O
projeto para asfixiar a cultura no Amazonas
O
Amazonas vive uma situação alarmante. Tramita no estado, em caráter de
urgência, o Projeto de Lei 811/2025, proposto pela deputada bolsonarista,
Débora Menezes, que pretende proibir manifestações políticas de artistas em
eventos financiados com recursos públicos. À primeira vista, a proposta parece
uma medida de “neutralidade”. Na prática, porém, trata-se de algo mais grave:
uma tentativa de silenciar a cultura.
Esse
movimento ganhou força após o Sou Manaus, em setembro de 2025, quando artistas
fizeram falas de posicionamento social e político no palco. A reação foi
imediata – e oportunista. A partir dali, construiu-se uma narrativa moralizante
que tenta se converter em lei.
É
preciso dizer: a legislação eleitoral brasileira já estabelece limites
objetivos. Artistas não podem pedir voto durante o período eleitoral. O que
está em disputa agora é outra coisa: a tentativa de proibir qualquer forma de
expressão política, mesmo quando ela não configura propaganda eleitoral. Não se
trata de regulação. Trata-se de controle de discurso.
Para
compreender a gravidade dessa proposta, é preciso olhar para o lugar que a
cultura ocupa no Amazonas. O estado não tem política estruturada e permanente
de financiamento cultural. Em 2026, por exemplo, o Fundo Estadual de Cultura
recebeu, em média, apenas R$ 160 mil – um valor irrisório, incapaz de sustentar
de forma consistente qualquer setor cultural.
Os
números do orçamento deixam isso evidente. Em 2023, a cultura recebeu R$ 124,4
milhões, o equivalente a 0,47% do orçamento estadual. Em 2024, foram R$ 157,061
milhões, ou 0,52%. Em 2025, R$ 183,751 milhões, ou 0,58%. Em 2026, R$ 227,774
milhões, o que representa 0,60%, um orçamento desproporcional para um estado
com grandes distâncias territoriais. Ou seja: mesmo com crescimento nominal, a
participação da cultura no orçamento segue ínfima, abaixo de 1%.
Ao
mesmo tempo, a economia cresce. O PIB do Amazonas foi de R$ 161,795 bilhões em
2023, subiu para R$ 169,689 bilhões em 2024 e, nos documentos orçamentários, a
projeção para 2025 chegou a R$ 182,801 bilhões. A receita líquida do estado
também avançou: R$ 26,272 bilhões em 2023, R$ 30,161 bilhões em 2024 e R$
31,456 bilhões em 2025. Ainda assim, o investimento em um dos setores que mais
rapidamente distribuem renda, movimentam territórios e geram pertencimento – a
economia da cultura e da indústria criativa – continua sendo tratado como
residual.
Na
prática, a cultura no Amazonas não é financiada como política pública: ela é
administrada pela escassez. E, nesse vazio, o que passa a sustentar o setor são
as emendas parlamentares e a distribuição política de eventos. Shows, feiras e
exposições pontuais acontecem, mas a cultura não circula de modo estruturado.
Artistas autorais não conseguem se sustentar, o teatro não chega ao interior, e
o cinema local sobrevive em permanente precariedade.
O
grande contraexemplo é o Festival de Parintins. Ele demonstra, de forma
concreta, que cultura gera retorno econômico, social e territorial. Mas, em vez
de inspirar uma política mais ampla para o setor, permanece como exceção.
É
justamente nesse cenário que o projeto de lei se torna ainda mais grave. Este
projeto de lei, proposto pela Deputada Estadual Débora Menezes (PL), abre
precedentes para a extrema direita cale artistas em todo o país. Quando a
cultura depende de recursos públicos escassos e concentrados para existir,
qualquer tentativa de controlar o que pode ou não ser dito nesses espaços se
converte em censura direta. A mensagem implícita é simples e brutal: ou você se
cala, ou você não trabalha.
Esse
processo se agrava porque faltam canais institucionais reais de escuta. Pedidos
de audiência pública não são respondidos. Fóruns com participação da sociedade
civil são ignorados. Conselhos de Cultura são aparelhados pelo poder público e
interferências políticas. Diante dessa omissão, os palcos deixam de ser apenas
espaços artísticos e passam a ser também lugares de fala, afirmação e
pertencimento. É ali que muitos artistas conseguem dialogar com o público,
defender identidades e disputar sentidos sobre o território em que vivem. E é
exatamente isso que agora se tenta controlar.
O alvo
não é abstrato. Esse projeto atinge diretamente quem já está à margem. Manaus é
uma das cidades que mais cresceram nas últimas décadas, marcada por
desigualdade urbana, periferização e presença massiva de favelas. Ao mesmo
tempo, é um território de produção cultural potente: do hip-hop ao teatro, do
audiovisual às expressões indígenas e populares.
“Segundo
os dados do IBGE / SIIC – Sistema de Informações e Indicadores Culturais de
2022, a ocupação profissional de trabalhadores da Cultura no Amazonas
representa 2,4% da população. Ainda assim, essa cultura segue sem
reconhecimento como política pública. Ela é invisibilizada. A luta por
representação nos espaços de decisão, inclusive por cadeiras específicas para
segmentos como o hip-hop, não avança. E a cultura que nasce desses territórios
continua sem circular como deveria. Sem orçamento garantido na LDO, o Plano
Estadual de Cultura é letra morta. Na prática, não é a Secretaria de Cultura e
Economia Criativa do Amazonas que executa a cultura, são as emendas
parlamentares do poder legislativo que faz a cultura girar nos municípios,
fazendo mau uso do dinheiro público com produções milionárias, asfixiando as
políticas públicas que são garantidas por lei.”
Tudo
isso acontece em um momento pré-eleitoral, em meio a uma disputa direta por
narrativas junto à juventude. Se esse projeto avançar, o impacto não será
apenas local. Ele criará um precedente perigoso para restringir a liberdade de
expressão artística, condicionando o financiamento público a uma neutralidade
forçada e esvaziando o papel da cultura no debate público brasileiro.
Enquanto
isso, festas tradicionais perdem espaço ano após ano, ao mesmo tempo em que
crescem as superproduções vinculadas ao agronegócio em plena Amazônia.
O que
está acontecendo no Amazonas não é um episódio isolado. É parte de uma
estratégia maior. Já vimos, em outras partes do Brasil, tentativas semelhantes
de criminalização e silenciamento de artistas. Escolhe-se um território,
constrói-se uma narrativa moral ou política, transforma-se essa narrativa em
proposta legislativa e testa-se o limite. Neste momento, o Amazonas virou
laboratório. E, se isso passar aqui, pode se espalhar.
Fonte: Por Loren Lunière, no Le Monde

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