelense, afirmou na sequência que a “nova fronteira de Israel deveria ser o Rio Litani”, curso de água localizado em território libanês a 30 quilômetros da atual fronteira. 

Ainda assim, a atual fase da agressão israelense ao Líbano vem sendo majoritariamente tratada com recortes factuais, enquadrada como um “conflito” entre Israel e Hezbollah, grupo paramilitar e partido político libanês aliado do Irã. Nesses termos, o conflito teria sido iniciado com o lançamento de foguetes pelo Hezbollah em 2 de março contra o norte de Israel, o que teria “arrastado” o Líbano para a guerra mais ampla, iniciada em 28 de fevereiro, de Estados Unidos e Israel contra o país persa.

Mesmo do ponto de vista puramente factual, há um equívoco jornalístico elementar nesse enquadramento. Ele deixa de fora elementos de interesse público que contextualizam a informação: entre novembro de 2024 e fevereiro deste ano, quando estava em vigor o cessar-fogo assinado entre Israel e Líbano, 370 pessoas foram mortas por ataques israelenses em território libanês. O acordo foi violado por Israel mais de 10 mil vezes, segundo dados da missão de paz da Organização das Nações Unidas, a ONU, e do governo libanês. 

Não havia, portanto, como “arrastar” o Líbano para uma guerra se o país não estava em paz. Além disso, o enquadramento frequentemente omite que, em 28 de fevereiro, Israel e Estados Unidos atacaram o Irã violando o direito internacional, de acordo com especialistas das próprias Nações Unidas, sem que houvesse ameaça iminente e com as negociações sobre o programa nuclear do Irã em andamento. 

Quando se tenta falar em mortes, explosões e perdas “dos dois lados”, em tom de equivalência, não é apenas a gritante desproporção numérica que é ignorada. É, principalmente, o que ela revela. Se há no Líbano até agora mais de 1.200 mortes em menos de um mês, sendo mais de cem crianças, contra cerca de 20 em Israel, é porque o Líbano está sob ameaça de ocupação e anexação por meio de um processo baseado em confinamento de civis e limpeza étnica, sobretudo das populações libanesas xiitas que habitam as regiões que Israel pretende usurpar. 

‘É a receita perfeita para que a expansão colonial de Israel, sempre justificada como “defensiva”, possa avançar sem que seja percebida como tal’.

O roteiro é exatamente o mesmo aplicado no genocídio em Gaza: deslocamento forçado em massa de civis; demolição de casas; destruição de infraestrutura civilprivação de acesso à água como arma de guerra; ataques direcionados a profissionais de saúde; ataques direcionados à imprensa; justificativa de “combate ao terrorismo” e punição coletiva à população, que é expulsa de seus territórios ou fisicamente eliminada.

Mesmo com tantas evidências, o principal debate público sobre o que acontece no Líbano hoje está interditado – e escondido sob uma cortina de fumaça que tenta cinicamente equiparar ocupação ilegal, anexação de território e limpeza étnica com os sons de sirenes soando e a corrida a bunkers em Israel. É a receita perfeita para que a expansão colonial de Israel, sempre justificada como “defensiva”, possa avançar sem que seja percebida como tal.

<><> ‘Desde 1948’

Abu Mohammed falou ao Intercept Brasil entre centenas de barracas, agora aglomeradas em um descampado de cimento próximo à Baía de Zaitunay, valorizada área de Beirute. Depois de uma semana na Praça dos Mártires, foi para lá que os desalojados foram removidos. Hoje, são cerca de 600 pessoas que passam os dias, ainda frios e chuvosos, ao relento e sem acesso à água ou banheiros. A comida é distribuída diariamente por ONGs cadastradas pelo governo libanês, que também entregam cobertores e colchonetes às pessoas desalojadas. 

Ele contou que não é a primeira vez que é deslocado à força. Em setembro de 2024, também precisou sair às pressas de casa sob bombardeios israelenses. Meses depois, quando retornou, a encontrou destruída. Reparou a casa – “foi como construir uma nova” – e agora, pouco mais de um ano depois, teve que deixá-la novamente. 

“É assim desde 1948”, diz, em referência ao ano da criação do estado de Israel. Abu Mohammed não fala apenas baseado em registros históricos, mas com a propriedade de uma testemunha ocular. Nascido em 1941, viu ainda criança as ondas de refugiados palestinos chegarem ao Líbano após a Nakba – catástrofe, em árabe, termo utilizado pelos palestinos para denominar o conjunto de massacres, expulsões e deslocamentos forçados que deram origem a Israel –, depois a chegada dos refugiados de 1967, quando Israel ampliou a ocupação ilegal no território palestino, além das invasões de Israel ao Líbano em 1978, em 1982 (que resultou em uma ocupação que durou até os anos 2000) e em 2006, entre outras.

