quinta-feira, 2 de abril de 2026

O legado de Habermas e a escola “à prova de professores”

Habermas se foi, mas nos deixou um legado de ideias férteis e especialmente importantes nesses tempos de comunicação truncada, em que a esfera pública se fragmenta em diversas câmaras de eco com mais alucinações que o ChatGPT. O filósofo que criou a Teoria da Ação Comunicativa teve dificuldades de comunicação em virtude de um problema de nascença na boca, a fenda palatina. Isso não é coincidência. Tal dificuldade o fez sentir a vulnerabilidade de quem não se comunica bem, o fez perceber desde cedo a interdependência humana e a importância da fala.

A teoria de Habermas diferencia dois tipos de ação, a comunicativa e a estratégica. Imagine que você está com seus amigos decidindo o que vão fazer nas férias. Cada um vai dando ideias, que são discutidas de forma aberta e sincera, buscando um consenso. Vocês confiam uns nos outros, ninguém vai tentar enganar o amigo para se beneficiar individualmente, o objetivo é o entendimento comum, é planejar uma experiência coletiva, prazerosa e viável. Essa é a ação comunicativa na mais pura forma. Agora imagine que você é um jogador de xadrez em um campeonato, ou um empresário negociando preços no mercado, ou um publicitário vendendo um produto provavelmente desnecessário. Seu objetivo não é o consenso ou o entendimento mútuo. Você quer vencer, quer convencer, quer lucro – você quer atingir seus objetivos individuais, enquanto os outros são apenas um meio para atingir esse fim. Essa é a essência da ação estratégica.

Ou seja, a ação comunicativa visa o consenso e o entendimento comum, enquanto a ação estratégica visa atingir uma finalidade, considerando tudo mais como meio para esse fim. Habermas vai além, dizendo que a ação comunicativa é a base do mundo da vida, enquanto a ação estratégica está relacionada ao sistema. O sistema busca eficiência e tem hoje basicamente duas faces: a burocracia e o dinheiro, o Estado e o mercado.

Vejo aqui um ponto interessante nesses tempos em que boa parte da chamada polarização se dá entre aqueles que defendem “mais Estado” e aqueles que defendem “mais mercado”. O ponto é que tanto o Estado quanto o mercado buscam estruturar a vida humana conforme suas próprias lógicas, suas próprias finalidades, transformando as pessoas – e tudo mais – em meios de atingir essas finalidades. As pessoas se tornam objetos, engrenagens, deixam de se comunicar de forma livre, sincera, em busca do entendimento mútuo. Por isso, no estado atual das coisas, o que precisa ser defendido não é o Estado nem o mercado, mas sim o mundo da vida. Habermas nos alerta que, em muitos contextos, o mundo da vida está diminuindo, está sendo colonizado pelo sistema. Muitas relações interpessoais que antes podiam ser resolvidas com diálogo, hoje são alvo de regras burocráticas e interesses financeiros que distorcem a natureza da atividade e dificultam sua efetiva realização.

Para Habermas, a escola é um lugar de ambiguidades e tensões entre o mundo da vida e o sistema. A essência da atividade pedagógica se funda no diálogo, na integração social, na cultura, na busca pelo entendimento mútuo entre professor e alunos, sendo assim naturalmente vinculada ao mundo da vida, à ação comunicativa. Nesse ponto, o filósofo alemão se aproxima de Paulo Freire e tantos outros educadores, para quem o diálogo é central no ensino. Por outro lado, é importante haver regulação, papéis claros, objetivos definidos, para garantir direitos e evitar abusos de poder. Em uma instituição como a escola, não dá para contar só com a busca livre pelo consenso, alguma presença reguladora do sistema é inevitável e mesmo necessária. O problema é que essa presença está aumentando indiscriminadamente e distorcendo a natureza da educação. O processo intencional de ensino e aprendizagem vem sendo substituído por comportamentos mecânicos para aumentar o uso de plataformas e escolher a alternativa correta em provas de Português e Matemática. Tudo mais é secundário.

Na educação brasileira, muitas das “inovações” recentes, em termos de política pública, buscam fortalecer os mecanismos do sistema e reduzir a amplitude do mundo da vida. Isso preocupa, pois há um equívoco de fundo sobre o que significa melhorar a escola. Parece que se quer uma escola “à prova de professores”: sem diálogo, com aulas e avaliações concebidas externamente por especialistas que nunca pisaram naquela sala de aula.

A colonização das escolas pelo sistema começa com a supervalorização das avaliações externas, como o Saeb, que deixaram de funcionar apenas para monitoramento das redes e passaram a ter outras finalidades, por exemplo servindo de critério para punições e recompensas a diretores e professores. Isso muda o jogo dentro da escola, a ação comunicativa vai se tornando ação estratégica, as interações pedagógicas vão desaparecendo da sala de aula. Nos Estados Unidos, isso não deu certo já há mais de uma década, como explicou Diane Ravitch em seu livro Vida e morte do grande sistema escolar americano: como os testes padronizados e o modelo de mercado ameaçam a educação.

Mais recentemente, a colonização da escola vem se intensificando, especialmente em alguns estados. Em São Paulo e no Paraná, a chamada “plataformização” do ensino tem esvaziado o papel do professor e do diálogo na sala de aula. O problema não é o uso de tecnologias digitais, que também pode ser pedagógico e intencional. O problema é que as plataformas estão ocupando o centro das atividades escolares, professores e alunos interagem mais com a tecnologia do que entre si.

Em São Paulo há mais de 30 plataformas, de acesso restrito, cada uma com suas regras e indicadores, formando um verdadeiro labirinto digital. E todos são obrigados a usar constantemente as plataformas, pois isso entra nas metas, que podem levar ao afastamento de dirigentes regionais, diretores e professores. O Secretário de Educação de São Paulo, Renato Feder, que tanto defende as plataformas, é também acionista de uma empresa que vende tablets e notebooks. Ele personifica a dupla face do sistema que Habermas descreveu: o Estado e o mercado. Em 2025, Feder afirmou categoricamente “não bateu a meta, tchau”. Enquanto o Estado de São Paulo vai aumentando o tempo de tela dos alunos, sem melhoria da aprendizagem, os diretores concursados vêm sendo substituídos por indicados políticos, e os professores concursados por temporários.

Há também o movimento de militarização das escolas, que são baseadas em hierarquia e obediência, não na busca pelo entendimento mútuo. De 2013 a 2023 o Brasil passou de 39 escolas militarizadas para mais de 800. No campo do currículo, reformas sucessivas detalham cada vez mais o que deve ser ensinado, sem deixar margem para que cada escola adapte o conteúdo à vida concreta de seus alunos.

No Brasil, a lógica do sistema – burocracia e economia – vem transformando a escola, afastando-a do mundo da vida, da prática pedagógica. Precisamos decidir que escola queremos. Se é uma escola que prepara para a vida, através do diálogo e socialização, com bons professores; ou se é uma escola onde professores e alunos agem cada um pelos seus interesses individuais, mediados por um mosaico de plataformas, para bater metas duvidosas. Uma instituição que, apesar de toda a tecnologia, não prepara para a democracia nem para o pensamento crítico, mas, no máximo, para o trabalho precarizado.

 

Fonte: Por Rodrigo Travitzki, no Le Monde

 

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