Frei
Betto: Na República Independente da Crendice Digital, nada é fake news pra quem
tem “fé”
Era uma
vez um país onde a Constituição tinha 250 artigos, mas todos sabiam que o
verdadeiro poder residia em um outro documento muito mais influente: o print do
WhatsApp. Naquele pergaminho branco com letras miúdas, nascia e morria a
verdade nacional. Bastava que alguém mandasse a mensagem com a frase mágica:
“Recebi de fonte segura”.
E assim
se administrava a vida pública. Os cidadãos, outrora conhecidos como “povo”,
ganharam o novo nome técnico de distribuidores independentes de desinformação.
Não recebiam salário, férias nem vale-alimentação, mas compensavam essas
ausências com um entusiasmo religioso. Afinal, nenhuma fé é tão ardente quanto
a de acreditar em tudo que se vê e se escuta no celular sem a menor ideia de
quem produziu.
Todo
grupo familiar tem seu apóstolo digital que acorda antes do sol para enviar
notícias que mudam inteiramente a ordem cósmica. São pessoas que parecem
possuir uma espécie de wifi místico, capaz de captar transmissões
sobrenaturais. Se um influencer de 30 seguidores posta que “beber água morna
com açafrão cura 92% dos problemas do mundo”, lá está ele às 6h07 “repassando
urgente.”
Ninguém
pergunta “urgente pra quem?”, “segundo quem?” ou “por quê?”. O importante é não
quebrar a corrente, porque todos sabem que se não reencaminharem, algo de muito
grave pode acontecer.
Quem
precisa de estudo, pesquisa, evidência, método ou especialistas chatos e
excessivamente qualificados, quando se tem diploma superior concedido pela
Universidade do Facebook? Lá, a metodologia é simples: o que está escrito em
uma imagem com letra impactante é fato incontestável. Por exemplo, a foto
desfocada de um caminhão dos Correios carregado de caixas misteriosas. Eis a
prova irrefutável de que o governo esconde algo! O que é esse “algo”? Detalhes,
apenas detalhes. A verdade mora é no caps lock.
E os
vídeos? Ah, os vídeos… Dois segundos de alguém olhando de lado e pronto: eis a
evidência concludente de conspiração internacional. Para derrubar quem? Propor
o quê? Basta que o áudio seja dramático e a seta vermelha aponte para algo que
ninguém consegue ver.
Um
fenômeno interessante desse ecossistema emocional é a expressão “tá
confirmado”. Nunca se sabe por quem, mas está. Isso geralmente acompanha
notícias reveladoras como “Astrônomos russos confirmam que o Sol vai desligar
por 48 horas para manutenção.” “Estudo secreto prova que quem come três
azeitonas por semana desenvolve superpoderes leves.” “Documento oficial vazado
revela que a Antártida, na verdade, é uma base para seres extraterrestres.”
Não
existe estudo, astrônomo ou documento. Mas se espalha a convicção. E, no fim
das contas, na República Independente da Crendice Digital, a convicção é o novo
oxigênio, pois quanto mais se respira, mais fácil é flutuar na bolha.
Os
cidadãos desse admirável mundo novo praticam seu rito diário com devoção ao
rolar a tela com o indicador mais rápido que atleta olímpico. Encontram algo
extraordinário, não leem tudo (até porque ninguém tem tempo ou paciência para
textos maiores que um meme), e imediatamente concluem: “Isso aqui precisa ser
repassado urgentemente.”
E lá
vão, como missionários digitais, levando a palavra sagrada da notificação. Não
para informar, mas para reforçar a sensação de pertencimento. O que antes era
fofoca de mesa de barzinho vira notícia global.
Empreendedores
espertos percebem que onde há alguém disposto a acreditar em qualquer coisa há
lucro. Vendedores de suco de clorofila turbinado, sabonete quântico e pulseira
com energia de pirâmide estão prontos a transformar a boa-fé alheia em boleto
vencendo todo dia 5.
E como
resistir? Se o anúncio promete cura milagrosa e mostra uma foto aleatória de
laboratório americano, deve ser sério. A estética científica vende gráfico
colorido sem legenda, equação que ninguém entende e palavras como
nanotecnologia emocional. Quem ousaria duvidar?
O maior
inimigo desse país não é o bolsonarismo, as tarifas do Trump ou a oposição na
Câmara dos Deputados, é cair na real.
Por
isso, quando alguém diz “veja a fonte”, “analise o contexto”, “isso é falso”, o
grupo se espanta: como ousa esse herege perturbar a paz espiritual? Logo é
chamado de “ingênuo”, “manipulado” ou, pior ainda, “verificador de fatos”.