O bairro onde vive, Burj al-Barajneh, abriga um dos maiores campos de refugiados do Líbano, criado precisamente em 1948 para abrigar palestinos expulsos na fundação de Israel, e atacado em 1982, durante a invasão israelense ao Líbano no contexto da guerra civil. É um dos bairros que compõem a região do Dahieh, o subúrbio sul da capital libanesa, que registra uma média de seis bombardeios diários por Israel desde a intensificação dos ataques em 2 de março, e para o qual uma ordem de evacuação em massa foi emitida por Israel. A região, com cerca de 700 mil habitantes, é uma das mais densamente povoadas do Líbano.

Há um nome para isso: a “doutrina Dahieh”, descrita por Gadi Eisenkot, ex-oficial das forças armadas de Israel. Punição coletiva por definição, o método consiste em destruir em larga escala casas e todo tipo de infraestrutura civil nas áreas que concentram as bases sociais de governos ou lideranças “hostis” a Israel. Espera-se que, com o máximo de sofrimento infligido, a população se rebele contra os grupos políticos visados e os pressione por rendição.

Mas Abu Mohammed, um filho de Dahieh, tem outra teoria. Sentado em uma cadeira de plástico ao lado do carro que salvou sua vida, aponta para um grupo de pombos que sobrevoam o acampamento. “A gente pode espantá-los quantas vezes quiser. Eles voam e voltam para cá, porque essa é a casa deles. É o mesmo conosco, no Líbano. Não importa quantas vezes nos expulsem, nós voltaremos. Essa é a nossa terra”, compara.

¨      Impune, Israel repete no Líbano mesmo massacre contra jornalistas operado em Gaza

Em tempos de guerra, espera-se que os jornalistas sejam testemunhas da verdade, não alvos dela. Mas o que está acontecendo hoje revela uma realidade perturbadora, onde a câmera se torna uma acusação e o jornalismo uma ameaça que justifica a eliminação.

Os crimes cometidos pela ocupação israelense contra jornalistas não são mais meros incidentes isolados no contexto da guerra, mas se tornaram uma política sistemática que visa a própria verdade. O crime hediondo que tirou a vida dos jornalistas Ali Shuaib, Fatima Fatouni e seu irmão, o fotógrafo Muhammad Fatouni, na estrada de Jezzine, no sul do Líbano, não é um incidente isolado, mas um novo elo em uma corrente sangrenta cujo objetivo é silenciar a voz livre.

O que aconteceu no Líbano confirma claramente que os jornalistas não são mais apenas transmissores de notícias, mas se tornaram alvos militares por si só. Este ataque deliberado mina todas as alegações relacionadas à “ética da guerra” e revela a tentativa da ocupação de obliterar a verdadeira narrativa, eliminando suas testemunhas.

Talvez o aspecto mais alarmante seja que este crime é uma continuação direta do que está acontecendo na Faixa de Gaza, onde cerca de 260 jornalistas já foram mortos durante a guerra de extermínio iniciada em 7 de outubro, em uma das campanhas mais sangrentas contra a mídia na história moderna. Este número chocante não apenas reflete a escala da perda humana, mas também revela uma estratégia clara: eliminar aqueles que relatam a verdade, para que o crime possa ser cometido em silêncio.

A impunidade de que goza a potência ocupante há muitos anos não foi apenas uma falha no sistema de justiça internacional, mas tornou-se um sinal verde para a prática de novos crimes. Quando o assassino não é responsabilizado, ele se sente encorajado, e quando a justiça está ausente, a verdade é violada. O que testemunhamos hoje é um resultado direto dessa impunidade crônica, com crimes sendo repetidos da mesma maneira, na ausência de qualquer dissuasão internacional real.

Apesar dessa triste realidade, a mensagem que a ocupação tenta impor por meio de assassinatos não será alcançada. A experiência comprovou que assassinar jornalistas não silencia a verdade; pelo contrário, amplifica sua presença. Cada jornalista que cai deixa para trás dezenas de vozes que continuam a jornada, acreditando que a câmera e a palavra são armas contra a opressão.

Atacar jornalistas é um ataque direto ao direito do povo de saber, uma tentativa desesperada de remodelar a realidade de acordo com a narrativa do perpetrador. No entanto, a verdade, por mais que seja suprimida, permanece indomável.

