O
legado de Habermas e a escola “à prova de professores”
Habermas
se foi, mas nos deixou um legado de ideias férteis e especialmente importantes
nesses tempos de comunicação truncada, em que a esfera pública se fragmenta em
diversas câmaras de eco com mais alucinações que o ChatGPT. O filósofo que
criou a Teoria da Ação Comunicativa teve dificuldades de comunicação em virtude
de um problema de nascença na boca, a fenda palatina. Isso não é coincidência.
Tal dificuldade o fez sentir a vulnerabilidade de quem não se comunica bem, o
fez perceber desde cedo a interdependência humana e a importância da fala.
A
teoria de Habermas diferencia dois tipos de ação, a comunicativa e a
estratégica. Imagine que você está com seus amigos decidindo o que vão fazer
nas férias. Cada um vai dando ideias, que são discutidas de forma aberta e
sincera, buscando um consenso. Vocês confiam uns nos outros, ninguém vai tentar
enganar o amigo para se beneficiar individualmente, o objetivo é o entendimento
comum, é planejar uma experiência coletiva, prazerosa e viável. Essa é a ação
comunicativa na mais pura forma. Agora imagine que você é um jogador de xadrez
em um campeonato, ou um empresário negociando preços no mercado, ou um
publicitário vendendo um produto provavelmente desnecessário. Seu objetivo não
é o consenso ou o entendimento mútuo. Você quer vencer, quer convencer, quer
lucro – você quer atingir seus objetivos individuais, enquanto os outros são
apenas um meio para atingir esse fim. Essa é a essência da ação estratégica.
Ou
seja, a ação comunicativa visa o consenso e o entendimento comum, enquanto a
ação estratégica visa atingir uma finalidade, considerando tudo mais como meio
para esse fim. Habermas vai além, dizendo que a ação comunicativa é a base do
mundo da vida, enquanto a ação estratégica está relacionada ao sistema. O
sistema busca eficiência e tem hoje basicamente duas faces: a burocracia e o
dinheiro, o Estado e o mercado.
Vejo
aqui um ponto interessante nesses tempos em que boa parte da chamada
polarização se dá entre aqueles que defendem “mais Estado” e aqueles que
defendem “mais mercado”. O ponto é que tanto o Estado quanto o mercado buscam
estruturar a vida humana conforme suas próprias lógicas, suas próprias
finalidades, transformando as pessoas – e tudo mais – em meios de atingir essas
finalidades. As pessoas se tornam objetos, engrenagens, deixam de se comunicar
de forma livre, sincera, em busca do entendimento mútuo. Por isso, no estado
atual das coisas, o que precisa ser defendido não é o Estado nem o mercado, mas
sim o mundo da vida. Habermas nos alerta que, em muitos contextos, o mundo da
vida está diminuindo, está sendo colonizado pelo sistema. Muitas relações interpessoais
que antes podiam ser resolvidas com diálogo, hoje são alvo de regras
burocráticas e interesses financeiros que distorcem a natureza da atividade e
dificultam sua efetiva realização.
Para
Habermas, a escola é um lugar de ambiguidades e tensões entre o mundo da vida e
o sistema. A essência da atividade pedagógica se funda no diálogo, na
integração social, na cultura, na busca pelo entendimento mútuo entre professor
e alunos, sendo assim naturalmente vinculada ao mundo da vida, à ação
comunicativa. Nesse ponto, o filósofo alemão se aproxima de Paulo Freire e
tantos outros educadores, para quem o diálogo é central no ensino. Por outro
lado, é importante haver regulação, papéis claros, objetivos definidos, para
garantir direitos e evitar abusos de poder. Em uma instituição como a escola,
não dá para contar só com a busca livre pelo consenso, alguma presença
reguladora do sistema é inevitável e mesmo necessária. O problema é que essa
presença está aumentando indiscriminadamente e distorcendo a natureza da
educação. O processo intencional de ensino e aprendizagem vem sendo substituído
por comportamentos mecânicos para aumentar o uso de plataformas e escolher a
alternativa correta em provas de Português e Matemática. Tudo mais é
secundário.
Na
educação brasileira, muitas das “inovações” recentes, em termos de política
pública, buscam fortalecer os mecanismos do sistema e reduzir a amplitude do
mundo da vida. Isso preocupa, pois há um equívoco de fundo sobre o que
significa melhorar a escola. Parece que se quer uma escola “à prova de
professores”: sem diálogo, com aulas e avaliações concebidas externamente por
especialistas que nunca pisaram naquela sala de aula.
A
colonização das escolas pelo sistema começa com a supervalorização das
avaliações externas, como o Saeb, que deixaram de funcionar apenas para
monitoramento das redes e passaram a ter outras finalidades, por exemplo
servindo de critério para punições e recompensas a diretores e professores.
Isso muda o jogo dentro da escola, a ação comunicativa vai se tornando ação
estratégica, as interações pedagógicas vão desaparecendo da sala de aula. Nos
Estados Unidos, isso não deu certo já há mais de uma década, como explicou
Diane Ravitch em seu livro Vida e morte do grande sistema escolar americano:
como os testes padronizados e o modelo de mercado ameaçam a educação.
Mais
recentemente, a colonização da escola vem se intensificando, especialmente em
alguns estados. Em São Paulo e no Paraná, a chamada “plataformização” do ensino
tem esvaziado o papel do professor e do diálogo na sala de aula. O problema não
é o uso de tecnologias digitais, que também pode ser pedagógico e intencional.
O problema é que as plataformas estão ocupando o centro das atividades
escolares, professores e alunos interagem mais com a tecnologia do que entre
si.
Em São
Paulo há mais de 30 plataformas, de acesso restrito, cada uma com suas regras e
indicadores, formando um verdadeiro labirinto digital. E todos são obrigados a
usar constantemente as plataformas, pois isso entra nas metas, que podem levar
ao afastamento de dirigentes regionais, diretores e professores. O Secretário
de Educação de São Paulo, Renato Feder, que tanto defende as plataformas, é
também acionista de uma empresa que vende tablets e notebooks. Ele personifica
a dupla face do sistema que Habermas descreveu: o Estado e o mercado. Em 2025,
Feder afirmou categoricamente “não bateu a meta, tchau”. Enquanto o Estado de
São Paulo vai aumentando o tempo de tela dos alunos, sem melhoria da
aprendizagem, os diretores concursados vêm sendo substituídos por indicados
políticos, e os professores concursados por temporários.
Há
também o movimento de militarização das escolas, que são baseadas em hierarquia
e obediência, não na busca pelo entendimento mútuo. De 2013 a 2023 o Brasil
passou de 39 escolas militarizadas para mais de 800. No campo do currículo,
reformas sucessivas detalham cada vez mais o que deve ser ensinado, sem deixar
margem para que cada escola adapte o conteúdo à vida concreta de seus alunos.
No
Brasil, a lógica do sistema – burocracia e economia – vem transformando a
escola, afastando-a do mundo da vida, da prática pedagógica. Precisamos decidir
que escola queremos. Se é uma escola que prepara para a vida, através do
diálogo e socialização, com bons professores; ou se é uma escola onde
professores e alunos agem cada um pelos seus interesses individuais, mediados
por um mosaico de plataformas, para bater metas duvidosas. Uma instituição que,
apesar de toda a tecnologia, não prepara para a democracia nem para o
pensamento crítico, mas, no máximo, para o trabalho precarizado.
Fonte:
Por Rodrigo Travitzki, no Le Monde

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