No
fundo, todos esses repassadores profissionais vivem a utopia de um mundo
simples, sem dúvidas, sem contradições, sem chatice. Um mundo onde toda
informação chega mastigada, temperada e decorada com emojis. Um mundo onde
ninguém precisa pensar, basta acreditar e compartilhar.
E quem
somos nós para julgar? Talvez cada print encaminhado seja apenas uma tentativa
de preencher o enorme vazio deixado pela avalanche de notícias reais sempre
complexas, ambíguas, difíceis e, portanto, humilhantes para o ser humano
moderno, que prefere a ilusão confortável ao fato inconveniente.
No fim,
o problema nunca foi a internet, mas a velha credulidade humana, agora equipada
com 5G e pacote de dados ilimitado. E assim seguimos, firmes e conectados,
construindo um mundo onde cada pessoa carrega no bolso uma máquina
incrivelmente poderosa, capaz de acessar todo o conhecimento humano, e a
utiliza principalmente para acreditar que o gato da vizinha tem o dom de prever
terremotos.
Mas
quem sou eu para questionar? Afinal, recebi de fonte segura…
• Bolsonaristas ressentidos e enrustidos.
Por Vilmar Debona
No
Centro barulhento de Florianópolis, um senhor trabalha para desfilar parte da
nossa indigência mental e moral de país. Aposentado do Exército, ele passa os
dias a fazer ronda montado num triciclo pavoroso. Exército, aliás, que nas
partes insular e continental da capital catarinense ocupa a maior área
construída de prédios públicos – o que por si mesmo já é uma crônica triste.
O
senhor aposentado, para agredir transeuntes com viso e som a um só tempo, fixou
nesse seu automotor assombroso uma bandeira gigante do Brasil, uma miniatura de
canhão das Forças Armadas e uma caixa de som potente. Perturba os quatro cantos
da cidade com três barulhos simultâneos: o do motor alterado e o de uma sirene
estridente que imita viatura competem com músicas gauchescas “parodiadas”.
As
“paródias” são majoritariamente de cunho nacionalista fanático. Ressentido com
o fracasso de movimentos de meia-dúzia que há tempos querem partir a nação,
como aquele “O Sul é meu País”, esse senhor prioriza e repete à exaustão uma
canção gaúcha “parodiada”. A Querência amada, do velho Teixeirinha, vira
“Querência do Brasil” na versão cafona com a qual o poluidor sonoro abusa dos
tímpanos de todos. <><> Ao invés de cantar
Querência
amada,
Dos
parreirais
Da uva
vem o vinho
Do povo
vem o carinho
Bondade
nunca é demais
Canta-se
Não
quero o atraso,
Não
quero a corrupção
Defendo
a família, o trabalho e a nação
Respeito
a bandeira, o sangue que honrou
Quem
preza a moral, o futuro construiu
E a
corrupção expulsou
Onde
diabos foi parar a intertextualidade da estrutura, do estilo, da rima e do
ritmo, é uma dúvida óbvia que escancara em que medida o uso do termo “paródia”
é mais um abuso do apequenado cérebro verde-oliva em circulação.
Mas a
situação se agrava. Nos últimos tempos, o motoqueiro semi-fantasma passou a
passear com uma máscara igualmente assombrosa. É verde e preta com olhos
saltados. Ele trabalha com esmero a sua fantasia cotidiana. Parece se esforçar
para montar performance de inédita feiura da (ir)racionalidade patriótica, essa
visonha que insiste em comandar o país. Ele parece se querer o próprio diabo
possível de produzir com brasas de Terra Brasilis, o avesso do que a pátria
amada precisa para administrar a sanidade de suas tristezas.
Ele
surge pelas esquinas, todos os dias, em horários alternados. Quer surpreender
os desavisados. A bandeira desfraldada chicoteia o ar úmido da Ilha, e a caixa
de som vomita versos de agressão crescente sobre Deus, pátria e família, numa
batida que mistura bombacha e quartel. As pessoas já o reconhecem pelo ruído
antes de vê-lo: um zumbido dito patriótico que antecede a máscara verde-preta
avisa todos os dias que a caricatura de demônio cívico se aproxima.
Para em
frente a escolas e universidades e acelera o volume, como se travasse uma
guerra particular contra cadernos, livros, laboratórios e merendas. Grita
palavras de ordem contra professores imaginários, denuncia doutrinações
invisíveis, aponta para janelas fechadas como se nelas conspirassem pedagogias
subversivas.