De acordo com o direito internacional humanitário, atacar jornalistas constitui um crime de guerra em sua forma mais grave, que não está sujeito a prazo de prescrição e justifica processo perante os tribunais internacionais competentes. Jornalistas são classificados como civis que devem ser protegidos em tempos de conflito, e qualquer ataque deliberado contra eles constitui uma violação flagrante das Convenções de Genebra e das normas do direito internacional.

A perpetuação desse padrão de crimes sem responsabilização não só ameaça a vida de jornalistas, como também mina todo o sistema de justiça internacional e abre caminho para a legitimação da ocultação da verdade em todos os conflitos ao redor do mundo. Portanto, a responsabilidade não é mais meramente moral, mas também legal, recaindo sobre os ombros da comunidade internacional e suas instituições judiciais para pôr fim a essa impunidade crônica.

Não ao encobrimento da verdade,

Não à impunidade dos assassinos,

imprensa permanecerá, apesar do derramamento de sangue, testemunha do crime… até que seus perpetradores sejam responsabilizados.

¨      Como a Inteligência Artificial virou arma de guerra?

Na guerra contra o Irã, a Inteligência Artificial (IA) se consolidou como um fator decisivo no campo de batalha. Integrada a tecnologias já estabelecidas, como drones e ciberataques, ela deixou de ser apenas mais uma ferramenta para se tornar o elemento estruturante das operações militares. Seu uso redefiniu a forma como ações foram planejadas, executadas e comunicadas.

Um dos principais impactos dessa mudança é a aceleração do ritmo da guerra. Decisões e ataques que antes levavam dias ou semanas agora são realizados em questão de horas, com a mediação de sistemas automatizados. O uso da IA se desdobra em diferentes frentes: no processamento e análise de grandes volumes de dados militares, no apoio à avaliação de riscos e definição de estratégias, em monitoramento e vigilância, e na identificação e priorização de alvos em larga escala. Além das operações militares, a IA também tem sido aplicada para a produção e disseminação de conteúdos falsos, como deepfakes, e de materiais propagandísticos, com o objetivo de influenciar a opinião pública.

Na guerra contra o Irã, Estados Unidos e Israel se destacam pelo uso mais avançado da IA, contando com alguns dos sistemas mais sofisticados do mundo. O sistema Maven, dos Estados Unidos, combinado com o Claude, é utilizado para cruzar imagens de satélite, sinais e dados de vigilância e gerar listas com coordenadas e sugestões de ataque. Já o sistema Lavender, de Israel, identifica e classifica indivíduos como alvos potenciais, com alto grau de precisão. Outro exemplo é o sistema Gospel, também israelense, que gera listas de alvos de infraestrutura. No caso do Irã, o uso da IA aparece de forma mais concentrada na produção de conteúdo e na disputa por narrativa do que em sistemas militares diretamente aplicados ao campo de batalha.

Os resultados são expressivos. Nas primeiras 12 horas, Estados Unidos e Israel realizaram quase 900 ataques no Irã, o que antes demandaria dias ou semanas de planejamento humano. Sistemas de IA permitiram gerar cerca de 1.000 alvos priorizados em um único dia, tornando possível planejar operações da magnitude da Guerra do Iraque (2003–2011) com apenas um décimo da mão de obra necessária anteriormente.

Já na guerra da informação, imagens falsas de ataques circulam amplamente, incluindo fotos manipuladas e até cenas de videogame apresentadas como reais. Estados Unidos e Irã utilizaram a tecnologia para criar animações que reforçam suas narrativas. Ao mesmo tempo, deepfakes e contas falsas passam a integrar operações coordenadas para influenciar a opinião pública, sem que seja possível atribuir sua autoria.

Esse cenário traz riscos significativos. Um deles é a chamada automação por consentimento, em que operadores humanos têm poucos segundos para decidir e acabam apenas validando decisões sugeridas por sistemas. Há também o risco de erros de identificação, com algoritmos confundindo padrões e classificando civis como ameaças. Além disso, vieses nos dados e possíveis interferências externas podem distorcer decisões. Em contextos letais, esses problemas deixam de ser apenas falhas técnicas e tornam-se tragédias humanas.