Filma
adolescentes atravessando a rua e os interpela: “Estão aprendendo o quê,
hein?”. A câmera tremida vira prova futura de uma decadência que ele mesmo
inventa. Ao passar em frente a uma boate gay, uma pessoa do local caiu no riso
ao vê-lo, gritou-lhe umas palavras de deboche, mas ele não ouviu e seguiu com
seu canhãozinho idolatrado.
Na
Praça XV, transforma o triciclo em palanque. A miniatura de canhão, reluzente
sob o sol, é apontada simbolicamente para o nada. Ou para tudo. Discursa contra
urnas eletrônicas que, segundo ele, possuem vontade própria e preferências
ideológicas. Fala de códigos secretos infiltrados por hackers venezuelanos de
Florianópolis, essa categoria geográfica improvável que ele conjura com
absoluta convicção.
Se
alguém lhe pede evidências, ele ergue o celular como quem mostra uma escritura
sagrada: “Tá tudo aqui”. Aqui é um vídeo tremido, um áudio rouco, um print sem
fonte, um texto sem autoria.
Ele
acredita na Terra plana com a devoção de um navegador ao contrário. Diz que a
curvatura do horizonte é uma ilusão ótica patrocinada por Universidades. Já
tentou desenhar no asfalto, com giz, o mapa verdadeiro do mundo: um grande
disco cercado por muralhas de gelo e quartéis invisíveis. Uma criança lhe
perguntou onde ficava a borda. Ele respondeu que ficava “além de onde os
comunistas deixam você ir”.
Sobre
vacinas, rosna. Conta que conhece um homem – sempre um homem sem nome – que
desenvolveu escamas depois da terceira dose. “Jacaré!”, sibila, satisfeito com
o próprio achado zoológico. Acrescenta detalhes a cada tarde: primeiro foram
coceiras, depois uma cauda discreta, por fim um desejo incontrolável de lagoa.
O fato de não haver um único jacaré humano passeando pela Beira-Mar é, para
ele, prova do sucesso do acobertamento.
E há os
clones. Fala deles com seriedade técnica. Garante que existem dezenas,
centenas, espalhados em palanques e aeroportos. “Reparem na orelha, na altura
da sobrancelha”, aconselha, aproximando-se demais dos rostos alheios. Para ele,
a realidade é um teatro de dublês, uma novela mal editada. Se a imagem muda, é
clone. Se a fala contradiz a anterior, é outro modelo em circulação.
Mas não
se trata apenas de delírio folclórico. Há pequenas perversidades cotidianas.
Ele aponta comerciantes como traidores da pátria porque aceitam pix de clientes
“suspeitos”. Espalha boatos sobre vizinhos, insinua que artistas de rua lavam
dinheiro internacional tocando violão desafinado. Uma vez perseguiu um
entregador por três quadras, convencido de que a mochila térmica vermelha
escondia exemplares do Manifesto comunista.
Encarnando
o estereótipo do velho bolsonarista ressentido e enrustido, ele mistura
bravatas de quartel com um moralismo rancoroso. Fala de virilidade perdida
enquanto ajusta a máscara malsã; condena afetos públicos enquanto faz gritar a
sirene fake do fim do (seu) mundo. Há nele uma teatralidade involuntária, mas
um ardente desejo voluntário de ser visto como bastião, enquanto performa o
próprio ridículo.
E, no
entanto, ele não está só. Dois ou três o seguem às vezes, atraídos pelo
conforto da fúria compartilhada. A pós-verdade, essa névoa espessa, paira sobre
o Centro barriga-verde como maresia tóxica. Nela, o grito substitui o
argumento; a convicção vale mais que o fato; a suspeita é medalha. Negar a
realidade virou posicionamento político. Se a ciência contradiz, a ciência
mente. Se o número desagrada, o número é fraude.
Quando
o sol se põe e as lojas do Centro descem suas portas de aço, o triciclo ainda
ronda como um inseto verde-amarelo que não consegue escalar a grande Figueira
da praça. A bandeira, já um pouco desbotada e tendendo ao vermelho sem que o
piloto perceba, insiste em tremular. E ele segue, mascarado, tocando suas
“paródias” a cada dia mais sem nexo, convencido de que salva a nação ao mesmo
tempo em que a reduz a caricatura delirante.
No fim,
será apenas um homem pequeno, com membros diminutos, fantasiado de grandeza?
Hoje será mais um dia em que ele vai troar em círculos numa cidade que tenta
seguir, junto a ele, com sua racionalidade rastejante.
Fonte:
Diálogos do Sul Global/A Terra é Redonda

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