¨      Guerra do Irã e os impactos da IA nas estratégias militares

A crescente utilização da inteligência artificial nas estratégias militares, tem redefinido a dinâmica dos conflitos contemporâneos, incluindo cenários envolvendo a atual guerra no Irã. Mais do que um avanço tecnológico, a adoção de sistemas algorítmicos no campo de batalha, altera profundamente a forma como decisões são tomadas, acelerando processos e ampliando a capacidade de análise em tempo real. De acordo com o jornalista Ricardo Dias de Oliveira Filho, a IA atua como mediadora entre dado e ação, analisando grandes volumes de informações como imagens de drones, sensores e comunicações, transformando informações em recomendações operacionais e tornando a guerra mais eficiente.  

 A incorporação da inteligência artificial nas estratégias militares vai além dos campos de batalha. Se expande para dimensões informacionais e simbólicas que redefinem desde as logísticas até a tomada de decisões em combate, focando no desenvolvimento de sistemas autônomos e algoritmos de defesa. Segundo Dias, o projeto Maven, um programa de IA das forças armadas dos EUA, evidenciou lógicas sobre a leitura do campo de batalha feita de forma automatizada, identificando padrões, localizando alvos e antecipando movimentações. Porém, essa aceleração do processo decisório também produz um completo deslocamento ético, passando as medidas de identificação e seleção de alvos serem mediadas por sistemas algorítmicos, reduzindo o tempo de reflexão e ampliando a distância entre a ação e a responsabilidade.  

No caso da atual guerra no Irã, Dias avalia que a ausência de transparência em relação ao uso de inteligência artificial já revela um elemento central da guerra contemporânea: sua completa opacidade. “Já existem indícios da utilização de sistemas automatizados em drones, mísseis e, sobretudo, em operações cibernéticas. Inclusive, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump acusou o Irã de usar IA para difundir notícias falsas sobre a guerra”, diz Dias. Países como Estados Unidos e Israel já incorporaram a inteligência artificial (IA) como elemento estratégico em suas operações militares, reestruturando todo o ambiente geopolítico ao redor.  Além do campo militar tradicional, a IA exerce um papel decisivo na espionagem, como uma vigilância que permite o processamento contínuo de dados em larga escala, transformando informações nas redes e em padrões de comportamento. 

Nos ataques cibernéticos, a potencialização desse cenário automatiza a identificação de vulnerabilidades e adapta estratégias em tempo real, fazendo com que o campo de batalha deixe de ser apenas físico e passe a se consolidar no plano informacional. Com o avanço tecnológico dos algoritmos, Dias destaca que o que se projeta para as próximas décadas é a intensificação das tendências já em curso, ou seja, a integração entre sistemas de dados, algoritmos e dispositivos militares. A tendência é se aprofundar, com o avanço de armas autônomas, mais enxames de drones e sistemas preditivos capazes de antecipar conflitos a partir da análise de padrões.  

Outro ponto relevante é a crescente integração entre Estados e grandes corporações tecnológicas. Ricardo cita empresas como Google, Amazon, Microsoft e Palantir Technologies que desempenham um papel estratégico no desenvolvimento de infraestrutura, algoritmos e sistemas utilizados em operações militares, revelando a concentração de articulação entre poder estatal e poder corporativo. Essa articulação evidencia a vantagem tecnológica que não está concentrada exclusivamente nos Estados, mas em uma rede de interesses conectada com o poder público e a iniciativa privada.  

 A inteligência artificial intensifica o que já foi caracterizado como desordem informacional, com a produção de imagens, vídeos e narrativas altamente realistas (deepfakes), mas desvinculadas de acontecimentos concretos, contribuindo para a fabricação de realidades artificiais que disputam legitimidade com o real. De acordo com o livro “Crise do humano”, com download gratuito, no capítulo 6, escrito pelo entrevistado Dias mostra a circulação de imagens geradas pela IA (o caso das cenas falsas de Tel Aviv, em Israel) e evidencia o que a imagem deixa de representar: o acontecimento, para então, substituí-lo. Nesse cenário, a desinformação não opera apenas pela mentira, mas pela multiplicação de versões plausíveis, que fragmentam a percepção e dificultam a construção de um consenso. 

 Diante desse cenário, Ricardo aponta a questão entre limitar ou proibir o desenvolvimento da IA nas estratégias de guerra, pois esbarra no impasse estrutural e se insere amplamente em questões políticas e humanas. “A proibição de sistemas dessa natureza seria o caminho mais coerente diante dos tamanhos riscos envolvidos”, disse Dias. Porém, a realidade aponta um cenário em que haverá um longo e complexo processo de disputa por formas mínimas de regulação.

 

Fonte: The Intercept/Diálogos do Sul Global/Iree.org/Agemt.pusc.sp

 

Nenhum comentário: